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quarta-feira, 21 de março de 2012

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A propósito do 4 de Fevereiro resolvo divagar

Hoje Angola comemora o 51º aniversário do início da luta armada como o colonialismo. Há 51 anos atrás um grupo de rebeldes atacou a casa de reclusão de S, Paulo e uma esquadra de polícia, mais coisa menos coisa. Quem eram, donde vieram e quem os organizou, e outras estórias de bastidores continuam envoltos em polémicas. O 15 de Março e... e tantas outras datas anteriores poderiam ser o início da luta contra o colonialismo. Optou-se pelo 4 de Fevereiro e que seja.
Por isso lembrei-me de ir ler um pouco sobre um povo que me está próximo e que sempre manteve a sua independência, os seus hábitos e os seus costumes e ao colono respondeu sempre com desdém, ao que sei.
Ruy Duarte de Carvalho bem os conheceu e bem os descreveu. 
Vamos aos apontamentos perdidos e achados na internet.
Os Mucubais, povo guerreiro e pastor mantém um sentimento de pertença muito acentuado sobre o seu território, todo o deserto e savana do Namibe até ao sopé da Serra da Chela na Huíla, mantendo uma relação complicada com o povo Humbe que habita a Huíla. Esta limitação do território Mucubal é uma consequência da guerra de 39 em que os portugueses os derrotaram e quase os dizimaram, confinaram-nos ao deserto e savana abaixo da Serra da Chela. Os Mucubais nunca esqueceram esta derrota. 
Em 1975, com a invasão sulafricana, os Mucubais se juntaram ao MPLA, naquilo que 'julgaram' ser uma guerra de 'negros contra brancos' e impediram que estes chegassem à cidade do Namibe. Aqui começam nova guerra com os 'Mumuilas' (M'huilas), roubando-lhes o gado. 
Penso, não encontrei documentação, mas na oralidade da História que ouvi, a quando da formação do Exército Angolano alguns Mucubais foram incorporados mas recusaram permanecer nos quarteis e, verdadeiramente de armas e bagagem voltavam para as suas casas. Ou seja, mais uma vez mostraram a sua 'incapacidade' de se integrarem com outros 'povos'.
Ainda hoje os Mucubais se consideram os grandes donos de África porque são portadores  da arte, cultura e espírito africano.
Há cerca de dois anos, o soba do Virei, Inácio Masseca, com 85 anos realçava que a tribo Mucubal, constituída por povos cuja riqueza são os bois e que com seu vestuário, apresentando-se semi-nus, não dispensando a catana e o porrinho, são capazes de percorrerem 50 km por dia em busca de pastagens.  



 Retirado de Ruy Duarte de Carvalho:
Quando eclodiu a «guerra de libertação nacional», em 1961, ainda não tinham passado 20 anos desde que a «guerra dos Mucubais», movida pela administração e pela tropa portuguesas, por pouco não os ia dizimando. Foi a guerra do Kakombola, a guerra total, a última de uma regular sucessão de «rusgas» que durou cerca de 100 anos e não se interrompeu com a consumação da tranquilidade militar imposta a toda a colónia desde o princípio da terceira década do séc. XX, antes prevaleceu por mais duas décadas, constante, utilizando sempre tropa indígena enquadrada por figuras europeias ou europeízadas da cena colonial, administrativos, militares e civis, desde o tempo dos capitães-mores, em que tudo se confundia. A documentação publicada a que tenho recorrido informa que os capitães-mores de Quilengues, quando acharam que já não dava para raziar mais, ou só, os Tyilengue, se voltaram então para os Kuvale, a Sul, passando a usar aqueles como auxiliares a quem caberia uma parte do gado raziado. Razia implica contra-razia, ou comporta-a mesmo desde que a circulação de gado que assim se estabelece seja entendida como um dispositivo integrado nos e pelos sistemas pastoris. Assim, ao longo de 100 anos, de meados do séc. XIX a meados do séc. XX, manteve-se uma guerra que não foi só uma guerra entre Kuvale e Portugueses mas também, e muito insidiosamente, uma guerra entre os Kuvale e os seus imediatos vizinhos a Norte. 1941 vem pôr fim a essa continuidade. Mas deixará os Kuvale em muito má situação, uma grande parte sepultada em valas-comuns e outra grande parte deportada para São Tomé.



foto de Eric Lafforgue
Pensar e Falar Angola

quinta-feira, 8 de maio de 2008

A origem dos ovimbundu segundo a tradição oral

Por: Mbela

"As culturas equivalem-se. É na diferença e pluralidade que se encontra o sentido de humanidade" Mindlin

Num dos nossos artigos relativos à história dos Ovimbundu, apresentamos três hipóteses sobre a possível origem deste grupo étnico,tendo-nos inclinado, depois de apresentarmos alguns factos, para a hipótese que nos pareceu ser a mais defensável; ou seja, a que dizia respeito ao facto de os Ovimbundu serem descendentes dos autores das pinturas ruprestes de Caninguiri que, através de um processo de aculturação e miscigenação, foram adquirindo traços dos outros grupos bantu, chegados de outras paragens e latitudes.


Caninguiri: pinturas ruprestes


Os mitos possuem uma importância capital, porquanto a análise das narrativas permite não só resgatar elementos susceptíveis de subsidéiar a análise de factos históricos (complementando as fontes escritas), como também auxiliar na identificação de elementos culturais com vista a construção da identidade de um determinado grupo étnico.

O mito, e como muito bem o diz Chiapini (2000), pretende, na maior parte dos casos, explicar o surgimento do mundo, assim como alguns fenômenos da natureza, dentro de uma determinada lógica estrutural, onde podemos encontrar um enredo, que entretêm as pessoas, mas também mostra o desenvolvimento do pensamento e da cultura de uma determinada comunidade. Pese embora o carácter lúdico, e mesmo de entretenimento dos mitos, estes possuem uma grande importância na vida das comunidades. É precisamente isso que nos diz Lévi-Strauss (1967), para quem a relevância dos mitos não radica apenas no seu conteúdo mas, sobretudo, na sua estrutura, uma vez que eles contêm processos mentais universais.

Autores como Campbell (1997) referem-se ao facto de ser característico dos mitos a presença de seres sobrenaturais, chamando-nos,com isso, a atenção ao facto de que os mesmos pretendem estabelecer uma ponte entre o mundo imaginário e a consciência racional. Torna-se, não obstante, necessário não se confundir o mito e a lenda com a superstição. Os mitos e as lendas apresentam-se, geralmente, como narrativas populares de carácter oral e que se transmitem de geração em geração, recaindo a tônica dominante no sobrenatural, enquanto que a superstição se apresentaria como a fragmentação de um velho mito, com a entrada de um novo elemento que é o medo ou o terror (Chiapini,1988).


O mito Ngalangi

Segundo os dados de que dispomos, a lenda sobre a origem do mundo foi recolhida por Keiling (1934) e mais tarde retomada por Child (1964).

A tradução de Luís Keiling é a seguinte: " Um dia caiu do céu um homem que teve o nome de Féti, que quer dizer o princípio. O bom do homem deu em percorrer a terra e notou que, havendo muitos animais, se encontrava um só homem, que era ele. Que aborrecimento e enfado sentir-se tão só no meio dessa criação! Para ver se espairecia, lembrou-se de ir ao Cunene para caçar um pouco. Pega, pois, nas armas e vai em busca de um hipopótamo, que lhe fornecesse carne e gordura. Horas esquecidas esteve Féti à espera de uma peça de caça, quando em vez do suspirado animal vê surgir das águas uma forma humana, muito semelhante a si mesmo: era a primeira mulher a quem denominou Tchoya, que, derivando do verbo okuoya, quer dizer enfeite, ornato, perfeição. E tão bela, tão garrida a achou o nosso Féti que dela se enamorou e com ela fundou a primeira família que pela luz do sol foi alumiada. Passaram dias, passaram meses, e numa bela manhã foram os ecos da mata despertados pelos vagidos de um novo ser, que viera albergar a habitação do felizardo Féti. Não houve ave do céu, nem animal da floresta, que não viesse dar aos pais os parabéns por tão bom acontecimento. Encantados, impuseram os progenitores ao recém-nascido o nome de Ngalangi. Passaram tempos, e eis que em casa aparece um novo bebezinho, desta vez uma menina, a quem chamaram Viyé. Viyé, provém do verbo okuiya, que em português se traduz por vir. Queriam os pais significar que aquela filha havia de chamar a si as populações e ser o tronco de uma grande família. E Viyé veio a ser a mãe das raças do norte, isto é, das terras do Bié, enquanto foi o pai das gentes do Sul. Assim contam os ngalangi e terminam por afirmar que deles descendem todos os habitantes do Bié,Huambo,Sambo, Cuíma e Caconda".


Análise da narrativa

A presente narrativa coloca em discussão um aspecto muito importante do ser humano. A tentativa de compreender a sua origem. Sob o ponto de vista da estrutura composicional, a narrativa obedece, como se pode ver, a uma linearidade cronológica dos factos, aparecendo, não obstante, um elemento de subversão, a solidão, de cuja resolução surgem outras situações,cujos desfechos vão levar ao nascimento de vários reinos; daí o seu carácter explicativo que remete para a crença de que a solidão,por si só,é perniciosa, pois o homem é, eminentemente, um ser social. Por outro lado, o tempo e o protagonista assumem posições um tanto ou quanto díspares. Se bem que, por um lado, o personagem principal seja definido no texto (Féti), por outro, a atemporalidade é um aspecto notório o que torna a narrativa mais abrangente, englobando todos os sub-grupos da etnia Ovimbundu, e não só, cuja origem a lenda pretende explicar.

Neste sentido, a metáfora do homem que caiu do céu (Féti), responde, em pleno, a questão da vida e do nascimento da primeira forma de organização da sociedade humana no espaço territorial ocupado pelos Ovimbundu. Deste modo, tematizam-se aspectos de grande significado para a compreensão da origem dos mesmos, através de uma linguagem simples.Do ponto de vista da estrutura arquetípica, posta de manifesto através do surgimento da fêmea (da lama,) a mesma não se pode dissociar da própria cultura Ovimbundu onde se gerou a narrativa, tomando em consideração o papel da mulher na referida comunidade. Recorde-se que o homem veio do céu.

Outras análises poderiam ser feitas, nomeadamente nos aspectos que se prendem com a micro-estrutura (aspectos linguísticos), pois estamos cientes de que uma análise desse tipo não deveria cingir-se apenas à estrutura geral da narrativa (enredo) e ao conteúdo temático. Lamentavelmente, uma tradução não nos permite irmos tão longe. Acresce a isso que o nosso propósito foi o de analisar a narrativa dos Ngalangi sob o ponto de vista macro-estrutural, apegando-nos mais em questões de índole histórico-cultural, que propriamente literária e linguística, o que poderá ser feito noutras ocasiões.


Implicações

A presente narrativa propõe uma visão endógena sobre a origem dos Ovimbundu, que é contrária a algumas fontes escritas onde a temática é posta nos processos migratórios (de fora para dentro). A lenda mostra que este processo se desenvolveu de dentro para dentro para fora,isto é, os Ovimbundu tiveram a sua origem precisamente nas proximidades do rio Cunene e daí se foram expandido para outras áreas e regiões. Apesar disso, o bom-senso recomenda-nos certa cautela para não cairmos em certos exageros e análises precipitadas, mesmo que autores como Clark (1973) afirmem que a infiltração "banto no território terá sido feita gradualmente,por pequenos grupos, (...) que terão sido em acolhidos pelas populações autóctones, e na maior parte vivendo o período mesolítico". Este ponto de vista reforça a nossa hipótese de os Ovimbundu serem resultado de uma simbiose entre os autores das pinturas de Caninguiri e os Bantu que, posteriormente, tiveram contactos com aqueles. É do mesmo autor a ideia segundo a qual "a ocupação de lugares desertos ou de fraca densidade populacional, a miscigenação,a adopção da cultura e até da língua dos povos autóctones terá dado lugar a uma bantoização progressiva das populações".
Caninguiri: O berço dos Ovimbundu
Pese embora esses subsídios fica por responder o significado da narrativa do sub-grupo Hanya que, conforme nos diz Hauenstein (1967), também postula a existência de Féti e Tchoya, na perspectiva dos Ngalangi. A única diferença assenta no facto de que, para os Hanya, os Ovimbundu teriam vindo de um local chamado Nali, instalando-se, posteriormente, em Cinendele, já em território angolano. E não deixam de ser curiosos os palpites de Child de que Féti teria emigrado mais para Norte. Nesta linha de ideias os reis Ngola, de cujo nome deriva Angola, teriam descendido de Féti. Consequentemente, algumas etnias irmãs seriam, nesta linha de ideias, descendentes da etnia Ovimbundu e não o contrário como o afirmam certos estudos. Será?
Bibliografia:
Cambell, J. (1997). O poder do mito. S.Paulo: Ed.Palas Athena.
Chiapini, L. (2000). Género dos discursos na Escola. Brasil:Cortez Editora.
Childs, M. (1949). Umbundu Kinship and Character. Londres:Ed. International Africain Institute
Clark, D. (1963). A pré-história de África. Lisboa: Edições Verbo.
Ervedosa, C.(1980). Arqueologia Angolana. Angola: Ministério da Educação
Keiling, L. (1934). Quarenta anos de África. Braga. Ed. Missões de Angola e do Congo
Hauenstein, A . (1967). Lês Hanya (Description d´un groupe ethnique bantou de l´Angola. Wiesbaden : Franz Steiner Verlag GMBH.
Lévi-Strauss, Cl. (1967). A estrutura dos mitos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro




Pensar e Falar Angola

quarta-feira, 7 de maio de 2008

A origem dos Ovimbundu - A hipótese mais próxima da realidade.

Por: Mbela Isso

A origem dos ovimbundu tem sido motivo de estudos apaixonados por parte de vários historiadores. Uma das razões para que isso aconteça, tem a ver com o facto de se tratar de um grupo étnico que marcou (e continua a marcar), de modo profundo, a história econômica, social, política e cultural da porção de território que hoje se chama Angola.

Na verdade, este grupo étnico, destacou-se muito cedo. Assim, temos, em primeiro lugar, a enfatizar a resistência tenaz que manifestou contra o invasor colonialista; em segundo lugar, a sabedoria de alguns dos seus reis, que lhes permitiu estender as suas relações comerciais até ao Zanzibar (Oceano Índico); em terceiro lugar, a exploração desenfreada a que foi vítima durante o regime colonial (roças, pescarias, fazendas de algodão, café,etc.) que levou muitos ovimbundu a emigrarem para os países vizinhos. Por último, e na história mais recente, o facto de ter surgido, no seio deste grupo étnico, uma rebelião armada, cujas consequências ainda estão para ser descritas.

A origem dos Ovimbundu é, de acordo com os historiadores, sempre vista dentro dos processos migratórios Bantu (Os ovimbundu, tal como a maior parte da população que vive a sul do equador é Bantu, por pertencerem a um grupo linguístico que utiliza a raiz ntu para se referir ao homem. O acréscimo do pefixo Ba (plural)- Bantu surge, assim, para designar esta população no seu todo). Recorde-se que alguns investigadores têm avançado hipóteses segundo as quais os Bantu teriam vindo da Ásia ou da região de Bahar-el-Ghazal e que se teriam fixado nos grandes lagos. Muito para além das formulações hipotéticas é um facto comummente aceite entre os investigadores de que os Bantu devem, provavelmente, ter vindo das mesetas de Bauchi (Nigéria) e dos Camarões. Mas tudo aponta no sentido de serem originários do Noroeste da floresta equatorial (vale de Benué) e que durante milhares de anos se foram fixando em vários pontos da África. As migrações, como é óbvio, tiveram várias causas entre as quais podemos apontar as de carácter político (defesa e luta pela sobrevivência de um grupo face ao outro); económico (ligadas às catástrofes naturais que faziam com que os Bantu procurassem terrenos mais férteis). São os problemas que Basil Davidson designou como sendo de carácter físico. Por último, pode apontar-se o desentendimentos dentro dos vários clãs (problemas ligados à sucessão ao trono).
Ekuikui II : Artífice da estratégia "vergar o adversário pela economia"


Relativamente a Angola é de referir que os Bantu angolanos, são originários do que se tem designado por 2º Centro Bantófono (Baixo Congo e Planalto Luba).Os ovimbundu seriam, assim, descendentes dos Bantu que se fixaram no planalto central. No entanto, as hipóteses acerca da origem dos ovimbundu são várias e nem sempre consensuais. As referidas hipóteses dividem-se entre aquelas que afirmam que os Ovimbundu teriam vindo de Benué (um vale situado numa região a leste da Nigéria); as que defendem a ideia de que seriam resultado de uma miscigenação de outros grupos e as que os consideram como descendentes dos autores das pinturas rupestres de Caninguiri (Kañilili).

De acordo com a primeira hipótese os ovimbundu, conforme os seus autores, teriam passado pela faixa Atlântica, fixando-se em Benguela. E dado o facto de serem agricultores dirigiram-se ao planalto do Huambo e Bié, cujas terras eram as mais férteis. Esses autores sustentam esta hipótese com dados provenientes da linguística. Assim, segundo ele, alguns dos termos utilizados pelos Ovimbundu, ao invés de se aproximarem aos usados pelos Bantu mais próximos assemelham-se mais aos do povo Igbo da Nigéria. É o caso do termo "Suku" (deus) "omunu" (pessoa,) "twendi" (vamos). Os kimbundu por, exemplo, utilizam o termo Nzambi para designar Deus.

Os defensores da segunda hipótese afirmam que os Ovimbundu são uma síntese de vários grupos étnicos. E, consequentemente, defendem a ideia de que este grupo não tem um carácter homogéneo. Estão à vista os aproveitamentos políticos que se podem fazer desta interpretação. Uma vez que se pretende, com este ponto de vista, provar que os Ovimbundu não são um grupo étnico unitário, e muito menos têm uma especificidade cultural e étnico-linguística próprias.

Os estudiosos, defensores desta hipótese, apegando-se em aspectos linguísticos, afirmam que os Ovimbundu seriam descendentes dos Bakongo, uma vez que, segundo eles, a língua umbundu é uma síntese do Bantu-Kongo e do Bantu-Lunda. Na verdade, esta hipótese, possui uma certa evidência científica, pois os Ovimbundu, pela posição que ocupam no planalto central, teriam ligações com os Ambundu da baixa de Kasanji; com os Cokwe e os Lunda. E mesmo a sua grande
versatilidade, a sua impressionante capacidade de adaptação aos diversos habitat, poderia ser explicada a partir desta simbiose; desta miscigenação que não se cingiu apenas a aspectos linguísticos e biológicos;mas também à adopção de saberes, técnicas, formas colectivas de luta contra a adversidade da natureza.

Esta hipótese, a mais aceite pelos vários historiados, viria a levar um rude golpe, criando assim, várias dúvidas, com a descoberta da estação arqueológica de Kaniniguiri (Kaniñili). É de referir que esta se situa nas áreas do Mungo e do Bailundo e remonta a milhares de anos (9600 anos ou 9670 anos em idade absoluta). O que mostra que, paralelamente, as comunidades pré-bantu (Bosquímanos,os Vátuas e outros) existia, na região do planalto, uma comunidade, de onde saíram os autores das famosas e impressionantes pinturas ruprestes de Kaninguiri. E, se para além das evidências arqueológicas, nos ativermos à tradição oral, que apresentaremos quando falarmos da história de cada subgrupo étnico em particular, podemos tirar a seguinte conclusão: existem evidências claras que apontam no sentido de os Ovimbundu serem descendentes directos dos autores das pinturas de Kaninguiri e que foram sofrendo, num processo de "osmose", influência dos grupos Bantu que se iam fixando nas proximidades.Saliente-se que, de acordo com alguns historiadores, as migrações dos Bantu, em Angola, devem ter iniciado no século XII com a entrada dos Kikongo; dos va-Nyaneka no séc XVI, dos Ngangeula, no século XVII, dos Ovambo e dos Cokwe, no século XVIII e dos Ovakwangali no século XIX.

O grupo étnico dos ovimbundu é, actualmente, formado por vários subgrupos :va-mbalundu, va-vihé, va-wambu, va-ngalangui, va-kimbulu, va-ndulu, va-kingolo, va-kaluquembe, os va-sambu), va-ekekete), va-kakonda), va-kitatu, va-sele, va-mbui, va-hanha, va-nganda va-chikuma, va-dombe e va-lumbu). Estes subgrupos vivem na região que compreende o Huambo, zona de solo fértil e onde se pode cultivar cereais, pomicultura, horticultura, etc. Para além disso, possui boas condições para o gado, especialmente bovino; é de referir que algumas províncias como a Huíla possuem regiões onde a população é maioritariamente Ovimbundu (Caluquembe e Caconda); o Bié, igualmente uma zona fértil e de clima saudável; Benguela, região igualmente com terrenos muito férteis e onde existem minérios de cobre,ferro,enxofre, sulfato de sal,etc.e numa parte do Cuanza sul.

Por fim resta-nos apenas dizer que os futuros estudos a efectuar quer ao nível da linguística, quer da arqueologia,quer ainda da tradição poderão aportar outros dados importantes para o conhecimento relativo a origem dos Ovimbundu.

Obras consultadas:
Childs, M. (1949). Umbundu kinship and carácter. London.
Davidson, B. (1981). Os africanos. Lisboa; Edições 70 para o Inald.
Edwards, C. (1962). The ovimbundu under two sovereignty. London: IAIUP.
Hamblet al. (1983). The ovimbundu of Angola. Chicago: Feld Museum.
Lukamba, A . (1987). Evangelização, encontro vivo na cultura umbumdu de Angola.
S.Paulo.
MCculloch, M.(1952). The Ovimbundu of Angola. London.
Neto, C. (1997). Acta, encontro de povos e culturas em Angola. Luanda

http://www.mujimbo.com/ovimbundo/

Pensar e Falar Angola

quinta-feira, 3 de abril de 2008

(V) HUAMBO - ACÇÃO MISSIONARIA

É escassa a documentação respeitante à acção missionária no Distrito do Huambo, até fins do século passado. Por certo, este sertão foi percorrido, em várias épocas, por sacerdotes zelosos e dedicados, buscando a conversão dos infiéis. Mas, se assim aconteceu, as memórias desses trabalhos perderam-se quase por completo. Sabe-se que no Bailundo existia um missionário em 1778 e uma pobre igréja de pau-a-pique. Depois disso, só em 1884 se refere a presença, naquelas terras, de outro sacerdote, o padre Joaquim Nunes Bernardo. Alguns anos adiante, foi despachado para ali e Bié, com o encargo de fundar Missões, o padre J. António Fidalgo. Finalmente, em 1895, é fundada a missão do Bailundo. Quinze anos após, a do Huambo, transferi da em 1912 para o Cuando. Só mais recente- mente outras se estabeleceram, as quais registam apreciável movimento religioso e civilizador, o que sem dúvida concorreu para a fundação da Diocese de Nova Lisboa, em 1940, abrangendo os Distritos do Huambo e Benguela.


http://www.aaenlh.pt/index.htm



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segunda-feira, 31 de março de 2008

(IV) HUAMBO - OCUPAÇÃO CIVIL

O texto que se segue foI extraído do Boletim Cultural do Huambo nº 15, de Setembro de 1962



Com o progressivo descobrimento da costa africana, os portugueses iam-se fixando no litoral, fundando povoações e contactando com os naturais, que desde a primeira hora procuraram trazer ao convívio da civilização e ao seio da Igreja Católica. Nem sempre, contudo, esses pacíficos intentos foram compreendidos, ou aplicados, e dai a série longa de lutas atrás referidas. Mas também é verdade que o espirito aventureiro da nossa gente levou muitos a embrenharem-se pelo sertão, estabelecendo-se um pouco por toda a parte e assim concorrendo para a melhoria de relações entre africanos e europeus. No tocante ao Distrito do Huambo, é incontestável que os primeiros contactos foram estabelecidos através do Bailundo, parecendo certo que com estas terras comerciou o capitão -general D. Manuel Pereira Forjaz, em 1610, seguido pouco depois pelos funantes de Benguela e Catumbela, aqueles por intermédio de Caconda. Em 1770 ou 71, o governador Sousa Coutinho fundou a povoação de Nova Golegã, onde se instalou um juiz-regente, representante do Governo junto do soba. Parece ter sido José Francisco da Cunha o primeiro a desempenhar estas funções, outros se lhe seguindo, com frequentes intervalos, até que, em 1885, Silva Porto, nomeado capitão-mor do Bié e Bailundo, estabelece definitivamente a autoridade civil naquelas paragens, com carácter de permanência. Três anos depois, é substituido por Teixeira da Silva, que vai residir para Belmonte, fixando-se mais tarde no Catape, a partir de 1891, quando se dá o desmembramento da capitania. Em 16 de Julho de 1902 é criado o concelho do Bailundo, com os postos militares do Balombo, Huambo, Luimbale, Galanga, Cassongue, Sambo e Bimbe, em 1911 transformados em postos de policia civil. Em 1904, é nomeada a primeira comissão municipal.



* Em 1769, o mesmo governador Sousa Coutinho fundou no Quipeio a povoação de Paço de Sousa. Nada se sabe quanto à sua existência, que deve ter sido efémera. É de crer que o primeiro regente da província do Huambo tenha sido João dos Santos Moura, em actividade nos fins do século XVIII e principios do XIX. Em meados deste, deixou de existir autoridade civil nesta região, o que permitiu o regresso à desordem e anarquia. Após a campanha de 1902, foi instalado na Quissala um posto militar, sob a jurisdição do Bailundo. Elevado a comando em 1909, foi em 1911 transformado em concelho. Neste mesmo ano foi também estabelecida a primeira comissão municipal. Do concelho do Huambo se desmembraram sucessivamente os da Caala (primeiro, Lépi), em 1922; o da Bela Vista, em 1957; e o da Vila Nova, em 1960. Em 1934, surgiu o Distrito, integrado na provincia de Benguela, da qual se desintegrou em 1954.



* Foi ainda Sousa Coutinho o fundador da povoação de Linhares, no Galangue, em 1769, ignorando-se a identidade do primeiro regente, cuja jurisdição se estendia ao Sambo.



Em 1806, Francisco Lucas da Fonseca passou a intitular-se juiz-regente da província do Galangue e Sambos, neste último sobado tendo sua residência e ali exercendo sua autoridade até 1821. A partir desta data, deixou o Governo de ter representante qualificado nesta região. Em 1902, foi criado o posto militar do Sambo, mais tarde transformado em civil, e hoje pertencente ao concelho da Vila Nova.







http://www.aaenlh.pt/index.htm


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quinta-feira, 27 de março de 2008

(III) HUAMBO - INTEGRAÇÃO DO TERRITÓRIO

O texto que se segue foi extraído do Boletim Cultural do Huambo nº 15, de Setembro de 1962



Huambos e bailundos eram povos irrequietos e guerreiros, em constantes conflitos com os vizinhos, cujas terras raziavam, atingindo em suas avançadas a Catumbela, Quilengues, Quipungo, Humbe, sem poupar o histórico presidio de Caconda. Tais factos motivaram o envio de numerosas expedições punitivas, algumas das quais redundaram em sérios desastres, outras atingindo seus objectivos. Entre estas, merece especial menção a de 1773, não apenas em seu aspecto puramente militar como, sobretudo, pelo percurso efectuado, a que forçosamente haviam de corresponder as mais tremendas dificuldades e privações. Efectivamente, duas colunas partiram para o interior, uma de Luanda e outra de Benguela, esta por Caconda, aquela por Pungo-Andongo, reunindo-se finalmente em Quingolo (Cuima), para de novo se separarem no Quipeio, regressando aos respectivos pontos de partida, mais de dois anos passados, após haverem submetido e avassalado os principais chefes planálticos, entre eles os do Huambo, Bailundo e Sambo. Porém, a ausência de ocupação efectiva originou novas desordens, culminando com a revolta do Bailundo, Bié e Huambo, em 1902, e suas naturais resultantes: - assassinatos, roubos, destruições. A gravidade da situação exigia medidas enérgicas, que se traduziram no avanço de três colunas militares contra os revoltosos: - a do Libolo, comandada pelo tenente Pais Brandão, que desbarata e põe fora de combate os principais chefes rebeldes; a do Norte, sob o comando do capitão Massano de Amorim, que de Benguela segue pelo Bocoio, Balombo e Luimbale, con- solidando ali a nossa autoridade; e a do Sul, dirigida pelo capitão Teixeira Moutinho, que se concentra em Caconda, ocupando seguidamente o Huambo. A fim de evitar a repetição de acontecimentos deste género e para garantia da paz e tranquilidade dos povos, estabelecem-se redutos fortificados em diversos pontos do Planalto, a cujos comandantes é conferida competência civil, a par das suas funções militares. Desde então, a calma tem sido absoluta em todo o Distrito, cujos habitantes recentemente deram e continuam a dar ao mundo uma formidável lição de portuguesismo, não só recusando qualquer entendimento com os terroristas, como combatendo-os heroicamente e colaborando nos trabalhos agrícolas das zonas mais afectadas, assim se imortalizando sob a designação popularizada de bailundos.



Pensar e Falar Angola

quarta-feira, 26 de março de 2008

(II) ORIGENS DO POVO HUAMBO - HISTÓRIA E LENDA

O texto extraído do Boletim Cultural do Huambo nº 15, de Setembro de 1962



O território correspondente ao actual Distrito do Huambo é habitado por três grupos étnicos muito fracamente diferenciados: os huambos, bailundos e sambos; havendo ainda a anotar pequenas manchas de ganguelas e quiocos, sem interesse demográfico. Aqueles se integram na tribo dos bundos, ramificação dos bantos que em época remota abandonaram o vale do Nilo, dirigindo-se para o sul e ocupando progressivamente quase toda a África aquém -Sáara. Torna-se bastante difícil determinar os termos em que se verificou a fixação destes povos em terras do Huambo. Neste ponto, anda a história misturada com a lenda, e qualquer destrinça se apresenta quase impossível. Mas é incontestável que desceram do Norte, após incerto período de permanência nas vizinhanças do Cuanza. Não deixa de ser interessante inscrever aqui uma lenda, nos termos da qual o Huambo teria sido o berço da Humanidade.



No extremo meridional do Distrito, junto à confluência do Cunhungâmua com o Cunene, pusera Deus, um dia, o primeiro homem, que se chamou Féti - Principio. Vivia ele, entretanto, aborrecido e triste, único ente racional perdido na imensa Natureza. Mas, em dada altura, foi sua atenção despertada por suave melodia que se elevava do grande rio. Aproximou-se. E, com enorme espanto e justificada alegria, viu surgir das águas um ser semelhante a ele. Louco de contentamento, logo apaixonado, arrebatou consigo a misteriosa aparição, a quem deu o nome de Tchoia - Enfeite, Perfeição. Tempos depois, brindou-os o Senhor com um filho Galangue; mais tarde, uma filha- Vihe (Bié).



Daquele descenderiam os Povos do Huambo, Sambo e Cuima. Passemos, porém, à história, na tradição baseada, e por isso mesmo não totalmente isenta de influências lendárias. D. Ana de Sousa, a extraordinária Rainha Jinga, sustentara prolongada luta contra os portugueses, colaborando, por interesse próprio e na medida de suas conveniências, com os holandeses, então senhores de Luanda. Expulsos estes por Salvador Correia, e submetida a célebre heroina negra à autoridade de Portugal, o receio de justa revindita das nossas gentes levou os sambos, huambos e bailundos, que a haviam apoiado, a abandonarem seus paises e afastarem-se para longe da capital, empurrando à sua frente quantos encontraram pelo caminho, em especial os ganguelas, assim forçados a transferir-se para as margens do Cubango. Os primeiros, após curta permanência no Candumbo, fixaram-se definitivamente na região que de seu chefe recebeu o nome- Sambo (Contagioso). Idênticamente sucedeu aos seguintes, cujo soberano, Huambo- Calunga (Grande -Mar), se instalou inicialmente na Caala, onde sua sepultura se encontra, ladeada de duas outras, ao que se julga de dois escravos sacrificados para o servirem no outro mundo ou, segundo alguns, duas de suas numerosas mulheres. Era Huambo grande apreciador de carne humana, preferindo as tenras crianças, o que levou parte do seu povo a abandoná-lo fugindo uns para a Ganda e outros para o Candumbo. Pretende a tradição, se não lenda, que Huambo fora acompanhado nesta migração, por Catiavala, seu genro, que fundou outro poderoso reino além do Queve, tomando então o nome de Bailundo (Tatuado).


http://www.aaenlh.pt/index.htm
Pensar e Falar Angola

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Kwisses, o primeiro povo a habitar Angola

Yara Simão Jornal de Angola

Olhos grandes e expressivos, rostos arredondados, cabelos ruivos e cheios constam entre as principais características de um povo de trato delicado. A estas juntam-se a pele escura e seca. Encontramo-los a 130 km do município do Virei, debaixo do uma sombra. O ponteiro do relógio assinalava 12h45, altura em que a família se reunia para saborear o pirão com carne seca. Trata-se dos Kwisses, o primeiro povo não bantu que habita em Angola há milhares de anos.
Os Kwisses, povos negro-africanos não-bantus fazem parte do chamado "Fundo Antigo do Povoamento Negro da Região" e constitui hoje o mais antigo povo a habitar ­a região.
Habitam as zonas montanhosas da região, como Morro das Neves, sito no município do Camucuio e o interior da região do Caraculo, onde ocupam grande número de grutas naturais abertas sobre rochas.
Esse povo usavam como vestuário, uma pequena pele de animal a cobrir pela frente, a diversidade dos sexos, não se lhes encontrou o sinal de indústria. Desconhecem a pólvora, a arma de fogo, servindo-se apenas de zagaias e de setas, como instrumentos de ataque e defesa.
Vivem na forma mais arcaica de organização económica e social dedicando-se, ainda, à caça e à recolecção. Mas, é visível nos dias de hoje, por parte deste grupo, uma inclinação à criação de gado e à pastorícia, prova disso verificamos no Morro das Neves, município do ­Camucuio.
Os Kwisses, devido a degradação do seu modo de vida motivada pela progressiva degradação do meio ambiente que, por um lado, é favorável à caça e à recolecção e por outro lado, a situação de humilhação a que estão sujeitos por parte dos mucubais, até ao ponto de sentirem-se forçados a integrar no seio destes e outros povos.
Um dos problemas que afecta esta povoação, são as elevadas perdas constantes de gado devido a escassez de água que vem a constituir um sério perigo para a sobrevivência dos animais e do próprio povo.
O contacto com elementos estranhos a cultura destes povos reveste-se de extrema preocupação, uma vez que começam a influenciar de forma negativa no seu normal modo de vida e na sua cultura, com o risco de perderem a sua identidade cultural.
A frequência de comerciantes ilegais nestas regiões transportando produtos que, muitas vezes não correspondem a realidade cultural destes, nem as suas reais necessidades, podem influenciar de forma negativa sua normal vivência e distorcer a sua identidade cultural, com todos os ricos que tal situação possa acarretar.

Se as "sociedades modernas" que estão munidas de formação técnica e académica "dificilmente" conseguem evitar os efeitos negativos da globalização, o que será das nossas comunidades linguísticas, se nada for feito por eles?


Kwisses e mucubais vivem há milhares de anos como rivais

Vinganha Muetutima, o chefe da tribo afirmou que desde os primórdios da sua geração, nunca se importaram a economizar. Viviam simplesmente do que a natureza lhes oferecia. Tempos volvidos apareceram os mucubais, já mais assimilados e começaram a fazer a pastorícia que se tornou anos depois no seu meio de sobrevivência.
Daí, contou, começou a surgir o espírito de grandeza por parte deles e trazer no seio da região a luta de poder, originando o distanciamento entre os dois povos até aos dias de hoje.
"Os mucubais habitaram nesta região muitos anos depois dos Kwisses. Fomos os primeiros a habitar nestas montanhas, sempre vivemos da recolecção, dos frutos silvestres, matamos animais para nos alimentarmos e bebemos águas da nascente e das chuvas. Hoje os mucubais querem mandar em nós. Sendo assim, somos obrigados a vestirmo-nos e comportarmo-nos como eles."
Vinganha Muetutima disse que os Kwisses não podem sair da sua área para habitar por muito tempo onde vivem mucubais e nem sequer falar a sua língua de origem. Ambos dificilmente se falam. Os problemas aumentam quando um Kwisse e uma mucubal, ou vice-versa se apaixonam.
Os responsáveis desses povos são obrigados a realizar uma reunião extraordinária na presença dos dois e proibir um possível namoro. E se tal acontecer às escondidas, ambos são destituídos das suas povoações.
O chefe da tribo informou que muitos deles foram obrigados a abandonar a região Norte e foram para a parte Sul, para não viverem sobre a dependência dos mucubais, os considerados donos das terras. "Eu e a minha família, fomos os únicos que ficamos nesta região e não pretendemos sair, mas sim lutar para que um dia possamos ser reconhecidos como os primeiros habitantes destas regiões mesmo não tendo bois ou cabritos."



Pensar e Falar Angola

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Visitando blogs (8) - Destinus







Os Donos de África





Muitas vezes relegados para segundo plano, os verdadeiros donos de África continuam a ser os povos tribais. São eles os portadores da cultura, da arte e do espírito africano.
Em Angola existem dezenas de tribos e dialectos, e apesar da guerra ter originado muitas movimentações e descaracterização, existem tribos que nunca abandonaram os seus territórios. No Sul o caso é típico.
Os Mucubais vivem no deserto do Namibe e Serra da Chela. Na Huíla habitam os Mumuilas e os Nhanheca Humbe. No Cunene podemos encontrar os Cuanhama.
Muitos dos costumes e organização social são idênticos. O Soba é o chefe, uma espécie de patriarca, juiz e representante junto das entidades oficiais.
Os Mucubais
São um povo um pouco misterioso. A sua grande riqueza são os bois, e com eles um homem pode ter quantas mulheres quiser. Vivem em harmonia umas com as outras e são elas que trabalham nos campos e têm o máximo número de filhos para pastarem o gado.
Os homens limitam-se à gestão do trabalho e ao prazer. Andam semi-nus e cobrem-se apenas com peles e panos típicos e coloridos, não dispensando a catana. São capazes de percorrer dezenas de quilómetros num só dia e vivem muito isolados e pouco expostos.
Cada Mucubal dispõe de um kimbo (várias cubatas dispostas em círculo) onde reúne todas as mulheres e família.
Pouco sociais, não se fundem com outras raças, afiam os dentes e recusam-se a ir à escola.
Não são de muita confiança (avisaram-me para ter cuidado com os Mucubais) e são conhecidos por roubar gado às tribos em seu redor.
Desde a guerra de 1939, em que os portugueses os derrotaram e confinaram ao seu actual território, que ficaram com um certo rancor aos brancos.

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Com a independência, alistaram-se no exército, para depois desertarem levando as armas. Foram os Mucubais que em 1975 impediram os sul-africanos de avançar no território em direcção ao Namibe. Desconhecendo o que se passava no resto de Angola, apresentaram-se a Agostinho Neto reivindicado o facto de terem ganho a guerra e implantaram uma “portagem” para atravessarem o seu território. O MPLA não deu a devida atenção a este facto, e o certo é que as relações entre este povo e o governo ainda hoje não estão normalizadas.
Tal como em muitas outras tribos, os herdeiros de um Mucubal não são os filhos, mas sim os sobrinhos, filhos da irmã. Assim têm a certeza de que os herdeiros são do mesmo sangue.
Apesar da poligamia ser usual, não é permitido o adultério. Este crime é punível com o pagamento de vários bois ao queixoso. Contaram-me que quando chega a época das chuvas, e um Mucubal não dispõe de bois suficientes para arar as terras, induz uma das suas mulheres a seduzir um vizinho rico, com o fito de que este seja apanhado em adultério e tenha de o retribuir com o pagamento em bois. Espertos, não?
Um certo general de origem Mucubal, cada vez que visitava o seu povo, era forçado a desfardar-se antes de entrar no seu kimbo e vestir os trajes típicos.

Muitas outras tribos existem em Angola e milhares em todo o continente africano. A sua vivência em estado que nós europeus consideramos primitivo, está impregnada de um espírito muito próprio e interiorizado pelos indígenas. A lógica das coisas é itinerante e muda conforme o local onde nos encontramos.
África não é para se perceber ou entender. É para se sentir e viver!!!




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RITA GT em Viana do Castelo

https://youtube.com/shorts/qZkb4CfXTZQ?si=3K65JJEr5VQqsZZS Ao longo dos últimos dois anos tive a oportunidade de desenvolver “8”, uma obra d...