CRÓNICAS
DA RODA GIGANTE
ERNESTO
LARA FILHO
CRÓNICAS
& REPORTAGENS – 22
O repórter Ernesto Lara (Filho) pede aos leitores de Angola que o desculpem por
este retorno aos assuntos desportivos. O repórter Ernesto Lara (Filho) pede
atenção para o que se vai seguir. O repórter Ernesto Lara (Filho), devidamente
informado dos acontecimentos do Congo e com a visita do cidadão "Jóta
Kápa" do Brasil, aplica as fintas magistrais que os factos referidos
requerem, dribla Lumumba, penetra na área da extrema defensiva brasileira e...
... prefere falar-vos de futebol. Do Mário Wilson, de Moçambique, do Chipenda,
de Benguela, e do Araújo idem aspas.
Futebol, amigos, eis a grande realidade nacional.
Permitam os leitores que ajeite os meus óculos - o repórter Lara Filho informa
os seus clientes, os seus estimados fregueses, que passou a usar duas meias
diopterias! - e lhes fale de futebol.
Em primeiro lugar chamo para me coadjuvarem o professor de bola Raul Valle,
casapiano e Petrónio da praça luandense. Telmo Vaz Pereira e as suas tácticas
de malandro do futebol. Aníbal Melo ou a seriedade. Ou a sobriedade. Ladeado
por este comité de selecção, aplicadas todas as fintas do meu arsenal
futebolístico e basquetebolístico, eu, que já joguei no Angola Trotters, apito
para o começo do jogo.
Tem a palavra o Carlos Pereira. Liga. Está no ar o programa desportivo!
Golo! Gooooooooolo!
Futebol é sempre assunto.
Acabam de entrar na Universidade - efectuaram o sétimo ano! - os jogadores
Wilson, Araújo e Chipenda da Associação Académica de Coimbra. Um moçambicano e
dois angolares. Quase meia-cinco.
Temos gente nova na Universidade!
"Calaurus habemus!"
Temos caloiros! Viva a Académica, a mais mentalizada equipa do futebol
português. Viva a Académica, o terror dos Sete Mares. Em rodagem para a Taça. A
Académica do Bentes e do Dr. Alberto Gomes. A Académica que só este ano já
jogou nos Açores, em Cabo
Verde, Senegal, Cacilhas, Entroncamento e Guiné. A Académica,
menina bonita do meu coração.
Viva a Académica, a equipa mais parecida com o meu São
Paulo da Missão de futebol em ritmo de
"chá-chá-chá" e que está a perder jogos de mais no "tour"
de Luanda. Que é isso "Catumbela"? Então, Trouet? Mangueira?
Viva a Académica de Coimbra, este ano repleta de caloiros, que é a minha
saudade, o meu São Paulo mascarado
do futebol-carnaval-português.
Que saudades eu tenho do futebol do São Paulo
da Missão!
- "Mas você percebe alguma coisa de futebol?" - perguntaram-me.
E eu respondi:
- "Não!"
- "Então que é que veio fazer a esta feijoada?"
- "Vim comer. Nisso eu alinho sempre...".
Amigos, meus clientes de Luanda, meus fregueses de Angola, permitam agora que
eu lhes sirva "gato por lebre". O repórter Lara Filho insiste no
pormenor de não perceber nada de futebol. Futebol eu só entendo jogado com
"maduros" à Gambôa, "cápas" à Catumbela e "coleios de
cobra" à Raul de Campos - o Palermo do futebol dos bons tempos da Vila
Nova. Futebol eu só o entendo jogado na areia dos Coqueiros ou sob os coqueiros
da praia - passe lá o trocadilho! - ou então nos meus tempos de menino do
Sporting de Benguela que jogava no quintal do Ferreira Pires - eia, grande
quintal!
Pois fiquem sabendo que era um quintal que tinha dentro um campo de futebol.
Até tinha muro alto. Coisas de Angola, coisas de Benguela, onde os quintais são
tão grandes que até podem ter lá dentro um campo de futebol. É verdade. To
juro. Antes de começar a contar coisas de cá, permitam três perguntas de coisas
de lá:
- "André, como foi isso de perder por 1-0 com o Belenenses? Esse
Ferroviário está cada vez mais na mesma...".
- "Cardoso (Catumbela), que se passa com o São Paulo
da Missão?".
- "Os pastéis de Belém causaram por aí alguma indigestão?".
Quá! Quá! Quá!
Gargalhadas da geral. Gargalhadas de muceque. Das barreiras dos Coqueiros, os
negrinhos gritam:
- "Vien! Léco!"
- Aí Moreira, Matateu do Bungo, aí rapage!".
Dois golos do Mascarenhas do São Paulo
da Missão colocaram o Barreirense na Primeira Divisão. Rima e "es
verdad".
Os golos do Águas deram o campeonato ao Benfica.
E as corridas do Coluna.
E os passes melífluos do Santana.
Angolanos, moçambicanos, indianos, caboverdeanos, guineenses, timorenses e
açoreanos do futebol português, estão na brecha.
Amigos, a Selecção Nacional Portuguesa de Futebol é constituída por 25
ultramarinos!
Está proclamada a independência do futebol africano!
Há feijoadas que são poemas. Há poemas que são feijoadas. Há "funje"
que é uma delícia. Há picantes. Há "quimbombo". Há galinha. Há
caloiros que fizeram o sétimo ano e há jogadores da Académica que já iniciaram
a sua preparação com vistas ao Campeonato de 61. Há de tudo como na vida.
Até há um repórter bisonho que não percebe nada de futebol e que assiste como
convidado especial à feijoada realizada em casa de Mário Wilson - chez Wilson -
com os seguintes jogadores titulares "del equipo":
Miranda de Nova Lisboa, prestes a entrar na escola agrícola. Mário Wilson que
fez o sétimo ano de Ciências e se matricula este ano no primeiro ano da
Faculdade - Geológicas. Chipenda - idem de Benguela. Araújo, aspas, aspas.
Etc., etc., etc.. Era assim que um velho padre que foi meu professor terminava
as lições. O etecétera por vezes é muito recomendável...
E vivó Benfica Campeão de Portugal! Que também tem muitos ultramarinos e
ultramalandros nas suas fileiras... "Mário, explica-me o futebol da
Académica!" -perguntei ao capitão da Académica. Respondeu:
- "Ernesto, há coisas que não se explicam!".
- "Mário Torres, qual a tua melhor recordação desportiva?".
- "A Guiné!" - respondeu-me.
Atrás de um prato tridimensional de feijão surge a carantonha do Chipenda. Três
quilos de feijão e dois de arroz juncam o estômago do sub-alimentado
"crack" da Académica. O ponta direito dos braços abertos como
passarinho, batendo as asas.
- "Chipenda, tens saudades de Angola?".
- "Muitas! Principalmente do "Lanterna Vermelha", o dancing do
Quióche!".
Mário Torres formou-se em Medicina e é hoje o angolano de ontem, o angolano da
Académica, o angolano de sempre. Mais caladão - só anima quando conta
recordações alegres do futebol - está a tornar-se progressivamente no Doutor
Mário Torres, lentamente, progressivamente. Vai abandonando aquela displicência
que tão sincera lhe conheci. Mas modifica-se quando encontra o
"Corina", o Mário Wilson, seu companheiro de tantas batalhas na
defensiva escolar. Juntos defenderam a Académica. Juntos jogaram suor, sangue e
lágrimas. Juntos permitiram que Angola e Moçambique se abracem numa turma de
futebol.
Conta o Chipenda que quando alinhou pela primeira vez pelo Benfica contra a
Académica, levou um pinhão do Wilson. E que este, depois de o desarmar e
concluir a jogada, se virou para ele, caído no chão, cheio de dores, abalado
pelo choque e lhe disse:
- "Levanta-te, menino, que o chão está sujo!".
São assim os professores de futebol
da Académica de Coimbra...
Uma evocação. Era uma vez um jogador de futebol chamado Angolar, de Sá da
Bandeira, do nosso Lubango. Chamava-se assim, angolar mesmo, porque tinha
nascido no dia em que saíram as notas de um angolar. E ficou sendo toda a vida
o "Angolar". Marcava muito bem "penalties" e tinha pé
esquerdo. Era sinistro, que é como quem diz: canhoto.
E o "Beira"? Cadé o Beira da Huíla? Morreu?
Era a Huíla, o meu Lubango do saudoso Juventude e a equipa mais amadora das
equipas nacionais de futebol. Nesse clube até as botas de futebol eram
amadoras. A Juventude dos Vitórias Pereiras. E do Baldaia. E do Valente.
A Huíla do Luís Fontoura.
Do Dr. Negrão.
Do frio.
Da Nossa Senhora do Monte.
Da defesa do Benfica que era assim: Cuanhama, guarda-redes. Defesas: Carapanta
I e Carapanta II. Gibita, Zé das Flores. Chouriço. Etc., etc., etc.. -
"Mário Wilson, a Académica vai ficar ainda muito tempo na I Divisão?"
- pergunto.
- "Enquanto eu cá estiver, não há novidade!" - responde calmo, o
fleumático, o científico Mário Wilson, quanto a mim o melhor defesa central do
"futibau portugueis".
Apontamentos da feijoada, digo, da entrevista:
a) Mário Wilson é casado com uma senhora natural de Angola.
b) Tem dois filhos homens - o Mário de seis anos e o "Chumbaca",
alcunha que relembra Cândido de Oliveira. E uma menina. Que não chego a ver
porque está de cama com anginas.
c) Fez o sétimo ano e vai entrar para a Universidade, em Outubro.
d) É quanto a mim o jogador de futebol mais cerebral do "soccer"
"portugueis". A sua entrega é de "primeira", modelar, e
instituiu, iniciou uma época na Académica. Nele se baseia todo o sistema
escolar de toma-lá-dá-cá, e que faz gravitar à volta desta estrela os satélites
africanos Araújo, Torres, Chipenda, Miranda, etc.. Wilson é o Sol que ilumina o
futebol académico.
- "Mário, se tu ou o Torres, ou ainda o Rocha, jogadores que eu considero
básicos no 4-2-4 académico, se lesionarem, a Briosa não tem quem os substitua?
Não tem, pois não?".
- "Não há jogadores insubstituíveis numa equipa de futebol!".
Tableau.
Vocemecês desculpem, leitores, eu queria fazer uma entrevista, reportagem, e
saiu feijoada. Vocemecês desculpem, prezados fregueses, mas "óje não á
mais passarinhos". O repórter Lara Filho considera-se penhorado e
agradecido a todos os clientes que chegaram até aqui. Agradece e retira-se.
Baixa o pano. E esperem pela próxima época de futebol.
Feijão não liga com entrevista. Feijoada é notícia. Futebol é outro assunto.
Boa tarde.
Ernesto Lara Filho
Pensar e Falar Angola