domingo, 19 de junho de 2011

173 - Ágora - JJ







Diz-se que os povos felizes não têm história. É talvez porque nos queremos imaginar um povo feliz, que lidamos mal com a história, o que faz de nós uma sociedade distraída e de curta memória.
Numa incursão pela minha desorganizada biblioteca fui encontrar um livro editado pela extinta Moraes, editora do esforçado Alçada Batista, “Angola, o longo caminho da Liberdade” saído do prelo em Novembro de 1975. O autor é Amadeu José de Freitas, ao tempo jornalista da RTP, depois de um percurso sóbrio e profissionalmente honesto no jornalismo desportivo quer como relator desportivo, quer como director do “Mundo Desportivo”, um tri semanário que saía à segunda, quarta e sexta, custava 10 tostões e rivalizava com a “Bola”, o “Record” e o “Norte Desportivo”.
Este livro de Amadeu José de Freitas é uma raridade, mas para quem precisar de conhecer bem os tempos conturbados da fase anterior à independência de Angola tem aqui um excelente trabalho jornalístico, com detalhes que cruzados com afirmações posteriores permitem alterar opiniões sobre o que aconteceu de facto num tempo em que a serenidade era um achado. Amadeu José de Freitas encontrou-a para escrever fazer este trabalho de uma forma apaixonada, coerente com o rigor que punha em tudo que fazia.
Lembro-me das tardes de domingo na Luanda colonial, num tempo em que ar condicionado era uma coisa rara que praticamente só os bancos tinham, ouvir das janelas abertas num rádio de som no máximo, as vozes de Nuno Braz, onde o Herman José foi buscar inspiração para o seu imorredoiro “José Estebes”, do Artur Agostinho, Romeu Correia, Fernando Correia e Amadeu José de Freitas. Havia ao tempo em Coimbra um relator desportivo que era um verdadeiro “doente” pela Académica, e isso custou-lhe o lugar quando num qualquer jogo berrava a plenos pulmões que tinha sido “golo da Académica” e no seguimento da jogada e com o mesmo timbre:”Porra, que não entrou”. Era o Manuel Gaspar que depois passou a “relatar” procissões com linguagem futebolística, o que acabava por ser delicioso de ouvir pelo caricato do “passam três meninos vestidos de anjo”, “ao fundo a primeira Nossa Senhora” e adiante…
Falando de futebol cumpre-nos recordar um dos maiores futebolistas angolanos de sempre: Jacinto João (1944-2004). Filho de um saudoso empregado da cervejaria Portugália em Luanda, ali pertinho da Lelo, JJ começou a jogar à bola na rua nos musseques, entre casas de adobe e telhados de zinco. Estudou no Colégio dos Missionários de Luanda, e como não conseguiu representar o Colégio no campeonato de juniores de Luanda por só ter 14 anos, fundou o seu clube, o Brazaville.
Aos 16 anos já jogava no Sport Congo e Benfica, e vem para Portugal prestar provas no Benfica, onde fica seis meses e depois de rejeitado por Bela Guttman regressa a Luanda, de onde sai para o Vitória de Setúbal depois de se ter negado vir para o FC Porto, Belenenses e Guimarães. Rapidamente se torna figura maior do Vitória de Setúbal, onde encontra os seus dois companheiros do Atlético de Luanda, os irmãos José Maria e Conceição, e entre vários treinadores o angolano Fernando Vaz e José Maia Pedroto.
O Setúbal nesses anos vulgarizava equipas grandes de Portugal e da Europa e o Vitória fez nos anos 60 e 70 as suas melhores épocas de sempre, com o JJ como figura maior da equipa. Internacional dez vezes por Portugal num tempo em que a selecção pouco jogava, JJ tem hoje perpetuado no Estádio do Bonfim uma escultura que o homenageia como o maior jogador de sempre do clube. 
Eu que tive o privilégio de o ter visto jogar bastantes vezes posso dizer que a bola nos seus pés era uma delícia e não raras vezes os adversários puniam-no com faltas duras porque ficavam fartos de dançar ao som do seu toque de bola.
O racismo no futebol em Portugal, como na Europa em geral era muito marcante e mesmo entre colegas de profissão. Fernando Peyroteu, de quem um dia falaremos com mais detalhe, no seu livro de “Memórias” relata a sua chegada ao Sporting em 1937: “eh pá! Já cá tínhamos um preto, agora vem outro só um pouco mais branco” e “Qualquer dia a equipa fica tão escura que só com um lampião a encontramos”. Estas piadas eram para o branco angolano, mas dirigidas a Paciência, avançado de centro negro, que provocou a indignação de um Peyroteu que detestava dichotes racistas.
Até 1974 era comum o epíteto de “colored” quando se queria falar ou escrever de um negro no desporto ou noutra área onde sobressaísse, um pouco como hoje a expressão “de cor” muito usada em Portugal, o que prova que ainda há muitos esqueletos nos armários das mentalidades. 
Fernando Pereira
17-4-2011



Pensar e Falar Angola

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