quarta-feira, 18 de março de 2026

Eu Li Pepetela e aprendi

Adolescente queria saber tudo. Quem falou de quê, porquê e da terra. Comecei com Luandino e depois agarrei outro e de repente, o quarto desaparece. Já não estou sentado numa cadeira bem cómoda mas sim estou no meio da floresta do Mayombe. O Wi-Fi desapareceu literalmente, porque nem sequer ainda foi inventado, e em vez de notificações do Instagram, ouço o som de ramos das árvores a dançar sob a música do vento.

À minha frente, surge um homem com um olhar sábio e um bigode que impõe respeito. É o Pepetela. Me levantei e respeitosamente lhe dirigi a minha timida voz:

- Mestre, vim para aprender. Quero ser culto, quero entender o mundo!" 

Ele me olhou, baloiçou o bigode e atirou:

- Ótimo. Toma lá esta mochila, uma G3  que estava descarregada por causa das coisas e agora vamos caminhar 40 quilómetros pela lama para discutir a ética do socialismo e a identidade nacional.

- Mas... não dá para fazer um resumo por WhatsApp ou IA?

Não, eu não estava a delirar nem em crise de paludismo. Estava só a entrar no mundo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos.

Ele não te dá uma aula com slides. Ele atira-te para dentro dos livros dele como quem atira um telemóvel para uma piscina para ver se ele flutua:

Comecei com Mayombe onde ele me apresentou o Sem Medo. Uau, que personagem incrível, lindo de nome mas pensador de constância: ter dúvidas é o mais inteligente que posso ser.

Depois acho agarrei a Geração da Utopia onde eu quis queimar o mundo, me empolguei e agora mais velho vejo que os ideais são bonitos mas a prática dá muito trabalho e às vezes não corre bem.

Depois ri com Jaime Bunda, eu estava na minha crise existencial e aquele mataco grande me mostra a corrupção e o esquema o que me fez rir da confusão do mundo.

Depois de ler tudo, voltei ao meu quarto. Olhei no espelho e já não sou um adolescente a fazer scroll. Agora tenho um olhar de Pepetela: um olho focado na justiça e o outro a ver a ironia de tudo o que te rodeia.

Saí da aula sem um diploma de papel, nem certidão de cumpridos deveres, mas com algo muito mais perigoso que foi a capacidade de pensar por mim próprio. E, possivelmente, uma vontade súbita de usar palavras como "utopia" e "burocracia" só para ver a cara de confusão dos meus amigos.



Sanzalando


Pensar e Falar Angola

Manuel dos Santos Lima - As Sementes da Liberdade - Livro - K'arranca às Quartas 110


Pensar e Falar Angola

segunda-feira, 9 de março de 2026

às vezes estórias de antigamente - eu li Luandino

às vezes estórias de antigamente - eu li Luandino
Eu, quando comecei a ganhar dinheiro, porque antes não podia, sujeito dado a leituras que me eram dadas, mas de pouco balanço, resolvi comprar o Luuanda. Cheguei em casa, sentei-me na na cadeira de cordas e abri o livro com aquela pose de quem vai resolver um algoritmo que nem sabia existia essa palavra, mas queria saber quem eram os escritores que escreveram a minha terra.
Primeiros 10 minutos li uma frase e o cérebro fazia um barulho de engrenagem enferrujada. Luandino escrevia "estória" com "e", inventava verbos que não pediam licença ao dicionário e as palavras pareciam que estavam a dançar sem música.
- Mas esse gajo está a escrever em português ou está a semear sementes de palavras no papel e eu vou ter que esperar elas cresçam? perguntei-me.
Depois de uma hora, a magia começou a bater, já não estava na sala de leitura. Eu estava lá, no meio do pó da rua, a ouvir o banzé dos miúdos e o cheiro do peixe a fritar. O problema é que o Luandino tem um feitiço, ele desarruma a gramática de um jeito que a gente começa a achar que o erro é que é o certo.
Lá pelas tantas, os companheiros me gritaram vais jantar ou ficas por aqui o comer palavras?
Eu, possuído pelo espírito do Ngangula, olhei para eles e respondi:
- Ó pá, não me venham com estórias de comer que o meu estômago está a fazer maka com a minha fome. A vida é um desassossego de palavras e eu estou aqui a "estoriar" com os meus botões!
Eles me olharam estupefactos e pararam. Nunca me tinham ouvido dizer "maka" na vida. Mas me deixaram ali a passear as palavras ou a ser passeado por elas.
O livro foi lido em três dias. No quarto dia, fui ao banco. O gerente, muito engomado, veio explicar-me as taxas de juro:
- Veja bem, a flutuação do mercado... blá blá - por aí fora, conversa de banco
Eu, com aquela cadência que só quem leu Luandino entende, interrompi:
- Ouça-me, deixe lá esses papéis. O que o senhor está a fazer é uma conversa de fiado, um banzé de números que não têm coração. O dinheiro é como o vento no capim: assobia mas não se apanha!
O gerente ficou mudo. Eu sai do banco a gingar, sentindo-se o dono da língua de estalar.
A Lição da Estória
Ler Luandino Vieira é um perigo público:
Risco 1: começas a achar que a gramática tradicional é uma camisa de forças dois tamanhos abaixo do meu, que nem respirar consegues.
Risco 2: passas a ver poesia num pneu velho ou numa conversa de vizinha.
Risco 3: a boca ganha um balanço que nenhum curso de oratória consegue ensinar. Até gingas a falar.
Sanzalando


Pensar e Falar Angola

COMO CHEGA A KURIBEKA A ANGOLA? - ALBERTO OLIVEIRA PINTO - LEMBRA-TE, ANGOLA Ep. 197





Pensar e Falar Angola

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Eu e os 50 Anos da Independência de Angola

Adolescente ouvi histórias sobre a luta pela libertação e sobre os sonhos de um país livre. Hoje, ao celebrar meio século de independência, sinto que a história de Angola é também parte da minha identidade.

Angola percorreu um longo caminho — da guerra à paz, da reconstrução ao desenvolvimento. Havendo ainda muitos desafios: desigualdade, juventude desempregada, e a necessidade de fortalecer a unidade nacional.

Mas há também orgulho: os angolanos são um povo resiliente, criativo e cheio de esperança. Os 50 anos de independência são um convite a olhar para trás com gratidão e para o futuro com responsabilidade. 

Dizem que o tempo passa depressa, mas cinquenta anos é tempo suficiente para nascer, crescer, errar e recomeçar — tanto para uma pessoa quanto para uma nação.

Eu renasci com a independência, num tempo em que o hino era cantado com orgulho e a bandeira tremulava livre. Para mim, Angola sempre foi Angola — inteira, independente, com o seu jeito forte e contraditório de existir.

Quando ouço os mais velhos falarem, percebo que o país foi sonhado e nascido entre sacrifícios, mas percebo que quando falam de 1975 é assim como quem fala do nascer do sol depois de uma longa noite. Falam de esperança, de lutas, de promessas. 

Hoje, Angola faz cinquenta anos. E eu, que sou parte dessa metade de século, carrego comigo uma mistura de orgulho e inquietação. Orgulho porque Angola resistiu, porque dança mesmo quando o chão ainda é duro e irregular, porque o riso ainda vence o cansaço e a desmotivação. Inquietação porque ainda há tanto por fazer, tanta desigualdade a corrigir, tanta juventude à espera de oportunidade.

Mas talvez ser angolano seja isso mesmo: viver entre a memória e a esperança. Saber que a liberdade não é um ponto final, mas uma frase que ainda se escreve.

Eu e Angola caminhamos juntos — ela com as suas cicatrizes, eu com as minhas dúvidas e meus medos. E, juntos, sonhamos o mesmo sonho: o de um país mais justo, mais aberto, mais nosso.

Cinquenta anos depois, continuo a acreditar. Porque acreditar, afinal, também é uma forma de amar.



Pensar e Falar Angola

Eu Li Pepetela e aprendi

Adolescente queria saber tudo. Quem falou de quê, porquê e da terra. Comecei com Luandino e depois agarrei outro e de repente, o quarto desa...