terça-feira, 26 de maio de 2026

RITA GT em Viana do Castelo

Ao longo dos últimos dois anos tive a oportunidade de desenvolver “8”, uma obra de arte pública criada a convite da Câmara Municipal de Viana do Castelo.
 
No passado dia 16 de maio, a escultura foi inaugurada no interior da Praça Viana, atual complexo desportivo da cidade. Este edifício, outrora Praça de Touros, é hoje um espaço dedicado ao desporto, à juventude e à vida comunitária, refletindo a transformação dos valores e da sensibilidade coletiva ao longo do tempo.
 
O título “8” refere-se aos oito fundadores da antiga Praça de Touros e, simultaneamente, evoca o símbolo do infinito, sugerindo a continuidade da memória e a permanência dos gestos humanos para além da finitude individual.
 
A obra foi construída a partir de objetos e fragmentos carregados de história, entre os quais um capote de toureiro, bandarilhas, fragmentos do antigo burladero e elementos em néon. Estes materiais são reorganizados numa nova composição que procura transformar vestígios do passado em matéria de reflexão e consciência.
 
Mais do que um monumento comemorativo, “8” propõe uma leitura crítica da história local, reconhecendo as suas complexidades e a capacidade da arte contemporânea para atribuir novos significados ao património e ao espaço público.
 
Foi um projeto particularmente significativo para mim, não apenas pela escala e exigência do processo, mas também pela oportunidade de contribuir para a memória coletiva da cidade onde vivo e trabalho.
 
A produção da obra foi realizada em colaboração com a ArtWorks.

Rita Guedes Tavares, mais conhecida como Rita GT (Porto, 1980), é uma artista plástica portuguesa cujo trabalho aborda temas como a memória, a identidade e os direitos humanos. O seu percurso internacional permitiu-lhe explorar diversas culturas e perspetivas históricas. Através da imagem, palavra e performance, investiga questões sociais e políticas. Tem exposto individual e coletivamente em instituições e galerias de renome em Portugal, Reino Unido, Angola, África do Sul, Timor-Leste, Nigéria, Brasil e Alemanha. É cofundadora do projeto e-studio.

Nasceu em 1980, no Porto, Portugal. Licenciou-se em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Posteriormente, frequentou o Curso Avançado em Artes Visuais da Escola Maumaus, em Lisboa, e integrou o programa de Mestrado em Belas Artes na Malmö Art Academy, na Suécia.

O trabalho de Rita GT caracteriza-se por uma abordagem multidisciplinar, incluindo instalação, vídeo, performance e práticas colaborativas. A sua obra assenta em narrativas históricas e sociais, recorrendo a imagens, palavras e rituais performativos para refletir sobre o passado colonial e as suas repercussões contemporâneas.

Em 2015, foi comissária do Pavilhão de Angola na 56ª Bienal de Veneza. Participou em diversas exposições individuais e coletivas, incluindo a Bienal de Macau, em 2020, e uma exposição no Yorkshire Sculpture Park, no Reino Unido, em 2021. A sua obra tem sido referida em publicações de arte, como Artforum e Contemporary And e destacada por críticos e curadores.

"Artista crítica, intervencionista, e humanista com uma prática que se desenvolve em torno de problemas sistémicos como os modos como construímos memória colectiva e identidade na sua relação com a(s) história(s) do colonialismo e com os direitos fundamentais dos seres humanos." para adaptar e sustentar esta parte "para refletir sobre o passado colonial e as suas repercussões contemporâneas." 


Pensar e Falar Angola

terça-feira, 5 de maio de 2026

Luandino fez 91 anos

Olha só, noventa e um! Isso já não é idade, é uma instituição. Se o tempo fosse um rio, o Luandino Vieira já tinha feito o Kwanza recuar só para ver como é que a água se comporta quando está com pressa.

Fazer 91 anos em plena forma de espírito é um despropósito para os simples mortais. O homem caminha pelos dias como quem caminha pelas ruas de Luanda antiga: sem pressa de chegar, porque o importante não é o destino, é a conversa que se apanha pelo caminho.

Dizem que o português é uma língua rígida, cheia de regras e sapatos apertados. Pois o Luandino olhou para o dicionário e disse: “Moço, tira lá essa gravata que aqui o calor é muito!”. Ele não escreve frases, ele faz pirão com as letras. Mistura o Kimbundo com Camões, tempera com um bocado de jindungo, e quando dás por ti, estás a ler uma palavra que nunca existiu, mas que tu entendes perfeitamente porque ela te bateu direto no peito.

"Ele não inventa palavras, ele só lhes tira o pó e ensina-as a dançar."

Celebrar o Luandino é celebrar aquela Luanda que ele desenhou na nossa cabeça. Aquela dos musseques onde a vida é um emaranhado de histórias, onde o "Luuanda" é uma personagem viva que acorda com remela nos olhos e vai dormir com um sorriso de quem sabe das coisas.

Ele ensinou-nos que se pode estar preso e ele esteve, que o Tarrafal não era propriamente um resort de cinco estrelas e, ainda assim, ser o homem mais livre do mundo. Como? Criando mundos. O homem escrevia tanto e tão bem que as paredes da cela devem ter pedido por favor para ele parar, só para não ficarem com demasiada alma.

Diz que aos 91 anos a pessoa deve sossegar. Mas o Luandino não sossega. Ele continua aí, com aquele ar de quem sabe um segredo que nós ainda não descobrimos. Se calhar o segredo é esse: manter a a alma viva. Não deixar a língua secar, não deixar a memória virar estátua.

Luandino, meu kota de referência, hoje não há "Vidas Novas", hoje é a tua vida que a gente celebra. Bebe-se uma Cuca mesmo que seja imaginária, para não subir à cabeça e agradece-se por teres ensinado Portugal e Angola a falarem um com o outro sem precisarem de tradutor, apenas de sentimento.

Que a vida continue a ser esse teu "Luuanda" infinito, cheio de sol e de palavras bem "muzunguiadas".



Pensar e Falar Angola

quarta-feira, 18 de março de 2026

Eu Li Pepetela e aprendi

Adolescente queria saber tudo. Quem falou de quê, porquê e da terra. Comecei com Luandino e depois agarrei outro e de repente, o quarto desaparece. Já não estou sentado numa cadeira bem cómoda mas sim estou no meio da floresta do Mayombe. O Wi-Fi desapareceu literalmente, porque nem sequer ainda foi inventado, e em vez de notificações do Instagram, ouço o som de ramos das árvores a dançar sob a música do vento.

À minha frente, surge um homem com um olhar sábio e um bigode que impõe respeito. É o Pepetela. Me levantei e respeitosamente lhe dirigi a minha timida voz:

- Mestre, vim para aprender. Quero ser culto, quero entender o mundo!" 

Ele me olhou, baloiçou o bigode e atirou:

- Ótimo. Toma lá esta mochila, uma G3  que estava descarregada por causa das coisas e agora vamos caminhar 40 quilómetros pela lama para discutir a ética do socialismo e a identidade nacional.

- Mas... não dá para fazer um resumo por WhatsApp ou IA?

Não, eu não estava a delirar nem em crise de paludismo. Estava só a entrar no mundo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos.

Ele não te dá uma aula com slides. Ele atira-te para dentro dos livros dele como quem atira um telemóvel para uma piscina para ver se ele flutua:

Comecei com Mayombe onde ele me apresentou o Sem Medo. Uau, que personagem incrível, lindo de nome mas pensador de constância: ter dúvidas é o mais inteligente que posso ser.

Depois acho agarrei a Geração da Utopia onde eu quis queimar o mundo, me empolguei e agora mais velho vejo que os ideais são bonitos mas a prática dá muito trabalho e às vezes não corre bem.

Depois ri com Jaime Bunda, eu estava na minha crise existencial e aquele mataco grande me mostra a corrupção e o esquema o que me fez rir da confusão do mundo.

Depois de ler tudo, voltei ao meu quarto. Olhei no espelho e já não sou um adolescente a fazer scroll. Agora tenho um olhar de Pepetela: um olho focado na justiça e o outro a ver a ironia de tudo o que te rodeia.

Saí da aula sem um diploma de papel, nem certidão de cumpridos deveres, mas com algo muito mais perigoso que foi a capacidade de pensar por mim próprio. E, possivelmente, uma vontade súbita de usar palavras como "utopia" e "burocracia" só para ver a cara de confusão dos meus amigos.



Sanzalando


Pensar e Falar Angola

Manuel dos Santos Lima - As Sementes da Liberdade - Livro - K'arranca às Quartas 110


Pensar e Falar Angola

segunda-feira, 9 de março de 2026

às vezes estórias de antigamente - eu li Luandino

às vezes estórias de antigamente - eu li Luandino
Eu, quando comecei a ganhar dinheiro, porque antes não podia, sujeito dado a leituras que me eram dadas, mas de pouco balanço, resolvi comprar o Luuanda. Cheguei em casa, sentei-me na na cadeira de cordas e abri o livro com aquela pose de quem vai resolver um algoritmo que nem sabia existia essa palavra, mas queria saber quem eram os escritores que escreveram a minha terra.
Primeiros 10 minutos li uma frase e o cérebro fazia um barulho de engrenagem enferrujada. Luandino escrevia "estória" com "e", inventava verbos que não pediam licença ao dicionário e as palavras pareciam que estavam a dançar sem música.
- Mas esse gajo está a escrever em português ou está a semear sementes de palavras no papel e eu vou ter que esperar elas cresçam? perguntei-me.
Depois de uma hora, a magia começou a bater, já não estava na sala de leitura. Eu estava lá, no meio do pó da rua, a ouvir o banzé dos miúdos e o cheiro do peixe a fritar. O problema é que o Luandino tem um feitiço, ele desarruma a gramática de um jeito que a gente começa a achar que o erro é que é o certo.
Lá pelas tantas, os companheiros me gritaram vais jantar ou ficas por aqui o comer palavras?
Eu, possuído pelo espírito do Ngangula, olhei para eles e respondi:
- Ó pá, não me venham com estórias de comer que o meu estômago está a fazer maka com a minha fome. A vida é um desassossego de palavras e eu estou aqui a "estoriar" com os meus botões!
Eles me olharam estupefactos e pararam. Nunca me tinham ouvido dizer "maka" na vida. Mas me deixaram ali a passear as palavras ou a ser passeado por elas.
O livro foi lido em três dias. No quarto dia, fui ao banco. O gerente, muito engomado, veio explicar-me as taxas de juro:
- Veja bem, a flutuação do mercado... blá blá - por aí fora, conversa de banco
Eu, com aquela cadência que só quem leu Luandino entende, interrompi:
- Ouça-me, deixe lá esses papéis. O que o senhor está a fazer é uma conversa de fiado, um banzé de números que não têm coração. O dinheiro é como o vento no capim: assobia mas não se apanha!
O gerente ficou mudo. Eu sai do banco a gingar, sentindo-se o dono da língua de estalar.
A Lição da Estória
Ler Luandino Vieira é um perigo público:
Risco 1: começas a achar que a gramática tradicional é uma camisa de forças dois tamanhos abaixo do meu, que nem respirar consegues.
Risco 2: passas a ver poesia num pneu velho ou numa conversa de vizinha.
Risco 3: a boca ganha um balanço que nenhum curso de oratória consegue ensinar. Até gingas a falar.
Sanzalando


Pensar e Falar Angola

COMO CHEGA A KURIBEKA A ANGOLA? - ALBERTO OLIVEIRA PINTO - LEMBRA-TE, ANGOLA Ep. 197





Pensar e Falar Angola

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Eu e os 50 Anos da Independência de Angola

Adolescente ouvi histórias sobre a luta pela libertação e sobre os sonhos de um país livre. Hoje, ao celebrar meio século de independência, sinto que a história de Angola é também parte da minha identidade.

Angola percorreu um longo caminho — da guerra à paz, da reconstrução ao desenvolvimento. Havendo ainda muitos desafios: desigualdade, juventude desempregada, e a necessidade de fortalecer a unidade nacional.

Mas há também orgulho: os angolanos são um povo resiliente, criativo e cheio de esperança. Os 50 anos de independência são um convite a olhar para trás com gratidão e para o futuro com responsabilidade. 

Dizem que o tempo passa depressa, mas cinquenta anos é tempo suficiente para nascer, crescer, errar e recomeçar — tanto para uma pessoa quanto para uma nação.

Eu renasci com a independência, num tempo em que o hino era cantado com orgulho e a bandeira tremulava livre. Para mim, Angola sempre foi Angola — inteira, independente, com o seu jeito forte e contraditório de existir.

Quando ouço os mais velhos falarem, percebo que o país foi sonhado e nascido entre sacrifícios, mas percebo que quando falam de 1975 é assim como quem fala do nascer do sol depois de uma longa noite. Falam de esperança, de lutas, de promessas. 

Hoje, Angola faz cinquenta anos. E eu, que sou parte dessa metade de século, carrego comigo uma mistura de orgulho e inquietação. Orgulho porque Angola resistiu, porque dança mesmo quando o chão ainda é duro e irregular, porque o riso ainda vence o cansaço e a desmotivação. Inquietação porque ainda há tanto por fazer, tanta desigualdade a corrigir, tanta juventude à espera de oportunidade.

Mas talvez ser angolano seja isso mesmo: viver entre a memória e a esperança. Saber que a liberdade não é um ponto final, mas uma frase que ainda se escreve.

Eu e Angola caminhamos juntos — ela com as suas cicatrizes, eu com as minhas dúvidas e meus medos. E, juntos, sonhamos o mesmo sonho: o de um país mais justo, mais aberto, mais nosso.

Cinquenta anos depois, continuo a acreditar. Porque acreditar, afinal, também é uma forma de amar.



Pensar e Falar Angola

RITA GT em Viana do Castelo

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