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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

NAMIBE EMPRESTA CENÁRIO PARA FILME DE HOMENAGEM A RUY DUARTE DE CARVALHO

NAMIBE EMPRESTA CENÁRIO PARA FILME DE HOMENAGEM A RUY DUARTE DE CARVALHO
A margem das festividades do 111º aniversário do município da Bibala, Archer Mangueira, Governador Provincial do Namibe, recebeu em audiência naquela localidade, a equipa da produtora LEOPARD FILMS.
O encontro abordou a produção e realização no Namibe, da uma longa metragem e minissérie, intitulado “OS PAPÉIS DO INGLÊS – Os Filhos de Próspero”.
A aventura que será transmitida pelo canal português RTP, é baseada na trilogia “Os Filhos de Próspero” de Ruy Duarte de Carvalho, e narra as aventuras do antropólogo, poeta e romancista angolano, quando descobre que o pai terá deixado, algures no deserto do Namibe, papeis que poderiam ajudar a esclarecer um drama passado em 1923.
Para a rodagem que deverá ocorrer entre os meses de Abril e Junho nos municípios de Moçâmedes e Bibala, Archer Mangueira garantiu apoio institucional, frisando que a iniciativa coloca a província do Namibe no Mapa Cultural.
Mónica Mota, Directora de Produção da LEOPARD FILMS, referiu que a façanha com varias historias, passa-se maioritariamente pelo Namibe e afirmou estar a ver quase tudo aquilo que Ruy Duarte de Carvalho descreveu nas suas obras.
Cenários com imbondeiros, tribos mucubais, a cidade de Moçâmedes, Caraculo, Praia Amélia, Pico do Azevedo e outros, vão preencher o filme de homenagem a Ruy Duarte de Carvalho, que trará ao Namibe uma vasta equipa de um elenco português e angolano, para às gravações do enredo, que promete movimentar o sector econômico e das artes na província.



Pensar e Falar Angola

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Homenagem a Ruy Duarte de Carvalho

Dia 12 de Maio, em Lisboa, RUY DUARTE DE CARVALHO é homenageado no Espaço Nimas com a exibição de três curtas-metragens da série "Presente Angolano - Tempo Mumuíla" e com uma conversa com José Eduardo Agualusa, Marta Lança e Paulo Branco. Não percam!



Pensar e Falar Angola

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Um livro à deriva: autocolocação e construção do livro na trilogia ficcional de Ruy Duarte de Carvalho

Um livro à deriva: autocolocação e construção do livro na trilogia ficcional de Ruy Duarte de Carvalho

Contaminação de géneros, cruzamento e sobreposição de registos discursivos heretogéneos são habitualmente apontados como umas constantes na obra de Ruy Duarte de Carvalho, que vai do cinema à antropologia, da poesia à narrativa, do ensaio à crónica de viagem, num discurso que, como várias vezes tem sido justamente observado, não se pode – pela amplitude e complexidade do pensamento e da experiência que o geram – encaixar nas convenções e nos limites de um determinado género ou espaço discursivo. Se isto é verdade, o facto de o autor ter concebido, nos últimos anos da sua vida e da sua actividade literária, um projecto ficcional tão orgânico e complexo como Os Filhos de Próspero adquire um significado especial, uma vez que testemunha a precisa intenção de confiar ao romance a narração de uma experiência cultural e humana de grande valor, que não se poderia expressar plenamente em outros tipos de textos, como, por exemplo, o ensaio etnográfico. A este propósito, para poder conduzir uma interrogação do livro e do romance nesta obra, convém olhar em primeiro lugar para Vou lá Visitar Pastores (1999), que, situando-se no limbo dos géneros, marca a transição para a ficção, que se revelará de forma clara com a publicação de Os Papéis do Inglês, dois anos mais tarde.
O interesse principal do livro assenta na tentativa, amiúde referida pelo narrador, de expor, expondo-se e de situar, situando-se, isto é, de combinar a exposição dos seus conhecimentos acerca da sociedade kuvale com a da sua própria experiência – não só factual como sobretudo interior: “Dizendo-te dos outros estarei a dizer-te inevitavelmente muito mais de mim mesmo e ainda quando, como vamos fazer agora, o objectivo for o de fornecer-te informação tão objectiva quanto possível […]” (Carvalho 1999: 99). Este processo, a que é dado o nome de autocolocação, responde a uma evidente deslocação de pontos de vista e de interesses, que coincide com um cada vez maior envolvimento do etnógrafo com a comunidade que constitui o seu “objecto de estudo” e sobretudo com um forte questionamento dos pressupostos humanos e intelectuais que orientam a sua pesquisa. Assim, o narrador refere que, já inserido na trama das relações locais, a dada altura acabou por aperceber-se de ter abandonado a postura científica e, junto com ela, o quadro de referências do seu contexto de origem, a favor do sistema local. O resultado, no contexto do trabalho etnográfico é, evidentemente, controverso: por um lado, o etnógrafo conseguiu atingir um invejável grau de intimidade com a sociedade que se propunha estudar; por outro lado, o envolvimento pessoal ofusca a lucidez necessária para esse trabalho ter dignidade científica. Neste contexto, é fácil perceber as razões da opção pelo romance, cujas implicações são aqui discutidas. Com efeito, o romance revela-se terreno privilegiado para a articulação das duas vozes do verbo expor, a transitiva e a reflexiva, a de quem se vira para outro objecto e a de quem se desdobra em si próprio, reconhecendo a inevitabilidade deste movimento. E é este movimento que, a partir dos Papéis do Inglês, determinará também a organização de um projecto romanesco fundado na centralidade da inscrição autoral, numas narrativas que, diversamente, não poderiam existir, uma vez que a experiência sujetiva é condição para que o romance nasça e se desenvolva.
No entanto, é exactamente esta base real que se revela problemática no momento em que o autor se constitui como narrador, pretendendo transpor para a escrita uma experiência de vida. De facto, ao pôr em história uns acontecimentos extraídos do continuum do dia-a-dia, ele está inevitavelmente a ficcionalizá-los e a ficcionalizar-se ele próprio, desempenhando o papel de narrador e de personagem, que coincidem e ao mesmo tempo não coincidem com o autor dos romances. Já nos Papéis do Inglês o narrador mostra ter plena consciência deste desfasamento, que é assumido e discutido em todas as suas implicações: 

Quem andava por ali, nessa altura, a cavalgar um land-rover pelas pradarias da Muhunda e do Brutuei? Era eu, bem entendido, mas não o mesmo que está agora a contar-te uma estória. A minha corrida atrás de uns papéis […] gera a acção de que há-de resultar uma segunda estória. Será da minha acção enquanto personagem, assim, que resulta essa outra estória que é, afinal a da minha elaboração da própria estória do Galvão. Vou ter que contar-me, tratar-me, pois, enquanto personagem dessa estória. E essa então será, comigo a actuar lá dentro e a primeira inscrita nela, a tal estória que tenho para contar-te. E quem narra não há-de ter, ele também, que dar-se a contar? Dito assim, dá para entender onde quero chegar? Ou é por demais directo, excessivo, para caber na narração? (Carvalho 2001: 38).

Nesta passagem, o narrador expõe deliberadamente os bastidores da narrativa que desenvolverá a seguir, reconhecendo os riscos mas, ao mesmo tempo, a necessidade de tal procedimento. A distinção entre narrador e personagem, que ele faz questão de salientar, é devida, por um lado, à óbvia discrepância temporal entre história e narração, a qual produz uma mudança no ponto de vista, uma vez que o narrador, no momento da narração, já conhece a estória na sua inteireza e tem, por conseguinte, uma perspectiva muito mais ampla da que teve enquanto personagem; por outro lado, sublinhando esta distinção, o narrador chama a atenção para o processo de (auto)ficcionalização que ele próprio desencadeou, colocando-se, ao mesmo tempo, dentro e fora da narrativa, e esboçando, por isso, os traços da sua relação consigo mesmo como personagem e como autor, relação a um tempo de identidade e de alteridade, que será ulteriormente problematizada nos romances successivos.
Neste processo de dupla colocação, a instância autoral é abalada pelas interferências de outras vozes, como, nas Paisagens Propícias, a da personagem de SRO, que representa um claroalter ego do narrador e que, a dada altura, num curioso jogo de troca de identidades, se lhe substitui, tomando as rédeas da narração. Tanto neste romance como na Terceira Metade, o estatuto das relações entre autor e narrador, livro e texto, realidade e ficção é encarado de maneira problemática, já que da sua interrogação depende a construção da narrativa e a conseguinte organização do livro. As dinâmicas internas ao primeiro par – instância autoral/instância narrativa – são-nos assim apresentadas numa das primeiras páginas do terceiro romance da trilogia:

…instalado no hotel Paralaxe do parque turístico local, que nessa altura do ano cobrava mais barato por ser estação baixa, das 5 da manhã às 3 da tarde durante os trinta dias que depois de ter feito as contas previ poder deter-me ali, convocava em mim o narrador que nestes últimos anos me tenho imposto às vezes ser, embora sem grande sucesso, parece… depois, quando às 3 da tarde de cada dia encerrava uma jornada de escrita, daí até às 5 da alvorada seguinte, o narrador (o autor constituído em narrador) só existia como destinatário das instruções, das intenções, das decisões, que cada noite o autor deixava assentes no roteiro… (Carvalho 2009: 21).

Ao pôr a tónica no desdobramento da figura autoral, que é aqui exposto e denunciado até nas suas implicações práticas, o autor está, de facto, a desautorizar-se, abdicando do papel de garante da unidade e da autenticidade do texto narrativo, cuja responsabilidade acaba então por partilhar com outras vozes. E ademais, na hora em que a dicotomia entre autor e narrador(es) é assumida como elemento constitutivo da construção ficcional, o problema das relações entre esta e a realidade que a sustenta volta a surgir como elemento desestabilizador. Isto torna-se muito evidente na Terceira Metade, quando o narrador interrompe a escrita devido a um acontecimento imprevisto, a saber, o desaparecimento do destinatário da narração, Paulino, cuja morte funciona como uma imposição do real sobre o ficcional, na medida em que quebra a ilusão em que este se baseava. Assim, a saída do narrador e a conseguinte interrupção da escrita na passagem do Livro I ao Livro II são o resultado do desaparecimento do seu par ficcional, o narratário, sem o qual ele não podia continuar a exercer a sua função. O destinatário da narração, de facto, tem a importante responsabilidade de “dar um jeito para descobrir o gosto de curtir o que lhe estão a contar, por um lado, e tanto bastaria para que o que ouve ou lê passasse a ser obra sua também…”, pois “jamais haverá obra bem escrita se ela não for bem lida…” (Carvalho 2009: 45). É a comunhão de intenções do narrador e do narratário que permite ao livro cumprir o seu destino, tornando-se obra partilhada entre quem a produziu e quem a recebeu. Por isso, a narração só prosseguirá em novas condições, quando o autor, empurrado pelos estímulos externos que o atingem enquanto se encontra em Berkeley, na qualidade de escritor convidado, decide retomá-la mas, desta feita, ele próprio, isto é, dispensando a figura do narrador que, até, então, se tinha interposto entre ele e a narração. Com efeito, se a existência do narrador depende do texto, a do autor depende do livro e é este, em última instância, que decide as sortes de um e do outro, impondo a irrupção, no mundo ficcional, da falta de sentido da realidade, que livro e autor partilham. É por isso que a morte de Paulino leva o autor a dispensar o narrador, cuja empresa se tinha revelado destinada a falhar, e decide continuar a narração, autocolocando-se nela e autoficcionalizando-se ele próprio e a sua vida.
Mas então, que tipo de livro será este, provisório, sujeito aos imprevistos do devir a que, malgré lui, pertence, estruturado por pretextos e desvios, perpassado por múltiplas vozes e destinado a ser completo só na hora em que é absorbido (ou antes destruído?) por outrem? Será, em última análise, um livro à deriva:

… será que todos os livros são afinal ‘ratés’, desconseguidos, em relação a uma qualquer planificação que lhes tenha obrigatoriamente assistido à partida? … tem livros de que a estrutura espanta, e encanta […] e que, ao fim e ao cabo, se são dessa maneira, assim, não é porque tenham sabido realizar-se em estrita e sábia, e segura, obediência a um qualquer programa prévia e engenhosamente projetado e calculado, mas antes conforme uma deriva que ela afinal é que acaba por estruturá-los… (Carvalho 2009: 177).

Segundo esta perspectiva, o que torna extraordinária a estrutura de certos livros é o desvio, o imprevisto, que provoca um afastamento do plano inicial, tornando-se elemento essencial da narrativa. Já vimos o impacto que um acontecimento inesperado, ocorrido no mundo extra-textual, teve sobre o desenvolvimento da narrativa da Terceira Metade. Apesar da dramaticidade do sucedido, que pôs em risco a própria existência do livro – ou talvez por isso mesmo… –, não se trata de um caso isolado na arquitectura dos romances da trilogia, pois o desvio é, na verdade, o contraponto de outro motivo recorrente nestas narrativas, o do pretexto. Todas elas, de facto, começam apresentando um objectivo a atingir (recuperar os papéis do inglês, encontrar SRO, entrar na posse de umas cassetes gravadas pelo Trindade), que abre o caminho ao labor narrativo, mas que acaba por revelar, ao longo da narração, o seu carácter, justamente, de falso centro. Assim, se o pretexto transmite ao texto um movimento centrípeto, relembrando constantemente o objectivo inicial, o desvio impõe o movimento contrário, mostrando a precariedade e, no fundo, até a inutilidade de todo o centro, todo o programa, toda a estrutura que se queira unitária e homogénea. Os dois elementos são, então, contrapostos e complementares, originando uma tensão que permite o desenvolvimento do livro.
A deriva do livro, devida a todas as problemáticas já apresentadas, revela-se, em última análise, elemento estruturante e, portanto, essencial na sua construção: ela testemunha a impossibilidade de cumprir o projecto inicial, originando, assim, uma tensão que permite o efectivo desenvolvimento da narrativa. Uma narrativa onde circularidade, não-linearidade, auto-referencialidade e provisoriedade cooperam para desestabilizar a problemática relação entre texto, livro e realidade, o primeiro com a sua tendência para a fragmentação e a dispersão, o segundo com os seus limites e obrigações formais, a terceira com as suas zonas de desordem que resistem a ser circunscritas e representadas. No meio, o (autor constituído em) narrador, encarregue de manter a tensão entre estas dimensões, condição incontornável para garantir a sobrevivência do livro. E assim, as qualidades atribuídas ao mais-velho Trindade, provavelmente partilhadas pelo nosso autor, poderiam também ser lidas como uma metáfora para este género de livro:

[estas] criaturas […] não visam tanto produzir uma qualquer imagem, sequer para si mesmos, quanto manter-se abertos ao imprevisível devir, à epifania da sua próxima forma […] sem sofrer da obrigação de serem unos… instalados na sua precariedade… seres para quem se alguma coisa no ser é essencial é a sua própria precariedade, a sua constante mudança que não condena o sujeito a tentar apreender-se como coisa existente, estável a ponto de existir enquanto forma fixada, objetivável… (Carvalho 2009: 365).

Fotografia de Luís BarraFotografia de Luís Barra

Pensar e Falar Angola

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Uma Homenagem a Ruy Duarte de Carvalho

RUY DUARTE DE CARVALHO DANS LES MARGES DE LA TERRE ANGOLAISEGérard Chalendar, Pierrette Chalendar
Pierrette et Gérard Chalendar rendent hommage au poète-cinéaste disparu, l'un des représentants les plus originaux de la culture d'expression portugaise.
      Ruy Duarte de Carvalho a été trouvé mort à son domicile de Swakophundo, seconde ville de Namibie, le 12 août dernier. Les circonstances de sa mort demeurent obscures - une enquête a d'ailleurs été ouverte pour les élucider. Avec sa disparition, la culture d'expression portugaise a perdu l'un de ses représentants les plus originaux ; un de ceux qui ont porté haut l'esprit de recherche tant sur le plan anthropologique que sur celui de l'écriture poétique, le respect de l'Autre quand il appartient à une civilisation radicalement différente, l'amour de la langue de Camoëns et la sincérité d'un engagement au quotidien dans les affaires angolaises (Bien que né de parents portugais, il avait adopté la nationalité angolaise dès que le pays avait retrouvé son autonomie politique). Il laisse une œuvre protéiforme : après avoir été technicien agricole, il présente une thèse de sociologie à Paris II sur la communauté des pêcheurs de l'île de Luanda, ce qui lui donne la possibilité d'enseigner l'anthropologie et plus tard, de devenir professeur invité dans diverses universités (Berkeley, Sao Paulo, Coimbra). Il se forme également aux techniques du cinéma à Londres. Il réalisera une dizaine de courts et longs métrages parmi lesquels Nelisita (1882) diffusé à Grenoble le 20 mai 2010, Moia : o Recado da Ilhas (le Message des Iles) (1989) ainsi qu'un documentaire sur la célébration de l'indépendance de l'Angola dans la municipalité de Prenda, un quartier de la capitale, durant la nuit du 10 au 11 novembre 1975.
      Parallèlement, il fait paraître des poésies (elles ont fait l'objet d'une réédition sous le titre Lavra-Poesia 1970-2000 en 2005), une (unique et courte) fiction ayant pour titre Como Se o Mundo Nao Tivesse Leste - 1977 (Comme si le monde n'avait pas d'Est), des études anthropologiques, notamment Vou La Visitar Pastores (1999), récit descriptif et analytique portant sur le mode de vie des Kuvale - bergers nomades éleveurs de bétail et qui évoluent au sud de l'Angola à frontière de la Namibie - dont une adaptation cinématographique a été présentée au Festival du Film de Maputo de 2008 et de multiples publications dans différents périodiques (y compris français) touchant les problèmes socio-économiques et culturels engendrés par le départ des colons ou par telle ou telle décision des autorités du M.P.L.A. Quel que soit le type de productions considérées, toutes ont un point commun : elles sont ancrées dans un milieu géographique et humain parfaitement circonscrit. Et derrière la volonté de cerner au plus près le vivre, le sentir et le penser de communautés mal connues car minoritaires, se fait four un total respect pour ces populations, d'autant qu'à leur contact, Ruy Duarte découvre une esthétique axée sur les connaissances géo-climatiques des autochtones.
      A travers les proverbes et autres manifestations collectives de leur culture, il s'ouvre à une voix impersonnelle capable de capter aussi bien les observations les plus terre à terre ayant trait à la vie de tous les jours que les mythes fondateurs de la culture locale. Son discours n'a rien de dogmatique ; il donne à lire les réflexions de l'auteur sur son propre travail, sa peur obsessionnelle de trahir ou de méconnaître tel ou tel événement, tel ou tel comportement, la joie ressentie en ayant le sentiment d'avoir pénétré ce qu'est la beauté féminine, d'avoir mesuré l'importance des transhumances, d'être parvenu à faire d'une zone désertique son ère de vie matérielle et intellectuelle. La description au plus près de l'observation sur le terrain côtoie ainsi l'émotion ou le sentiment personnel. Et par-dessus tout, il porte témoignage sur des communautés qui, parce qu'elles vivent à l'écart des grands centres urbains, ont conservé intactes leurs traditions et leurs langues mais qui finissent par être rattrapées par la modernité et sa mécanisation à outrance avec toutes les conséquences négatives qui s'ensuivent en ce qui concerne les modes d'appréhension du monde extérieur, les rapports au savoir traditionnel, l'éducation etc. Un des points les plus originaux de l'œuvre de Ruy Duarte, c'est cette interrogation de plus en plus approfondie au fil du temps sur les capacités de la langue à exprimer les réactions du poète-chercheur devant tel ou tel phénomène tout en restituant le plus fidèlement possible les faits, gestes et pensées des autochtones. En cela, et malgré des différences notoires, il se révèle proche de Michel Leiris qui avait su mener de front un travail ethnographique et une interrogation sur sa propre pratique poétique.
Pierrette et Gérard Chalendar



Pensar e Falar Angola

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Morreu Ruy Duarte de Carvalho

Morreu o escritor Ruy Duarte Carvalho

2010-08-12

O escritor, poeta, cineasta, artista plástico, e antropólogo Ruy Duarte Carvalho morreu na sua casa na cidade de Swakopmund, na Namíbia. A notícia foi avançada hoje à à Lusa pela escritora angolana Ana Paula Tavares.

De acordo com a edição online do diário "Público", o escritor foi encontrado sem vida na casa para a qual foi viver depois da reforma. O filho de Ruy Duarte Carvalho, ainda em declarações ao mesmo jornal, afirmou que não tinha informações do pai há alguns dias.

O autor, que tinha 69 anos, nasceu em Santarém mas passou grande parte da sua infância e adolescência na província de Namibe, em Angola, tendo regressado a Portugal nos anos 60 para frequentar e concluir o curso de regente agrícola. Logo de seguida, regressou a Angola para pôr em prática o que tinha aprendido.

Angola foi, de facto, o país para o qual Ruy Duarte de Carvalho sempre regressou. Em 1974, depois de ter dividido o seu tempo entre Maputo e Londres, onde frequentou um curso de cinema, voltou ao país da sua infãncia. A ligação a Angola tornou-se ainda mais efectiva com o pedido de nacionalidade angolana que o escritor solicitou em 1983.

É também sobre Angola, mais precisamente sobre os pescadores da costa de Luanda, que incide a sua tese de doutoramento em Antropologia na École de Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris.

Exerceu a actividade de Professor da Universidade de Luanda e foi Professor Convidado na Universidade de Coimbra (Portugal) e na Universidade de São Paulo (Brasil).

Dos seus cerca de 20 livros de poesia, ficção, viagem e ensaio publicados, destacam-se “Vou lá visitar pastores”, “Actas da Maianga”, “Os papéis do inglês” e “Lavra”.

Da sua filmografia constam os filmes "Nelisita: narrativas nyaneka", de 1982, e "Moia: o recado das ilhas", realizado em 1989.



Pensar e Falar Angola

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Ciclo Ruy Duarte de Carvalho

E AGORA...VAMOS FAZER MAIS COMO?

Ciclo Ruy Duarte de Carvalho

A convite do Dockanema e do Instituto Camões, encontra-se em Maputo o escritor, cineasta e antropólogo angolano Ruy Duarte de Carvalho para apresentação dos documentários PRESENTE ANGOLANO 79-81 e TEMPO MUMUILA, e para participar em conferências.
Quarta, 10,00h UEM-FLCS PROGRAMA 2 - TEMPO MUMUÍLA
16 / 09 de Ruy Duarte de Carvalho, Angola, 1979, 93'
AMANHÃ 14h UEM-FLCS - Campus Universitário Anfiteatro 1502
CONFERÊNCIA
com Ruy Duarte de Carvalho apresentado por Rita Chaves

Quinta, 10,00h CCFM PROGRAMA 3
17 / 09 de Ruy Duarte de Carvalho, Angola, 1979, 76'
SEGUIDO DE DEBATE

Domingo, 16,00h Teatro Avenida PROGRAMA 2 - TEMPO MUMUÍLA
20 / 09 de Ruy Duarte de Carvalho, Angola, 1979, 93'


RUY DUARTE DE CARVALHO Antropólogo, escritor e cineasta angolano, reside actualmente na Namíbia. Doutorado em etnologia e antropologia social pela EHESS, Paris. Leccionou em Luanda, Coimbra, São Paulo, Paris e Berkeley. Autor de Lavra – poesia reunida 1970-2000 (2005), Vou lá Visitar Pastores (1999), Actas da Maianga (2003), A Câmara, a Escrita e a Coisa Dita – Fitas, Textos e Palestras (2008) e das ficções Os Papéis do Inglês (2001), As Paisagens Propícias (2005), Desmedida - Luanda, São Paulo, São Francisco e Volta (2008) e A Terceira Metade (2009) e realizador de Uma Festa para Viver (1976), Faz Lá Coragem (1976), Camarada (1976), O Deserto e os Mucubais (1976), Presente Angolano (1979), Tempo Mumuíla (1979), O Balanço do Tempo na Cena de Angola (1982) Nelisita (1982), O Recado das Ilhas (1990)

Tal como o cinema recorre à literatura, os seus livros recorrem à linguagem cinematográfica. Parece escrever como quem faz a répèrage para depois filmar. A sua poética viaja em vários suportes, como no caso dos pastores do sul que estão presentes em qualquer dos materiais produzidos.
Filmes como Uma Festa para Viver, É a Vez da Voz do Povo - Faz Lá Coragem, O Deserto e os Mucubais(1976), Presente Angolano, Tempo Mumuíla (1979), participam do acontecer do país. Esta sua maneira de construir narrativas fílmicas envolve directamente os sujeitos na sua fabricação (por oposição a um realizador que fosse omnisciente e se colocasse para lá das actividades das pessoas que está a filmar). Os filmes colocam um realizador em diálogo com as pessoas. A acção vai avançando ao ritmo delas tornando-se quase uma forma de colaboração.
As reflexões sobre cinema de Ruy Duarte sairam em livro “A Câmara Escrita e a coisa dita” e direcionam-se contra um cinema que se preocupa em preservar um mundo em desaparecimento, cristalizado em nostalgia, como etnográfico, defendendo um mundo que, ao invés, se transforma. Defende que deve o “filme ser válido como cinema, útil como referência e fiel como testemunho.” E é assim que os filmes materializam a preocupação estética aliada à consciência política, transversal à sua obra. Nuno Porto refere que Nelisita (1982), que vai passar em sala, “permite comentar a situação de Angola contemporânea da realização do filme, a partir do ponto de vista dos Nyaneka. Neste sentido o filme mostra como o Estado é apercebido localmente, de um modo 'poeticamente eficaz'”.
Uma vez que Ruy Duarte suspendeu a sua actividade cinematográfica, o ciclo oferece-nos um reencontro muito especial com este mundo imagético e suas implicações e a oportunidade de visionar filmes que há muito se perguntava como e onde ver.


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Marta Lança
Coordenadora comunicação e imprensa do DOCKANEMA
Festival de cinema documentário
11-20 Setembro 2009 /// Maputo
Av do Zimbabwe 1348
+258 845492989 (moz)
+351 964878330 (pt)




retirado do Facebook - ArtAfrica's Notes
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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Duas margens do Atlântico

Em seu perspicaz ensaio, a autora Márcia Nascimento desvela as vozes dos poetas Ruy Duarte de Carvalho e Edimilson Pereira. O primeiro traz em seus versos o canto das terras angolanas, o segundo, os sons dos tambores outrora tocados nas Minas Gerais, a vibração das danças e dos cantos afro-brasileiros. Ambos, com versos, cantos e gestos, criam suas etnopaisagens.

Por Márcia Nascimento[*]

Edimilson de Almeida Pereira. Foto de Prisca

Edimilson de Almeida Pereira. Foto de Prisca Agustoni

Nas vozes poéticas de Ruy Duarte de Carvalho e Edimilson Pereira podemos identificar o mesmo exercício com paisagem, estabelecendo uma maneira inusitada de recriar o campo cultural negro-africano. Pelas paisagens textuais de suas propostas poéticas, funda-se a base de sustentação do diálogo entre duas margens do Atlântico: Brasil e Angola. Diálogo esse que se fundamenta através também de suas molduras etnográficas, que aliadas ao processo de construção identitária de territórios, são consideradas “sociedades tradicionais”, porque ainda nos dias de hoje, são espaços que mantém uma substância etnográfica endógena – Arturos e Kuvales.

Ruy Duarte de Carvalho

Ruy Duarte de Carvalho

Estes poetas-etnógrafos realizam uma reconstrução, em etnopaisagens, nas malhas das letras do corpo cultural que se mantém vivo, transformando-se em espaços profícuos para a inscrição, por intermédio da oralidade, da língua e desse corpo textual africano na escrita. Nesse sentido, a palavra torna-se um dispositivo para acessarmos a memória coletiva dessas comunidades e esses poetas, instrumentos de sonoridade para orquestrar as relações entre o homem e a natureza. Nas palavras de Michel Collot (2005): “o poeta vibra ao som dos elementos da paisagem, tornando-se um instrumento rítmico de mesma tonalidade afetiva, musical” (COLLOT, 2005, p.54), e por extensão, acrescentamos o caráter mágico à tarefa de tradução cultural de Ruy Duarte e Edimilson Pereira, principal elemento que os auxiliam na modalidade de (en) cantar a natureza.

Assim Ruy Duarte, em Lavra (2005) opta por uma paisagem textual para o retorno ao sublime em sua poesia ao escolher uma linguagem mais grata que o silêncio para compor o livro Hábito da terra.

Tranquilas são as paisagens em que a idade não conta. A minha pele já quase nada guarda do grão que a destinava ao alvoroço das manhãs festivas. Poderia acolher o vento dos augúrios, o seu sinal na areia ou a palavra que o medo desbastou até o seu caroço de murmúrios. Há tardes em que a chuva se interrompe e a transparência invoca outro temor porque um silêncio assim acorda o sentimento e pode revelar, para além do corpo, as secretas razões de alguma voz futura. (CARVALHO, 2005, p.237)

Desse modo, o seu texto inscreve os sons, os tons, os gestos e as palavras, o significante de comandar o ritmo e garantir a forma da escrita, num encontro da memória com a sua origem. A conjunção entre o corpo e as paisagens configura-se numa maneira de organizar as vozes poéticas como se fosse textos, rimar enfim as palavras e os gestos. Também um modo de orquestrar a dimensão do gesto, a dinâmica do tempo e a identidade do espaço.

Num movimento similar, o outro instrumento de sonoridade eleito para essa leitura, Edimilson Pereira também faz da palavra, um dos elementos simbólicos para sedimentar, na margem de cá do Atlântico, a sua artesania poética. Em seu Livro de falas recolhido na Casa da Palavra (2003) temos,

A terra de tudo, jamais serei outra. Conheço meus segredos, mas há sempre o nome da flor nascente que me escapa. São nomes futuros, sementes e grãos que me entontecem. Ah, a toda criação me asila em gestos de quase infinita espera. Sou terra úmida, fonte perdida entre as folhas. Estimo as raízes que me saem destino ou flor espetalada. (PEREIRA, 2003, p.31)

Consoante ao pensamento de que a paisagem é um estado de alma e perseguindo as considerações de Michel Collot, em Paysage et Poésie, o poeta deve ser capaz de descrever e compor ao mesmo tempo: a ambientação de uma paisagem, sua coloração afetiva e a tonalidade do poema. Orquestrar, pois, as características fundamentais da paisagem, que se instaura entre os elementos do mundo exterior, a consciência humana e a ressonância do poema. Essa musicalidade ou ressonância afetiva da paisagem é recorrente no trabalho poético tanto de Edimilson Pereira quanto de Ruy Duarte. E é exatamente a partir da perspectiva da etnopaisagem que esses poetas da palavra e do gesto estabelecem uma comunhão entre o texto, o corpo e a cultura negro-africana. Esse exercício poético dinâmico exprime, nas experiências sobre suas próprias paisagens textuais, as inspirações interiores dos corpos culturais e manifestações dessas comunidades tradicionais. Um caminho para o diálogo e estreitamento de laços afetivos dessas duas margens atlânticas – Brasil e Angola.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARVALHO, Ruy Duarte de. Lavra. Lisboa: Cotovia, 2005

PEREIRA, Edimilson de Almeida. Casa da palavra. Belo Horizonte: Mazza, 2003.

COLLOT, Michel. Paysage et Poésie. Paris: José Corti, 2005.


[*] Márcia Nascimento é doutoranda em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa – Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense.


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RITA GT em Viana do Castelo

https://youtube.com/shorts/qZkb4CfXTZQ?si=3K65JJEr5VQqsZZS Ao longo dos últimos dois anos tive a oportunidade de desenvolver “8”, uma obra d...