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segunda-feira, 2 de abril de 2012

Opinião Manuel Vitória Pereira


Março Travesti - Manuel Vitória Pereira

30 Março 2012
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Luanda - Bem gostaria eu de escrever “Março Mulher”! Mas o travestismo do momento leva-me a escrever assim: Março Travesti. Travesti é, como todos sabem, quem se veste como exemplar do sexo oposto. Um homem pode virar mulher em tudo, menos debaixo da saia, e vice-versa. Mesmo o nosso carnaval popular foi abundante em travestismo, ainda que não fosse por tendência ou orientação sexual. Em cada esquina, havia comentadores que sugeriam que no Entrudo se revela muita coisa, mas isso é má-língua.

 

Antes de falar no travesti que está mais na moda, lembraria que no teatro clássico de algumas culturas orientais e ocidentais, as personagens femininas eram representadas por homens, por estar o palco vedado a mulheres, isto por suposto decoro. Assim foi no kabuki japonês, no teatro grego e até no shakespeariano. como se desse modo as coisas ficassem mais decentes. Mesmo o nosso David Mendes, enquanto actor e encenador, justificava uma actriz num papel masculino para os maridos não se chatearem ao verem as suas senhoras, “a se bejar na bóca” contra homens, pelo que a cena era feita entre elas, mulher contra mulher, como se fosse na ilha de Lesbos, para delícia da poetisa Sapho.

Travestis politicamente correctos povoaram Hollywood: Desde Jack Lemmon e Tony Curtis em “Quanto mais quente melhor”, passando por Dustin Hoffman em “Tootsie” e Julie Andrews em “Victor Victoria”. Mesmo Robin Williams em “ Papá para sempre” viria a encarnar o pai que se mascara de mulher para poder ser ama-seca dos próprios filhos, cuja tutela perdera no divórcio.

Mas não quero falar destes travestis do palco e do ecrã. Falo do que entre nós está mais in, frequentando a socialaite com seus generosos implantes e fazendo pensar se ali está uma mulher feia ou bonita, um transexual devidamente amputado ou o corriqueiro travesti que parece mas não é.

Falo do travesti mais em voga:

O regime político que se travestiu de democrático, mas que continua a ter a dita…dura debaixo da saia. É elogiado no único diário nacional, que acusa o exterior de manobrar contra ele/ela, mas vai negociando com as mesmas forças alienígenas a riqueza nacional e o benefício da dúvida sobre a sua democracia e, tal como a bruxa da Branca de Neve, pergunta ao espelho bajulador do seu séquito:  “Mágico espelho meu, haverá travesti mais bonito do que eu?”
A resposta é sabida, num coro de plutocratas, gangsters, tachistas e ex-intelectuais:
“Só tu és bela, minha rainha.”

Falando em Março, queria fazê-lo no feminino, mas neste mês o poder travesti saiu do armário: reprimiu, bateu, sequestrou, invadiu domicílios e redacções de jornais, se não matou foi por sorte. Ou matou? Não há batom que chegue para ele, com a devida vénia, Rafael.

Obs: Rafael Marques foi o autor do artigo “O batom da ditadura”. A ideia do espelho da bruxa, roubei-a duma entrevista do Bonavena, dada ainda no século passado. Se há que roubar, que se roubem as melhores ideias dos melhores.



Pensar e Falar Angola

segunda-feira, 19 de abril de 2010

QUESTÕES QUE ESTAMOS COM ELAS

Crónica do “AGORA” DE 17 DE ABRIL DE 2010

QUESTÕES QUE ESTAMOS COM ELAS

“Assim vai o sul… Cajoão, o turismo e o ambiente”

De Manuel Victória Pereira

A consciência ambiental nem sempre mora na esfera ideológica dos que se deslocam por um país adentro naquilo que se pode chamar passeio turístico. Há mesmo os que parecem pensar que os locais considerados bonitos de se ver ficam mais bonitos depois de conspurcados de latas, garrafas, embalagens diversas e outros vestígios de javardice ambulante. Os bichos não reclamam nos jornais, pelo menos ninguém os alfabetizou e as plantas, essas nem têm voz, coitadas. As canções pró-natureza dos programas infantis de rádio, os livros escolares e as palavras do professor, até os bonecos animados do Capitão Planeta, nada aprecem ter produzido efeito, durante o seu crescimento, na cabecinha destes viajantes, hoje já adultos e com o dever de terem juízo.

Em toda a parte do mundo se trava esta batalha de consciência e atitude, e nalguns locais pode-se dizer que o bem vai vencendo de um modo geral, noutros vence a selvajaria de pessoas singulares, empresas e até instituições do Estado.

A nossa Angola passou por períodos bem chatos e está longe de se curar completamente, a não ser que mudem as mentalidades e o direito à indignação mais a acção contrária dos cidadãos e autoridades ponham na linha a turma anti-natura.

Desde os caçadores furtivos aos chalados que faziam tiro ao alvo nos marcos dos quilómetros, passando pelos piqueniques sem regras e terminando nos rituais macabros, tudo deve passar à História. Quando falo de “rituais”, posso avançar com um exemplo. À beira da estrada, em pleno deserto, estava uma árvore de pequeno porte, a única das redondezas. A seu lado, uma tabuleta com dados que a identificavam, resultado do trabalho de renomado botânico. Primeiro, os viajantes passavam e punham um pouco de água. Não sei que alma caridosa arrancou a dita tabuleta, mas veio também um sábio que inventou uma crença jamais praticada pelos naturais da região: a maluquice de espetar notas de Kwanzas nos galhos da arvorezinha para dar sorte.

Felizmente não mataram a coitada, mas durante muito tempo foi ficando desfolhada e grotescamente endinheirada, ainda que fossem de baixo valor facial as notas desbotadas pelo sol. Passou de moda o ritual, limpou-se a pequena árvore e ela lá está, com a sua copa redonda, lembrando um bonsai um pouco maior.

Mas falta a história do Cajoão, ex-colega da primária e do liceu, meu eterno amigo e defensor da natureza.

Com o fim da guerra civil, passou dos pequenos raids a longas viagens até ao sul de Angola e mais além, numa carripana robusta comprada em segunda mão. Os opíparos repastos dos longos caminhos produzem lixo que Cajoão e os seus nunca deixam no terreno. Uma vez ensacado, está destinado ao primeiro contentor disponível na próxima paragem.

Isto aconteceu no Namibe, só que então a comitiva familiar calcorreou a cidade sem encontrar onde pôr o lixo. Cidade limpa, sem caixotes ou contentores de lixo! MAS que lixo? O que é isso?

Finalmente Cajoão encontrou um. E a partir do seu GPS registou as coordenadas que me passou em SMS: S015º 11.985’ E012º 08.351’. Quem lá estiver aflito com o lixo, siga as coordenadas do Cajoão e contribua para um país mais limpo.



Pensar e Falar Angola

sábado, 13 de março de 2010

De Manuel Victória Pereira - Assim vai o Sul...

QUESTÕES QUE ESTAMOS COM ELAS (XXXII)

Crónica do “Agora” de 6 de Março de 2010,

De Manuel Victória Pereira

“Assim vai o sul… e o resto: entre coxas e conchas, o dilema”

“… O côncavo e o convexo

Assim é o nosso amor no sexo”

(Roberto Carlos)

Algures à beira da estrada, no nosso litoral sul, uma tabuleta diz assim: “PRAIA DAS COXAS”.

Tratar-se-á de um turístico chamariz, alusão aos dotes físicos das banhistas, especialmente acolchoadas na região femoral? Em que praia não haverá coxas dignas de um poema? Que o diga Vinicius de Morais!

O Namibe tem coisas assim. Por isso recordo o momento em que, faminto e sentado no restaurante da modesta pensão onde me hospedara, lia um menu escrito a giz no improvisado quadro preto pintado na parede, à maneira de algumas escolas. Entre outras opções não tão caras, constava: “CONCHAS”. Logo ali indaguei, com muita água na boca, de que conchas se tratavam, enumerando os vários moluscos – os bivalves e os univalves – que a minha fraca memória guardava daquele generoso mar: Mexilhões? Amêijoas? Quitetas? Burriés? Enfim, que conchas?

Com o ar mais doutoral possível, responderam:

-“Conchas” de galinha, claro!

Pobres penosas! Como se não bastasse nações inteiras esperando pelo ovo no… delas, tinham virado suas coxas, por pura magia da ignorância empresarial, frutos do mar.

Não quis processar o pensionista, dono de uma boa frota automóvel em exibição no parque de estacionamento, por propaganda enganosa. Tinha eu outras lutas a travar!

Pela inversa, a praia anunciada era a Praia das Conchas, não “das Coxas”. Aliás, mesmo na arte de Renoir com tanto sucesso na época, estas eram mais convexas do que côncavas, para bem da pintura universal.

Já noutro dia, nesta magnífica capital, parei faminto num restaurante de herdeiros de um namibense: no menu constavam amêijoas, que pedi saudoso e impaciente. Entretanto, as conchas que vieram no pires eram triangulares e não arredondadas. Eram quitetas! Nem a actual gerência guarda o saber do seu directo ascendente, o seu falecido pai. Sorte tive eu de não me servirem aMeixas, fruto sobremaneira laxante.

Moral da história: chamar as coisas pelo seu nome não tem a mínima importância, nem para os que comandam negócios, nem para os que espetam as tabuletas pelo país fora, nem para os que mandam e desmandam. Namibe é só um exemplo. Ali rebatizam tudo, até com nomes mariconços:

O Giraul, zona onde a sinuosa estrada deve ser um alerta para os automobilistas incautos ou demasiado entusiasmados, virou “Mini-Leba” na abusiva toponímia dos forasteiros: Ponham lá uma tabuleta, senhores!

A Praia das Barreiras, passou a ser chamada de “Escadinhas”- como se o seu nome anterior fosse eufónico ou obsceno – pelos mapundeiros e outros visitantes. Não dá para conservar um mínimo da toponímia, mesmo quando ela não tenha nada de fascista?

Moral final: o que faz falta é conhecermos melhor a nossa Angola, não só o nosso umbigo. Vejamos como muita boa gente dita instruída ainda acredita que a Welwitschia Mirabilis é carnívora, e ainda mais, antropófaga. Outros, escrevendo nos jornais, consideram “umbundus” ou “bailundos” todos os grupos etno-culturais tradicionalmente estabelecidos ao sul do Kwanza. Nyaneka-humbi, para esses, é um grupo inexistente.

Se nas horas em que ululantes, esses sábios assistem aos futebóis europeus na TV, estudassem um pouco sobre Angola além-Mutamba, o conhecimento mútuo entre angolanos e de todos sobre a dita Pátria Amada seria mais construtivo e harmonizante. A mente de todos ficaria menos coxa.

FIM



Pensar e Falar Angola

RITA GT em Viana do Castelo

https://youtube.com/shorts/qZkb4CfXTZQ?si=3K65JJEr5VQqsZZS Ao longo dos últimos dois anos tive a oportunidade de desenvolver “8”, uma obra d...