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domingo, 24 de maio de 2020

ENTREVISTA COM O DR. JOÃO VIEIRA LOPES



ENTREVISTA COM O DR. JOÃO VIEIRA LOPES

Dia 18 de Junho de 2010


Presenças: João Vieira Lopes, Cristina Ataíde e Pinto, Carlos Ferreira


Entrevista com o Dr. João Vieira Lopes

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Pensar e Falar Angola

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Há "lobbies" em Portugal para "desestabilizar" Angola

Há "lobbies" em Portugal para "desestabilizar" Angola

por Lusa
Marcos Barrica
Marcos BarricaFotografia © Howard Burditt / Reuters
Marcos Barrica, embaixador em Lisboa, deu uma entrevista que foi hoje publicada no Jornal de Angola em que afirma haver em Portugal quem passe "desinformação" para prejudicar o seu país.
O embaixador angolano em Lisboa, Marcos Barrica, definiu hoje Portugal como "uma placa giratória onde há muita intoxicação de informação" e onde "lobbies" passam "informação intencionalmente negativa" sobre Angola para "desestabilizar o país" e "desacreditar as instituições".
Numa entrevista hoje publicada pelo estatal Jornal de Angola (clique AQUI para ver), o diplomata diz que as relações entre Angola e Portugal "são relações intensas, favoráveis e recomendam-se" e assinala que foram "celebrados importantes acordos, como, por exemplo, o acordo de facilitação de vistos entre os dois países".
No entanto, "Portugal é uma placa giratória onde há muita intoxicação de informação e que nem sempre é verdadeira. Há muitos 'lobbies' e focos que estão a passar informação, intencionalmente negativa, sobre Angola para desestabilizar o país, para desacreditar as instituições", afirmou Marcos Barrica.
A resposta do embaixador vem na sequência de uma outra consideração acerca da comunidade angolana em Portugal, em que Marcos Barrica considera que existem angolanos "que conhecem melhor a nova Angola e há aqueles que desconhecem, porque as fontes de informação são diversas", embora a missão diplomática tenha "vindo a passar uma informação real".
Na sequência desta resposta, o diplomata é questionado pelo Jornal de Angola acerca das fontes de informação que refere.
Apesar da "intoxicação de informação" que considera existir, com "lobbies" a "passar informação, intencionalmente negativa", para "desestabilizar" o país e "desacreditar as instituições", o embaixador diz que "há um trabalho que está a ser feito, na medida do possível, de modo a que se possa dar informação credível e real sobre o que se passa em Angola".
Marcos Barrica não concretiza quais são os "lobbies" a que se refere.
Na mesma entrevista, o embaixador afirma que os vistos mais concedidos por Angola a portugueses "são os vistos ordinários, dos que vêm em visita", enquanto "os cidadãos que pedem vistos extraordinários vêm para muitos fins", nomeadamente "explorar o mercado de emprego ou para negócios".
O diplomata diz que o recente acordo de facilitação de vistos "veio facilitar, dada a intensidade migratória e a circulação dos cidadãos dos dois países".
"Há muita solicitação de pessoas que querem vir trabalhar em Angola. Isso resolve-se no contexto dos vistos de trabalho, que também foram acautelados no novo acordo de facilitação de vistos que foi assinado. Estes vistos de trabalho são vistos de curta duração, que não exigem longo tempo de permanência e trabalhos de longa duração", afirmou.
Os portugueses que mais procuram Angola profissionalmente são sobretudos da área da construção, indústria, serviços, indústria extrativa, serviços de telecomunicações e transportes, ciência e tecnologia, além de "professores nas academias, porque há uma intensidade nas relações entre as universidades", apontou o embaixador.
O diplomata fala ainda dos reflexos da crise em Portugal na comunidade angolana, no seio da qual afirma existirem "situações de grandes dificuldades para obter emprego", com "empregos temporários" e "sazonais".



Pensar e Falar Angola

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Fernando Pereira Entrevista Mário Palma


MÁRIO PALMA: A SUSTENTÀVEL IDEIA DE VENCER / Novo Jornal / Luanda 2-9-2011




O Novo Jornal (NJ) deslocou-se a Coimbra para entrevistar Mário Palma, o mais titulado dos treinadores angolanos, que levou a selecção portuguesa pela segunda vez na história do basquetebol luso à fase final do campeonato da Europa de basquetebol, a disputar na Lituânia.

Esclareça-se que esta entrevista foi feita durante a primeira fase do campeonato africano de basquetebol a disputar em Madagáscar, e a pedido do entrevistado evitou-se que se fizesse qualquer referência à selecção angolana que defende o título.

NJ- Mário Palma recorda-se o título de 1980, que afinal foi o primeiro de 27 títulos conquistados em Angola, entre os quais seis campeonatos africanos seniores?

MP- Lembro-me perfeitamente desse campeonato africano de juniores em 1980 pelo entusiasmo de jogadores, técnicos, dirigentes e publico que permitiu que Angola conquistasse o seu primeiro campeonato continental, que foi um poderoso incentivo para colocar o basquetebol como a modalidade de maior visibilidade no País. Quem pode esquecer aquela final épica na Cidadela?

NJ- Regressa ao “1º de Agosto” num dos momentos piores do clube no contexto dos campeonatos de basquetebol. Admite que é um desafio com alguns contornos de risco?

MP- Quem anda em competição sabe que há momentos em que se ganha e momentos em que se perde; Faz parte do nosso quotidiano de treinador, e quando temos razões de sobra que o nosso trabalho é sério, é apoiado, é profissionalmente assumido com muitas certezas que ao longo da carreira se tornaram inabaláveis, permite-me aceitar o desafio num contexto que certamente iremos dar muitas alegrias a um clube para quem tenho uma dívida.

NJ- Dívida? Explique lá isso.

MP- Em 2005/6 pela 1º vez em toda a minha vida senti que desiludi todos que comigo trabalhavam, principalmente os jogadores e pessoas do clube com quem tinha grande afectividade. Conjugaram-se uma série de factores desde problemas de saúde, aliado a um desequilíbrio emocional , que não conseguia dar-me uma estabilidade indispensável para um trabalho profícuo e que desse ao clube os títulos que todo o seu empenho na modalidade exigiam.

NJ- Não estará à espera que o seu regresso seja do agrado de todos?

MP- Claro que não, e não seria desejável que isso acontecesse, pois o monolitismo é sempre redutor em todas as vivencias colectivas, e só a divergência e a crítica permite melhorar o nosso desempenho no campo profissional e no nosso comportamento inserido numa sociedade de valores onde a seriedade e a ética tem que ser traves mestras de todo o edifício onde vivemos. Regresso a Luanda disposto a trabalhar e promover algum debate, porque os meus quarenta e cinco anos de Angola atribuem-me responsabilidade que acho que não devo alijar. Não estou disposto a abrir guerras pueris, mas também não estou disponível a que ser alvo de avaliações soezes de carácter, quando a única crítica que tenho que admitir tem que ser fundamentadas pela discordância das minhas opções em jogo, pois sou um técnico qualificado, e digo-o com justificada vaidade que tenho um palmarés que poucos a nível mundial se orgulham de o ter.





NJ- Voltando ao seu regresso ao “1º de Agosto”, que expectativas traz, quando já ganhou no clube tudo que havia para ganhar enquanto técnico?

MP- Costuma ser lugar-comum dizer-se que não se deve voltar ao lugar onde se foi feliz. Nunca devia recusar o convite feito para continuar às pessoas que insistiam comigo para ficar em 2006 e aos que afectivamente estou ligado .O Lutonda dizia insistentemente: “ O Prof não pode sair daqui” e expressava bem o carinho de todos, que eu provavelmente ao tempo avaliei de forma demasiado superficial, mas foi assim!
Quero colocar o “1º de Agosto” no seu lugar de topo no basquetebol angolano e quero ajudar a desenvolver estruturas que ajudem o clube a renovar-se e simultaneamente a formar jogadores, técnicos e dirigentes que o potenciem como o maior clube angolano de basquetebol.

NJ- O Mário Palma está a dar uma entrevista defensiva, sem querer falar do basquetebol angolano, selecção, clube e técnicos, a maior parte dos quais trabalharam consigo enquanto jogadores e começaram consigo como técnicos.

MP- Admita que seria deselegante da minha parte fazer abordagens críticas à FAB, à selecção, a técnicos ou jogadores, isto para me circunscrever aos agentes activos do basquetebol. Tenho as minhas ideias, partilho pontualmente as minhas concepções, mas acho que não é importante para o basquetebol angolano abrir guerras artificiais, autofágicas que apenas beneficiam os nossos adversários e fragilizam o muito de bom que se tem feito no País no domínio desportivo. Penso que por vezes exigir-se-ia à FAB uma melhor política de comunicação, de forma a dar visibilidade a um trabalho esforçado e dedicado do Gustavo da Conceição e seus colegas de direcção.
Conheço três gerações de jogadores ganhadores de Angola, treinei a maior parte deles, naturalmente que tenho que ter opinião, o que não devo é antes de chegar mandar recados, porque isso seria uma prática condenável. Admito sem rebuço que o Olimpio é potencialmente um dos melhores jogadores do Mundo na posição 2, como Lutonda que tem 40 anos e o Carlos Almeida deveriam ter sido convocados para a selecção nacional. Está a ver que não fujo a nada, mas há momentos para tudo, e este é o momento para regressar e trabalhar no propósito de alcandorar o 1º de Agosto aos patamares cimeiros do basquetebol africano.

NJ- E a selecção de Angola? Pensa um dia voltar a sentar-se como timoneiro da selecção?

MP- Sou um profissional de basquetebol, já passei por muito sítio, por isso nunca ponho de lado a hipótese de novos desafios ou repetir situações vividas com sucesso. Neste momento tenho um contrato com a selecção portuguesa que termina em Setembro de 2012. A selecção de Angola tem um corpo técnico a trabalhar, por isso parece-me extemporânea a pergunta. “ O Caminho faz-se caminhando” como dizia o poeta espanhol António Machado.

NJ- Na minha opinião já devia ter sido dada a nacionalidade Angolana ao Mário Palma, não apenas pelas suas décadas em Angola, mas também por ter sido obreiro de grandes alegrias que Angola vem vindo a ter em termos desportivos há trinta anos. Que expectativa leva para uma Angola, diferente da que deixou em 2006?

MP- Gostava de ser cidadão angolano, e também partilho consigo a ideia que o mereço, mas isso não me cabe a mim resolver, ou melhor talvez venha a pedi-la, porque afinal sempre aqui vivi e o tempo que cá não vivi, vivia por aqui.
No meu regresso vou gostar de visitar o País todo sem constrangimentos de qualquer ordem. Ir por estrada a locais onde já não vou há mais de trinta e cinco anos e que me marcaram na minha juventude vivida numa Luanda crioula dos anos 50 e 60. Vai ser um complemento excelente do basquetebol e revigorante para mim que sempre quis ver este País em paz e a desenvolver-se como parece acontecer a um ritmo interessante.

NJ- Muito obrigado e felicidades no seu “Reviver o passado no 1º de Agosto”, e fica já aprazada nova conversa no fim da época para uma avaliação.

Fernando Pereira
Hotel Tivoli Coimbra 22/8/2011



Pensar e Falar Angola

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Entrevista ao Novo Jornal de 27-05-2011 a Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus







Dalila Cabrita Mateus é uma insigne investigadora, doutorada magnum cum laude em História Moderna e Contemporânea, com interessante obra publicada sobre o colonialismo, as lutas de libertação nacional, a repressão, a guerra colonial, a independência das ex-colónias. Recentemente deu à estampa uma obra polémica sobre o 27 de Maio de 1977 em Angola, a Purga em Angola. Obra de que é co-autor seu marido, Álvaro Mateus, o qual, ao longo da vida, foi quadro político, jornalista, publicista, advogado e professor, tendo sido, nos anos da ditadura, dirigente da Casa dos Estudantes do Império e coordenador do jornal clandestino Anti-Colonial, em cuja redacção participaram angolanos e de que saíram 11 números, o primeiro em 1964 e o último em 1969. 


Trinta e quatro anos depois do infausto “27 de Maio de 1977” acha que se pode começar a fazer a história ou ficarmo-nos pelas “estórias”?
No que nos respeita, não fazemos «estórias». E mais de 30 anos decorridos sobre os acontecimentos são tempo mais que suficiente para a História Contemporânea.

Para o livro PURGA EM ANGOLA consultámos todo o material que nos foi possível (e duvidamos seriamente que existam, em Angola, arquivos oficiais sobre estes acontecimentos).

Recolhemos 28 entrevistas e declarações, depois transcritas para umas 700 páginas. Considerando que, para a compreensão do que ocorrera, era necessário recordar a história do MPLA, consultámos 41 processos dos arquivos da PIDE e 1 processo do arquivo de Oliveira Salazar. No Arquivo Histórico Diplomático do Ministério português dos Negócios Estrangeiros (fonte de informações do governo português no que respeita aos processos ocorridos no pós independência), consultámos mais 16 processos. Consultámos, também, vários sites na Internet. Lemos uma dezena de cartas particulares, assim como uma série de documentos do MPLA e dos intervenientes nos acontecimentos. Visionámos uma série de filmes, alguns deles da Televisão Popular de Angola. Lemos mais de meia centena de livros e duas dezenas de jornais e revistas.

Muito deste material (designadamente as entrevistas e declarações gravadas e transcritas, os documentos, as cartas, os filmes, os jornais e revistas de Angola) foi avaliado por técnicos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo e ali depositado na «Colecção Dalila Cabrita Mateus», para consulta nos prazos legais, até porque algumas pessoas, para sua segurança, pediram sigilo da sua identidade enquanto vivas, o que os arquivos respeitarão.

Nem se diga que não ouvimos todas as partes. Citamos passagens de dois livros, vários discursos, três artigos e algumas cartas de Agostinho Neto. Entrevistámos o senhor Dino Matross, secretário-geral do MPLA, assim como o senhor Agostinho Mendes de Carvalho, antigo governante e deputado do MPLA. Citamos passagens de livros e declarações de Viriato da Cruz, Mário Pinto de Andrade, Gilberto da Silva Teixeira (Jika), César Augusto (Kiluanji) e Iko Carreira. Citamos, também, vários documentos do MPLA. E citamos, finalmente, a obra de Jean Michel Mabeko Tali, autor do único trabalho académico de fôlego sobre o MPLA.

Podemos não conhecer a verdade completa sobre os acontecimentos do 27 de Maio de 1977. Mas cremos ter chegado a uma verdade possível, que deve estar muito perto da realidade.

Dito isto, fazemos uma advertência. O historiador não é um juiz, nem enuncia verdades absolutas, dogmas como na religião. As conclusões a que chega, com base na análise de uma enorme quantidade de documentação, estão sempre sujeitas à revisão e à crítica, até a refutações, com base em novos documentos. E desde que exista seriedade nos métodos, nos processos e no uso das fontes.

Sente que a “Purga em Angola”, obra envolta em grande polémica, funcionou como algo de catártico para ambos os lados de algo que os angolanos parecem mesmo querer esquecer?


 Não creio que os angolanos queiram esquecer. Se assim fosse, o nosso livro não estaria já na 5ª edição e muitos angolanos não o teriam adquirido e lido. Esquecer o que se passou seria, aliás, consagrar um processo totalitário de construção da História de Angola, concebida como acontecimento sem testemunhas.

Hegel dixit “se a teoria é desmentida pelos factos pior para os factos” . Como acha que consegue colocar isso no contexto do “27 de Maio de 1977” e na “Purga em Angola”?

Na nossa opinião, só recuperando a «Memória» do que aconteceu se poderá acautelar o presente. O exemplo das injustiças ontem praticadas servirá para prevenir as que amanhã possam vir a ocorrer. E quando os familiares dos milhares de mortos e desaparecidos souberem onde estão as ossadas dos seus, terão, finalmente, a possibilidade de fazer o luto da sua dor. É o mínimo que se deve fazer para que possam, finalmente, descansar em paz.

Passados quase quatro anos da primeira edição do vosso livro “Purga em Angola”, não acha que há uma maior serenidade de todo um conjunto de pessoas para uma abordagem mais fundamentada em factos e menos em emoções, e que permita visões mais esclarecedoras de uma data que marcou indelevelmente de forma negativa o dealbar de Angola enquanto nação?


 Trinta e quatro anos decorridos sobre os acontecimentos deviam, de facto, dar uma maior serenidade para a abordagem dos factos. Infelizmente, tal não acontece. E continua a haver consciências muito intranquilas.

Meses depois da saída do livro, num conhecido jornal angolano, um colunista manifestava a sua coragem no ataque a mulheres e puxando da pena desferia uma dezena dos mais baixos insultos contra a autora do livro, num «festival de impropérios» como afirmou o jornalista Reginaldo Silva. Depois, a direcção duma conhecida fundação angolana, não se sabe com que autoridade, retirou à autora o grau académico que possui. Mais tarde, num jornal português de referência, uma senhora viúva declarava que a autora era «mentirosa e desonesta», facto pelo qual responderá no foro adequado. E ainda há dias, num telefonema de Angola atendido pelo autor do livro, o filho de um dos participantes na chamada Comissão das Lágrimas, lembrou-se, finalmente, de que o pai não participara naquela Comissão e, com propósitos que se podem adivinhar, puxou dos galões e ameaçou-nos … com a justiça.

Não pretendo levantar questões que permitam especulações pueris, e também sei que perante a honestidade intelectual da professora Dalila Mateus isso nunca aconteceria, mas posso perguntar-lhe se baseada nas suas fontes, no contexto da sua obra toda, não pode admitir que o “27 de Maio de 1977” tenha sido o prolongamento do «maquis» na sociedade urbana?


 É sabido que o grupo dos chamados nitistas tinha ligações à 1ª Região Militar do MPLA. É também possível que houvesse rivalidade entre guerrilheiros de várias regiões na luta por lugares de comando.

Mas, quanto a nós, o que se verificou, por alturas do 27 de Maio de 1977, foi uma luta pelo poder no seio da frente política MPLA, então encarado como um partido leninista com muito centralismo e pouca ou nenhuma democracia (até porque, ao contrário do que fizeram a FRELIMO e o PAIGC, durante os anos de luta armada, não realizaram um único Congresso). Aliás, durante os anos da guerra, as divergências foram, em regra, resolvidas da pior forma.

No livro comparamos esta situação com o que se passou com a organização dirigente da África do Sul, o ANC, onde havia 36 fracções (entre elas um partido e os sindicatos). Também ali atiravam em diferentes direcções, novos contra velhos, exilados contra residentes no interior, militares contra civis, inflamados contra ponderados. Mas Mandela e os dirigentes do ANC tiveram a sensatez de todos acolher numa grande tenda, considerando que não se deviam cortar os laços com a juventude, por muito dogmática, excessiva e simplista que possa parecer, pois nunca se viu construir o futuro sem aqueles que irão vivê-lo.

Recentemente saiu um livro do professor Tiago Moreira de Sá (Estados Unidos e a descolonização de Angola) em que a relação URSS-Cuba sobre a questão angolana tem alguns pontos não de fricção mas de completa dissonância. Em 27 de Maio de 1977, repetiu-se o que tinha acontecido nos acontecimentos que precederam o 11 de Novembro de 1975?

As divergências ressaltam com nitidez da leitura do nosso livro.
Os soviéticos não tinham grande apreço por Agostinho Neto, embora isso nada tivesse a ver com a sua imparcialidade no conflito sino-soviético, argumento que acaba por ser um insulto a Amilcar Cabral e a Samora Machel, que eram bem acolhidos em Moscovo, embora o segundo fosse um simpatizante dos chineses. Pelo contrário, Fidel Castro exaltava Agostinho Neto, identificando-o com a revolução angolana.

Por outro lado, apesar das acusações feitas a soviéticos de cumplicidade com os chamados nitistas, a verdade é que estes nada tiveram a ver com o que ocorreu e, segundo diplomatas portugueses, nem sabiam muito bem o que estava a acontecer. Quanto aos cubanos sabe-se que, por intervenção de Fidel Castro, tiveram papel decisivo na repressão desencadeada, actuando ao lado da polícia política angolana.

Talvez uma pergunta que terá uma carga de muita subjectividade, mas isso também faz parte da parte especulativa de qualquer trabalho. No 27 de Maio de 1977, para além do que se sabe, do que se publica que não é exactamente o que se sabe, não terá acontecido um pouco a teoria do cadinho onde terão confluído os fenómenos racistas, tribalistas, oportunistas e um anti-comunismo a roçar o primário que muitos foram então escondendo para estarem de “corpo e alma na revolução”.

Tanto quanto se percebe há no «contra-golpe» (minuciosamente preparado) uma confluência de muitos e diversos interesses, aparentemente contraditórios. Mas há, também, influências outras, a que aludimos de forma breve, quando dizemos:

«Os promotores da repressão terão tido os seus conselheiros. Alguns embaixadores (por exemplo, os da França, Jugoslávia e Argélia) nem sempre souberam salvaguardar a necessária discrição. E também não faltaram conselheiros portugueses, civis e militares, com acesso directo a Agostinho Neto através dum amigo pessoal deste».

Talvez um dia voltemos a este assunto. Por agora, limitamo-nos a referir que dois militares portugueses que passaram na altura por Angola afirmavam que o 27 de Maio de 1977 fora o 25 de Novembro de 1975 que, em Portugal, não se pudera concretizar, com uma matança monumental de comunistas e de gente progressista.

O “27 de Maio de 1977” deixou a então Republica Popular de Angola decapitada de muitos quadros que foram mortos, presos e nalguns casos que se refugiaram no exterior para nunca mais regressar. Sente nas pessoas com quem falou que isso foi determinante para que a Angola não conseguisse substituir essa gente e tivesse permitido a ascensão rápida da mediocridade baseado na confiança política, tribal, racial ou familiar em detrimento da competência?

Angola tinha, de facto, uma enorme falta de quadros. Compreende-se porquê. Em 1974, pronunciando-se sobre a presença branca em Angola, Agostinho Neto declarava ter «dúvidas sobre se, neste momento, os mesmos indivíduos que têm sido privilegiados durante o regime colonial terão o direito de continuar no país». E em vésperas da independência, aparentemente esquecido de que a maioria dos portugueses eram simples trabalhadores, afirmava na rádio que tinham de sair de Angola antes do 11 de Novembro.

O coronel Melo Antunes, um dos homens do 25 de Abril, afirmou que a principal responsabilidade pela saída dos portugueses dos novos países foi dos movimentos de libertação porque, «contrariamente à letra e ao espírito dos acordos», se gerara «um clima de total repúdio da permanência de portugueses, um clima muitas vezes de perseguição, de insegurança de tal modo intolerável, que culminou num pânico generalizado».

Em Angola, engenheiros e quadros técnicos, médicos e professores, gestores e trabalhadores qualificados eram, na esmagadora maioria, brancos. Sem eles, a economia e as empresas, as escolas e os hospitais ou funcionariam mal ou deixariam mesmo de funcionar. Ora, depois da expulsão dos brancos, mataram-se, prenderam-se e afastaram-se dezenas de quadros angolanos, a pretexto de que estavam metidos na conjura nitista.

De modo que, muitos dos poucos quadros de que Angola dispunha foram liquidados ou afastados, sendo substituídos por gente sem qualificação. Quem acabou por pagar por tudo isso? A resposta é simples: o país e os angolanos.

Em Portugal, alguns antigos colonos aparecem a dizer que a expulsão foi inspirada pelos comunistas, pelos russos. Acusação totalmente falsa. Os teóricos da revolução davam indicações no sentido de cuidar, «como das meninas dos olhos, de cada especialista que trabalhe conscientemente, com conhecimento do seu trabalho e amor por ele». Por isso o general russo Valentim Varennikov, que cumpriu duas missões de serviço em Angola, sublinhou os enormes problemas criados pelo facto de terem sido «expulsos impensadamente todos os portugueses, que constituíam a principal força na economia, na direcção dos serviços municipais e na organização da gestão do país…».

Continuam determinados em fazer novas incursões sobre o 27 de Maio de 1977, apesar de algumas experiencias desagradáveis que passou?

Para um historiador, a história nunca está acabada. Novos documentos podem levar a reabrir o processo, para emendar, para melhorar, para completar. Aliás, se compararmos a primeira edição do Purga em Angola com a última, podemos constatar que há mudanças. Apenas um exemplo.

O acontecimento que serviu de pretexto à grande purga e justificou o facto de Agostinho Neto, no seu último discurso, ter dispensado o poder judicial, dizendo que não perderiam tempo com julgamentos, foi o aparecimento de uma série de dirigentes e quadros do MPLA, numa ambulância e num jeep, mortos e carbonizados.

A primeira versão oficial dizia que o crime era da responsabilidade dos nitistas. Depois, apareceu uma outra versão oficial a dizer que os mortos tinham sido vítimas de «excessos incontroláveis».

Contudo, apareceu uma terceira versão, a declarar que os presos tinham sido mortos por um elemento da DISA, infiltrado entre os guardas. Ora, já depois da primeira edição, mão amiga fez chegar até nós um filme da Televisão Popular de Angola, feito em colaboração com o Ministério da Defesa e intitulado Eles Vivem no Coração do Povo. Ali se vê, no Sambizanga, ao fundo de um pequeno pátio, o quarto em que estiveram os presos. A câmara filma esse quarto e mostra uma porta cravejada de balas, depois varridas e juntas no chão.

As imagens valem por mil palavras. Se os nitistas queriam matar os presos, por que não os levaram para um local que desse menos nas vistas? E se os queriam matar ali, por que não abriram a porta, atirando à queima-roupa ou matando-os à catanada, para não fazer demasiado barulho? Estranho seria, aliás, que até tivessem morto elementos da sua própria gente, Garcia Neto, José Manuel Paiva (Bula) e o comandante Nzaji que, segundo um elemento da DISA, teria estado, na noite anterior, a preparar o «golpe» nitista. Assim, se pensarmos bem, concluímos que só um agente provocador infiltrado poderia ter disparado através da porta, pois tinha pressa em sair dali, para escapar à ira dos companheiros. De resto, sabe-se hoje, esse elemento, um tal Tony Laton, ter-se-ia tornado assessor do vice-director da DISA.

Tenho a convicção de que é absolutamente necessário tirar “os esqueletos do armário”, como dizem os ingleses sobre trocar lembranças do passado, pois a sociedade angolana não pode continuar a viver especulando ou evitando lembrar o que de menos bom aconteceu naquele cada vez mais distante dia de Maio de 1977. Para fim da entrevista, pergunto-lhes como vêem o olhar angolano sobre o “27 de Maio de 1977”?
Em nossa opinião, milhares de angolanos encaram hoje os acontecimentos do 27 de Maio com outros olhos. E querem conhecer melhor a sua história. Embora persista o temor em falar do acontecimento, o que explica que a autora seja frequentemente designada como «a tal» e não pelo seu nome.

De resto, nós continuamos a «tirar esqueletos do armário», a investigar, para dar a conhecer aspectos da história de Angola e de outros países de língua oficial portuguesa. Ainda este ano, assinalando os 50 anos do início da guerra colonial, publicámos mais um livro, intitulado ANGOLA 61: Guerra Colonial, Causas e Consequências.

Divulgam-se novos dados sobre o 4 de Fevereiro. Mostramos que, apesar de a operação ter sido reivindicada quer pelo MPLA quer pela UPA, o facto é que os participantes actuaram à margem destes movimentos, por iniciativa própria, pressionados por presos que não queriam ser levados para fora de Angola. A ideia da operação nascera numa «sociedade» criada com o objectivo central de lutar pela independência nacional e cujos fundadores foram Domingos Manuel Agostinho (de Malange), Raúl Deião, Bento António e Virgílio Francisco Sotto Mayor ( de Icolo e Bengo). Segundo Raúl Deião, Domingos Agostinho, o presidente da «sociedade» ( que seria o chefe-geral do 4 de Fevereiro, acção em que perderia a vida), era um simpatizante de Agostinho Neto e de gente que seria conotada com o MPLA. E segundo Virgílio Francisco, a luta pela independência de Angola devia conjugar-se com revoltas que se verificariam em Portugal contra o governo de Salazar.

Mostramos, ainda, que, no 4 de Fevereiro, a operação assume carácter militar, havendo exemplos a mostrar que se poupam as vidas de civis. Ao passo que, no 15 de Março, a revolta assume um carácter racial e tribal, voltando-se contra brancos e negros, contra civis, contra mulheres e até contra crianças. Além disso, o 4 de Fevereiro congrega elementos de diferentes movimentos e etnias, que procuram armas para lutar pela independência nacional. Ao passo que na revolta do 15 de Março, a perspectiva aparenta ser regional e tribal, procurando-se a independência para os bacongos, porventura com o propósito de reconstituir o antigo reino de S. Salvador.



Mostramos, ainda, que o massacre dos cultivadores de algodão da Baixa de Cassange, estimado entre 5 e 10 mil pessoas (vítimas dos ataques das companhias de caçadores especiais e dos bombardeamentos com napalm) terá feito mais mortos do que o «terror negro» dos bacongos, comandados pela UPA. E este «terror negro» terá feito menos vítimas que o «terror branco» que se lhe seguiu. Só que, num caso morreram colonos brancos, ao passo que nos outros só os negros foram atingidos.



Fazemos história, com base em documentos e relatos. Não inventamos nem falsificamos. Estamos sempre abertos à discussão e a refutações sérias, que sirvam para corrigir o que não estava bem. Mas contamos, também, com as injúrias, que merecerão o tratamento dos argumentos históricos não concludentes.



Resta-nos fazer votos para que historiadores angolanos, com seriedade nos métodos, nos processos, no uso das fontes (e sem temor) possam investigar temas controversos da sua história.



Fernando Pereira ( Entrevista que saiu no Novo Jornal de 27-5-2011)



Pensar e Falar Angola

sábado, 5 de fevereiro de 2011

08/12/09 - I - Rui Almeida no Café da Manhã na LAC

08/12/09 - I - Rui Almeida no Café da Manhã na LAC Com José Rodrigues Terça-feira LAC 95.5 FM Luanda Antena Comercial Luanda-Angola Esta semana, o director de informação da Luanda Antena Comercial, José Rodrigues, recebeu pelo Café da Manhã Rui Almeida. Parte I e II

terça-feira, 23 de novembro de 2010

domingo, 19 de setembro de 2010

Fátima Roque - entrevista ao Económico

Fátima Roque

“Não tenho ambição de tomar conta do grupo do meu ex-marido”

Ana Sofia Fonseca
19/09/10 08:55




Comunidade

Os empresários portugueses devem ter cuidado em Angola, avisa. É preciso fazer o trabalho de casa.

"Angola é um país que vive em paz e oferece boas condições de investimento a quem souber fazer o trabalho de casa", assegura Fátima Roque. Mas os empresários portugueses têm de ter cuidado, porque Angola "não é um destino fácil". É necessário fazer estudos de mercado e escolher um parceiro adequado ao investimento.

Que contas faz da Angola de hoje?
Já é uma potencia regional e poderá ser uma potência continental. O crescimento económico é excepcional, no período pré-crise global foi o segundo maior do mundo. Este ano, estima-se que cresça entre 7 e 9%.

Mas não tem sido imune à crise.
Especialmente em 2008, teve algumas dificuldades. Não há dúvidas que nós angolanos temos de correr para recuperar o tempo perdido e transformar este tremendo crescimento económico em desenvolvimento.

Angola é uma democracia?
[Silêncio] Se definir democracia como o acto livre de votar, a existência de vários partidos, de uma comunicação social relativamente livre, então Angola é uma democracia. Se definir democracia na esteira de Montesquieu ou Toqueville, Angola ainda não é uma democracia. Para sermos uma verdadeira democracia, precisamos de diminuir as assimetrias sociais. Vivendo em paz, num clima de reconciliação nacional e pós-eleitoral, esperar-se-ia mais dos governantes. Estou convencida que teria sido feito, se não fosse a crise.

Uma nova vaga de portugueses volta a encontrar em Angola o El Dorado.
Na Europa poucos são os países que podem oferecer boas condições, por isso, há a tentação de procurar um futuro melhor. Angola é um país que vive em paz e oferece boas condições de investimento a quem souber fazer o trabalho de casa. Mas os empresários portugueses têm de ter cuidado, não é um destino fácil.

O que quer dizer com "trabalho de casa"?
Refiro-me à necessidade de um estudo de mercado e da escolha de parceria adequada ao investimento. Em qualquer país jovem, e acho muito bem, é fundamental que se promova o empreendedorismo local.

Fala da figura do sócio angolano?
Esse sócio tem de ser adequadamente escolhido, não só em termos da mais-valia que pode trazer ao investimento como também da capacidade de abrir portas, do conhecimento da realidade angolana.

A crise vai continuar a assolar o mundo?
Espera-se que o pior período já tenha passado, se bem que as últimas estatísticas indiquem um certo pessimismo e levem a pensar duas vezes se esta recessão em vez de ter a forma de "V" não terá de "W".

Tem quantos netos?
Uma menina com quatro anos e um menino com seis. Normalmente, vou a casa deles ao final da tarde, à hora do banho. Chego e encontro-os na banheira, com aqueles olhos enormes à espera que lhes conte a história da Mariana. Todos os dias invento um capítulo novo. Também foi assim que eduquei as minhas filhas.

Aos 59 anos, tem a vida pela frente. O que vai fazer dela?
Gostaria que tivesse iniciado a entrevista com esta pergunta. É uma questão que nunca me colocaram, pelo menos, de forma tão directa. Adoraria regressar a casa e trabalhar nos países da África Austral. Usar uma percentagem mínima dos diamantes, essa riqueza que a natureza lhes deu, para criar uma estratégia de erradicação da pobreza. Seria uma organização supra-nacional, com uma espécie de conselho de sábios, figuras notáveis e ex-presidentes que tenham sido defensores da democracia e dos direitos humanos.

Quer transformar diamantes de sangue em diamantes de vida?
Precisamente, transformar diamantes de sangue em diamantes de vida.

Isso não é uma utopia?
Não, a estratégia está escrita. Se nos próximos dois anos não a tiver posto em pé, vou publicá-la em livro. Começaria a implantar na África Austral, mas há países noutras zonas de África que também são produtores e que tanto têm sido ligados aos diamantes de sangue.

África seria mais feliz se não tivesse diamantes?
Gostaria que pudéssemos falar ao contrário. Por que não transformar essa riqueza num bem? Reduzir a pobreza através da educação.

Tem apoiantes?
Já falei com várias pessoas ao mais alto nível em vários países e já tenho alguns apoiantes. O que se pretendia conseguir era dar ao povo africano o que África lhes dá e que até agora tem sido usufruído apenas por uma elite. Falei nesta estratégia ao actual Presidente da África do Sul [Jacob Zuma] e ele a determinada altura disse-me: ‘Tu falas como uma criança, com paixão, com alegria!'.

Os seus olhos brilham.
Eu visto as minhas calças de ganga, ponho os ténis, o meu chapéu e aí vai a Fátima Roque novamente conhecer África com os seus pés. Não tenho ambição de tomar conta do grupo do meu ex-marido - não é por falta de competência, é porque não quero. Nem tenho ambição de fazer parte do governo de Angola. Esta é a minha causa. Não tenho outra ambição.


Pensar e Falar Angola

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Cavaco Silva em Luanda a convite de José Eduardo dos Santos

O Presidente da República de Portugal chega hoje a Luanda, a convite do Presidente José Eduardo dos Santos. Aníbal Cavaco Silva chega acompanhado de uma importante delegação que integra membros do seu gabinete e 130 empresários.
A visita do Chefe de Estado português inclui deslocações às cidades de Benguela, Lobito e Lubango. A viagem oficial coincide com a realização oitava Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e com a Feira Internacional de Luanda (FIL), que este ano bate o recorde de participação de empresas portuguesas.
Cavaco Silva é um declarado amigo de Angola e dos angolanos, por isso foi fácil entrevistá-lo no Palácio de Belém antes da sua visita oficial a Angola.
É aguardada com expectativa a sua participação na oitava edição da Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Países de Língua Portuguesa.

Jornal de Angola - Angola escolheu a “solidariedade na diversidade” como lema da sua presidência da CPLP. Está de acordo com as expectativas de Portugal?

Cavaco Silva - Angola vai apresentar o conteúdo desse tema durante a cimeira e as suas diferentes componentes. Nós confiamos na presidência angolana, contamos com o seu apoio durante a presidência portuguesa, e consideramos importante que neste tempo, que é de crise internacional, em particular, de natureza económica e financeira, seja um país africano da comunidade a assumir a presidência. É também a demonstração de que África merece confiança e Angola, em particular, tem uma credibilidade e suscita uma confiança que lhe permite exercer a presidência da CPLP com expectativas elevadas de todos os outros estados membros. Angola vai beneficiar do apoio dos outros sete países para a concretização da sua presidência. Espero que no fim da presidência angolana tenhamos uma comunidade mais forte na cena internacional, em que seja mais profunda a cooperação política, em que as de cooperação económica, cultural, social se tenham alargado, em que as instituições da sociedade civil cooperem e dialoguem de uma forma mais intensa, num maior aproveitamento das potencialidades empresariais e culturais dos oito países, em que haja um melhor aproveitamento do peso político que pode resultar de uma actuação em conjunto. Neste mundo global, apresentar posições comuns de oito países que têm 250 milhões de falantes em português é uma forma benéfica para a defesa dos interesses de cada um dos nossos países.

JA - A presidência portuguesa da CPLP teve bons resultados na expansão da língua portuguesa?

CS - A expansão internacional da língua portuguesa foi, de facto, uma prioridade da presidência portuguesa. E penso que fizemos trabalho nesse sentido. Recordo que eu próprio durante uma Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, com todos os chefes de Estado e de Governo dos países da CPLP assumimos o compromisso de trabalhar no sentido do reforço da projecção internacional desta língua que é património comum de oito países e que é falada por 250 milhões de pessoas. Portanto, é um activo com valor estratégico muito importante. Na Cimeira de Luanda espero que seja aprovado um plano de acção para a projecção internacional da língua, que foi delineado e aprovado pelos ministros em Brasília. Também espero que sejam aprovados os novos estatutos do Instituto Internacional da Língua Portuguesa que tem a sua sede em Cabo Verde, presidido por uma angolana, a professora Amélia Mingas, que lhe sejam concedidos novos meios e penso que é da maior utilidade criar uma plataforma de Internet que reconheça todas as experiências de ensino e de divulgação da língua portuguesa.

JA - Quais são os resultados visíveis dessa expansão?

CS - Verifica-se uma grande expansão na língua portuguesa, que cresce a uma taxa muito elevada em resultado do crescimento demográfico do Brasil, de Angola e de Moçambique, mas também aumenta, substancialmente, o número de estrangeiros que hoje estudam a língua portuguesa. Portanto, há um enriquecimento não apenas cultural, mas é uma mais valia económica hoje falar esta língua em países com grande peso em África, como Angola e Moçambique, num país com grande peso na América Latina, que é o Brasil, ou num país que é Portugal, que faz parte da União Europeia, além disso tem Cabo Verde, Guiné-Bissau, Timor, São Tomé e Príncipe. Por isso digo que a língua portuguesa está em crescendo no mundo. É, claramente, uma língua global.

JA - Em que ponto está o Acordo Ortográfico?

CS - Eu penso que sobre o Acordo Ortográfico já existe uma grande sintonia. Ele já foi ratificado por Portugal, Brasil, Timor, São Tomé, Cabo Verde, e na última cimeira que ocorreu em Portugal, as autoridades angolanas e moçambicanas disseram que iam ratificar o acordo. Em Portugal já está a ser aplicado. Penso que não há verdadeiramente razões para reticências ao acordo, e daquilo que conheço das autoridades desses países, há um processo legislativo que tem que ocorrer e tanto Angola como Moçambique reconhecem que é importante apresentar na cena internacional a língua que é falada por uma grande potência económica e política que é o Brasil, de um país que está na União Europeia, e depois apresentar esse património comum no conjunto dos países africanos. Hoje o português já é língua oficial na União Africana, no MERCOSUL, na UNESCO, na União Europeia. Portanto, eu sou um optimista quanto à atitude de Angola e de Moçambique em relação à língua portuguesa. Nunca tive nenhum problema em falar sobre isso com os dirigentes angolanos. Porque oito países em quatro continentes falarem a língua portuguesa, é uma riqueza. E depois ainda há esses milhões espalhados pelo mundo e que falam a língua portuguesa. Tenhamos consciência de que é uma riqueza para todos nós.

JA - Existe alguma solução de curto ou médio prazo para o Estatuto do Cidadão Lusófono?

CS - Durante a presidência portuguesa trabalhámos sobre esse assunto e preparamos uma proposta de convenção que vai ser apresentada na Cimeira de Luanda. Não quero antecipar, mas há uma proposta que pode ser discutida pelos ministros dos negócios estrangeiros e depois pelos Chefes de Estado e de governo. Acho que era positivo que fizéssemos alguma coisa pela cidadania lusófona. E isso liga-se até com a mobilidade, com a facilidade de cada um se deslocar de um país para outro e depois vai até ao problema dos vistos. Portugal fez o seu trabalho nessa matéria, mas é preciso um acordo entre todos os Estados membros.

JA - Que análise faz da cooperação entre Angola e Portugal?

CS - A cooperação bilateral tem também em atenção que em Portugal existe uma importante comunidade angolana, e em Angola existe uma importante comunidade portuguesa. Uma comunidade de gente jovem, de empresários, cientistas, professores, que dão o seu contributo para o desenvolvimento económico e social de Angola, tal como a comunidade angolana em Portugal dá o seu contributo para o desenvolvimento do nosso país. Os dois países reconheceram já há algum tempo que a cooperação é mutuamente benéfica, e Portugal, naquilo que é ajuda ao desenvolvimento, segue as prioridades das autoridades angolanas. Eu atribuo uma grande importância, uma importância estratégica, ao relacionamento com Angola, mas é minha convicção muito sincera que é do interesse de Angola ter uma relação estratégica com Portugal. É por isso que eu penso que devemos dar mais um passo no nosso relacionamento, institucionalizando uma parceria estratégica entre os dois países, tal como Portugal tem com Cabo Verde e de alguma forma também com Moçambique.

Jornal de Angola - Em que termos se pode efectivar essa parceria?

CS - Essa parceria estratégica deve envolve reuniões regulares a um nível elevado entre os governos dos dois países. Entendo que quando a cooperação e as relações são tão intensas surgem sempre problemas que têm que ser resolvidos, como as questões dos vistos, as questões judiciais, que às vezes surgem no respeito pelos órgãos de soberania e pelo respeito das autoridades angolanas, onde é preciso às vezes trocar impressões. Há também problemas que surgem no relacionamento das empresas com autoridades públicas em Angola, ou de empresas angolanas aqui em Portugal com as autoridades públicas portuguesas. Eu acho que devemos dar aqui um passo, institucionalizando as relações entre Angola e Portugal num nível que nós chamamos estratégico. E eu espero que esta minha visita dê um contributo nesse sentido.

Jornal de Angola - Qual é a sua opinião sobre o pedido de adesão da Guiné Equatorial à CPLP?

CS – É uma prova da força acrescida da CPLP na cena internacional. É o interesse de outros países e outras organizações serem membros observadores da CPLP e no caso específico da Guiné Equatorial, ser membro efectivo. É um assunto que vai ser abordado em Luanda, primeiro pelos ministros dos Negócios Estrangeiros. Depois os Chefes de Estado e de Governo vão debruçar-se sobre a proposta que vai chegar dos ministros dos Negócios Estrangeiros. Penso que não podemos deixar de ter em consideração que a CPLP, e eu quero ver como é que surgem propostas para resolver essa questão, é uma comunidade de países de língua portuguesa. Não quero aqui expressar posições definitivas de Portugal, até porque o Governo tem responsabilidades muito fortes na condução da política externa portuguesa. O presidente representa a República, e não quero também antecipar-me ao debate que vai ocorrer em Luanda.

in Jornal de Angola
Pensar e Falar Angola

RITA GT em Viana do Castelo

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