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sábado, 3 de março de 2012

Loanda, Luuuanda, Luandauééé


por João Melo na apresentação do livro·

Roderick Nehone, autor do celebrado “O ano do cão”, lança hoje o seu mais recente título: “O catador de bufunfa”. Trata-se de uma pequena novela, de pouco mais de cem páginas, que tenho o prazer de apresentar. Serei breve, para não retirar aos presentes a curiosidade da leitura.
Começo por dizer que, do ponto de vista diacrónico, este “O catador de bufunfa” se insere num dos mais antigos e ricos filões da literatura angolana moderna: a utilização de Luanda como espaço geográfico privilegiado, para não dizer único, da estória narrada. Nehone insere-se, assim, conscientemente, numa linha que vem, pelo menos, de Óscar Ribas, passou por Luandino – o grande mestre - e Arnaldo Santos e é agora representada por Jacinto Lemos, Ondjaki, Isaquiel Cori e outros. Eu próprio tenho feito da Luanda contemporânea o cenário da maioria das minhas estórias.
Obviamente, a cidade mudou, desde a primeira metade do século XX até aos nossos dias, assim como a maneira de olhar para ela. Novas realidades físicas, novas gentes, novos actores, novos problemas e situações foram emergindo no espaço cada vez mais expandido de Luanda, acompanhando as vicissitudes e as transformações históricas que afectaram e continuam a afectar a urbe, umas correspondendo às suas próprias dinâmicas internas e outras, a dinâmicas externas (nacionais ou cosmopolitas).
De Loanda a Luandaué, surgiu uma nova realidade antropológica. A cidade transformou-se de um espaço de construção de uma crioulidade de raíz luso-quimbunda, com as suas cumplicidades e tensões próprias, no espaço de edificação de uma outra crioulidade, genericamente afro-cosmopolita.
A tradicional pequena burguesia caluanda, que na verdade é uma espécie em vias de extinção, queixa-se que a cidade se ruralizou, mas eu discordo: em termos urbanísticos e sociológicos, Luanda é hoje uma metrópole terceiro-mundista semelhante a outras cidades africanas, sul-americanas ou asiáticas.
Em “O catador de bufunfa”, Roderick Nehone mostra-nos essa cidade em rápidas descrições, afirmações e comentários. Estão lá todos os novos habitantes de Luandaué: angolanos de todas as origens (de tal maneira que já não sabe de onde vieram) e estrangeiros de todas as proveniências (portugueses, brasileiros, americanos, chineses, malianos, congoleses, senegaleses, etc.), pobres, ricos, miseráveis, trabalhadores, oportunistas, bandidos, polícias, polícias-bandidos…
Como lembra o autor, os habitantes de Luandaué, todos eles, sem excepção, lutam apenas pela sua afirmação ou simples sobrevivência, engendrando todo o tipo de actividades, inventando criativamente novas “profissões”, procurando realizar toda a sorte de negócios, entre sonhos, desejos, projectos, queixas, raivas, frustrações e desistências. Nehone não se esquece da proliferação das igrejas e do papel da religião como uma das estratégias de afirmação ou de sobrevivência dos habitantes da Luanda dos nossos dias.  
De igual modo, do ponto de vista físico, o autor mostra-nos Luanda como ela é hoje: uma cidade em profunda, mais ou menos caótica e inevitável transformação, com todo o frenesi da construção civil, os arranha-céus, os novos bairros, as estradas, os problemas com as infraestruturas, a maka do trânsito, etc.
É nesse cenário instigante que se desenrola a história de Nazaré dos Relâmpagos de Abril, um estafeta e autodidacta que deixa o emprego público onde trabalhava para tentar a sorte como trabalhador informal. Por sugestão de um amigo, que reencontra numa igreja talvez evangélica, depois de dez anos sem vê-lo, ele adopta uma nova e inverosímil profissão: “transitário polivalente”, ou seja, um intermediário de todos os negócios possíveis e imaginários. Não vou contar o livro, mas peço licença ao autor para antecipar um desses “negócios”: Nazaré, não hesitando em ser informante (bufo), passou a revelar aos polícias de trânsito em serviço na cidade quais os carros mal estacionados na via pública, recebendo dez por cento de comissão por cada carro “bufado”.
Essa referência é uma das muitas presentes em “O catador de bufunfa” que confirma que, se Luanda mudou, permanece entretanto uma das estratégias mais criativas usadas pelos escritores angolanos para olhar e retratar a cidade: o humor e a ironia. Aliás, o humor de matriz caluanda é hoje um dos traços identificadores não apenas da literatura, mas dos próprios angolanos. Roderick Nehone utiliza esse recurso estilístico na sua obra mais recente com parcimónia e bonomia, sem sarcasmos nem intuitos provocatórios, mas com bastante competência. Isso, aliado ao rigor e à leveza da escrita em primeira pessoa, torna o livro de leitura fácil e amena.
Outro recurso que Nehone utiliza livremente, fiel à mais radical tradição literária angolana, é o uso da linguagem coloquial, do calão e da gíria, assim como o aportuguesamento de palavras de origem africana, em especial o quimbundo. No entanto, ele não só se mantém dentro da norma gramatical portuguesa, como não se coíbe, aqui ou ali, a demonstrar a sua sólida cultura geral, sem cair no pretensiosismo.
A finalizar, atrevo-me a dizer que a pretensão do autor, ao escrever este livro, foi exaltar a capacidade de adaptação e criação dos luandenses (e dos angolanos), transmitindo, assim, uma mensagem positiva. Esse constitui, digamos assim, o “projecto ideológico” de “O catador de bufunfa”, o que, acrescento, está, em geral, em consonância com o tempo histórico actualmente vivido pela nossa sociedade. Dez anos depois da paz que se seguiu a 27 anos de guerras que destroçaram o país desde a independência, em 1975, Angola vive hoje, apesar da persistência de muitas dificuldades e problemas, um momento de grandes transformações e sobretudo de esperança, sendo natural que a literatura procure reflectir e expressar esse momento.
Não por acaso, na parte final do livro, a personagem principal de “O catador de bufunfa” como que se regenera, fazendo uma escolha que compensa os negócios esdrúxulos ou mesmo pouco limpos em que esteve metido no passado. Aliás, o livro encerra com uma alegoria que mistura pão e sexo, talvez as duas necessidades básicas fundamentais de todos os seres humanos. Para conhecê-la, os presentes terão de ler o livro até ao fim.



Pensar e Falar Angola

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Escritores Angolanos - Roderick Nehone

Roderick Nehone nasceu em Luanda a 26 de Março de 1965. É jurista e exerce actividade docente na Universidade Agostinho Neto.
Publicou os livros “Génese” (poesia, 1998), “Estórias dispersas de um Reino” (contos, 1996) e “O ano do Cão” (romance, 1998).
Com o livro de poesia “Génesis” venceu o Prémio Literário António Jacinto.
Os seus livros de ficção foram agraciados com o Prémio Sonangol de Literatura, em 1996 e 1997. Pertencendo ao que poderíamos designar por última fornada da Geração Literária de 80, é uma das mais fulgurantes revelações da ficção narrativa angolana, que vem assim engrossar o elenco de ficcionistas da geração em que figuram alguns autores com provas já dadas, tais como Cikakata Mbalundo, Jacinto de Lemos, Sousa Jamba e Mota Yekenha.
Como membro da União dos Escritores Angolanos, escritor exibe uma diversidade de recursos a que se associa especialmente o fôlego para a construção de mundos fantásticos.
Os contornos e as peripécias de algumas das vicissitudes da vida serão apresentados pelo escritor Roderick Nehone no seu mais recente livro de contos, intitulado “Uma bóia na tormenta”.
Com uma análise profunda ao quotidiano da sociedade angolana, o livro faz uma sátira envolvente e profunda, em torno da dinâmica da contemporaneidade e seu reflexo no “modus vivendi” dos nacionais.Composto por 103 páginas e trazendo o selo da União dos Escritores Angolanos (UEA), o livro faz um misto entre os problemas sociais de Angola e o mundo fantasioso, numa observação literária a que o autor já habituou a maioria dos seus leitores, segundo o próprio.
Num estilo de contar muito semelhante ao de “Estórias dispersas de um Reino” mostrará ainda aos leitores vários ângulos de análise do dia-a-dia, a partir da visão do autor, feita com equidade e cuidado na mensagem.
Apresentado pelo secretário-geral da UEA, Adriano Botelho de Vasconcelos, “Uma bóia na tormenta” são, de acordo com Roderick Nehone, os sonhos e aspirações, as alegrias e as tristezas da vida da maioria dos angolanos, que regularmente vivem decepções.

Pensar e Falar Angola

RITA GT em Viana do Castelo

https://youtube.com/shorts/qZkb4CfXTZQ?si=3K65JJEr5VQqsZZS Ao longo dos últimos dois anos tive a oportunidade de desenvolver “8”, uma obra d...