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sábado, 24 de março de 2012

Olhar de uma mulher (2)

Estrada para Catoca
Kimbos na estrada
Kimbo
Mulher à sombra de uma mangueira
Hotel Princezinha em Saurimo
Hibisco

"E após quatro dias, disse um até já a Luanda e aterrei em Catoca, a vila junto à 4ª maior mina de diamantes do mundo. Cheguei e disse: isto sim é a África do National Geographic! Planícies infinitas, onde o verde, a cor de barro e o azul predominam! E predomina também a bicharada. Ainda não tive o desprazer de as “conhecer” a todas, mas temo que há-de chegar o momento.

Alojada e a trabalhar na vila de Catoca, viajo todos os fins de dia até Saurimo. A viagem é prazerosa em termos de paisagem: florestas verdes e densas acolhem pequenos kimbos. Os residentes reúnem-se, sentam-se à beira da estrada, vendem fruta, brincam. Os cabritos e porcos atravessam-se à frente dos carros. As casas, que ainda só vi por fora, não inspiram qualquer tipo de qualidade habitacional. Vivem do que cultivam, do que a terra lhes oferece. Mas parecem-me felizes! Às vezes, e quando temos que abrandar por causa dos buracos colossais da estrada, grupos de miúdos acenam e riem e gritam. Eu retribuo. Quase a chegar a Saurimo, vêem-se grupos de pessoas concentradas à beira de riachos: as mulheres lavam a roupa, as crianças chapinham na água e os homens limpam as motas. O amor que estes homens têm às motas! Saurimo é uma cidade de motas. E de mulheres grávidas.

A primeira vez que vi Saurimo trouxe-me sensações pouco agradáveis. É o problema da internet: pesquisei imenso sobre a cidade antes de vir e as poucas imagens disponíveis no Google fizeram-me crer numa cidade completamente diferente da que vi. Passeios não pavimentados, algum lixo, milhares de motas a virem de todos os lados, prédios e vivendas muito degradados, farmácias que parecem tascas. Mas entretanto, e acho que o facto de vir cá todos os dias ajudou, mudei de opinião. Se é que isto é uma opinião! Talvez ande a aprender a gostar disto.

Para desopilar dos dias de trabalho e da vila de Catoca, onde o tédio é uma constante, tenho feito do Hotel Princesinha a minha sala de estar! Aconselho a quem vier fazer turismo para estes lados. Muito agradável. Um oásis no meio de Saurimo!"

in " uma primeira aventura pela engenharia civil em Angola, pelo olhar de uma mulher"

Pensar e Falar Angola

sexta-feira, 23 de março de 2012

O olhar de uma mulher (1)


"As primeiras impressões de Angola foram várias.

Quando cheguei, ainda estive em Luanda quatro dias. Convém frisar que estive em ambiente familiar. Fiquei em casa de uma amiga minha, cuja família também está cá. Portanto, Luanda não foi difícil. Tive guias turísticos, tive motorista e estive em locais difíceis de imaginar existirem por aqui."


in " uma primeira aventura pela engenharia civil em Angola, pelo olhar de uma mulher"







Pensar e Falar Angola

terça-feira, 21 de julho de 2009

Angola, um país de contrastes

Angola, um país de contrastes

Por Carlos Ferreirinha*

Ritmo acelerado. Poeira. Gruas. Crescimento vigoroso. Frustrações. Custo de vida muito alto. Curiosidade. Carros. Filas em postos de gasolina. Sim, muitas filas. Inacreditáveis filas. Gasolina barata? Não. Volume de carros. Angola. Nem mesmo completou sete anos desde o fim da Guerra e Luanda já surpreende. Como é possível manter um sorriso nos rostos diante de tantos obstáculos e tanto que precisa ser desenvolvido? Não há duvida alguma que a explicação para isso é que além da esperança, existe uma tensão de curiosidade. Já dizia o Sr. Walt Disney na teoria dos 4 C´s: sejamos curiosos!

A alegria nos serviços e a cordialidade do atendimento suplantam e muito as limitações técnicas que demandam evidentemente treinamento e capacitação. São novos passos que precisam ser dados nesta direção. O conceito “comprometimento profissional” na prestação de serviços ainda está em sua fase inicial e básica. Estes obstáculos perdem a importância e relevância diante do sorriso que encanta e emociona. Em todos os lugares que se olha, tem movimento acelerado de mudança e transformação.

A teoria de Maslow ensina que o consumo acontece somente em quatro níveis de necessidades: segurança, fisiológica, indulgência e status. Angola passa pelos quatro simultaneamente. E não há nada de errado nisso. Tudo que o mundo de alguma forma tem percebido sobre o homem que assume cada vez mais um novo papel no contexto do consumo, é devidamente percebido em Angola.

O homem angolano tem estilo, elegância e é vaidoso; carrega referências mundiais mantendo um estilo muito próprio e entende de marcas de prestígio sejam elas francesas, italianas ou brasileiras. Qual o próximo passo? Garanto: Spas, resorts, hotéis, cafeterias, modelos privates dos Bancos, clínicas nas mais diversas áreas, principalmente as estéticas, moda, decoração de interiores.

A explosão de serviços especiais virá antes do varejo de luxo. Será difícil e lento o processo de ruas e centros de comércio para abrigarem as principais marcas de Luxo do mundo, mas não impossível. Apenas o tempo será outro. Mas os Angolanos não deixarão de comprar ou acessar produtos e serviços de Luxo ou Premium seja localmente ou internacionalmente.

A era da “premiumzação” também já chegou a Angola e lentamente entrará no cotidiano das diversas camadas sociais. O termo Luxo já vem sendo inclusive utilizado principalmente pelas construtoras na apresentação dos surpreendentes condomínios residenciais. Em um País onde praticamente tudo é importado, a tarefa da diferenciação não é tão simples; afinal não basta ser importado – em Angola, isso é comum.

No negócio do Luxo é fundamental que no consumo o desejo prevaleça em relação à razão. O filósofo francês Bertrand Russel afirmava que “toda atividade humana nasce do desejo”. Os Angolanos desejam e isto fará com que os hábitos de consumo sejam alterados. E junte a isso o fato de serem alegres, simpáticos, amigos, de terem o conceito família, a crença de que o amanhã será melhor do que hoje e definitivamente de ontem.

O grande desafio de Países como o Brasil e a Angola, é receber a modernidade de braços abertos sem esquecer as tradições, as origens, o passado que formou o presente e que criou lastros para o futuro. Luanda, sinceramente, OBRIGADO pelo seu carinho! Angolanos tenham a persistência de seguirem em frente, não desviem. Volto de Angola me sentindo mais brasileiro, mas, me sentindo também um pouco angolano.

* Carlos Ferreirinha é Presidente da MCF Consultoria & Conhecimento, especializada nas ferramentas de gestão e inovação do Luxo e Premium – www.mcfconsultoria.com.br, com atuação no Brasil e América Latina.




Pensar e Falar Angola

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Modernizaçã do Bairro Operário arranca em 2009


No Bairro Operário (BO) nasceram e viveram ilustres homens da música. Este Bairro está ligado à história dos Ngola Ritmo, o Henda Ya Xala, os Águias Reais e os Negoleiros do Ritmo. Lugar de onde as velhas kitandeiras saiam para o Chamavo, para o mercado de S. Paulo e para o Kinaxixi. As velhas que tinham grande espírito empreendedor construíram as suas casas e durante décadas lutaram contras as entidades coloniais para comprarem os terrenos.


O Bairro Operário dos melhores Carnavais de Luanda.


O Bairro Operário, situado mais a sul do município, será, a partir do próximo ano, requalificado. As antigas casas serão substituídas por edifícios congregados em diferentes condomínios.
Toda a extensão do bairro, num perímetro inferior à comuna do Bairro Operário, será requalificada, de acordo com as orientações do Governo que tem um plano executivo para todos os bairros de Luanda.

Apesar de ser um facto, a requalificação do bairro Operário aguarda ainda por uma análise e aprovação do Conselho de Ministros. Seguindo as mesmas funcionalidades do projecto de requalificação do musseque Sambizanga, o bairro terá casas sociais médias e de alta renda.

Tudo será feito de acordo com o master plano que será elaborado pelos promotores do projecto e pelos outros elementos intervenientes no processo de reabilitação. No que toca à inquietação dos moradores quando à sua permanência no bairro, o administrador do Sambizanga, desdramatiza os receios, assegurando que serão transferidos de umas casas para outras.

A mudança será feita “in situ”, ou seja no local. Serão inicialmente casas económicas para os moradores exactamente no interior do bairro. A requalificação não inclui somente os edifícios novos. Os antigos serão alvo de obras de manutenção para estarem à altura do nível estrutural dos novos edifícios.

Primeiro construir para alojar e depois edificar, de acordo com a natureza do Masterplan” Escolas, hospitais, espaços verdes e de lazer para prática desportiva fazem parte do projecto e não vão, de modo algum, alterar o padrão que aquele bairro apresenta desde a sua existência, havendo somente a necessidade do prolongamento de algumas vias que foram obstruídas por algumas construções, garantem os promotores.

Para alguns dos mais antigos moradores, esta boa nova não traz muitas alegrias já que queriam ver o bairro como sempre foi. Diante de uma situação destas, o administrador municipal do Sambizanga apontou a sensibilização junto dos munícipes como fundamental para se evitarem reacções pouco saudáveis. Neste momento, as vias do bairro estão a beneficiar de obras de terraplanagem e melhoramento das linhas técnicas por forma a ter um saneamento.

O bairro Operário é limitado a norte pela rua Garcia Neto por uma entrada que parte da rua Ndunduma até à avenida Cónego Manuel das Neves, descendo até ao final da escola Anangola, passando pelos acessos a sul do bairro do Cruzeiro, ao longo da rua de Massangano, arredores do largo Deolinda Rodrigues, na rua Dom João II, circulando, chega-se novamente a uma extensão da rua Ndunduma.

Todo este perímetro está integrado no projecto de requalificação. Só a comuna do bairro Operário tem uma população estimada em 200 mil habitantes. O menor número está representado no bairro que atende pelo mesmo nome.


Pensar e Falar Angola

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

ANGOLA DE ONTEM E DE HOJE

Pensar e Falar Angola


ANGOLA DE ONTEM E DE HOJE

Em 1988 , indo do Brasil aonde vivi durante treze anos e me formei em Economia , estive em Portugal durante um ano aonde foi meu tutor o professor Agostinho da Silva , privilégio que agradeço à vida .

Após diálogos longos e prazeirosos com o professor Agostinho , decidi ir voluntariamente leccionar Economia em Angola e após demarches junto à embaixada de Angola em Lisboa e junto à Universidade Agostinho Neto em Luanda , foi possível leccionar Economia no Núcleo de Economia do Lubango , Província da Huíla no sul de Angola , no ano de 1990 .

Mais ou menos nesta data , a paz entre a UNITA e MPLA , Organizações políticas que lutavam entre si , foi assinada e iniciou-se o primeiro processo eleitoral angolano .

Muitos empresários portugueses e outros começaram a investir com toda a força em Angola pois muitos queriam acreditar que era possível a paz .

Entretanto , a UNITA em suas assembleias e comícios populares políticos , pela voz de seu líder Jonas Savimbi , incentivava seus apoiantes para uma atitude de força e em discursos na sua língua autóctone defendia uma atitude de guerra .

A UNITA perdeu as eleições e seu líder decidiu retornar à guerra para tomar o poder pelas armas .

Uns dias antes de recomeçar uma nova e violenta guerra em Angola , 1992 , na cidade do Lubango notava-se uma movimentação estranha de carros transportando tropas com aspecto de guerrilheiros da Unita em atitude de guerra .

Ninguém quis acreditar no que via mas os sinais de guerra eram evidentes e foi o que aconteceu logo em seguida .

E esta nova guerra só terminou com a morte do líder da UNITA Jonas Savimbi em 2002.

Hoje estamos em 2008 e a paz em Angola já tem mais de cinco anos .

Das muitas Organizações candidatas a serem partidos políticos , apenas catorze preencheram os requisitos mínimos necessários para se legalizarem como partidos e concorrerem às eleições democráticas .

Estas Organizações políticas estão a fazer campanhas políticas pelo país aparentemente de maneira totalmente livre e ordeira .

Os discursos nos comícios políticos e na mídia são de apaziguamento e unidade nacional e dão claros sinais de que as Eleições em Angola serão transparentes , livres e pacíficas , denotando isso um amadurecimento político muito grande do povo angolano , na sua maioria , e a certeza de um caminhar mais equilibrado rumo ao desenvolvimento que muitos almejam , dentro e fora do país .

Comparando as duas situações , 1992 e 2008 , os sinais são claramente opostos e , desta vez , as atitudes dos partidos políticos e outras organizações em geral dão sinais claros de um grande amadurecimento , clareza de espírito e objectivos pacíficos ..

Muitos dos estrangeiros e seus familiares ausentaram-se de Angola nesta época de eleições e nota-se muito claramente isso nas ruas com a diminuição de circulação de carros de mais de trinta por cento , na área urbana da cidade de Luanda .

Nos bairros fora do centro urbano a circulação automóvel pouco se alterou .

Nesta época do ano é normal muitas pessoas ausentarem-se do país em virtude do verão na Europa mas é notória uma ausência maior de pessoas , principalmente estrangeiros .

A maior parte dos angolanos por aqui continuam tranquilos e a movimentação de pessoas e bens é bem pacífica tanto na cidade de Luanda como nas estradas em direcção às outras Províncias e pode-se viajar de carro com segurança em qualquer hora do dia ou da noite para qualquer ponto do país , com certeza .

A não ser alguns acidentes rodoviários graves por motivo de melhoramento das estradas e maiores velocidades .

Nota-se algum policiamento nas ruas da cidade de Luanda mas isso tem sido normal nos últimos anos .e pouco se alterou e a policia de trânsito melhorou bastante , comparativamente ao passado .

Há uma orientação por parte do Governo de Angola para que todos os cidadãos tenham uma atitude de unidade nacional e exemplar .

É possível constatar uma clara e real organização das eleições , inclusivé através da Internet , com fácil acesso a todos de maneira a obterem as informações necessárias para que haja uma votação sem atropelos nem desorganização .

E Angola está de parabéns pois está sabendo , por si , construir os melhores caminhos no seu desenvolvimento , apesar das contínuas dificuldades conjunturais e estruturais internacionais .

Os países lusófonos terão muito a ganhar com este exemplo de Angola .

Todos nós queremos e desejamos o melhor para esta grande e bela Nação lusófona , após tantos anos de suor e lágrimas .

Angola com certeza vai ganhar sua medalha olímpica .

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Almofariz e pilão



(...)


O mais típico, que julgo ser comum a toda a África equatorial, é o enorme almofariz de madeira, com o respectivo pilão. Tiveram já oportunidade de o observar em fotografias que vos mandei.
O almofariz é construído a partir de uma secção de um tronco de árvore, com uns cinquenta centímetros ou mais de altura, pacientemente trabalhado pelo homem, até obter a forma tradicional de uma grande taça de madeira, no fundo da qual a mandioca é transformada num pó fino, com o qual se fazem as fubadas.
A mandioca é previamente seca em plataformas de madeira, com cerca de um metro de altura, colocadas na orla da sanzala e nunca dentro desta. O forte odor, que se liberta durante a secagem desta tuberculada planta, obriga a que a secagem se faça na periferia da povoação. É este odor fortíssimo que nos permite, quando andamos no meio da selva, detectar a grande distância a existência das sanzalas, desde que tenhamos, como é evidente, o vento a soprar na direcção certa.
Além dos enormes almofarizes e pilões para a fuba, há objectos idênticos em tamanho reduzido, destinados a moer a ginguba e o gindungo. Cada almofariz para o seu fim, para que os produtos obtidos não fiquem alterados no paladar! É moendo a ginguba num almofariz mais pequeno de madeira que se obtém o óleo de amendoim utilizado na culinária local. Para o gindungo, que nos permite dar aquele toque de picante apaladado aos nossos petiscos de carne assada, que ninguém ousa recusar, utiliza-se um almofariz ainda mais pequeno, também com o pilão de madeira à escala do recipiente de moagem ou trituração. (...)

Fonte: www.prof2000.pt/.../CARTAM26/pg000006.htm

Pensar e Falar Angola

terça-feira, 22 de julho de 2008

O combate de Naulila

(clique para ampliar)

Formatura dos soldados portuguezes no Lubango, antes de partirem ao encontro dos alemães.


Grupo de sargentos que fazem parte da expedição a Angola.Chegada ao Lubango das bagagens das tropas portuguezas ('Clichés' do distinto fotografo sr. Teles Grilo)."


Ilustração Portuguesa nº 466 de Janeiro de 1915


Fonte: Blog ilustração portuguesa http://revistaantigaportuguesa.blogspot.com/

Pensar e Falar Angola

quinta-feira, 19 de junho de 2008

EKAS


Ekas são cervejas, expessão provávelmente derivada de "cervejeiras"! Cerveja tem aqui qualquer coisa de mítico, bebida rudemente na aurora das noites de coito, nas festas, nos óbitos, nas alegrias como nas tristezas. Funciona um pouco como o chá para os ingleses.


Por António Pinto da França


Pensar e Falar Angola

domingo, 18 de maio de 2008

NGANDU: uma escola de patriotismo (texto de leitor)

Segundo nota constante em vossa pág., gostaria de ver publicado em "pensar angola" este texto.Atenciosamente,
Ngandu é uma aldeia com cerca de 75 famílias no interior do município de Saurimo, na Lunda Sul. O povo desta pequena comunidade é eminentemente agrícola, com uma produção que raras vezes excede ao consumo. Porém, a aldeia que não tem latrinas (o soba explica que é por razão cultural), água canalizada, energia e sinal telefónico, tem uma lição a transmitir às grandes cidades.
É manhã, o secretário bate à porta da casa do soba, Luís Sakalongo. Depois da tradicional vénia, o secretário sai com duas bandeiras na mão. A primeira é a da República e será içada no mastro junto à escola da aldeia. A segunda é do MPLA e será içada num terreiro, não longe da casa do líder da aldeia. É assim todos os dias, conta o soba.
Sem necessidade de se tocar um sino ou coisa parecida, os habitantes colocam-se de pé, firmes e em silêncio, olhando para a bandeira que sobe vagarosamente. Até mesmo as crianças interrompem a sua traquinice e ninguém se movimenta. Os homens tiram os chapéus da cabeça e as mulheres arreiam as vassouras. É a norma.

Içada a cor que a todos representa de forma indistinta, é chagada a vez da bandeira do MPLA. Os que nela não se revêem são poucos e são os que partem para os seus afazeres. Os que a têm no coração mantêm-se de pé. Estáticos. Apenas olhares mirados para o pano tricolor que sobre. devagar, devagarinho. O secretário vai fazendo pequenas pausas, até atingir o topo e amarrar a corda ao mastro de pau.
O cenário é repetido à tarde, no dia seguinte, todos os dias, todas as semanas e todos os meses e anos. Os mais novos vão crescendo e sem que seja necessário o apelo, a comunidade vai, por via da repetição perpetuando o amor à bandeira e ao hino que a todos representam.
Do outro lado da aldeia está içada, de forma permanente, uma outra bandeira. É a do PRS, o partido que lidera a oposição ao MPLA nas Lundas. O soba explica que ela nunca esteve nem a meia haste nem retirada.
“Os homens chagaram aqui, pregaram a bandeira, plantaram o pau e nunca mais voltaram”, explica Sakalongo.
A tolerância é na aldeia o melhor caminho para a coabitação. “Todos dizem que ela devia também subir e descer como as outras, mas foi pregada. E ninguém diz nada. Apenas olhamos e até as crianças já sabem que não devia ser assim”.
Luís Sakalongo é ferreiro de profissão e já desempenhou a função de deputado à Assembleia Provincial do Povo na Lunda Sul.
O secretário da aldeia é seu irmão e fez parte do primeiro lote de jovens que foi a Cuba estudar. Já em Angola, as coisas não lhe correram bem, por razões que nem ele, nem o soba explicou. “Para não andar mal na cidade fomos buscá-lo e está aqui na aldeia connosco”.

O outro irmão é o adjunto do soba. Araújo Marianda, 68 anos, já foi membro e responsável da ODP (Organização de Defesa Popular). “Fui dos primeiros que fomos fazer o curso em Benguela e no Cunene. Estou aqui depois de muito ter lutado”, contou.
Ambos, Luís Sakalongo e Araújo Marianda, reclamam apenas o facto de não receberem nenhuma pensão como antigos combatentes, mesmo depois de terem escrito por diversas vezes às estruturas governamentais da província e do partido.
Como forma de chamar a atenção dos que por lá passarem, sobretudo os governantes e líderes do partido que defendem, o soba decidiu em rebaptizar o nome da aldeia para NGANDU LUFUNE KEXI CUNHONGA, que traduzido do Cokwe para português nos leva à ideia de “quem muito trabalhou mas que não é reconhecido pelos feitos”.
Ngandu é hoje uma das aldeias mais organizadas, graças ao empenho e sabedoria do seu soba, Luís Sakalongo.


Luciano Canhanga


Pensar e Falar Angola

terça-feira, 29 de abril de 2008

A BANDA

Recordando de memória um texto que faz tempo me chegou às mãos e se perdeu neste vasto império anárquico que é disco duro do meu PC.

A Banda!
Mas onde fica a Banda? Conheço gente que esteve em Angola, calcorreou as 18 províncias, mas voltou decepcionada porque não chegou a conhecer a tão falada “Banda”.

"Vocês falam tanto da Banda. Lá na Banda... mas em que parte de Angola fica ela então?" Interroga-se um deles.
Talvez, nem nós, saibamos explicar a definição ou localização da banda, porque, para nós a banda não se define nem se vê, ela sente-se quando o Boing 747 da Taag abre a sua porta e entra aquela quentura empoeirada que nos toca a pele.

Mais: a Banda sente-se ali naquele tapete rolante do Aeroporto 4 de Fevereiro, quando vamos pegar as malas e encontramos a mistura de passageiros e bagagens entre Lisboa/Luanda e Kinshasa/Luanda, quase sempre coincidentes; sente-se naquela comprida avenida que sai do aeroporto ate ao Largo da Maianga, onde nos cruzamos com um Hiace azul e branco e um Hammer H2 amarelo ao mesmo tempo; sente-se nos vendedores informais que te batem no vidro com a dica “cota temos todas as novidades, é só escolher” ou “tio olha o cheirinho pro boter, esse é mesmo do puro”, engarrafado no saco de plástico aquecido no escaldante sol; no engarrafamento provocado pela nova onda da construção das pontes ou túneis, como alguns dizem.
Quando chegamos em casa sentimos a Banda assim que ligamos a TV e nos deparamos com a emissão da Globo, dos vinte canais despostivos, dos tantos outros ao invés da TPA que estávamos a espera; daquele cheiro do bagre fumado ou do funge quentinho que vem la da cozinha da casa ao lado; do som que vem da rádio do vizinho com as novidades musicais que estão a bater em determinada altura nalguma parte do globo; da 1ª conversa com os cambas em que nos contam as novidades tintim por tintim num repetir que não se passou nada; os novos calões que estão a bater, a nova forma de dançar kuduro ou tarraxinha, a praia e disco que tão na moda e muitas outras dicas, insignificantes para alguns mas importantes para todos nós que queremos ver ou nos sentirmos na Banda.
Muitos, podem entender Banda como uma dica que os angolanos inventaram para dizerem que foram ou vão para Angola, mas se assim pensam é porque não apanharam a dica. Pra Angola, qualquer madiê pode bazar, um tuga, brazuca, santolas ou chinoca que agora vão pra lá aos montes; mas pra Banda, hum hum, só mesmo nós sabemos o caminho para aquele “paraíso” empoeirado.
Por vezes, penso que sou “bandense”, porque angolanos de BI. e passaporte, existem muitos, basta querer sê-lo e já esta; agora bandense, não é para quem quer nem para quem pode, é só para quem é.

Ali, onde se sente a dificuldade em que alguns vivem, mas que todos se riem independentemente do nível de vida que têm.
Ali sim está a Banda!









Pensar e Falar Angola

sábado, 29 de dezembro de 2007

Rio Ngangu


(...) o Ngangu - rio vermelho, rio ruivo, o que sei de cor e nunca cheguei a lhe avistar. Vermelhavam as suas torrentes, porque? se claras eram as águas nas nascentes em planalto de pedra - como? Teimosiavam em vencer fundos de pedra de ferro, avermelhavam com o sangue desses seixos rolados, burgaus de fogo, e acabava baço nas carapinhas dos monandengues de suas margens, miúdos ruivos. A pele daqueles povos acobreavam ainda em tempo de cacimbo. (...)




Fonte: Luandino Vieira in O livro dos rios

Nota: Rio Ngangu é afluente do rio Kuanza.






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quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Angola, descrita


Pinceladas desta aguarela algo dramática que é Luanda, capital de mestiçagem.

Dizia-me outro dia um embaixador africano que Angola é um país negro que não é negro, porque cruza portuguesa não é só sangue, é de "cabeça". Os angolanos das cidades são todos, afinal, mestiços de português...

Do contínuo ao ministro todos são "mulatos", quer sejam pretos ou não. E está tudo lá, África e nós, no que temos de bom e de mau. Uma grande confusão, um caso novo à face do continente, cheio de potencialidades mas também um grande divórcio entre a cidade e o interior, a saudade do chefe carismático que não chega, que não pode chegar, porque a raiz europeia abafa a raiz negra e o poder é ainda, herança grega, colectivo.


França, António Pinto da, in "Angola, o dia-a-dia de um embaixador"

RITA GT em Viana do Castelo

https://youtube.com/shorts/qZkb4CfXTZQ?si=3K65JJEr5VQqsZZS Ao longo dos últimos dois anos tive a oportunidade de desenvolver “8”, uma obra d...