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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Personalidades - Simão Toco



SIMÃO TOCO
Tocoísmo é o nome dado aos seguidores do profeta angolano Simão Gonçalves Toco (1918-1984). Actualmente, estão constituídos eclesiasticamente sob a denominação “Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo”. Trata-se de um dos maiores movimentos cristãos em Angola, contando igualmente com sedes em vários outros países africanos e europeus. Tem a sua catedral no bairro do Golfe, no sudeste de Luanda, Angola. A sua sede espiritual é em Sadi-Zulumongo (NTaia), local de nascimento do profeta.
Histórico
Simão Gonçalves Toco nasceu em 1918 na localidade de Sadi-Zulumongo (Ntaia, Maquela Do Zombo, província do Uíge, Angola), tendo recebido o nome kikongo de Mayamona. Após frequentar o ensino primário na missão baptista de Kibokolo, concluiu os estudos liceais no Liceu Salvador Correia em Luanda. Por esta altura, terá conhecido um acontecimento milagroso que terá despoletado a sua missão religiosa: o encontro com Deus em Catete (Abril de 1935). Depois, regressará ao Uíge para trabalhar nas missões baptistas de Kibokolo e Bembe. Em 1942, decide partir para Leopoldville (Congo Belga) para colaborar com a missão local e dirigir um coro musical com cantores zombos, oriundos da mesma região que ele (Maquela do Zombo). A este coro dará o título de Coro de Kibokolo.
Em 1946, graças ao trabalho que lhe fora reconhecido no âmbito da missão baptista e do coro, foi convidado, junto com outros dois “indígenas” (Gaspar de Almeida e Jessé Chipenda Chiúla) para intervir nos trabalhos da Conferência Missionária Internacional Protestante, realizada de 15 a 21 de Julho de 1946, na localidade de Kaliná em Leopoldville (actual cidade de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo). Nesse momento, dirige uma prece onde pede para o Espírito Santo descer em África.
Tal prece é atendida a 25 de Julho de 1949 quando, após um desentendimento com a Missão Baptista de Leopoldville, decide convocar uma vigília de oração na sua residência (rua de Mayenge, nº 159). Naquele momento, segundo contam os presentes, sentiram um vento e começaram a tremer, realizando milagres invocando algumas passagens bíblicas
Este momento é assumido pelo tocoísmo como o momento em que o Espírito Santo desceu em África e a igreja cristã foi “relembrada”, de forma a retomar o caminho da igreja original do tempo dos Apóstolos. É portanto a data fundacional do movimento tocoísta.
Após estes acontecimentos, Simão Gonçalves Toco e muitos dos seus seguidores foram presos pelas autoridades belgas, sob a acusação de alterar a ordem pública. Em Janeiro de 1950, são deportados do Congo Belga e entregues, no posto fronteiriço de Nóqui (província do Zaire), às autoridades portuguesas. Estas procuram dar por terminado o movimento daquilo que consideravam ser uma “seita perigosa”,dividindo o grupo em pequenos grupos que serão dispersos, no âmbito da política de povoamento colonial vigente à época, em distintos colonatos e campos de trabalho forçado por toda a colónia. O líder é enviado numa primeira instância pelo Vale do Loge e, após passagens por Luanda, Caconda e Jáu, é enviado para a Baía dos Tigres, na província de Moçâmedes (hoje Namibe). Pouco tempo depois, é enviado para trabalhar como assistente num farol em Ponta Albina, na mesma região.
Em 1961, quando tem início as campanhas de libertação de Angola no norte do país, as autoridades portuguesas, conhecedoras da capacidade de mobilização do profeta, ordenam a sua ida para o Uíge e a região fronteiriça com o Congo para chamar as pessoas que tinham fugido para as matas na sequência das acções militares. Simão Toco consegue mobilizar milhares de conterrâneos, mas a desconfiança das autoridades portuguesas relativamente às suas intenções faz com que se decidam por enviá-lo para um segundo período de exílio.Desta vez, é enviado para a ilha portuguesa de São Miguel, nos Açores, onde trabalhará como assistente de faroleiro na localidade de Ginetes.
A sua permanência neste país demorará 11 anos. No entanto, não esmorecerá o seguimento da sua missão. Ao longo deste período, o dirigente intercambiará milhares de cartas com os seus seguidores em Angola, com quem construirá um movimento de carácter nacional. Em 1974, na véspera da saída de Portugal do território angolano, Toco é finalmente autorizado a regressar ao seu país, o que acontece a 31 de Agosto desse ano. Recebido pelo então governador em transição, o Almirante Rosa Coutinho, Simão Gonçalves Toco vê finalmente reconhecida a liberdade de expressão e de culto do seu movimento.
Com o advir da independência, antevendo as dificuldades de entendimento entre as três principais organizações participantes no movimento de libertação de Angola (FNLA, MPLA, UNITA), Simão Toco decide abrir uma campanha de conversações entre os seus líderes (Holden Roberto, Agostinho Neto, Jonas Savimbi) para encontrar um caminho pacífico para o país. No entanto, esta iniciativa não foi bem sucedida e Angola entra em guerra civil.
Em 1984, tem lugar o desaparecimento físico de Simão Gonçalves Toco. 



Pensar e Falar Angola

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Faleceu ontem o Dr. João Baptista Vieira Lopes


Lisboa - Faleceu  na  manha de 10 de Maio, em  sua residência, em Luanda, o nacionalista  João Baptista de Castro Vieira Lopes cujo enterro esta marcado para sábado.  O malogrado que completou 80 anos,  no passado  dia 8 de Maio morreu vitima de doença   prolongada  associada a neoplasia da próstata.

Fonte: Club-k.net
Médico e professor Universitário
Antigo Guerrilheiro e médico de profissão, João Baptista de Castro Vieira Lopes era conhecido nas lides políticas como um dos últimos sobreviventes  da linha dos co- fundadores do MPLA. Fez parte da geração que após concluir os estudos no liceu em Luanda,  embarcou para Portugal em 1952 para estudar Medicina.

Em terras lusas, foi Presidente da Casa dos Estudantes do Império e dirigiu a famosa “fuga dos 100”  que teve como destino os Congos onde se   encontrava  a direção do MPLA. Ai foi  imediatamente integrado  no Corpo Voluntário de Angolanos de Ajuda aos Refugiados (CVAAR), uma organização humanitária afecta a este movimento e que tinha a cabeça Deolinda Rodrigues.  Documentos da PIDE datados de 1962 apresentam  João  Vieira Lopes  como um  influente  membro  do  Comité  Director  do MPLA equivalente ao  Bureau Político de hoje que esteve a estagiar  em  Louvanium  (Hoje Kinshasa). Concluiu  a sua formação acadêmica  aos 29 de Junho de 1963 na especialidade de ginecologia.

Ainda ao tempo do exílio, incompatibilizou-se com Agostinho Neto, e de seguida mudou-se para Argélia onde praticou médica.  Neste país, estava com um  outro dissidente, Viriato da Cruz. No período  pos Independência regressou a Angola, onde  exerceu  a sua profissão e ao mesmo tempo  a dar aulas na Universidade Agostinho Neto.

Com a abertura ao multipartidarismo, o professor  João  Vieira Lopes   participou nas eleições de 1992, tendo sido eleito como  deputado único  da Frente para Democracia, partido onde se encontrava um sobrinho, seu Filomeno Vieira Lopes. Até a data do seu desaparecimento físico ocupava o cargo  de Presidente da Mesa de Assembleia-Geral da liga africana.




Pensar e Falar Angola

sexta-feira, 2 de março de 2012

Figuras Históricas de Angola - Deolinda Rodrigues de Almeida

A NOSSA GRANDE HERÓINA.
Deolinda Rodrigues de Almeida, nascida em Catete a 10 de Fevereiro de 1939, prima de Agostinho Neto, guerrilheira e dirigente do MPLA, a única mulher no Comité Director na década de sessenta, era filha de um pastor evangélico e estudou no Brasil e nos Estados Unidos na Drew University, com bolsas das missões metodistas, antes de regressar a África em 1962 e se juntar ao MPLA no Congo Léopoldville. Deolinda tinha o sonho pessoal de vir a ser médica, sonho que já representava uma fuga à norma colonial para uma mulher e negra na década de cinquenta. Na Igreja Metodista o estudo e a escrita eram encarados como um potencial transformador da vida e as mulheres eram encorajadas a estudar. Deolinda trocou o sonho pessoal pelo envolvimento no sonho colectivo do nacionalismo angolano. Pela seriedade com que se dedicou à causa nacionalista, pela consistência do seu exemplo que a levou à morte, a representação que a nação faz de Deolinda é a de uma heroína. Deolinda Rodrigues e companheiras Em 10 de Dezembro de 1966 no encerramento do curso de preparação militar do Esquadrão Camy, em que estavam integradas as heroínas angolanas.
Deolinda e companheiras partiriam um mês depois, isso em Janeiro de 1967, para uma missão fatídica ao interior de Angola, passando pela República do Zaire (actual República Democrática do Congo). Fracassada a tentativa de chegarem à Primeira Região PolíticoMilitar, empreenderam o caminho de regresso, vindo a ser capturadas pela FNLA na localidade de Kamuna, em território congolês, encarceradas em Kinkuzu e posteriormente assassinadas. O dia da sua detenção – 2 de Março de 1966 – foi consagrado como Dia da Mulher Angolana.



Pensar e Falar Angola

terça-feira, 10 de novembro de 2009

ISABEL DOS SANTOS, O ROSTO DE ANGOLA

ISABEL DOS SANTOS, O ROSTO DE ANGOLA

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Fonte: Público - Editado por AD - 20 Julho 2009

O Jornal "O Publico" escreve que os adjectivos são sempre positivos. Isabel dos Santos, filha do presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, é "uma boa empresária", "extremamente dinâmica e inteligente", "profissional" e, apesar de ser uma "dura negociante", é "correcta", além de "afável", "simpática" e "bonita".

A esta caracterização da empresária de 34 anos, primogénita de José Eduardo dos Santos, feita por diversas pessoas que com ela convivem e negoceiam, junta-se outra componente: discrição, ao nível pessoal e empresarial. No entanto, tal não a impede de ser uma figura incontornável em Angola, ao mesmo tempo que expande os seus investimentos no território português.

Depois do Grupo Espírito Santo, PT e Américo Amorim, o próximo português a associar-se a Isabel dos Santos será Pedro Sampaio Nunes, no projecto de construção de uma biorefinaria em Sines. Este engenheiro fundou a Green Cyber, juntamente com o seu sócio Vítor Sousa Uva, ficando os dois com 30%. E, segundo afirmou o empresário, uma empresa onde Isabel dos Santos é sócia, ao lado do marido, Sindica Dokolo, ficará com 35%.

Os restantes 35% ficarão com uma terceira entidade, ligada à área industrial, que deverá ficar escolhida a curto prazo. Depois, os accionistas terão de aplicar cerca de 80 milhões de euros no projecto, ainda com contrato de investimento por assinar. Segundo Sampaio Nunes, que nasceu em Angola e trabalhou como consultor para a área energética, os dois encontraram-se por intermédio de conhecidos em comum ligados à petrolífera estatal angolana Sonangol.

A partir do primeiro contacto, e depois de verificarem que havia "um interesse e visão convergente" face ao advento dos biocombustíveis e importância da matéria-prima, o empresário português passou a lidar com os intermediários da empresária. "A engenheira Isabel dos Santos está muito bem assessorada", sublinha.

Sampaio Nunes, que começou a trabalhar no projecto da biorefinaria em 2005, já garantira o aluguer e concessão de terrenos em Angola, mas a parceria com a filha de Eduardo dos Santos traz "novas possibilidades". Por outro lado, espera ter acesso a terrenos na República Democrática do Congo (RDG), país de origem de Sindica Dokolo. Tal como Isabel dos Santos em Angola, Sindika Dokolo, filho de um milionário cuja riqueza nasceu envolta em suspeitas, surge como figura que representa os interesses de negócios congoleses.

Isabel dos Santos também traz algum conhecimento do sector, já que o seu nome está associado ao projecto agrícola Terra Verde, uma parceria entre israelitas e angolanos. Criado em 2002, e gerido por especialistas israelitas, produz frutas e vegetais, abastecendo os principais retalhistas e restaurantes de Luanda, além dos refeitórios das empresas diamantíferas e petrolíferas. Isabel dos Santos está também presente na Sagripek, sociedade de agro-pecuária partilhada com entidades como o Banco Africano de Investimentos (BAI) e os irmãos Faceira (parceiros da Escom e próximos de Eduardo dos Santos)

Tal como em outros casos, Isabel dos Santos, que raramente se deixa fotografar pela comunicação social, surge associada a vários investidores, e sempre indirectamente. No caso da Terra Verde, entre os seus parceiros estará o russo Gaydamak. Em 2004, em declarações à BBC, Gaydamak, acusado de traficar armas para Angola, dizia, referindo-se à Terra Verde, que pretendia satisfazer "todas as necessidades de Angola".

Recolher dividendos

Isabel dos Santos começou a despontar no seu país de origem em meados dos anos 90, após o regresso de Londres, onde vivia com mãe, Tatiana Kukanova, e onde se licenciou em engenharia electrotécnica. Detentora de conhecimentos em gestão de empresas, depressa começou a vingar no mundo dos negócios, dominado pela "nomenklatura" do partido do poder, o MPLA. O primeiro projecto que lhe é atribuído surgiu através da Urbana 2000, entidade a quem foi adjudicada de forma expedita a recolha do lixo na zona de Luanda. Esta actividade era conduzida pela estatal Empresa de Limpeza e Saneamento de Luanda (Elisal), mas a eficácia era reduzida e em 1997 a Urbana 2000 passou a gerir a Elisal e o negócio.

Por esta altura entra também no negócio dos diamantes, a segunda maior fonte de receitas depois do petróleo. Também aqui os dados não são totalmente claros, mas uma análise de 2004 da "Partenariat Áfrique Canada" referia a possibilidade da empresária estar ligada à Tais, uma empresa suíça accionista da Ascorp, que comprava os diamantes dos "garimpeiros", não licenciados.

A "Antwerp Facet News Service", organização dos representantes dos diamantes da Bélgica, esclarece que a Angola Diamond Corporation (ADC) "detida pelo empresário Noé Baltazar e Isabel dos Santos", está a desenvolver uma das maiores produções destas pedras preciosas no Camutué. Inicialmente, a concessão do Camutué estava adjudicada à Sociedade Mineira do Lucapa, uma "joint venture" da estatal portuguesa SPE com a Endiama. Em 1997 a SPE ficou sem esta área, que transitou para a ADC.

Christian Dietrich, analista ligado ao sector, escreveu num estudo sobre a indústria de diamantes que o mais provável seria a ADC, por falta de capital, associar-se a um consórcio que garantisse a exploração,logo, o investimento, ficando com parte dos lucros. Esta é, aliás, uma modalidade corrente. No caso do Camatué o investidor escolhido foi a Namakwa Diamonds, do empresário sul-africano John Firth.

Além de Noé Baltazar, ex-responsável da Endiama, outro parceiro da filha do presidente angolano é o multi-milionário russo/israelita Lev Leviev, sócio da mina do Catoca, a maior deste país, (via Daumonty) e da única unidade de lapidação de diamantes de Angola. Diversos relatos dão ainda conta do cruzamento da empresária com Noé Baltazar e Lev Leviev no capital da Sodiam, a entidade controlada pela Endiama para vender os diamantes no estrangeiro.

No caso da Escom, empresa do Grupo Espírito Santo e de Helder Batalgia que explora a mina diamantífera do Luó com os russos da Alrosa, a Endiama, e mais duas empresas angolanas, fonte oficial afirmou que a empresa "não tem Isabel dos Santos nem como sócia nem como parceira em nenhuma das suas actividades". Questionada sobre a identidade dos sócios para a área das pescas (Starfish) e aviação (Air Gemini), a mesma fonte afirmou que as duas empresas são controladas pela AMDL, que, por sua vez, é detida a 50 por cento pela Escom, ficando os outros 50 com sócios angolanos, entre os quais estão os irmãos Faceira.

Ligação aos Espírito Santo

A evidência dos contactos de Isabel dos Santos com empresas portuguesas surgiu há cerca de seis anos, através da banca e das telecomunicações. Depois de o Banco Espírito Santo ter fundado o BESA em Angola, em 2001 (e do qual Helder Batalgia é administrador executivo), Isabel dos Santos fez parte do núcleo de accionistas locais que ficou com 20 por cento do capital. Na mesma altura em que o BES lançou o banco, a Portugal Telecom, participada pelo BES (veja infografia), comprou 25% do capital da Unitel, a quem José Eduardo dos Santos concedera os direitos de exploração de telemóveis por adjudicação directa.

Na altura, o "Expresso" escreveu que a PT não sabia determinar com exactidão quem eram os accionistas das empresas envolvidas na Unitel, compostas pela participada da Sonangol, a Mercury (25%) e por outros parceiros.

O então presidente da PT, Murteira Nabo, afirmou mais tarde que "a filha do presidente [de Angola] não é accionista directa da nova empresa, mas presumo que tem interesses numa das empresas accionistas". Foi através da Geni - Novas Tecnologias que Isabel dos Santos entrou nesta área de negócio, a qual tem dado bons resultados.

Em 2006, segundo a PT, a Unitel teve receitas de 517 milhões de euros. Esta empresa é presidida por Manuel Domingos Vicente, o presidente da Sonangol que Américo Amorim colocou na administração da Galp Energia. Manuel Vicente, na Galp há um ano, é também administrador do banco angolano BAI e está ligado ao grupo Carlyle, fundo de investimentos norte-americano dominado por diversas figuras políticas, como George W. Bush (pai).

A par da Caixa Galicia, a Sonangol foi a empresa escolhida por Amorim para partilhar os 33,3 por cento que o empresário garantiu na Galp, tendo os angolanos uma participação mais relevante do que os galegos, já que detêm 45 por cento da Amorim Energia, a "holding" sedeada na Holanda a quem está imputado o capital da petrolífera portuguesa. Apesar de haver diversas referências à participação de Isabel dos Santos neste negócio, não há evidências nesse sentido, embora possa estar ligada aos 45 por cento detidos pelos angolanos.

Questionados sobre esta e outras questões, os responsáveis pela comunicação de Américo Amorim afirmaram que não poderiam responder em tempo útil. Em 2000, a revista norte-americana "New Yorker" ligava a empresária a uma sociedade petrolífera em Luanda, alegando que seria parceira em diversos consórcios com estrangeiros para a exploração de petróleo.

O amigo Amorim

Esteja ou não ligada ao negócio da Galp, cujos interesses na exploração de petróleo em Angola tendem a crescer, Isabel dos Santos encontrou em Américo Amorim um parceiro privilegiado. Em Abril de 2005, conforme noticiou o PÚBLICO, Fernando Teles saiu da direcção do Banco Fomento de Angola (BFA, detido a 100 por cento pelo grupo BPI) para fundar uma nova instituição. Os sócios: Isabel dos Santos (25%), Manuel Ferreira (da Martal, empresa de supermercados e imobiliário), Sebastião Lavrador (presidente de um pequeno banco, o Sol, e ex-governador do Banco Nacional de Angola), o próprio Fernando Teles e um grupo luso-brasileiro.

Logo depois, Amorim ficou com 25% do capital dessa nova instituição, o Banco Internacional de Crédito (BIC). Com uma rapidez impressionante na abertura de balcões, o BIC disputa hoje a liderança do mercado com o BFA, ao mesmo tempo que o Estado tem vindo a exigir que 50 por cento do capital dos bancos portugueses no país passem para investidores locais.

Além de continuar a reforçar o número de balcões e depósitos em Angola, o BIC já entregou o pedido para abrir actividade em Portugal, com a perspectiva de colocar o ex-ministro Mira Amaral na presidência. Embora o Banco de Portugal não comente o processo, o PÚBLICO apurou que este está em fase de análise, e que a decisão deverá estar tomada no início do ano que vem. Em termos accionistas, a ideia é replicar a estrutura actual no mercado português.

O último grande negócio que envolveu os dois empresários surgiu com a saída, em ruptura, do mercado angolano por parte da Cimpor. O grupo controlado pela Teixeira Duarte tinha comprado, em Novembro de 2004, 49 por cento da maior empresa do sector desde país, a Nova Cimangola, onde já estavam o Estado angolano (39,8 por cento) e o BAI (9,5 por cento).

Um ano depois já estava instalado o conflito entre as empresas, que só ficou resolvido com a saída da Cimpor, em Outubro de 2006. Os 49 por cento passaram então para as mãos da Ciminvest, cuja propriedade é atribuída pela comunicação social a Américo.

Amorim e Isabel dos Santos

Tendo em conta a aproximação ao projecto da biorefinaria em Sines, pode-se pensar que os negócios da " princesa imbatível", como já foi apelidada em Luanda, não se fiquem por aqui no que toca a Portugal. A ligação segue a lógica da grande proximidade que existe entre o território nacional e a família Dos Santos, mas também o interesse de Angola num país que lhe dá garantias de protecção.

Angola vê em Portugal um local seguro para os seus negócios, investimentos e aplicações financeiras, ao contrário, por exemplo, da França, onde decorrem investigações judiciais atentas às movimentações em contas bancárias na Suíça e Luxemburgo da família Eduardo dos Santos e de figuras do seu círculo mais próximo - desde militares a ministros .

Para os empresários portugueses, segundo um jornalista angolano que tem acompanhado estes processos, as vantagens de associação a Isabel dos Santos são óbvias: "Encontra as portas escancaradas. Sem a cobertura de Isabel, receio que Amorim não pudesse entrar no capital da Nova Cimangola e em outros negócios". Na esmagadora maioria dos casos, será verdade. Mas todas as regras têm excepção, e a Iduna parece ser uma delas.

No início de 2006, o presidente desta empresa de mobiliário de escritório, Alberto Carvalho de Araújo, anunciou que iria abrir uma fábrica em Angola, ficando Isabel dos Santos com 45 por cento, A Iduna já abastecia o recheio dos balcões do BIC e a fábrica devia ter começado a laborar logo nesse ano, mas as obras ainda nem começaram. O empresário admite que o processo tem sido mais lento do que esperava, mas sublinha que "a fábrica vai avançar".Com vendas de 12 milhões de euros em 2006, o problema talvez seja a sua pequena dimensão, juntando-se assim à lista de grupos que encontram dificuldades em investir neste país.

Sendo certo que Isabel dos Santos tem poder económico, logo, muita influência, fazendo parte das pessoas que compõem o círculo íntimo de Eduardo dos Santos e controlam os negócios em Angola, a sucessão política parece estar orientada para o seu irmão, José Filomeno dos Santos, conhecido como Zenu.

Outra irmã, Tchizé, casada com um português, já tem menos ramificações empresariais, mas nem por isso deixa de ter os seus investimentos, além de ser a responsável pela revista Caras em Angola. E os três fazem parte o suporte económico do núcleo central do regime, representado por diversos generais, políticos, ministro e ex-ministros, garantido de forma transversal e através de diversas trocas de participações, num país onde não parecem existir leis de incompatibilidades. (fim)
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Público
Bolsa portuguesa: Isabel dos Santos e Sonangol já valem 1800 milhões

por Joana Viana, em i online - Publicado em 08 de Outubro de 2009

A filha de José Eduardo dos Santos e a petrolífera angolana são as únicas fontes de investimento angolano no mercado de capitais português e no início de Setembro valiam 1813 milhões de euros - 3% do PSI 20 - segundo um estudo realizado pela AT Kearney sobre as tendências das operações de fusão e aquisição entre Portugal e as economias emergentes e cujas conclusões são hoje publicadas no jornal Público.

A notícia refere ainda que Isabel dos Santos, controla 45% do capital na Amorim Energia, o que equivale à detenção de 15%, de forma indirecta, da Galp (1206 milhões). Para além disso, a petrolífera angolana Sonangol detém já 10% do capital do BCP - através da compra de acções - o que, ao valor das cotações a 1 de Setembro, valia 424 milhões de euros.

Entre 2005 e 2008, o investimento angolano em Portugal foi de 791 milhões de euros.

Ao todo, Angola e Brasil valem mais de 60% das operações de fusões e aquisições efectuadas em Portugal com base em mercados emergentes.

Para ler o artigo original clique aqui
Pensar e Falar Angola

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Famous People Painting

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HOJE 9/9/9
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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Conferência do 80º Aniversário do Nacionalista Angolano Mário Pinto de Andrade

Recebemos da Sociedade Civil a seguinte divulgação solicitando que fosse divulgado:

Conferência do 80º Aniversário do Nacionalista Angolano Mário Pinto de Andrade

Mário Pinto de Andrade (MPA) é hoje uma figura incontornável na história do nacionalismo Angolano. Muitos são os jovens que hoje descobrem na sua figura um herói e uma inspiração para o percurso humanista e pensador.
Numa altura em que pensar, reflectir e humanizar o modo de estar na sociedade é tido em cada vez mais alta estima, recordar a vida e obra de Mário Pinto de Andrade é ter em mãos o mapa e o exemplo seguro para um tal percurso de excelência.

Prezados Amigos,
o papel de Mário Pinto de Andrade na nossa história foi essencial na qualidade de nacionalista que tem uma dimensão reconhecida por muitos, além dos angolanos conhedores do seu percurso e intervenção. A propósito do seu 80º aniversário natalício, soubemos que a filha, Henda Ducados, alguns amigos, contando com o apoio do Ministério da Cultura, Instituto Camões e Chá de Caxinde, esta sexta-feira (21 de Agosto de 2009), têm o prazer de convidar a participar numa Conferência sobre o Homem e o nacionalismo, à qual recomenda-se vivamente a vossa participação.

Esperamos que encontrem disponibilidade para conhecer um pouco mais e perceber de que modo MPA influenciou, divulgou, lutou e viveu tendo uma clarividência elevada.

Para vossa informação e paticipação, enviamos em anexo o Convite para a Conferencia em celebração do 80º. aniversário de Mário Pinto de Andrade.

CONFERENCIA DIA 21 DE AGOSTO NO ANFITEATRO DA UNIVERSIDADE
LUSIADA DE ANGOLA - LUANDA

'A PRESERVAÇÃO DA MEMORIA DOS NACIONALISTAS AFRICANOS'

PROGRAMA
9:30 Chegada dos convidados e participantes
10:00 Abertura da Conferência pelo Reitor da Universidade Lusíada
10:15 Palestra proferida pelo Dr. Vicente P. de Andrade*
11:30 Palestra proferida pelo Dr. Carlos Moore Wedderburn**
12:00 Debate
13:00 Encerramento pelo Ministério da Cultura

*Dr. Vicente Pinto de Andrade é Professor de Economia e Sociologia na
Universidade Católica de Angola

**Dr. Carlos Moore Wedderburn é etnólogo e cientista político. Foi professor titular de relações internacionais no Instituto de Relações Internacionais da University of the West Indies (UWI), à Trinidade-Tobago. Sua carreira como académico e pesquisador, incluíram cargos como Professor Visitante na Universidade Internacional da Flórida (EUA), e na Universidade das Antilhas (Martinica e Guadalupe). Foi Consultor Pessoal para assuntos latino-americanos do Dr. Edwin Carrington, Secretário Geral da Organização da Comunidade do Caribe (CARICOM),de 1966 a 2000, e de 1982 a 1983, do Dr. Edem Kodjo, Secretário Geral da Organizacao da Unidade Africana (OUA), atualmente União Africana (UA). De 1975 a 1980, foi assessor pessoal do cientista senegalês, professor Cheikh Anta Diop, diretor do Instituto Fundamental da África Negra
(IFAN), em Dakar, Senegal. E, de 1980 a 1984, foi assessor de pesquisa do Professor Robert Jaulin, diretor da faculdade de SociologialAntropologia/Etnologia, Universidade de Paris-7 (França).

segunda-feira, 9 de março de 2009

Hoje falo eu - Francisco Corte-Real Pereira (1914-1970)

Hoje me apetece falar. Mas afinal de contas não me apetece falar mal, nem de destruição do património edificado, nem da degradação, nem dos contrastes e nem dos trastes. Mas como me apetece falar, coisa rara nos últimos tempos, fui ao arquivo da memória e lembrei-me de em 2005 ter visitado em Benguela, noite tardia, os restos ainda intactos dum carro fabricado em Angola e de que ainda hoje me arrependo de não ter fotografado, mas na altura a máquina se era não boa para o dia era mesmo rui para a noite. Mas isso é água que já correu para o mar faz tempo. Com esta imagem, com o embate na árvore da curva para o Casino na Senhora do Monte, no Lubango e da realização este mês de Março das Festas do Mar no Namibe fui procurar saber mais um pouco duma terceira figura do automobilismo da cidade de Benguela. Lembro-me bem daquele corpo franzino, que, talvez por defeito de profissão, eu hoje diria que devia ser um grande fumador e sofrer do estômago - mas isto é a memória da infância a trabalhar com os saberes de hoje e portanto estar ferido de validade.
Francisco Augusto de Quadros Vidal Corte-Real Pereira nasceu em 17 de Novembro de 1914 em Branca, Albergaria-a-Velha, tendo-se destacado como piloto de automóveis quer em Portugal, quer mais tarde em Angola, onde se radicou.

Vencedor do I Grupo (até 750 cc) no VIII Circuito de Vila Real em 1949 (14º na classificação geral)

Vencedor da I Taça Cidade do Porto, tripulando um ALBA (1953)

2º lugar no circuito automóvel das Festas do Mar em Angola (1969)

Em 1970, Corte Real Pereira esteve, pela última vez, nas “6 Horas de Nova Lisboa”. Oito dias depois, em 15 de Agosto de 1970, viria a falecer em, vítima de acidente, em Sá da Bandeira (Huíla) quando tripulava o seu Lótus nas “3 Horas da Huila”.

No ano seguinte, foi instituída em sua homenagem a Taça Corte Real Pereira, troféu a ser disputado na prova de iniciados de Nova Lisboa. Em 1974 foram realizadas duas provas denominadas Taça Corte-Real Pereira: uma em Nova Lisboa, para iniciados, realizada a 27 de Julho; outra a 3 de Agosto, em Benguela, para a fórmula TC-A.

Segundo Armando Lacerda, "A sua criação teve em mente não só homenagear a memória deste piloto como, também, servir de exemplo aqueles que se iniciavam na modalidade como um exemplo de espírito desportivo de um grande Senhor."

Fontes: Armando de Lacerda / Ancestry.com / Carlos Corte-Real / Portal dos Clássicos

Curiosidade: Conjuntamente com Emílio Marta, foi um dos impulsionadores da produção de um automóvel de produção nacional, o Marta Real, que vi em muito bom estado em 2005.


Pensar e Falar Angola

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Biografia de Filipe Mukenga




Filipe Mukenga nasceu em Luanda, apesar de muita gente o associar a Cabinda. Isto tem muito a ver com um dos seus maiores êxitos, Minha Terra, Terra Minha, que fala exactamente desta cidade. Existe algo de verdade nesta história, porque o músico passou parte da sua meninice no enclave.
- Sou filho de Anacleto Gumbe e Isabel André. O meu pai era enfermeiro e a minha mãe camponesa. Quando eu tinha 5 anos o meu pai foi transferido para Cabinda, Dinge, e nós fomos também. Vivemos depois em Massabi, junto à fronteira com Ponta Negra e, em 1957/58, como não havia escolas na região, o meu pai resolveu ir para a cidade de Cabinda. Foi sem receios, apesar de ainda não ter qualquer emprego. Achava que era importante que nós pudéssemos estudar. Pegou em mim e na minha irmã e fomos - recorda.
Quando chegou a esta cidade conheceu Leopoldo Mangueira, um funcionário de alfândega, que lhe deu trabalho. “Este veio a ser uma pessoa muito importante na minha vida. Para mim, será sempre o meu padrinho. Mais tarde quando voltámos a Luanda, vivi uma parte da minha vida em sua casa”, explica.
Filipe Mukenga regressa a Luanda e ao Bairro do Marçal, onde tinha nascido, por volta dos 14 anos. Nesta altura os seus pais separam-se e ele ficou a viver com a mãe. “O meu pai, com receio que eu não estudasse convenientemente, falou com o Leopoldo Mangueira e eu fui viver para sua casa. Estava lá durante a semana e só aos sábados e domingos é que ia para o pé da sua mãe, no Marçal. Isso permitiu-me ter acesso à música que vinha de fora”.

MÚSICO DE OUVIDO




Filipe Mukenga reconhece que a paixão pela música vem de muito cedo. “Os meus pais frequentavam a Igreja Metodista (Evangélica) e eu ia com eles no dia de culto. Ficava maravilhado com o coro. As vozes, a melodia, tudo para mim era encanto. E foi assim que eu comecei a cantar”, recorda.
Não frequentou nenhuma escola de música e foi a vida que lhe deu o “currículo”. “Os anos 60 foram uma boa escola. Na altura apareceram os Beatles que, para mim, foram o máximo. Como a cultura portuguesa na altura não permitia que saltásse-mos para um patamar superior, comecei por cantar esses êxitos internacionais. Cantava em festas, em locais onde era possível. Na altura a vida era muito dura e esse era um caminho para se ir sobrevivendo”, acrescenta, sublinhando que “foi por ouvir toda essa música que vinha de fora que tive contacto com outros géneros, com melodias mais elaboradas como o jazz e, que influenciaram até hoje a música que eu faço”, afirma.
Curioso é o facto de, nesta altura, Filipe Mukenga ainda não tocar qualquer instrumento. “Na verdade comecei a tocar violão por acaso. Foi numa das minhas visitas ao Bairro Marçal que um amigo meu, João Silvestre (que depois fez carreira como comissário de bordo da TAAG) me perguntou – Oh Chiquito (era a minha alcunha de miúdo) não queres aprender violão? – eu respondi que sim e foi ele que me ensinou os primeiros acordes”. Diga-se que, na altura, neste bairro de Luanda cresciam músicos e artistas que facilitavam o contacto cultural com a geração mais nova. E o destino colocou também no caminho de Filipe Mukenga outro amigo, da Praia do Bispo, que tinha um violão. E é assim que o músico passa a ter um acesso diário a este instrumento. “Fui aprendendo de ouvido. Aos 16 anos começo a perceber a estruturação das melodias e sinto que posso compor. Mas já nessa altura estava preocupado em sair do óbvio. Em fazer algo diferente.Foi esta minha característica, de não compor dentro de modas e estereótipos, que leva a que só tenha produzido quatro discos na minha carreira”. Recorde-se que o músico faz agora 46 anos de carreira.

EX-FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Em 1970 Filipe Mukenga é incorporado no exército português, sendo desmobilizado três anos depois. “Esta passagem pela tropa permitiu-me ter contacto com outros músicos de diversas províncias de Angola e, conhecer a música que se fazia pelo território. O que era a música angolana, as suas raízes. Isso proporciona uma viragem importante na minha carreira. Por exemplo um dos meus maiores êxitos Umbi Umbi, resulta de uma recolha no nosso cancioneiro, a letra, que depois adaptei com uma melodia minha. Recordo que muitos nomes importantes gravaram este tema, tais como o Djavan e o Paulo de Carvalho. Ouvi essa música cantada originalmente pelo povo do centro”, diz.
A independência apanha o músico num processo de descoberta de novas sonoridades. Diga-se que a sua profissão era de funcionário público, na estrutura que depois veio a tornar-se o Ministério da Informação. “Eu nunca consegui viver apenas da minha arte. Sei que há outros músicos que conseguem, mas a mim nunca aconteceu. Reformei-me e pode ser que seja agora que viva apenas da música. Penso que esta ligação à editora Ginga pode ser uma solução. Na verdade nunca fui um músico muito solicitado para espectáculos, tirando aquelas datas importantes em que se lembram de mim, mas depois tenho períodos em que não consigo mostrar a minha música. Também só lancei quatro discos, apesar de ter muitas músicas no baú”, explica Filipe Mukenga.

A PARCERIA COM FILIPE ZAU
Em 1978 aconteceram coisas importantes na sua carreira. Inicia uma parceria com Filipe Zau, que se mantém até hoje, “penso que é um letrista extraordinário. Desenvolvemos projectos juntos muito importantes e vamos continuar a fazê--lo”. Também nesta altura conhece André Mingas com quem toma contacto com novas técnicas de execução, como os acordes invertidos e dissonâncias, o que lhe dá novos instrumentos para toda a sua capacidade criativa.
O primeiro disco surge em 1991, no seguimento de contactos que tinham começado três anos antes. “Em 1988 sou incluído como jornalista na delegação de Angola que vai a Lisboa para acompanhar as 1.as Jornadas dos Países de Língua Oficial Portuguesa, que encerraram com um grande espectáculo no Teatro D. Maria. Nessa altura, reencontro-me com o falecido Raul Indipwo, a quem explico o meu projecto musical. E é pela mão dele que eu entro na editora Valentim de Carvalho. Fecho contrato em 1990 e no ano seguinte lanço o meu primeiro álbum, Novo Som. A verdade é que a editora não soube o que fazer com o disco, por isso, eu acabei por rescindir o contrato de uma forma amigável”, recorda.

DOIS ÁLBUNS, UMA OPERETA
Em 1992 vai à Expo Sevilha integrado na delegação angolana e resolve ficar em Lisboa. Já não volta. Tem a oportunidade de viajar pela Europa, conhece outros músicos e outras gentes, vai ao Brasil, a Macau e alarga a presença da música na sua vida. Em 1994, através da editora Lusáfrica em Paris, grava o seu segundo disco, Kianda Ki Anda. Em 1996, num projecto de parceria com Filipe Zau grava a opereta O Canto da Sereia – o Encanto, um projecto que teve o apoio do Ministério da Cultura e da Comissão para Comemoração dos 500 Anos dos Descobrimentos Portugueses. Em 2003, gravou no Brasil, Salvador da Baía, um novo disco, Mimbo Yami. Este projecto foi finalizado em Portugal, pela Moviplay, que acaba por colocar a chancela no trabalho. O que leva o músico a rescindir o contrato com a editora.

UM NOVO DISCO POR ANO
Filipe lamenta ter apenas três discos lançados numa longa carreira. “A música que faço não tem como principal característica pôr as pessoas a dançar. Preocupo-me muito com o conteúdo e com a harmonia. Para mim a música é um excelente veículo de cultura e serve para a pacificação dos espíritos. Tem que haver uma mensagem. Fazer pensar e sonhar quem nos ouve. Os editores hoje não querem esta música”, justifica. Por isso confessa que “tenho muitas músicas guardadas. Há alturas em que me afasto voluntariamente do violão porque sei que vou compor coisas para o baú. E isso não me faz bem. Espero agora, com esta parceria com a editora Ginga, publicar mais discos. Um por ano parece-me que seria o ideal”, diz.
Depois de treze anos fora, Filipe Mukenga resolve voltar a Angola. “Estava fora quando o processo de paz se concluiu. Era o momento em que a pátria precisava da contribuição de todos. Por isso voltei. Tenho pena de não ter dado a contribuição que queria com a minha música, mas penso que agora haverá maior regularidade nas minhas apresentações”.
O músico está a desenvolver novos projectos. Para além do disco Nós somos Nós está a concluir a 2.ª parte da opereta O Canto da Sereia – o Encanto, em parceria com Filipe Zau. Está a preparar um disco de músicas infantis (fábulas adaptadas e cantadas) e, está fortemente empenhado num projecto de recolha do Cancioneiro Angolano, uma iniciativa realizada com o apoio do Ministério da Educação.

"NÓS SOMOS NÓS", O NOVO ALBUM
Este é o título do novo álbum de Filipe Mukenga. Quarto disco da sua carreira e o segundo que é gravado no Brasil. “Este projecto tem muito a ver com o empenho de um empresário brasileiro, Raimundo Lima, que está há muitos em Angola. É o dono da Ímpar, empresa que está ligada à área da comunicação social. Recentemente criou uma editora, chama-se Ginga e eu sou o seu primeiro artista”, explica Filipe Mukenga, que acrescenta, “para os artistas é muito importante a existência destas empresas. Em Angola não existem, mas em todo o mundo é assim que se estrutura a actividade artística. Não faz sentido sermos nós que vamos discutir os nossos cachets, os locais e a produção dos espectáculos, a divulgação dos discos, etc. Esta é uma actividade que deve ser feita por profissionais. O artista deve ser resguardado destas coisas. A gestão de carreiras é fundamental para solidificar a actividade artística. Por isso estou muito satisfeito por estar na Ginga. Acrescente-se que a empresa está em negociações com outros músicos angolanos de prestígio para incorporarem o seu projecto. Acredito que é necessário que se faça a internacionalização da música angolana, e que isso tem que ser feito com inteligência”, sublinha.
E é no âmbito desta parceria que nasceu o disco Nós somos Nós. “Dedico este disco a Angola, ao seu povo e á sua grande conquista que foi a paz”, diz Filipe Mukenga. “Quando me desafiaram para gravar o álbum, eu juntei as minhas músicas, dado que tinha muitas canções já prontas e que estavam guardadas no baú. Levei-as ao Zeca Baleiro, que produziu o álbum, e a selecção foi dele. Eu preferi fazer assim porque não era capaz de escolher apenas catorze músicas. Sei que ele também teve dificuldade em escolher”, diz divertido. Este trabalho tem a colaboração da voz de Martinho da Vila no tema O Paquete assim como de Vânia Abreu em Aprisionar a Negra Noite. Tem também um tema com letra da conhecida jornalista brasileira Cláudia Noronha. “Estava previsto também a gravação de uma música de Ivan Lins, mas infelizmente não foi possível realizar esta parceria por incompatibilidade de agenda. Mas acho que foi feito um bom trabalho”, confirma orgulhoso.
O disco só deve ser lançado no próximo mês. “A verdade é que com o período de festas muitas pessoas saíram do país. Só agora é que elas estão a voltar. Em consequência optámos por adiar o lançamento do álbum para que tudo seja preparado de uma forma eficaz. Mas o meu novo trabalho sairá brevemente”, promete Filipe Mukenga.

TRÊS NOVOS PROJECTOS EM CURSO
Para além do disco Nós somos Nós o autor está a concluir a segunda parte da opereta O Canto da Sereia – o Encanto, em parceria com Filipe Zau. Está a preparar um disco de músicas infantis e está empenhado num projecto de recolha do Cancioneiro Angolano, com o Ministério da Educação

TRÊS ESPECTÁCULOS EM MARÇO
O músico está a preparar uma série de três espectáculos – 19, 20 e 21 de Março – para comemorar os 31 anos de parceria com Filipe Zau. Os concertos vão decorrer no Teatro Nacional e estão incorporados no programa de comemorações de 20 Anos da Associação Chá de Caxinde.
PERFIL
Data de nascimento 7 de Setembro de 1949
Naturalidade Luanda
Juventude Cabinda, Bairro do Marçal e Praia do Bispo
Discoteca B’leza em Lisboa
destino de Férias Os países africanos que ainda não conheço
Prato Preferido Moamba de Galinha
Virtude Humildade
Defeito Ser reservado
Músico preferido Quase todos os que estão na àrea do jazz

Pensar e Falar Angola

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Morreu Anália de Victória Pereira, a Mamã Coragem dos angolanos

Morreu em Lisboa Anália de Victória Pereira, a Mamã Coragem dos angolanos
- 7-Jan-2009 - 12:10


Morreu a líder do PLD, uma mulher de postura e sem medo. A amiga das mulheres angolanas mais desfavorecidas já não faz parte do mundos vivos. Desapareceu a única mulher que na década de 90 liderou um partido político (o PLD) em África e, nas eleições de Setembro de 1992, ousou enfrentar o MPLA, partido no poder em Angola, e o seu candidato, José Eduardo dos Santos. Anália de Victória Pereira partiu, mas deixa-nos gradas memórias enquanto mulher na política angolana.


Por Jorge Eurico

A presidente do Partido Liberal Democrático (PLD), Anália de Victória Pereira, morreu hoje, quarta-feira, 7, em Lisboa, capital portuguesa, vítima de doença prolongada. Anália de Victória Pereira foi a única candidata às eleições presidenciais de 1992. Fundadora e presidente do PLD, Anália de Victória Pereira foi deputada na Assembleia Nacional durante 16 anos.

A vida política de Anália de Victória Pereira remonta ao ano de 1975, ano em que saiu do País numa clara "demonstração de descontentamento" com o rumo que Angola levava no período da independência.

Anália de Victória Pereira, ainda hoje, conhecida por muitos angolanos apenas por "Mamã Coragem", apelido que obteve por ser, nos anos 90, a única mulher de África líder de um partido político e por concorrer às eleições legislativas e presidenciais de Angola.

Em Setembro de 1975, dois meses antes da independência de Angola, Anália de Victória Pereira partiu para Lisboa e levou a sua família porque não pensava em regressar tão cedo.

Já em Portugal, ajudou a criar a "Liga de Apoio aos Refugiados Angolanos (LARA)", cuja actividade influenciou a criação do estatuto de refugiados políticos, aprovado em Portugal em 1980 e que até hoje beneficia vários angolanos residentes em Portugal.

Em 1983, a política angolana fundou, em Lisboa, o PLD, com seu falecido marido, Carlos Simeão, também político e primeiro líder da força política. A sua morte nunca foi esclarecida até hoje.

Depois de 16 anos no exílio, Anália de Victória Pereira regressou a Angola em 1991, legalizando o PLD e concorrendo nas primeiras eleições pós-independência, em Setembro de 1992.

O partido conseguiu três assentos parlamentares e a pasta de vice-ministro da Educação para o Ensino Especial, cargo ocupado pela única filha da candidata, Alexandra Simeão.

Com família oriunda do Sul do País, a presidente do PLD "acidentalmente" natural de Luanda e tinha mais de 60 anos. Tem três netos e um "filho de criação", que também é filiado no partido e candidato a deputado.

Anália de Victória Pereira sempre disse, em vida, que a política era a sua vida e nela pretendia continuar "até quando puder".

Justificando o apelido de "Mamã Coragem", Anália Pereira sobressai pelas suas intervenções críticas no Parlamento e garante que vai "manter a postura de mulher atenta e sem medo".



Pensar e Falar Angola

domingo, 7 de dezembro de 2008

(43) - Ágora - Acácio Barradas (1936-2008)



29/10/08
Já sabia que Acácio Barradas estava doente, mas não esperava um desenlace tão célere, e a verdade é que o jornalismo lusófono ficou mais pobre.


Acácio Barradas morre aos 72 anos, mas deixa entre os seus contemporâneos uma imagem de grande seriedade, de um militante de causas solidárias, profundamente humanista e de um rigor profissional de enorme exigência.


Nascido em Gaia, Portugal em 1932, faz um percurso entre Portugal e Angola, nomeadamente no “Comércio de Angola”onde entra como repórter em 1954, tendo passado depois pelo “Jornal do Congo” no Uige, “Província de Angola”, revista “Noite e Dia”, “ABC- Diário de Angola”, tendo sido director da revista do ATCA e redactor-chefe da revista “Notícia”, acumulando como correspondente do jornal lisboeta “Diário Popular” em Luanda.


Foi casado com Edite Soeiro, a primeira repórter de guerra portuguesa, também ela jornalista no “Notícia”, onde Acácio Barradas acabou depois por trabalhar em Lisboa em 1972/74.


Esteve sempre ligado a Angola, tendo colaborado em 1963 com as edições Imbondeiro do Lubango, em colaboração com Mário António de Oliveira, em textos assinados sob o pseudónimo Álvaro Reis, e em colaborações diversas com historiadores e escritores, sobre factos relevantes da história recente do País.


A sua última aparição publica, foi no documentário de Joaquim Furtado sobre a guerra colonial, que teve grande êxito na TV portuguesa este ano, sobre um tema que só agora começa a ter o seu espaço, em termos documentais e históricos.


Estive com o Acácio Barradas, há cerca de três anos na apresentação do livro do Carlos Ferreira, onde fez uma intervenção brilhante sobre os valores que sempre lhe foram queridos, a solidariedade, a defesa dos direitos e garantias dos trabalhadores e a elevação da dignificação da vida humana com Angola sempre como pano de fundo.


Um adeus angolano a Acácio Barradas!








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segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Regresso da Memória

Inspirado em Koluki: MARIO PINTO DE ANDRADE: O REGRESSO DA MEMORIA

SOU, ASSIM, UM AFRICANO DE ANGOLA
"É justamente porque nasci em Angola, país africano em que vivi e aprendi a conhecer a realidade colonial, que afirmo e defendo a minha angolanidade. E sobretudo: ajudei e continuo a ajudar, na medida das minhas capacidades intelectuais, a fazer respeitar internacionalmente o direito do povo angolano a dispor de si próprio."
Excertos da declaração de Mário Pinto de Andrade perante a polícia francesa de estrangeiros, 24 de Agosto de 1973.

No ano em que se assinala o 80.º Aniversário de Mário Pinto de Andrade, a Fundação Mário Soares, em colaboração com as suas filhas, Anna Jinga e Henda, inicia a apresentação na internet de um conjunto de documentos do seu espólio. Pensamos oferecer, ao longo deste ano, o acesso online a todo o acervo documental e fotográfico deste ensaísta e nacionalista africano.
Esperamos que as iniciativas entretanto programadas para Angola, em cooperação com a Fundação Sagrada Esperança, se possam concretizar a breve trecho - estando já em preparação com a Comissão Organizadora das Comemorações do 80.º aniversário de Mário Pinto de Andrade. >> ENTRAR >>



clique na imagem e vá ao link da Fundação Mário Soares

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sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Das Matas às Livrarias - Cruzei-me com a História

Samuel Chiwale, 64 anos, co-fundador da UNITA conta como nasceu e cresceu o movimento. O ex-comandante-geral da UNITA relata, na primeira pessoa, em “Cruzei-me com a História”, lançado há dias em Lisboa , a sua vida no movimento. Chiwale e Savimbi são duas histórias que se cruzam quase por completo.
Samuel Chiwale, filho de um soba "por direito e tradição", dava catecismo na Missão Evangélica do Bailundo - fundada em finais do século XIX - e era vendedor ambulante de gado. O pai, recorda, lembrava-lhe frequentemente que "os estudos são a única forma para se sair da situação".
Os meninos do seu tempo absorviam os ensinamentos dos mais velhos, à noite, à volta da fogueira. Num espaço envolto pela natureza, o jovem Chiwale tocava batuque "com grande mestria" e caçava de forma "exímia", como confessa neste livro.
Seguir as pisadas do pai era então a prioridade. Frequentou a que diz ter sido a maior escola africana em Angola, o Instituto Currie do Dôndi. Foi expulso após uma greve por protesto contra a má comida. Mas fez a 4ª classe e, de regresso à missão do Bailundo, tirou o curso bíblico para poder entrar no secundário, que ali era exigido.
Conta que na sua juventude fugia das rusgas da administração colonial, que obrigavam os jovens a irem trabalhar compulsivamente "para o contrato". Ainda chegou a ser apanhado nas levas, mas, como o pai era soba, soltaram-no. Revoltado, liderou um grupo de apedrejamento de camiões que transportavam gente para o contrato.
Relembra o que a sua memória reteve dos acontecimentos de 1961, em Luanda e nas plantações a norte, da prisão de seu pai, então regedor da área da Caála, "acusado de ser colaborador de Lumumba", a detenção de professores e os assassínios. Mas foi quando viu o estado do seu pai, espancado na prisão, que quis vingar-se do regime colonial. Tencionava aderir à UPA, mas o destino quis que ficasse no então Sudoeste Africano (Namíbia) onde tinha contactos, chegando a pertencer à SWAPO e a combater em seu nome. Conheceu Jonas Savimbi, "um intelectual de mente clara e pensamento profundo", em 1965, tendo aderido às suas ideias, que o marcariam até hoje. Samuel Chiwale fez parte do primeiro grupo da UNITA a receber treino na China, mascarado como recruta da SWAPO. "A forma como os chineses nos tratavam levantava a nossa auto-estima", diz. Na Academia Militar de Nanquim, chegou a juntar-se gente da "Frelimo, PAIGC, MPLA, Lumumbistas e outros."
Regressado a Angola, sensibilizou as populações contra "o imposto". A UNITA, que de início possuía apenas "navalhas e cajados", tinha um sistema de mensageiros estafetas que os informavam das movimentações quer da tropa portuguesa quer do MPLA, que queria "desalojar a UNITA das suas áreas libertadas". Da PIDE, que causou baixas entre os seus colegas de luta, o autor refere uma actuação "muito eficiente e bem informada" e desmente que o movimento tenha colaborado com esta polícia política de Salazar.








Pensar e Falar Angola

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Escritores e artistas africanos lusófonos entram na Academia de Ciências de Lisboa

Escritores e artistas africanos lusófonos entram na Academia de Ciências de Lisboa

O moçambicano Malangatana, os escritores Germano de Almeida, de Cabo Verde, e Pepetela, de Angola, e o economista Carlos Lopes, da Guiné-Bissau, são os novos membros da Academia de Ciências de Lisboa.

Brasília - O pintor moçambicano Malangatana, os escritores Germano de Almeida, de Cabo Verde, e Pepetela, de Angola, e o economista Carlos Lopes, da Guiné-Bissau, deverão tomar posse como membros da Academia de Ciências de Lisboa em cerimónia a realizar em Setembro.

A admissão dos quatro intelectuais e artistas de países africanos lusófonos foi decidida pelos académicos portugueses durante sessão realizada no dia 24 de Julho.

Na mesma sessão plenária da Academia de Ciências de Lisboa foram admitidos, também na qualidade de "Académico Correspondente Estrangeiro", o príncipe Aga Khan e a antropóloga e investigadora alemã Beatrix Heintze.

O pintor moçambicano Malangatana Valente Ngwenya nasceu a 6 de Junho de 1936, em Matalane, no sul de Moçambique.

Essencialmente um auto-didacta, Malangatana é hoje um dos artistas africanos mais conhecidos internacionalmente, estando representado em vários museus e colecções privadas de todo o mundo.

O escritor cabo-verdiano Germano Almeida nasceu em 1945 na ilha da Boavista e estudou Direito em Lisboa. Vive actualmente em Cabo Verde, onde exerce advocacia.

"O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo" (1991) é um dos seus livros mais conhecidos, tendo sido adaptado para o cinema.

O angolano Pepetela, de nome próprio Artur Pestana, nasceu em Benguela, em 1941. Em 1997 recebeu o Prémio Camões.

Licenciado em Sociologia, é professor, romancista e dramaturgo, contando-se entre as suas principais obras "As Aventuras de Ngunga", "A Geração da Utopia" ou a "Gloriosa Família".

O economista guineense Carlos Lopes é um alto quadro das Nações Unidas, acumulando desde Março de 2007 o cargo de Subsecretário-Geral das Nações Unidas com o de director executivo do Instituto da ONU para a Formação e Pesquisa (UNITAR).


domingo, 10 de agosto de 2008

(26) - Ágora - Algumas letras dum longo caminho



Recentemente, saiu o livro “ Viriato da Cruz, o Homem e o Mito”, numa co-edição da Prefácio e Chá de Caxinde, com depoimentos dos coordenadores Edmundo Rocha, Francisco Soares e Moisés Fernandes e com depoimentos também de Adriano Parreira, Fernando Mourão, Noémia de Sousa, Patrícia Pinheiro e Tomaz Jorge.
Viriato da Cruz é provavelmente uma das figuras da história recente do País, que concita mais silêncios, mas que muita gente, hoje desejaria que em seu redor houvesse mais discussão. Estou provavelmente a hiperbolizar, quando digo que acontece com Viriato da Cruz, um pouco o que aconteceu com Trotsky, e outras vítimas das purgas estalinistas, que foram pura e simplesmente apagados da historiografia oficial, incluindo das fotos onde eles apareciam; Só timidamente os seus poemas aparecem em manuais de ensino oficial, já que o “Namoro” e “Mamã Negra” (Em memória do poeta haitiano Jacques Romain), foram musicados e atingiram uma certa notoriedade, e pouco mais há a acrescentar.
Este livro, vem de certa forma complementar o do Dr. Edmundo Rocha, “Contribuição ao Estudo da Génese do Nacionalismo Moderno Angolano”, e vem divulgar alguns textos do Viriato, que provam que era uma pessoa de grande capacidade intelectual, profundamente empenhado em libertar Angola do colonialismo, com enorme disponibilidade para trabalhar, mas também pouco paciente e quiçá mesmo com alguma “pontaria” para o erro político circunstancial, o que o prejudicou sempre entre os seus pares e aumentou desmesuradamente a sua permanente angústia.Como diz a historiografia actual, foi com esta frase onde tudo começou, e é da mão de Viriato da Cruz que saiu o “Manifesto”, em Dezembro de 1956, que em dado momento diz: «Porém, o colonialismo português não cairá sem luta. Deste modo, só há um caminho para o povo angolano se libertar: o da luta revolucionária. Esta luta, no entanto, só alcançará a vitória através de uma frente única de todas as forças anti-imperialistas de Angola, sem ligar às cores políticas, à situação social dos indivíduos, às crenças religiosas e às tendências filosóficas dos indivíduos, através portanto do mais amplo MOVIMENTO POPULAR DE LIBERTAÇÃO DE ANGOLA.»
Confesso que ao ler o livro, que expõe mais alguma coisa do espólio, do malogrado fundador do PCA, do PLUA. do MPLA, de que foi seu 1º secretário-geral, vejo análises de uma lucidez extraordinária, sobre como se deveria evoluir para um País, e como se teria de construir uma sociedade angolana, contextualizada objectivamente na ausência de industria, com uma elite crioula de pouco peso económico e intelectual, e um campesinato rural, que sai de uma situação híbrida entre a proletarização e o quase esclavagismo, textos escritos no dealbar da década de 50 até meados da década de 60.Tem-se em conta que grande parte destes documentos, fazem parte de correspondência trocada entre Viriato da Cruz e outros angolanos no exílio, principalmente Mário Pinto de Andrade, Mário António de Oliveira, Edmundo Rocha, Carlos Rocha (Dilolwa), José Carlos Horta, Lúcio Lara, Hugo de Menezes e tantos outros que com ele partiram para o exílio.
Não acho que o livro possa ser um pouco o grito de Viriato da Cruz, “Vamos Descobrir Angola”, mas é certamente um trabalho que vai trazer novo debate, sobre um período em que há cada vez menos sobreviventes para contarem como tudo aconteceu, de uma forma descomprometida de grupos, aparelhos, líderes ou candidatos a caudilhos.Da vida de Viriato da Cruz, que talvez pelo mistério em que sempre se envolveu a sua pessoa, e que me intriga e fascina simultaneamente, não deixa de ser estranho que nem o MPLA, nem a FNLA, gostem muito de falar no assunto, e de certa forma há alguma incomodidade no assunto, entre alguns kotas que viveram Dolisie, Brazza, Argel, Conakry, Leo, Kinshasa, etc.

Fico a aguardar que mais gente escreva e que o faça alto e bom som!




Pensar e Falar Angola

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Parabens Nelson Mandela


MANDELA foi preso após denúncia da CIA e condenado em 1964 a prisão perpétua. Esteve encarcerado durante 27 anos com o número 466/64, mundialmente conhecido como o nome da sua fundação que combate a SIDA na África do Sul. Nestes 90 anos de vida, Mandela é um símbolo de luta política, tenacidade e honestidade. Além do combate ao apartheid que corporizou, Mandela é hoje um guru da cena política internacional ao ter abandonado a Presidência do seu país, em 1999.

Pensar e Falar Angola

RITA GT em Viana do Castelo

https://youtube.com/shorts/qZkb4CfXTZQ?si=3K65JJEr5VQqsZZS Ao longo dos últimos dois anos tive a oportunidade de desenvolver “8”, uma obra d...