Pensar e Falar Angola
Fazer 91 anos em plena forma de espírito é um despropósito para os simples mortais. O homem caminha pelos dias como quem caminha pelas ruas de Luanda antiga: sem pressa de chegar, porque o importante não é o destino, é a conversa que se apanha pelo caminho.
Dizem que o português é uma língua rígida, cheia de regras e sapatos apertados. Pois o Luandino olhou para o dicionário e disse: “Moço, tira lá essa gravata que aqui o calor é muito!”. Ele não escreve frases, ele faz pirão com as letras. Mistura o Kimbundo com Camões, tempera com um bocado de jindungo, e quando dás por ti, estás a ler uma palavra que nunca existiu, mas que tu entendes perfeitamente porque ela te bateu direto no peito.
"Ele não inventa palavras, ele só lhes tira o pó e ensina-as a dançar."
Celebrar o Luandino é celebrar aquela Luanda que ele desenhou na nossa cabeça. Aquela dos musseques onde a vida é um emaranhado de histórias, onde o "Luuanda" é uma personagem viva que acorda com remela nos olhos e vai dormir com um sorriso de quem sabe das coisas.
Ele ensinou-nos que se pode estar preso e ele esteve, que o Tarrafal não era propriamente um resort de cinco estrelas e, ainda assim, ser o homem mais livre do mundo. Como? Criando mundos. O homem escrevia tanto e tão bem que as paredes da cela devem ter pedido por favor para ele parar, só para não ficarem com demasiada alma.
Diz que aos 91 anos a pessoa deve sossegar. Mas o Luandino não sossega. Ele continua aí, com aquele ar de quem sabe um segredo que nós ainda não descobrimos. Se calhar o segredo é esse: manter a a alma viva. Não deixar a língua secar, não deixar a memória virar estátua.
Luandino, meu kota de referência, hoje não há "Vidas Novas", hoje é a tua vida que a gente celebra. Bebe-se uma Cuca mesmo que seja imaginária, para não subir à cabeça e agradece-se por teres ensinado Portugal e Angola a falarem um com o outro sem precisarem de tradutor, apenas de sentimento.
Que a vida continue a ser esse teu "Luuanda" infinito, cheio de sol e de palavras bem "muzunguiadas".
À minha frente, surge um homem com um olhar sábio e um bigode que impõe respeito. É o Pepetela. Me levantei e respeitosamente lhe dirigi a minha timida voz:
- Mestre, vim para aprender. Quero ser culto, quero entender o mundo!"
Ele me olhou, baloiçou o bigode e atirou:
- Ótimo. Toma lá esta mochila, uma G3 que estava descarregada por causa das coisas e agora vamos caminhar 40 quilómetros pela lama para discutir a ética do socialismo e a identidade nacional.
- Mas... não dá para fazer um resumo por WhatsApp ou IA?
Não, eu não estava a delirar nem em crise de paludismo. Estava só a entrar no mundo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos.
Ele não te dá uma aula com slides. Ele atira-te para dentro dos livros dele como quem atira um telemóvel para uma piscina para ver se ele flutua:
Comecei com Mayombe onde ele me apresentou o Sem Medo. Uau, que personagem incrível, lindo de nome mas pensador de constância: ter dúvidas é o mais inteligente que posso ser.
Depois acho agarrei a Geração da Utopia onde eu quis queimar o mundo, me empolguei e agora mais velho vejo que os ideais são bonitos mas a prática dá muito trabalho e às vezes não corre bem.
Depois ri com Jaime Bunda, eu estava na minha crise existencial e aquele mataco grande me mostra a corrupção e o esquema o que me fez rir da confusão do mundo.
Depois de ler tudo, voltei ao meu quarto. Olhei no espelho e já não sou um adolescente a fazer scroll. Agora tenho um olhar de Pepetela: um olho focado na justiça e o outro a ver a ironia de tudo o que te rodeia.
Saí da aula sem um diploma de papel, nem certidão de cumpridos deveres, mas com algo muito mais perigoso que foi a capacidade de pensar por mim próprio. E, possivelmente, uma vontade súbita de usar palavras como "utopia" e "burocracia" só para ver a cara de confusão dos meus amigos.
Adolescente ouvi histórias sobre a luta pela libertação e sobre os sonhos de um país livre. Hoje, ao celebrar meio século de independência, sinto que a história de Angola é também parte da minha identidade.
Angola percorreu um longo caminho — da guerra à paz, da reconstrução ao desenvolvimento. Havendo ainda muitos desafios: desigualdade, juventude desempregada, e a necessidade de fortalecer a unidade nacional.
Mas há também orgulho: os angolanos são um povo resiliente, criativo e cheio de esperança. Os 50 anos de independência são um convite a olhar para trás com gratidão e para o futuro com responsabilidade.
Dizem que o tempo passa depressa, mas cinquenta anos é tempo suficiente para nascer, crescer, errar e recomeçar — tanto para uma pessoa quanto para uma nação.
Quando ouço os mais velhos falarem, percebo que o país foi sonhado e nascido entre sacrifícios, mas percebo que quando falam de 1975 é assim como quem fala do nascer do sol depois de uma longa noite. Falam de esperança, de lutas, de promessas.
Hoje, Angola faz cinquenta anos. E eu, que sou parte dessa metade de século, carrego comigo uma mistura de orgulho e inquietação. Orgulho porque Angola resistiu, porque dança mesmo quando o chão ainda é duro e irregular, porque o riso ainda vence o cansaço e a desmotivação. Inquietação porque ainda há tanto por fazer, tanta desigualdade a corrigir, tanta juventude à espera de oportunidade.
Mas talvez ser angolano seja isso mesmo: viver entre a memória e a esperança. Saber que a liberdade não é um ponto final, mas uma frase que ainda se escreve.
Eu e Angola caminhamos juntos — ela com as suas cicatrizes, eu com as minhas dúvidas e meus medos. E, juntos, sonhamos o mesmo sonho: o de um país mais justo, mais aberto, mais nosso.
Cinquenta anos depois, continuo a acreditar. Porque acreditar, afinal, também é uma forma de amar.