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terça-feira, 5 de maio de 2026

Luandino fez 91 anos

Olha só, noventa e um! Isso já não é idade, é uma instituição. Se o tempo fosse um rio, o Luandino Vieira já tinha feito o Kwanza recuar só para ver como é que a água se comporta quando está com pressa.

Fazer 91 anos em plena forma de espírito é um despropósito para os simples mortais. O homem caminha pelos dias como quem caminha pelas ruas de Luanda antiga: sem pressa de chegar, porque o importante não é o destino, é a conversa que se apanha pelo caminho.

Dizem que o português é uma língua rígida, cheia de regras e sapatos apertados. Pois o Luandino olhou para o dicionário e disse: “Moço, tira lá essa gravata que aqui o calor é muito!”. Ele não escreve frases, ele faz pirão com as letras. Mistura o Kimbundo com Camões, tempera com um bocado de jindungo, e quando dás por ti, estás a ler uma palavra que nunca existiu, mas que tu entendes perfeitamente porque ela te bateu direto no peito.

"Ele não inventa palavras, ele só lhes tira o pó e ensina-as a dançar."

Celebrar o Luandino é celebrar aquela Luanda que ele desenhou na nossa cabeça. Aquela dos musseques onde a vida é um emaranhado de histórias, onde o "Luuanda" é uma personagem viva que acorda com remela nos olhos e vai dormir com um sorriso de quem sabe das coisas.

Ele ensinou-nos que se pode estar preso e ele esteve, que o Tarrafal não era propriamente um resort de cinco estrelas e, ainda assim, ser o homem mais livre do mundo. Como? Criando mundos. O homem escrevia tanto e tão bem que as paredes da cela devem ter pedido por favor para ele parar, só para não ficarem com demasiada alma.

Diz que aos 91 anos a pessoa deve sossegar. Mas o Luandino não sossega. Ele continua aí, com aquele ar de quem sabe um segredo que nós ainda não descobrimos. Se calhar o segredo é esse: manter a a alma viva. Não deixar a língua secar, não deixar a memória virar estátua.

Luandino, meu kota de referência, hoje não há "Vidas Novas", hoje é a tua vida que a gente celebra. Bebe-se uma Cuca mesmo que seja imaginária, para não subir à cabeça e agradece-se por teres ensinado Portugal e Angola a falarem um com o outro sem precisarem de tradutor, apenas de sentimento.

Que a vida continue a ser esse teu "Luuanda" infinito, cheio de sol e de palavras bem "muzunguiadas".



Pensar e Falar Angola

segunda-feira, 9 de março de 2026

às vezes estórias de antigamente - eu li Luandino

às vezes estórias de antigamente - eu li Luandino
Eu, quando comecei a ganhar dinheiro, porque antes não podia, sujeito dado a leituras que me eram dadas, mas de pouco balanço, resolvi comprar o Luuanda. Cheguei em casa, sentei-me na na cadeira de cordas e abri o livro com aquela pose de quem vai resolver um algoritmo que nem sabia existia essa palavra, mas queria saber quem eram os escritores que escreveram a minha terra.
Primeiros 10 minutos li uma frase e o cérebro fazia um barulho de engrenagem enferrujada. Luandino escrevia "estória" com "e", inventava verbos que não pediam licença ao dicionário e as palavras pareciam que estavam a dançar sem música.
- Mas esse gajo está a escrever em português ou está a semear sementes de palavras no papel e eu vou ter que esperar elas cresçam? perguntei-me.
Depois de uma hora, a magia começou a bater, já não estava na sala de leitura. Eu estava lá, no meio do pó da rua, a ouvir o banzé dos miúdos e o cheiro do peixe a fritar. O problema é que o Luandino tem um feitiço, ele desarruma a gramática de um jeito que a gente começa a achar que o erro é que é o certo.
Lá pelas tantas, os companheiros me gritaram vais jantar ou ficas por aqui o comer palavras?
Eu, possuído pelo espírito do Ngangula, olhei para eles e respondi:
- Ó pá, não me venham com estórias de comer que o meu estômago está a fazer maka com a minha fome. A vida é um desassossego de palavras e eu estou aqui a "estoriar" com os meus botões!
Eles me olharam estupefactos e pararam. Nunca me tinham ouvido dizer "maka" na vida. Mas me deixaram ali a passear as palavras ou a ser passeado por elas.
O livro foi lido em três dias. No quarto dia, fui ao banco. O gerente, muito engomado, veio explicar-me as taxas de juro:
- Veja bem, a flutuação do mercado... blá blá - por aí fora, conversa de banco
Eu, com aquela cadência que só quem leu Luandino entende, interrompi:
- Ouça-me, deixe lá esses papéis. O que o senhor está a fazer é uma conversa de fiado, um banzé de números que não têm coração. O dinheiro é como o vento no capim: assobia mas não se apanha!
O gerente ficou mudo. Eu sai do banco a gingar, sentindo-se o dono da língua de estalar.
A Lição da Estória
Ler Luandino Vieira é um perigo público:
Risco 1: começas a achar que a gramática tradicional é uma camisa de forças dois tamanhos abaixo do meu, que nem respirar consegues.
Risco 2: passas a ver poesia num pneu velho ou numa conversa de vizinha.
Risco 3: a boca ganha um balanço que nenhum curso de oratória consegue ensinar. Até gingas a falar.
Sanzalando


Pensar e Falar Angola

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

José Luandino Vieira na Póvoa de Varzim

José Luandino Vieira apresenta livro, dia 13


Infopóvoa / Póvoa de Varzim
Ponto de passagem obrigatório na rota dos livros, a Póvoa de Varzim acolhe um novo lançamento – O Livro dos Guerrilheiros, de José Luandino Vieira. A apresentação decorre no dia 13, às 21h30, num espaço que é também ele feito de livros e escritores, o Diana Bar.
É um mergulho na memória de Angola que o escritor propõe, fixando o olhar nos guerrilheiros para, a partir das suas vozes, captar a guerrilha como uma vivência em movimento, como a realidade de um presente que ainda não poderia conhecer os erros, os acertos, a euforia, a frustração. Nessa mescla de testemunho e ficção, Luandino, com sua inquietante radicalidade, leva-nos por uma viagem marcada pelo risco, arrastando-nos para um turbilhão de imagens e sentidos que impossibilita qualquer hipótese de sossego diante do texto. Assim, como diante da extraordinária realidade que a escrita tão concisa consegue representar.
José Luandino Vieira nasceu na Lagoa do Furadouro, Portugal, mas tornou-se cidadão angolano pela sua participação no movimento de libertação nacional e contribuição para o nascimento da República Popular de Angola. Trabalhou em diversas profissões até ser preso em 1959 (Processo dos 50), é depois libertado e posteriormente, em 1961, é de novo preso e condenado a 14 anos de prisão. Transferido, em 1954, para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde passou 8 anos, foi libertado em 1972, em regime de residência vigiada em Lisboa. Iniciou então a publicação da sua obra, na grande maioria escrita nas diversas prisões por onde passou. Na sua bibliografia estão incluídas obras para crianças, como A Guerra dos Fazedores de Chuva com os Caçadores de Nuvens, onde também constam desenhos do autor. Recentemente publicou Nosso Musseque (2003) ; A Vida Verdadeira de Domingos Xavier (2003) ; Nós, os do Makulusu (2004) ; João Vêncio: os Seus Amores (2004) ; Luanda (2004) ; No Antigamente, na Vida (2005) ; Macandumba (2005) ; Velhas Estórias (2006) ; Lourentinho, Dona Antónia de Sousa & Eu (2006) ; De Rios Velhos e Guerrilheiros – o Livro dos Rios (2007) ; Vidas Novas (2007) ; A Cidade e a Infância (2007).


Pensar e Falar Angola

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Amanhã em Portimão

Luandino Vieira na Biblioteca de Portimão

O escritor angolano Luandino Vieira apresenta amanhã, quarta-feira, na Biblioteca Municipal Manuel Teixeira Gomes a sua última obra editada em Portugal, “O Livro dos Guerrilheiros”.
A sessão está marcada para as 18h30 e nela o autor, que participou no movimento que originou a República Popular de Angola, falará sobre o sentido e as motivações que radicam no fenómeno da guerrilha e dos guerrilheiros no seu país, não formulando respostas, antes recolocando questões que legitimam o mergulho na memória que é feito no livro agora lançado.
Luandino Vieira trabalhou em diversas profissões até ser preso em 1959 devido às suas ideias políticas, sendo depois libertado e posteriormente (1961) de novo preso e condenado a 14 anos de prisão e medidas de segurança.
Transferido para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde passou oito anos, foi libertado em 1972, em regime de residência vigiada em Lisboa. É membro fundador da União dos Escritores Angolanos, criada em 1975.


Pensar e Falar Angola

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O Livro dos Guerrilheiros - narrativa

Apresentação a 30 de Setembro às 18.30 horas, na Biblioteca Municipal Manuel Teixeira Gomes, Portimão - Algarve- Portugal

Que sentido e/ou sentidos encontrar para essa retomada da guerrilha quando a ideia de nação em Angola parece tão consolidada? Luandino não formula respostas, antes recoloca questões que legitimam esse mergulho na memoria.
Após finalizar a geografia, em seu sentido mais amplo, ele fixa o olhar nos guerrilheiros, para, a partir das suas vozes, captar a guerrilha como uma vivência em movimento, como realidade de um presente que ainda não poderia conhecer os erros, os acertos, a euforia e a frustração...[...]
Nessa mescla de testemunho e ficção, Luandino, com a sua inquietante radicalidade, leva-nos apor uma viagem marcada pelo risco, arrastando-nos para um turbilhão de imagens e sentidos que impossibilita qualquer hipótese de sossego diante do texto. Assim como diante da extraordinária realidade que a escrita tão concisa consegue representar.

Pensar e Falar Angola

sábado, 13 de junho de 2009

De Nápoles para África, a paixão da literatura

Portugal Digital - Brasil/Portugal
12/06/2009 - 12:30

De Nápoles para África, a paixão da literatura



Na Fundação Prémio Napoli e na Universidade L'Orientale, em Nápoles, Luandino Vieira e Margarida Paredes deambularam pela literatura e pelas evocações de um tempo ainda muito vivo nas suas memórias.

Mónica Gomes, revista África 21 *

Luandino Vieira

Brasília - O escritor angolano Luandino Vieira foi convidado pela Fundação Prémio Napoli e pela Universidade L'Orientale, para um debate sobre «literatura e biografia» com a escritora portuguesa Margarida Paredes, tendo sido recebido em Nápoles como um «mito» e uma «lenda literária» graças às traduções italianas de Luuanda e de A vida verdadeira de Domingos Xavier, cujos tradutores compareceram para conhecer o autor.

O encontro entre Luandino Vieira e Margarida Paredes ofereceu ao público fragmentos de uma experiência que os dois escritores viveram a partir de posições diferentes mas partilhando o mesmo lugar, Angola e o sonho realizado da sua libertação.

Os musseques de Luanda, a guerra, os laços de solidariedade e lealdade criados dentro do MPLA, onde a escritora portuguesa também combateu, a literatura de Luandino Vieira como meio de intervenção política e afirmação da identidade nacional, foram os eixos que atravessaram a conversa apaixonada e densa que proporcionou ao público lembranças e evocações de um tempo ainda muito recente e sobretudo ainda muito vivo na memória e na escrita dos dois protagonistas.

A paixão de Livia Apa

Luandino no meio de um público de leitores e estudantes, alguns vindos de Roma para o ouvirem, declarou sentir-se em casa. Ao ver a baía e ao respirar o movimento interno da cidade sob a luz quente de Nápoles, afirmou que parecia estar em Luanda.

A calorosa recepção de que o escritor angolano foi alvo deve-se ao trabalho desenvolvido pela professora de Literatura Portuguesa, Livia Apa, que há mais de dez anos se dedica a divulgar na Universidade L'Orientale a obra de Luandino e de outros escritores africanos de língua portuguesa.

Esta paixão da bela napolitana começou em Portugal, onde fez o mestrado em Literaturas e Culturas dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa da Universidade Nova, orientada pelo moçambicano Lourenço do Rosário, e em contacto com a segunda geração de criticos das literaturas africanas ainda da «expressão portuguesa» como a são-tomense Inocência Mata e o português Pires Laranjeira.

Em Lisboa foi proprietária da Livraria Mabooki, no Bairro Alto, ponto de referência e de encontro de intelectuais e artistas ligados a África.

De regresso a Nápoles, apesar de não existir a disciplina de Literaturas Africanas na Universidade e da academia italiana ser fundada sobre os ditos «baroni» do mundo, os professores catedráticos que também nas literaturas tentaram tudo para que as obras dos autores africanos não fossem alvo de estudo, Livia Apa tem conseguido trabalhar os textos dos escritores questionando a retórica da Lusofonia e os «enganos» que este paradigma produz tanto nos cursos de língua portuguesa, como nos de tradução. A sua paixão frutificou, fez escola e discípulos seus já produziram um número consistente de teses de licenciatura e mestrado sobre autores africanos dos PALOP.

Entretanto, o Departamento em Estudos Ibéricos aceitou a primeira tese de doutoramento sobre a poesia moçambicana de Jessica Falconi recentemente editada em livro, tendo esta docente passado a acompanhar Livia Apa nesta missão. Através do trabalho que desenvolvem, o conhecimento das literaturas em língua portuguesa foi subvertido e em Nápoles os estudantes chegam a Portugal através da questão colonial. Luandino Vieira é divulgado antes de Camões ou Saramago e o cânone literário de Portugal e da Europa foi deslocado para África.

A literatura africana tornou-se também, para Livia Apa, um território privilegiado para outro desafio, o da tradução. Autores como Mia Couto, Ruy Duarte de Carvalho, José Eduardo Agualusa, poemas de Maria Alexandre Dáskalos e Ana Paula Tavares, Rui Knopfli, Virgílio de Lemos e Luís Carlos Patraquim foram por ela traduzidos.

A presença de Luandino neste Colóquio, a convite do decano Giovanni Ricciardi e dedicado a homenagear Soeiro Pereira Gomes, um escritor neo-realista português, foi mais um sinal de que é possível, contra políticas institucionalizadas, levar para as salas de aulas do centro histórico de Nápoles escritores e estudiosos como Ana Paula Tavares, Ondjaki, Maria Alexandre Dáskalos, Arlindo Barbeitos, Luís Carlos Patraquim, Ana Mafalda Leite, Laura Padilha, Michel Laban e Pedro Rosa Mendes, todos eles recebidos como amigos por um grupo de fiéis e apaixonados estudantes que aprenderam definitivamente a «deslocalizar» a Língua Portuguesa.

Giovanni Ricciardi é especialista em literatura brasileira e tem vários livros editados no Brasil com mais de uma centena de entrevistas a escritores brasileiros realizadas entre os anos 80 e 90, como o aclamado Raduan Nassar que abandonou a escrita para criar galinhas (na sua biografia diz que «uma das melhores alegrias da infância» de que se lembra, foi receber como presente do pai um casal de galinhas-de-Angola), a poetisa Adélia Prado, ou os escritores Lygia Fagundes Telles e Silviano Santiago. Durante o colóquio foi homenageado o escritor moçambicano Virgílio de Lemos assim como o estudioso Michel Laban, recentemente falecido.

Sobre os convidados, Carlo Cavallaro, mestrado em Estudos Portugueses, apresentou uma comunicação sobre «Língua e Identidade em José Luandino Vieira e João Guimarães Rosa», e Jessica Falconi apresentou uma original leitura sobre o romance O Tibete de Africa, «Não era angolana, não era portuguesa: Identidade e ficção na escrita de Margarida Paredes».

Foram ainda apresentadas comunicações sobre escritores latino-americanos como o brasileiro Jorge Amado, a cubana Margarita Mateo Palmer e o peruano José María Arguedas. A professora Guiomar Sousa, curadora do Fórum Literário de Ouro Preto, apresentou uma comunicação sobre «O Aleijadinho: Invenção de uma biografia» e depois do debate na prestigiada Fundação Prémio Napoli convidou publicamente Luandino Vieira e Margarida Paredes a estarem presentes no próximo Fórum das Letras de Ouro Preto no Brasil.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Luandino Vieira vence Prémio Nacional


O escritor Luandino Vieira venceu o Prémio Nacional de Cultura de Angola, em Literatura, no valor de 35.000 dólares, atribuído pelo Ministério da Cultura, que distinguiu também outros nomes nas áreas da música, artes plásticas, dança, cinema e ciências humanas e sociais.
Juntamente com o autor de "Luuanda" foram premiados o realizador da Televisão Pública de Angola Carlos Henriques (a título póstumo), na categoria de Cinema e Audiovisual, Paulo Flores e o grupo Elinga Teatro na música, o grupo Kamatemba (Humpata - Huila) na Dança, Carlos Manuel Lopes na Investigação em Ciências Humanas e Sociais e Francisco Van-Dunem, nas Artes Plásticas.
Um dos mais importantes escritores de língua portuguesa, Luandino Vieira foi o vencedor do Prémio Camões 2006, o maior galardão literário da língua portuguesa, que recusou «por motivos pessoais».
José Vieira Mateus da Graça de seu nome civil, literariamente Luandino Vieira, o escritor nasceu a 4 de Maio de 1935, em Vila Nova de Ourém, indo viver para Angola ainda criança. Actualmente, reside em Portugal.
Entre outros prémios literários, conquistou o Grande Prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores (1965), com o polémico romance "Luuanda", o Prémio Sociedade Cultural de Angola (1961), o da Casa do Império dos Estudantes - Lisboa (1963) e o da Associação de Naturais de Angola (1963).
Da sua obra constam títulos como "Nosso Musseque", "A vida verdadeira de Domingos Xavier", "Nós, os do Makulusu", "Luuanda", "No antigamente, na vida", "Velhas estórias", "A cidade e a infância", "Vidas novas", "Lourentinho, Dona Antónia de Sousa Neto & Eu".
Com "De rios velhos e guerrilheiros - O livro dos rios", o escritor pôs fim em 2006 a um prolongado silêncio editorial.



Pensar e Falar Angola

segunda-feira, 25 de junho de 2007

AUTO-CRÍTICA

Há sorrisos que só são belos porque são do Sul. E no Sul não há pecado porque fica abaixo do Equador. E os sorrisos são mais solidários e mais belos. O encontro com o Luandino é daquelas coisas que só acontecem porque todos somos do Sul e amamos a nossa Terra. E como foi lindo ouvir algumas estórias (o Mia Couto que me perdoe mas também gosto desta palavra sem h! É mais sonora e menos aspirada) contadas por quem sabe, estórias de um tempo que todos vivemos. Lá na banda ou cá pela Europa. Mesmo que sentados no sofá à espera que outros as vivessem por nós. Contava Luandino (mil perdões se não sei contar como tu meu caro escritor):

- Naqueles tempos, nada fáceis por sinal, vivia-se em Luanda com desconfianças. De tudo e de todos! E nos descuidos da noite, ou mesmo do dia, a casa podia ser aliviada do pouco que havia. Se o intruso era apanhado lá no alto, mesmo no 15º andar, tinha que ter asas, como o Red Bull, senão se esborrachava lá bem no fundo, no pouco alcatrão que havia nas ruas da Lua. Sentença lida, pena executada!
Poucos quetionavam a forma rápida desta justiça popular e muitas das vezes até televisão tinha para cobrir o acontecimento. E foi o que aconteceu naquela tarde em que o culpado, bem no meio da rua, tinha vindo pelas escadas abaixo (sofreu redução de pena após recurso de alguns moradores do prédio), parecia bola de futebol tanto pontapé e bolachada tinha levado. Até o negro da sua pele estava mais lustrado apesar de um pouco curtida como pele de vaca preparada para fazer sapato. Não havia cirurgião plástico lá para os lados do Josina Machel/Maria Pia que fizesse tão bom trabalho. O camarada ladrão sangrava por tudo o que tinha por onde sangrar, os olhos pareciam de boxeur quase em kO, fechados como persianas de vizinho que não queria saber de nada, suor saía de todos os poros da pele e outros líquidos saíam de outros poros e de outras peles. O caluanda, devia ser do Sul para ser ladrão diziam alguns, nem sonhava que tinha direito a TPA. Ali mesmo à sua frente a jornalista, lhe parecia muito bonita por entre o nevoeiro e a chuvinha miudinha que havia no seu rosto, lhe perguntava mesmo o que tinha acontecido e se concordava com a pena. Discurso do madiê:
- Porra, tá tudo certo! Mesmo aí fui caçado a roubar. Tá certo que errei! Mas puxa, vieram aí os camaradas e começaram logo a descarregar sem perguntar nada. Foi só porrada, socos nas fuças, pontapés em todo o lugar, e aí fiquei nesse estado. Mas vê só camarada jornalista, não tá certo, mesmo com a razão esses camaradas deviam se esperar para eu poder fazer auto-crítica!

Assim mesmo! Na nossa Luanda lá nos anos 70 e muitos. Espero que um dia o José Luandino Vieira nos escreva mais belas estórias dessa nossa Luuanda que nos orgulha e nos faz ter orgulho de sermos angolanos. Estamos juntos!

Pensar e Falar Angola

RITA GT em Viana do Castelo

https://youtube.com/shorts/qZkb4CfXTZQ?si=3K65JJEr5VQqsZZS Ao longo dos últimos dois anos tive a oportunidade de desenvolver “8”, uma obra d...