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quinta-feira, 11 de novembro de 2021

46 º Aniversário da Independência de Angola


Angola tornou-se independente a 11 de Novembro de 1975, com a proclamação da Independência Nacional, pelo primeiro Presidente, António Agostinho Neto, busto hoje inaugurado na Cidade de Moçâmedes, Província do Namibe,




Pensar e Falar Angola

sexta-feira, 26 de junho de 2020

De "A província de Angola" a "Jornal de Angola"

Uma adaptação rápida às novas adversidades

Filomeno Manaças
Esta velha casa de Imprensa, que tantos bons profissionais já produziu e de que nos orgulhamos, alguns dos quais serviram e continuam ainda hoje a servir com galhardia outras instituições, desde públicas a privadas, passando por jornais, ministérios, embaixadas, organizações internacionais, etc., cumpre neste dia mais um aniversário de vida - o 44º -, com os jornalistas e demais pessoal indispensável à feitura de jornais imbuídos da certeza de que se continua a fazer história.
Foi a 26 de Junho do ano de 1976 que o então Presidente Agostinho Neto assinou o decreto 51/76, que determinava o confisco da então Empresa Gráfica de Angola - SARL e abria as portas para a criação da Edições Novembro, primeiro UEE (Unidade Económica Estatal) e, mais tarde, Empresa Pública. Já antes, no calor das transformações políticas que o país então vivenciava, em 1975, e fazendo jus ao desejo de emancipação que fervilhava de Cabinda ao Cunene e do mar ao Leste, o único jornal que esta casa de imprensa produzia despia-se do título “A Província de Angola” e passava a designar-se, a partir de 1 de Julho desse ano, Jornal de Angola. 
De lá para cá, foi o trilhar de um percurso, com altos e baixos, que transformou a Edições Novembro - EP numa das principais empresas gráficas do país e o Jornal de Angola no principal diário do país.
Escola de profissionais das mais diversas áreas do saber que concorrem para a produção dos diferentes títulos da empresa - desde o jornalismo ao sector das artes gráficas, passando pela publicidade e área administrativa, em que não se pode esquecer as finanças e, nesse quesito, a contabilidade, além naturalmente da gestão dos recursos humanos -, a Edições Novembro continua focada em acompanhar as transformações que o mundo da imprensa está a sofrer, agora de forma particularmente acentuada com o advento da pandemia da Covid-19. 
Trabalhar em ambiente de tempestade - assim se pode caracterizar o momento actual, pautado pela vaga de ataques do novo coronavírus, que está a semear apreensões e incertezas em todo o mundo e a pôr em causa as previsões mais optimistas, como que a alertar que nestes tempos elas têm pouco ou nenhum valor - está a ser um aprendizado que, desde logo, nos mostrou a necessidade de potenciar a aposta nas plataformas digitais. 
Por força das restrições a que o mundo esteve e continua obrigado a observar, a Internet passou a ocupar maior espaço nas nossas vidas, tal como o acesso ao audiovisual, para o consumo de informação relevante sobre a evolução da Covid-19 no mundo e outros acontecimentos que vão tendo lugar.
Digamos que a pandemia veio reforçar a importância da Internet e dos smartphones, tratando de pôr em relevo toda a diferença que fazem num tal contexto. Recursos sem os quais muita coisa poderia estar a acontecer no mundo e simplesmente ser abafada, porque teria escapado ao conhecimento e sufrágio da aldeia global que hoje somos.
Recuando no tempo, é possível imaginar o cortejo de horrores que terá acontecido à pala da gripe espanhola, que varreu o mundo entre 1918 e 1920, e que ficaram por ser contados. 
A rápida adaptação, feita pela empresa e pelos jornalistas, ao novo contexto, permitiu esbater os efeitos negativos da Covid-19 e continuar a manter, nestes tempos conturbados, a Edições Novembro e o Jornal de Angola como empresas de referência na produção de conteúdos informativos, vincando o profissionalismo e o empenho dos quadros em manter o público sempre ao corrente das principais novidades políticas, económicas, culturais e sociais, quer em relação aos acontecimentos no âmbito doméstico, quer a nível mundial.
Vindo dos tempos em que o jornal físico era o rei todo - poderoso - e até hoje não troco o prazer de folheá-lo e de poder fazer anotações à lápis ou lapiseira aos textos - foi com um aperto no coração que olhei para o vendaval que a pandemia de Covid-19 anunciava, como a possibilidade de o vírus poder ser transmitido de uma para outra pessoa até mesmo através de documentos. 
E o jornal físico - tenho defendido -, é um documento diferente do documento virtual. Tem mesmo vantagens incomparáveis, como a possibilidade de o que for postado num site ser susceptível de alteração, de ser retirado ou apagado, ao contrário do que for escrito em papel de jornal. Fica lá e não sai! Se estiver errado, há sempre a possibilidade de ser rectificado/corrigido nas edições seguintes ou posteriores e, se não o fizer, há ainda o instituto do direito de resposta. Isto obriga o jornalista a um maior cuidado no apuramento dos factos, nestes tempos em que as fake news também disputam as atenções do público, pretendendo impôr-se como verdades, e uns quantos teimam em querer confundir o jornalismo com qualquer informação produzida e postada nas redes sociais.
Quem me estiver a ler pode pensar que sou contra as redes sociais. Desengane-se! Sou partidário de que a empresa deve abraçar os dois modelos de negócio: os jornais nas plataformas digitais e os jornais físicos. Acredito que há uma grande margem de progressão dos jornais impressos ainda não explorada convenientemente, tal como é verdade que temos uma grande avenida a percorrer em matéria de qualidade gráfica e editorial dos produtos digitais, que são uma ferramenta que permite chegar a um público mais vasto, que as publicações físicas, pelas especificidades que lhe são inerentes, não conseguem alcançar.
Conhecedores desta realidade, eis-nos aqui prontos a desbravar novos caminhos, com a mesma firmeza de sempre. Para todos os profissionais desta casa de imprensa, aos que partiram e aos que, de forma abnegada, continuam a dar o seu melhor em prol da empresa, hoje é um dia de merecido tributo.
in Jornal de Angola

Pensar e Falar Angola

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Jornal de Mossamedes

O JORNAL DE MOÇÂMEDES”

Há muitos anos existiu na nossa terra, de 1881 a 1895, um jornal, que se chamava “O JORNAL DE MOÇÂMEDES”, do qual encontrei uma breve descrição, que com todo o gosto dou à vossa apreciação.
O 1.º número viu a luz do dia no mês de Julho de 1881, quando Moçâmedes se preparava para festejar o 32.º aniversário da chegada a Moçâmedes da 1.ª colónia

Retirado de Roberto Trindade no Facebook

Pensar e Falar Angola

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Como combater o Preconceito (I)

Como combater o Preconceito (I)

Nacional
Para combater o preconceito, é necessário entender a razão da sua existência, sendo certo que sem este entendimento, ou seja, se não tivermos em atenção as causas do preconceito e o motivo de alguém ser preconceituoso, não importa o que fizermos – debates, artigos, conferências, etecetera – será fadado a um sucesso parcial ou a um insucesso histórico. Portanto, os comportamentos humanos não ocorrem sem uma lógica social, mesmo que deturpada. Pelo que, entender alguns motivos que os alimentam ajudam na eficácia do combate a qualquer postura preconceituosa
Por: Adão Ramos
Depois de um interregno de alguns meses – desde a publicação neste mesmo Jornal Digital, o Ngola Jornal, do último da série de artigos que vinha escrevendo, no quadro do meu activismo pela Inclusão, por ter faltado tempo, já que a minha vida profissional e escolar se tornou mais exigente, com as mudanças geográfica e de horário – retomo, agora já adaptado à nova realidade, na esperança de poder ter a “garra” física e mental/intelectual necessária para continuar pelo ano todo.
Para reinício de escrita, pretendia trazer à leitura pública uma reflexão entorno da celebração do 3 de Dezembro último, dia Internacional da Pessoa com Deficiência, que teve como lema, “Alcançando 17 metas para o futuro que queremos” – chamando atenção para os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU e como estes objetivos podem criar um mundo mais inclusivo e equitativo para as pessoas com limitação – mas rapidamente adiei para a próxima e optei pelo tema em epígrafe, que a TV Zimbo trouxe a debate no já Consagrado Programa “Debate Livre” realizado aos 27.09.2016, onde participei na condição de convidado; justifica a opção, a pertinência da abordagem e o facto de não ter feito qualquer comentário público extra debate até hoje. Felicito a TV Zimbo e o seu Director, Francisco Mendes, pela iniciativa, quase pioneira e muito bem sucedida, que nunca tinha visto acontecer noutros órgãos…
No geral, concordamos, todos os convidados, a Paula Simons, o Celso Malavoloneque, a Cecília Quitombe e eu, que o preconceito e os preconceituosos não são novidades na história da humanidade; sempre conviveram connosco, manifestando-se, ou manifestando o seu juízo apressado de forma explícita ou sorrateira. E numa sociedade adoentada como está a nossa, não surpreende a ninguém, que alguns preconceituosos ocupem posições de destaque, podendo excluir o diferente.
O questionamento se o preconceito teria causa cultural, ambiental ou institucional, não ocupou tanto o nosso tempo de antena, porquanto, penso, o mais importante pareceu-nos ser responder à reflexão: “Como poderemos combater o preconceito”?
Refletimos sobre várias formas de preconceito, sendo, racial, sexual, físico, cultural e político.
O que ficou por dizer, da minha parte, pois não tinha todo tempo, foi que:
  1. Para combater o preconceito, é necessário entender a razão da sua existência, sendo certo que sem este entendimento, ou seja, se não tivermos em atenção as causas do preconceito e o motivo de alguém ser preconceituoso, não importa o que fizermos – debates, artigos, conferências, etecetera – será fadado a um sucesso parcial ou a um insucesso histórico. Portanto, os comportamentos humanos não ocorrem sem uma lógica social, mesmo que deturpada. Pelo que, entender alguns motivos que os alimentam ajudam na eficácia do combate a qualquer postura preconceituosa.
Quando me preparava para o “Debate Livre” li que Voltaire qualificou: “os preconceitos são a razão dos imbecis”; ao que tudo indica ele não se referia àqueles com deficits intelectuais, mas sim àqueles que são diferenciados culturalmente, para mostrar esta triste faceta humana, a de como alguém culturalmente diferenciado pode ser preconceituoso e capaz de excluir o diferente.
  1. Atendendo que o preconceito nasce nos grupos e se manifesta nas atitudes individuais, o combate requer que as acções de mudança e de esclarecimento visem a coletividade, com um trabalho educativo, elucidativo capaz de modificar as paixões subjacentes ao preconceito, sem o qual ele crescerá cada vez mais. O processo de informação educativa não deve ser elitizado, ou seja, os debates, as palestras/conferências, entrevistas, etc., devem ter presentes, sobretudo, aqueles que sofrem com o preconceito. Se tais acções forem realizadas somente com “opinion makers”, ditos experts, famoso(a)s, ou gente que se pareça com esses, os objetivos podem não ser atingidos, por mais que elas também possam ser vítimas do preconceito… até à parte II…
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domingo, 24 de fevereiro de 2013

258 - Ágora - A Barrica do Americano




Nos primeiros dias de Outubro de 1856 aporta a Luanda o brigue americano “Charlotte” que trazia uma carga no mínimo bizarra: o comandante do barco que falecera durante a viagem.
A tripulação, no intuito de levar o seu corpo para a América, resolveu colocar o cadáver numa barrica cheia de aguardente para retardar a inevitável decomposição.
Como entretanto o processo não resultou, e os despojos deixavam no barco fétidas exalações, houve a necessidade de procurar um porto onde o marinheiro pudesse ser enterrado com todas as honras inerentes.
Chegados, e desconhecendo os hábitos locais dos enterros em Luanda, limitaram-se os tripulantes a transportar, com cuidado, a barrica para o local que lhes indicaram como sendo cemitério público, e dispuseram-se a fazer baixar à terra o seu defunto capitão.
Sem que o esperassem, os marinheiros confrontaram-se com uma série de problemas, o primeiro dos quais o facto de o cadáver não trazer consigo o bilhete de sepultura, comprovativo de que a taxa municipal fora paga. Para que conste, era administrador do cemitério João José da Costa Fêo, um burocrata de mérito.
A barrica ficou a exalar um cheiro nauseabundo no cemitério do Alto das Cruzes aguardando o resultado dos desenvolvimentos burocráticos.
Passados dois dias, um calor abrasador e a avidez de episódios picantes numa Luanda pacata, levou a que o assunto da barrica com o capitão assumisse foros de escândalo e motivo de conversa em todos os locais da cidade onde se multiplicavam tertúlias e reuniões próprias para desfastio das longas horas de monotonia e canícula.
Naturalmente, o caso chegou aos ouvidos do Governador – Geral, José Rodrigues Coelho do Amaral, que exigiu ao então presidente da Câmara, Francisco d’Assis Rocha Caldeira, que “passasse sem demora o bilhete de sepultura a fim de ser enterrado o capitão americano, na parte do cemitério reservado aos não católicos”.
Despoletou-se aqui uma guerra entre o Governador, que detestava ser contrariado, e o Presidente da Câmara quanto ao local do cemitério onde se deveria enterrar o que provavelmente já só restava do capitão em “barrica de aguardente sem alhos”. O Governador insistia no enterro no campo dos protestantes. O Presidente da Câmara dizia ser este administrado pelos ingleses, e que o enterro no campo de pagãos e não católicos iria abrir um precedente de consequências imprevisíveis no futuro sobre quem deveria ser enterrado nesse local, que fora inaugurado em 1837. A criação deste cemitério levou à proibição de enterrar os mortos nas igrejas, a partir de 1841, apesar de, em 1853, ter sido excecionalmente enterrado o Chantre da Sé, José Manuel Gonçalves da Cunha, na Igreja de Santo António, o que motivou enormes manifestações de desagrado por parte da sociedade luandense de então.
Voltando à pipa, ou melhor, à barrica, aconteceu a abertura de uma cova por ordem de mister Edmond Gabriel (representante de S. Majestade Britânica na comissão mista que observava o cumprimento do fim da escravatura, e simultaneamente administrador do cemitério dos ingleses) que, por qualquer motivo, recuou e impediu que o corpo fosse enterrado naquele campo no cemitério, talvez porque o defunto fosse americano e não um súbdito de Sua Majestade.
Novos desenvolvimentos se dão quando o governador, do alto da sua autoridade, acaba com a situação de impasse que se tinha gerado, agravada pelo facto de, simultaneamente, ir aumentando a fétida mistura de decomposição do corpo com a aguardente. obrigando a que a 5 de Outubro de 1856, pelas duas da tarde, o adjunto das obras públicas e o grupo de sapadores enterrassem a barrica com o corpo do infausto marinheiro, “trabalho concluído a preceito às 4 da tarde.”
Apesar do calor tórrido e do cheiro nauseabundo que se fazia sentir, o enterro foi acompanhado por muita gente curiosa de ver o resultado final do funeral de alguém que ajudara a manter um braço de ferro entre várias estruturas do poder colonial na cidade de Luanda.
O nome “Alto das Cruzes” deriva do cemitério dos Ingleses, pois eram os únicos que colocavam cruzes altas nos seus túmulos, e visíveis de quase todo o perímetro urbano de então. 
Desde 1837 até 18 de Setembro de 1861, o cemitério não tinha muros nem gradeamento, ficando os defuntos à mercê de ataques de animais e roubos por parte de alguns feiticeiros que os usavam nas suas práticas. A data de 1859, que se vê à entrada tem a ver com a colocação do portão e não com o fecho total do muro circundante.
Todos os documentos podem pode ser consultados no Arquivo Municipal de Luanda, e no brilhante trabalho de José de Almeida Santos, no seu conjunto de livros “ na Luanda de há cem anos” , dedicados à cidade, numa edição da Câmara Municipal de Luanda, no dealbar dos anos setenta.


Fernando Pereira
19/2/2013



Pensar e Falar Angola

domingo, 17 de fevereiro de 2013

257 - Ágora - Talvez o céu me queira!





Começo com Santo Agostinho: “Para se exercerem as virtudes do espírito é necessário um mínimo de conforto material.”
Millôr Fernandes (1923-2012), humorista, desenhador, escritor, dramaturgo, artista plástico e jornalista brasileiro recentemente desaparecido deixou uma obra prenhe de escritos adoráveis, reveladores de uma sagacidade e acutilância muito raros no comum dos mortais.
O Pif-Paf foi editado um mês após a instauração da ditadura brasileira na sequência do golpe de estado de 1964. Pretendia-se uma revista de humor e liberdade, onde terão colaborado, na sua efémera existência de oito números, alguns dos grandes humoristas e desenhadores de BD do Brasil. Evidentemente que a censura obrigou ao encerramento da revista, o que levou Millôr a ter que procurar outras formas de expressão, tendo colaborado com alguns jornais e revistas, incluindo o português “Diário Popular” e a brasileira “Veja”.
Num dos números do Pif-Paf e com a censura a “picar-lhe os miolos” conta esta deliciosa história:
“DESCOBERTA
Estavam dois caçadores bem no centro de África quando, por trás de uma colina, de dentro de uma gruta, da escuridão de uma mata, do seio de uma grota, surgiu um tigre de dentes de sabre. Disse um dos caçadores: «Um animal pré-histórico! O mais terrível e o mais precioso dos animais pré-históricos! Que vamos fazer?» «Vamos fazer o seguinte-sugeriu o outro, preparando-se para correr.- Você fica aqui e aguenta o bicho, que eu vou espalhar a notícia pela Africa inteira».
Moral: Divulgar certas notícias também requer muita coragem.
Para que conste, não tenho notícia nenhuma para dar a não ser a resignação do Ratzinger, que era só mais um dos muitos papas de quem eu não gostava, mas também acho que nenhum deles teve conhecimento disso. Como nunca há bela sem senão: pela primeira vez, o Vaticano vai ter dois papas. Os beatos, habituados a chorar cada Papa que morre, arriscam-se a perder um espetáculo. Ninguém chora um papa reformado.
Como há leitores que não gostam destas confabulações, vou abordar aqui um tema que há muito me traz preocupado: desde os anos 80, num tempo em que o ICOMOS tinha alguma atividade, julgo não haver nenhuma intervenção posterior ao arremedo de arranjo que ao tempo foi feito. Refiro-me à “Real Fabrica de Ferro de Nova Oeiras”, situada na confluência dos rios Luinha e Lucala, perto da povoação de Cassoalala, a alguns quilómetros de Zenza do Itombe. A fábrica e a povoação de Nova Oeiras foram construídas por incumbência do Governador Inocêncio de Sousa Coutinho (1764-1772), veiculando a política pombalina de fomento industrial e de incremento da colonização. O governador tomou conhecimento por pombeiros da existência de “ricos minérios de ferro”, na região do rio Luinha, e “mandou fazer o seu aproveitamento em 1756, utilizando nessa fase experimental os processos de fundição e forja usados pelos ferreiros autóctones”.
Do que foi essa “antecipação demasiado ambiciosa para a sua época” ainda há cerca de pouco mais de vinte anos se podia observar dois troços do dique que represava o rio, o aqueduto condutor da água (de 22 arcos e 118 metros de comprimento), um grande compartimento para as rodas hidráulicas, um forno de fundição, uma ferraria com três armazéns e um canal para escoar a água. 
Paralelamente, foi edificada uma povoação que Sousa Coutinho denominou de Nova Oeiras (Pombal era Conde de Oeiras) e que para além de numerosas habitações contava com edifícios públicos diversos e a inevitável igreja. 
Quando o governador deixou o cargo, a Real Fábrica de Ferro de Nova Oeiras, (“feita com todo o desvelo e com algumas comodidades”),ficou deserta e caiu no esquecimento. A floresta foi ocupando o lugar que só foi reencontrado em 1925 e só conheceu alguma reabilitação em 1972, fruto da obstinação do arquiteto Fernando Batalha. 
Há umas décadas que não visito o que foi Nova Oeiras, mas da última vez que lá fui o que vi foi o remanescente (alicerces e escombros das construções) de um dos mais importantes conjuntos dignos de figurar no património reconstruído do futuro mapa da arqueologia industrial angolana.
Citando Millôr Fermandes “Já tenho idade quanto baste para não saber muitas coisas”.
Fernando Pereira
13/2/2013





Pensar e Falar Angola

domingo, 10 de fevereiro de 2013

256 - Ágora - Re(flexões)






Há mais de vinte anos que sou visitante da FITUR, Feira Internacional do Turismo, no parque de feiras de Madrid.
É uma das maiores feiras de turismo do mundo e serve sobretudo para aquilatar o que vai ser o ano do turismo numa economia mundial em recessão económica, em que os mais importantes fluxos de turistas são precisamente de países onde há mais problemas no quotidiano das suas economias.
A FITUR foi, este ano, uma deceção que não me surpreendeu pois via-se muito pouca agitação nos stands onde em anos anteriores fervilhava o movimento de compra e venda de produtos turísticos.
A INFOTUR lá colocou o seu habitual stand, com alguns cuidados supletivos em relação a outras mostras, principalmente com maior ênfase no grafismo das suas propostas e na simpatia do seu pessoal. Este facto acaba por representar uma aposta afirmativa dum País que quer ombrear com outros, numa indústria onde temos potencialidades, mas ainda muito longe de proporcionar ao visitante uma estadia com qualidade, agravada por preços bem diferentes do que se pratica noutros países limítrofes. 
Para além da excelência das propostas da maioria dos Países, através dos seus organismos reitores de turismo ao nível central e regional, redes de hotéis, companhias de aviação e agentes de viagens, há nestes eventos um crescente interesse em áreas que passaram a assumir uma importância não despicienda. Refiro-me ao crescendo na tentativa de mobilizar os turistas na defesa de alguns valores que foram esquecidos anos a fio pela indústria do turismo.
A aposta no turismo em ambiente saudável é já hoje uma obrigação trivial na oferta dos agentes de todo o mundo. Acrescente-se que, em muitos stands, a preocupação atual é demonstrar que, nos países onde se quer cativar o turista, tem que haver respeito pelos trabalhadores, esforço pela erradicação da miséria, respeito pelos direitos e garantias dos cidadãos e uma reprovação bem firme à exploração sexual de crianças e menores.
Mais que dispor de praias de areias finas e águas azuis transparentes, cada vez mais as pessoas olham para o ambiente que as rodeia no lugar onde passam férias ou momentos de lazer porque se tornaram sensíveis aos problemas sociais e não querem pactuar com situações que possam violentar as suas convicções ideológicas, religiosas, culturais ou outras. 
Angola tem que se preocupar em arrumar a casa primeiro, pois esta é a tarefa mais difícil para construir a sua indústria de turismo sustentável e com uma contribuição razoável para o PIB do País. 
Construir hotéis, resorts, marinas ou outras estruturas físicas para albergar visitantes acaba por ser o mais fácil, já que há capacidade de investimento por parte de empresários locais ou estrangeiros. A formação profissional terá que ser acelerada, e os profissionais deverão começar a ser pagos de forma digna, no contexto duma a atividade económica exigente.
Desburocratizar as entradas no País, acabar com o mercado paralelo nos aeroportos, desde o tipo que se oferece para nos carregar a mala, até ao que nos facilita a entrada a troco de uns cobres, depois de um desagradável leilão, e outras realidades que são evidentes a quem nos visita pela primeira vez. 
Acabar de vez com a discricionária e idiota proibição de tirar fotos a certos edifícios, por razões de segurança, é uma medida urgente porque na realidade com “googles earth” e sucedâneos só conseguimos envergonhar-nos quando alguém é detido porque “se presumiu que se tirou uma foto a qualquer lugar”.
Como se pode ver por alguns poucos detalhes, há um esforço tremendo para que o País venha a ter um turismo diferente do que vamos tendo, que se resume ao de “negócios” e ao de “saudade” de todos os que saíram na leva de 1975, agora romanceada de uma forma discutível no recente “Depois do Adeus”, série portuguesa da RTP sobre a ponte aérea que precedeu a independência da então República Popular de Angola e a reinserção em Portugal dos então chamados “retornados”.
Hei-de voltar ao tema que julgo merecer um conjunto de propostas que possam contribuir para que o País passe a ter uma montra que espelhe uma realidade acolhedora e de acordo com valores que queremos implantados no quadro político e cívico de Angola.

Fernando Pereira
4-2-2013 




Pensar e Falar Angola

domingo, 3 de fevereiro de 2013

255 - Ágora - PLANO QUINQUENAL CUMPRIDO





O Novo Jornal comemora o seu quinto aniversário e desde a sua criação procurou assumir-se como um jornal de referência no panorama da imprensa escrita angolana. 
Enquanto colaborador desde o primeiro número, não acho que conseguisse ser suficientemente imparcial para fazer uma abordagem sobre o percurso deste semanário, relativamente importante, porque julgo ser referenciado por muita gente, nos mais diversificados sectores de atividade. 
Com vários jornalistas premiados, alguns muito novos e com um futuro promissor pela frente, esta equipa que faz o Novo Jornal conseguiu começar a tratar de assuntos que não eram “atualidade” no quotidiano dos assuntos que são mediatizáveis no País.
Nasceu este projeto na euforia de uma Angola de crescimento económico enorme, o que augurava que os anos que se seguiriam fossem de uma prosperidade que o País já não vivia desde o dealbar da década de setenta, então colónia de Portugal.
Conseguimos mostrar que a essa euforia não correspondiam avanços inerentes a um desenvolvimento social harmonioso, e fomos, sem o enfatizar, dando relevo ao que de menos bom ia acontecendo no nosso País, sem que o jornal entrasse pelo facilitismo das parangonas que se transformam rapidamente em labelos de autênticos assassínios de carácter de pessoas e que, nalguns casos, de forma soez, tolheram carreiras políticas promissoras.
O Novo Jornal tem que crescer, mas tem que o fazer com otimização dos seus recursos humanos, que são dedicados, trabalhadores, mas que também devem assumir a humildade de que o futuro merece-se conquistando, e a vida de um jornalista faz-se passo a passo e com a modéstia que é apanágio de uma profissão mais vezes incompreendida e tolerada do que desejada. Napoleão Bonaparte dizia a propósito que “tinha mais medo de um jornalista que de um exército inteiro”.
Se me perguntarem o que falta ao Novo Jornal acabo por ter a sensação de que há muita coisa a melhorar e rubricas a ir incluindo para que mais gente nos leia e a sua base de idades seja alargada.
O Novo Jornal, por vezes, torna-se maçador quando pretende fazer uma grande reportagem. Digo-o como um leitor que até tem o privilégio de nele poder escrever o que pensa, sem nunca ver coartada qualquer opinião ou censurada qualquer crónica, ainda que de forma sub-reptícia, como já me aconteceu noutros órgãos de informação, que ao tempo se chamavam órgãos de difusão massiva.
Acho que deveria haver uma página de “mujimbice”, quase telegráfica, em que se passasse para o prelo algumas situações que se circunscrevem aos corredores do poder, ou aos restaurantes da cidade, e a maior parte das vezes com os pés na água no Mussulo ou nas salas de espera dos aeroportos de Luanda ou de outras cidades do mundo onde a Angola dos bons e maus negócios se movimenta, por vezes, com soberba em demasia.
Talvez neste quadro se desenvolvesse uma das maiores pechas do jornalismo angolano - falo de toda a informação - a quem falta a tradição do jornalismo de investigação. Já vamos aprendendo a ler melhor as informações que a Angop vai dando, já temos uma quantidade e qualidade maior de recursos a fontes que não tínhamos há uns anos, mas continuamos a funcionar com muitas “ofertas”, e as noticias que elas envolvem e volvem, sem nos preocuparmos muito na procura "da notícia".

É um trabalho duro para o jornalista, pois exige muita coerência de princípios e também uma solidariedade, não só retórica por parte dos superiores hierárquicos, mas sobretudo por parte de administradores, que não se devem alhear dos problemas do jornal. Mas a história, a solidez e o prestígio dos jornais fazem-se só com isto. O resto, todos adquirem, porque é o mais fácil.
Em determinada altura assistiu-se em Angola a “imitações” , ainda que algo artesanais de “Citizen Kane”, esse imorredoiro filme de Orson Welles de 1941, que é uma critica enorme aos barões dos “media”, que iam proliferando numa América que se preparava para dominar, no universo, o mundo da informação.
A maior parte desses projetos foram jazendo pelo caminho, com um corrupio de credores à espera do dinheiro que nunca irá aparecer. Outros para lá caminham e fazem o que é normal numa fase de estrebuchar: diminuem o número de páginas, o mesmo jornalista assina quatro ou cinco artigos com um nome diferente, mas indisfarçável porque os erros são os mesmos em todos os trabalhos, recorrem a notícias de mails, normalmente de duvidosa proveniência, e outros ardis e subtilezas recorrentes para manter o jornal à tona.
Já agora, em jeito de fim de festa, só me apetece dizer que o Novo Jornal é melhor que os outros porque nos tem a nós, e teve outros que saíram e que nos ajudaram a ser bons, e se quiserem saber a excelência desta equipa acaba por ser fácil, estamos todos na Ficha Técnica do Novo Jornal em que o único que não conta no grupo é o Guilherme Pereira Inglês. 

Fernando Pereira
19/1/2013



Pensar e Falar Angola

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Presidente defende regresso à formação patriótica

Sindicato dos Jornalistas Angolanos



JES fala dos ricos do MPLA e defende o regresso à “formação patriótica”

Postado em Actualidade, Politica - Por SEditor em Terça-feira, Janeiro 29th, 2013 Com No Comments » Edit
Santos2013Pela primeira vez o Presidente Eduardo dos Santos (JES), na suas vestes de líder do MPLA, reconheceu expressamente que uma parte das pessoas mais ricas de Angola são membros do seu partido, situação que em seu entender precisa de ser esclarecida no âmbito da estratégia do maioritário.
JES que falava sexta-feira última para os membros do Comité Central do MPLA, numa intervenção que foi transmitida em directo para todo o país, como se de uma mensagem à Nação se tratasse, considerou ser pertinente a abordagem desta problemática.
JES não adiantou, contudo, qualquer referência mais objectiva que permitisse ter uma noção da sua dimensão ou dos seus contornos.
Depois de constatar que a economia de mercado se está a consolidar em Angola com a crescente afirmação na sociedade dos “grandes proprietários e detentores de capital” e de admitir que “alguns dos quais” são membros do MPLA, JES convidou o partido a debruçar-se sobre as consequências políticas internas desta realidade.
“É pertinente” apontou, “que se clarifique o nosso pensamento político e se esclareça sobre os objectivos do  programa do MPLA para que todos, incluindo esses que referi, tenham consciência do rumo que seguimos e das suas responsabilidades enquanto militantes na concretização do programa do partido“.
O comunicado final da reunião do CC do MPLA que adoptou o discurso do Presidente Eduardo dos Santos como “documento de trabalho para todos os militantes”, não faz qualquer alusão mais explícita a esta orientação.
Fica assim por saber como é que em concreto esta reflexão será levada a cabo, numa altura em que a grande notícia a este respeito está relacionada com o facto da sua própria filha, a empresária Isabel dos Santos, ter sido identificada pela revista norte-americana Forbes como sendo a primeira mulher africana a atingir o patamar das fortunas bilionárias.
Mais concreto foi, entretanto, Eduardo dos Santos quando na mesma ocasião defendeu uma polémica reintrodução no sistema de ensino geral de matérias relacionadas com os valores políticos que o seu partido defende, à semelhança do que acontecia durante os primeiros anos da República Popular e do regime marxista do partido-estado.
“Ao fazermos cessar esta formação dos nossos militantes e ao retirar-se a carga política e patriótica dos programas do sistema nacional de ensino a todos os níveis, contribuímos para desarmar a consciência dos nossos quadros e das novas gerações de adolescentes e jovens que deixaram de acumular conhecimentos importantes para compreender melhor o país e o mundo em que vivemos”- lamentou-se.
Nesta conformidade José Eduardo dos Santos defendeu a importância de se “conceber e introduzir um novo modelo de formação patriótica e política no nosso sistema de ensino para que os alunos e estudantes conheçam as tradições e a história do nosso país e os princípios e valores políticos morais, cívicos, éticos e culturais em que assenta a sociedade angolana”.




Pensar e Falar Angola

domingo, 20 de janeiro de 2013

254 - Ágora - OH MUSA DO MEU FADO…




Acompanhei, de forma quase militante, os trinta e seis episódios de “ A Guerra”, série documental coordenada pelo Joaquim Furtado, um dos mais prestigiados jornalistas portugueses, presente na “história” do 25 de Abril de 1974 por ter lido os primeiros comunicados do MFA a partir dos estúdios da Rádio Clube Português em Lisboa.
A série é, provavelmente, o trabalho mais honesto que se fez sobre um tema que só há pouco tempo começou a ser possível discutir e tratar nos media portugueses sem os constrangimentos que o mantiveram como um tabu na sociedade, nos meios de comunicação e na classe política em Portugal e nas ex-colónias. 
Durante dez anos, Joaquim Furtado e uma multidisciplinar equipa, procuraram fazer um trabalho isento, ouvindo centenas de depoimentos, manuseando milhares de documentos. Finalmente, ficou um legado de grande valor e rigor jornalístico propiciador de múltiplos caminhos.
Depois de um trabalho em livro de João de Melo,” Os Dias da Guerra”, que inclui a fotobiografia da “Guerra Colonial” editada em 1988 pelo Circulo dos Leitores, e outros depoimentos avulsos em livros que têm aparecido no universo editorial da lusofonia, esta série é, indiscutivelmente, o melhor que se conseguiu fazer.
Acaba com mitos que nos foram sendo servidos anos a fio pelas forças em confronto, e de certa forma repõe a verdade de algumas coisas. O proselitismo com que abraçávamos algumas causas pode ser abalado aqui e ali por um ou outro depoimento, mas, em rigor, esta série não vai alterar, no essencial, a convicção de que o que alguns de nós defendíamos estava certo; o que provavelmente estaria errado era sonharmos que podia ser de outro modo ou, como dizem os antigos da resistência ao colonialismo: “Não foi nada disto que combinámos”.
Alguns dos depoentes já faleceram, mas deixaram testemunhos importantes que irão certamente alterar alguns aspetos da histografia oficial de Portugal e ex-colónias, principalmente no que foram os anos do fim do regime de Salazar e Caetano.
Vi a série toda, revi alguns episódios, principalmente os que tinham a ver com a realidade angolana. Surpreenderam-me alguns depoimentos de certas pessoas, fora da lógica da linguagem oficial. Situaram-se num contexto de abjurar algo do seu discurso circunstancial e, simultaneamente, num exercício catártico relativo a situações com que foram confrontadas, numa realidade que nada tinha a ver com o quotidiano dos que hoje olhamos para os episódios de um trabalho magnífico, e que tenta ser sério e o mais revelador possível do cinzentismo dos dias do fim do colonialismo.
O episódio trinta e seis, o último, todo sobre Angola, mostra a situação militar no dealbar dos anos setenta, as divergências no seio do MPLA, a estreita colaboração da UNITA com as autoridades coloniais e a quase nula atividade da FNLA, restringida aos seus santuários no ex-Zaire. 
Para além das intervenções de múltiplas figuras, há uma realidade que, involuntariamente, fica a pairar depois de ouvirmos todos os depoimentos: a de que " a guerra em Angola estaria militarmente ganha, já que as atividades dos movimentos eram incipientes e demonstravam uma desorganização enorme, aliada a uma desmoralização evidente entre os guerrilheiros mal preparados, mal equipados, desnutridos e sem capacidade combativa.” 
Curiosamente, apenas Adolfo Maria diz: “ Uma guerra de guerrilha não se ganha”, e também um capitão dos Flechas, Tropa da PIDE-DGS, diz: “Nós movimentávamo-nos à vontade em toda a Angola, mas os guerrilheiros também”. Tudo o resto atesta a supremacia, ao que se julga evidente, da tropa portuguesa no teatro de guerra angolano.
Há no conjunto dos episódios uma questão que acabou por me escapar sobre a guerra colonial, e que tem a ver com a necessidade de manter o recrutamento regular de mais de 160.000 efetivos para três teatros de guerra, num Portugal em que se emigrava em catadupa, e onde a maior parte dos emigrantes eram jovens ou refractários da tropa. Acho que a série peca por isso, já que foi "a pergunta não feita" e cuja resposta teria de certa forma dado outro conteúdo à discussão sobre o tema. Em 1974, Lisboa, Porto, Paris, S. Paulo, Luanda e Lourenço Marques eram as maiores cidades portuguesas do mundo em população, o que evidenciava a enorme emigração portuguesa.
Aqui terá estado o verdadeiro “Nó Górdio” do fim da perpetuação militar portuguesa em África, e tudo o resto não passa de justificadilhos. A guerra colonial estava perdida do ponto de vista político e o colapso militar viria mais cedo que tarde, porque a retaguarda estava exangue de gente para mobilizar. 
Em jeito de sugestão, agradeço a leitura deste texto com o fundo musical do “Fado Tropical” de Rui Guerra e Chico Buarque.

Fernando Pereira
15/1/2013



Pensar e Falar Angola

domingo, 13 de janeiro de 2013

253 - Ágora - No Antigamente, no Testamento







"Com cento e trinta anos Adão gerou um filho... e pôs-lhe o nome de Set. Após o nascimento de Set, Adão viveu oitocentos anos e gerou filhos e filhas. Ao todo, a vida de Adão foi de novecentos e trinta anos; depois morreu. Génesis, 5.3,4,5”. Passados uns anos fundou-se o MPLA.
O Antigo Testamento não teve continuidade e é muito lido e relido mormente por um conjunto de tipos vestidos de preto, com chapéus esquisitos donde saem umas tranças tubulares e a abanarem a cabeça, numa imitação paupérrima de Parkinsónikos, virados para um muro desgrafitado de todo.
Hoje estou numa de desopilar o fígado depois do massacre das noites festivas que fui tendo neste Dezembro de passagem para um Janeiro que cada vez promete menos novidades a não ser a expectável fraca prestação de Angola no CAN, porque na realidade nada se faz para inverter o estado geral a que está a chegar o desporto angolano.
O futebol é gerador de uma enorme movimentação popular e devia dar-se uma maior atenção aos aspetos organizativos e à formação. Mas hoje não estou muito para aí virado, embora contente pelo Recreativo do Libolo contratar o “jovem” João Tomás, o que poderá ser uma mais-valia para o meu 1º de Agosto aproveitar, para ver se este ano é que é! Parece a linguagem habitual dos tipos do Benfica de Lisboa, e que os do Sporting já esqueceram perante o poderio do Futebol Clube do Porto, que não anda à procura de carcaças para reforçar o plantel. Um dia destes voltarei ao tema!
Numa passagem pela imprensa, o habitual: quem apoia o governo acha que Angola está colocada, a nível de desenvolvimento económico e social, entre os da Noruega e do Liechtenstein, com tudo a funcionar no pleno. Quem desapoia, acha que Angola está mais ou menos como a Somália em que tudo é uma desgraça, cada angolano que seja chefe é um corrupto e todos os epítetos disponíveis na Priberam, agora que o Torrinha passou de moda. Cá está a imagem que vamos tendo num Janeiro monótono, em que, depois das visitas dos jornalistas às barragens que abastecem Luanda, se descobriu o que nunca deveria ter sido feito e se fez, e o que estava planeado é que se devia ter feito a tempo e não quarenta anos depois, no caso o alteamento de Cambambe, um projeto previsto nos célebres planos quinquenais de Marcelo Caetano para os anos setenta. Um recadinho de quem não percebe nada de barragens, albufeira e águas: não se esqueçam de fazer a ponte entre as duas margens, antes de a albufeira encher, porque a que está a ligar as duas margens do Kuanza a montante vai ficar debaixo de toda a água quando a albufeira subir. Não me tentem convencer que vão colocar uma jangada para a malta ir até ao Wako-Kungo e Huambo!
Lá estou eu a falar de coisas sérias, e de facto lastima-se que o Luandense já não consiga viver sem aquele zumbido nos ouvidos que quando o não sente acha estranho porque os geradores não estão a funcionar. Faz-me lembrar a história dos índios que viviam ao pé das cataratas do Niagara e que tinham as orelhas grandes e a testa recuada. Todas as manhãs, quando acordavam, faziam concha no ouvido para perceberem que ruído era aquele e puxavam a orelha para tentar ouvir melhor; mal percebiam que era o barulho da água, batiam com a palma da mão na cabeça e diziam: “ Possa, esqueci-me, são as cataratas do Niagara”!
Comecei com o Antigo Testamento, que, numa leitura de uma pessoa pouco abiblicada, faz “Salo ou os 120 dias de Sodoma” do Passolini numa verdadeira canção de embalar do tipo “Vitinho”, do meu virtuoso amigo e ex-colega do Salvador Correia José Maria Pimentel. Vou acabar com mais uma citação, que me remete para as demolições para se fazerem as cidades novas e inabitadas ou os condomínios fechados tão na moda na cidade que cada vez é menos de alguém! 
" O Senhor disse a Moisés: ordena aos filhos de Israel que expulsem do acampamento todo o leproso, todo o que tiver um fluxo e todo o que tiver sido contaminado por um cadáver. Expulsai-os, sejam homens ou mulheres, afastai-os do acampamento, para que não manchem estes recintos nos quais tenho a Minha morada."
Números -5.2,3.
Fernando Pereira
7/1/2013





Pensar e Falar Angola

domingo, 30 de dezembro de 2012

252 - Ágora - Carta a Pedro Alexandrino da Cunha!





Uma das habituais partidas que se faziam aos que partiam para Luanda durante o ultimo quartel do seculo XIX e a primeira metade do seculo XX era a carta de recomendação para Pedro Alexandrino da Cunha.
Pedro Alexandrino da Cunha teve muito justificadamente direito à primeira estátua edificada nas colónias portuguesas, resultado de uma recolha de fundos entre os comerciantes de Luanda para homenagear o governador-geral de Angola entre 1845 e 1848. Entre outras coisas que marcaram indelevelmente a sua administração foi a regulamentação profícua de vários sectores da cidade, desde a recolha do lixo, á presença dos animais nas ruas, iluminação, horários do comércio e um sem número de posturas que tornaram a cidade com outra ordem e com um pouco mais de vida. Com a criação do “Boletim Official” passou a ser considerado o pioneiro da Imprensa Angolana.
Quando da deposição dos símbolos do colonialismo as estátuas foram justificadamente apeadas das suas peanhas, pois simbolizavam o fim de um tempo que se queria de mudança, levaram todas o mesmo destino exceção ao Monsenhor Alves Da Cunha, um misto de Rasputine, Calvino e Quirino de Jesus. Foram todas para a fortaleza, algumas sem justificação como a de Tomás Vieira Da Cruz, poeta nascido em Portugal que versejou a angolanidade como poucos e o caso do Pedro Alexandrino da Cunha que se elevava no meio de uns quiosques horríveis em frente ao renovado edifício da Estação Central dos Correios.
Nesse tempo todos os desembarcados de Portugal com os parcos haveres em malas de cartão andavam pelas portas do mar na busca incessante o Sr. Pedro Alexandrino da Cunha. As portas do mar eram precisamente no largo fronteiro aos CTT, onde uns gasolinas faziam o desembarque de pessoas e bens para os navios que ficavam fundeados no meio da baia de Luanda. 
O luandense com a sua prosápia de gozação permanente ia dizendo aos “desembarcados” que “esperassem por ali que ele não demoraria”, que “devia ter ido lá cima tratar de alguma coisa” apontando para a peanha, “Era um homem muito ocupado com as pombas”, “Gostava de ver os flamingos”, na realidade era um verdadeiro gozo o que faziam às gentes que vinham de Portugal no sonho de uma terra onde tudo sairia rico, chefes de qualquer coisa, e tudo o que os 18 dias de viagem ajudavam a alimentar ao muito que se ouvia nas aldeias do pobre interior de Portugal dominado pela padralhada e pelo caciquismo. 
Era o primeiro contacto com a terra, e alguns ainda pagaram dos seus magros haveres a uns maduros para conseguirem chegar à fala com o Sr. Alexandrino, que objectivamente ninguém sabia o que fazia, mas pela forma como contaram e a forma como falavam em Luanda tinha que ser alguém poderosamente rico.
A alguns sortudos mostravam logo quem era o Pedro Alexandrino da Silva, e a deceção era a que se imagina, mas imaginem os requintes de malvadez que havia quando lhes diziam que só no dia seguinte podiam ser recebidos e ei-los a ser levados para tugúrios em pátios de comerciantes para passarem a noite. Esses espaços foram durante seculos lugares de “armazenamento” de escravos para depois serem enviados para S. Tomé, Brasil e América Central.
Quando se davam conta do logro, era o bom e o bonito, mas também quem chegava não lhe apetecia ser gozado e acabava por engolir em seco e esperar a oportunidade de fazer a outro o que lhe tinha sido feito.
Com a inauguração do cais acostável no início dos anos 50, a carta a Alexandrino caiu em desuso e ainda foi tentada uma carta a Diogo Cão, que tinha uma estátua de um mau gosto que rivaliza com algumas que os norte-coreanos “plantaram “ um pouco por toda a Angola, mas como era uma figura mais conhecida não permitiu as “patifarias” que durante anos encheram o anedotário da pacata urbe.
Havia ao tempo um comboio que fazia a ligação entre os cais das colunas e a estação de caminho-de-ferro do Bungo, e que corria quase toda a marginal. Também terá havido uma fracassada tentativa de copiar as praias europeias que tinham uns pequenos comboios para levarem os banhistas às praias, mas esse “comboio bébé” que fazia o percurso entre a ermida da Nazaré e a Igreja do Cabo, teve uma efémera existência, apesar da tentativa de o fazer chegar à Praia do Bispo, onde hoje está a ser construída uma imitadela mista de Yamoussoukro e aquela enormidade Ceausescada de Bucareste.
Se não nos virmos antes, um Bom 2013, e pede-se aos portugueses expatriados recentemente que façam chegar a carta ao Pedo Alrexandrino da Cunha, e não andarem a dizer em todo o lado que em Angola só há corruptos! Primeiro porque não é verdade e depois porque não é correto para quem lhes dá trabalhinho. Só isto!
Uma nota de rodapé: Já não é a primeira vez que peço que coloquem lá a estátua, repito o pedido em época festiva. Façam de conta que é uma homenagem ao Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins!

Fernando Pereira
17/12/2012



Pensar e Falar Angola

domingo, 23 de dezembro de 2012

251 - Ágora - É mais ou menos isto!





Num tempo não muito distante aproveitava o “Dia da Família” para enviar uns postais a amigos, que raras vezes via e nessas circunstâncias aproveitava para escrever umas palavras com uma carga mais emotiva que o vulgar “boas festas” ou outras frases feitas adaptadas à época em curso.
O aparecimento do correio electrónico e as animações em diferentes formatos permitiram-me começar a escrever menos e a enviar “felicitações “ a gente que mal conheço e que em determinadas circunstâncias começando a conhece-los melhor desejo-lhes precisamente o contrário.
Aproveitei alguns artigos regulares para dar motes e remoques a algumas situações, na expectativa que o espirito nataleiro não deixasse os destinatários aborrecidos comigo, mas nem esse objetivo foi conseguido porque toda a expectativa está num tempo em que o enquadramento prandial concita a maior parte das preocupações e isto de missas do galo, árvores de Natal e outros artefactos passam para segundo plano.
Dizia com alguma piada um amigo meu que o tempo do Natal, que eu gosto mesmo de insistir dizer que é o “Dia da Família”, tem a sua atividade central de comemorações no “4 de Fevereiro”. É provavelmente a maior homenagem que a áspora, a diáspora, os patriados e os expatriados fazem à data da eclosão da luta armada em Angolano já distante 1961.
Dos idos tempos das caravelas, das missangas, tecidos, espelhos e uma cruz transportada por um missionário a prometer o céu a quem se recusasse a ser bígamo, trígamo,quadrígamo etc. , o que hoje assistimos é o pecado da gula consubstanciado no bacalhau, azeite, vinho, frutos secos, etílicos diversos, bolos e outras iguarias tão distantes dos nossos tempos das dificuldades quotidianas de todos nos primeiros tempos da independência.
Para o nosso continente a recente decisão do Bento, não o de Luanda, mas o do Vaticano, o bairro de 14ha no centro de Roma, de acabar com a vaca e o burro acabou por ser uma medida de muito bom senso, pois evitou-se um dos maiores problemas dos presépios ao vivo. De um momento para o outro começaram a proliferar em escolas, clubes, centros de convívio, e outros locais públicos presépios, o que é estranhável num país constitucionalmente consagrado como laico. Que se presepeteie nas igrejas, seminários e colégios de frades e madres nada tenho a opor, agora imporem isso na sociedade civil é um pouco de descaramento e mais um claro desrespeito à liberdade individual.
Pior que isso é mesmo destruir escolas, teatros e salas de espetáculos para construir arranha-céus para empresas majestáticas, algumas delas em que os fundadores nasceram na roda…da sorte!
Há um pedaço final do “Mayombe” do Pepetela que releio todos os anos, quase um ritual desde o dealbar dos anos 80, não sei se por catarse a algo que ainda não descobri: “….e vejo quão irrisória é a existência do indivíduo. É, no entanto, ela que marca o avanço no tempo. Penso, como ele, que a fronteira entre a verdade e a mentira é um caminho no deserto. Os homens dividem-se dos dois lados da fronteira. Quantos há que sabem onde se encontra esse caminho de areia no meio da areia? Existem, no entanto, e eu sou um deles. Sem Medo também o sabia. Mas insistia em que era um caminho no deserto. Por isso se ria dos que diziam que era um trilho cortando, nítido, o verde do Mayombe. Hoje sei que não há trilhos amarelos no meio do verde.”
Cada ano que leio sinto-o de forma diferente, o que de certa forma me liberta e tolhe. Porque já não sou jovem e estou livre da certeza que sei de tudo e já me vou confrontando em que antigas certezas são abaladas pela teimosia dos factos e como eles são irrefutavelmente teimosos só passo a colecionar dúvidas e sem respostas tangíveis começam a afigurar-se preocupantes.
Como é uma época de conciliação e reconciliação segundo dizem, e de facto não estou para aí virado vou-me ficar por aqui porque mais não fiz que juntar o capim seco para deitar o fósforo, mas também começo a sentir que não envelhecemos, mas sentimos passar os anos e cada vez mais a gostar dos da “Família”, dos que gostam mesmo do “Dia da Família”.
Anataliai-vos bem gente da minha terra!
Fernando Pereira
18/12/2012



Pensar e Falar Angola

RITA GT em Viana do Castelo

https://youtube.com/shorts/qZkb4CfXTZQ?si=3K65JJEr5VQqsZZS Ao longo dos últimos dois anos tive a oportunidade de desenvolver “8”, uma obra d...