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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Visitando blogs (15) - Clube da Imprensa

Jornalistas são atacados em Angola

Para expressar-lhe a sua grande preocupação com a série de violentos ataques recentes sofridos por jornalistas em Angola,Repórteres sem Fronteiras (RSF) escreveu ao Ministro do Interior de Angola, Sebastião José António Martins.
No lapso de dois meses, um jornalista foi assassinado, outros dois violentamente agredidos e feridos e um quarto foi objecto de ameaças.
"Repórteres sem Fronteiras entrevê relação entre esses crimes e o fato de os jornalistas pertencerem a veículos da mídia com posições críticas, senão francamente opostas, ao Governo”, lê-se na missiva.
“A violência desses actos é alarmante. A segurança e a integridade física dos jornalistas estão em perigo e a gravidade dos crimes cometidos contra eles é muito preocupante : todos os profissionais do ramo devem sentir-se ameaçados e viver a angústia de uma agressão iminente e potencialmente fatal ? O medo está a tornar-se coisa comum entre os jornalistas?", questiona o Secretário Geral de RSF, Jean-François Julliard.
No último dia 22 de Outubro, um jornalista da Rádio DespertarAntónio Manuel Manuel da Silva, conhecido no meio radiofónico pelo pseudónimo de Jojo, foi apunhalado, durante a madrugada, por um indivíduo que, segundo testemunhas, falou no programa do jornalista. Grande sucesso popular, o seu programa teria ironizado o Presidente Eduardo dos Santos.
Um mês antes, no dia 22 de Setembro, Norberto Abias Sateko, repórter da TV Zimbo, tinha sido ferido a tiros. Aos 5 de Setembro, um outro jornalista da Rádio DespertarAlberto Graves Chakussanga, foi morto, no próprio domicílio, com um tiro nas costas.
or fim, o incidente mais recente aconteceu na madrugada do dia 23 ao dia 24 de Outubro últimos, quando o jornalista Rafael Marques foi vítima de uma emboscada.
Em 2010, Angola situa-se no 104° lugar da classificação mundial da liberdade de imprensa elaborada por Repórteres sem Fronteiras, mas os fatos ocorridos desde o início de Setembro podem fazer o país recuar.


Pensar e Falar Angola

domingo, 2 de março de 2008

(3) Ágora - Morreu quem nunca feriu a sua terra



O que retenho de Joaquim Pinto de Andrade, influenciado por amigos comuns e de encontros fugazes, é que era uma pessoa de um enorme humanismo, lúcido na análise da evolução da sociedade angolana nos últimos 50 anos, extremamente loquaz e sem manifestar ressentimentos significativos por alguém, tendo em conta o seu percurso político, desde os primórdios das organizações anti-colonialistas aos dias de hoje.
Estava a matutar no que havia de escrever, e de relance no escaparate dos livros na minha casa encontro um livro, já amarelecido pelo tempo, editado pelo advogado Mário Brochado Coelho: “Em defesa de Joaquim Pinto de Andrade”,Tribunal Plenário Criminal de Lisboa-4º juízo criminal/ Procº44/70.
Conforme relatos da época, este julgamento, foi acompanhado com particular atenção por imprensa e associações cívicas europeias e africanas, tendo em conta o prestígio do então Padre Joaquim Pinto de Andrade. Eram “companheiros” no julgamento, os angolanos Álvaro Santos, Raul Feio, Coelho da Cruz, Diana Andringa, Garcia Neto, Rui Ramos, Ferreira Neto e Fernando Sabrosa.
A acusação era assente numa insinuação soez, e logo se disponibilizaram pessoas de quadrantes ideológicos, profissões e actividades diferenciadas, a testemunhar a favor de Pinto de Andrade. Embora com as limitações inerentes à prática dos tribunais plenários, foram enviados por inúmeras igrejas europeias, advogados para assistir ao julgamento.
Tudo isto, aliado a um conjunto de encómios diversos atribuídos por organismos internacionais, ao longo da sua vida, é o facto de Joaquim Pinto de Andrade ter sido um dos símbolos importantes da luta pela independência de Angola. Neste momento, em que assistimos ao seu desaparecimento, aumenta em muitos de nós, a vontade de conhecermos um período de Angola em que ele foi protagonista, passando agruras várias, por defender um primado de não violência, numa sociedade de estratificação racial bem marcada, inerente a uma exploração económica onde a regra era a extorsão visando o lucro a qualquer preço, em que a palavra dignidade era espezinhada até no quotidiano mais pueril.
Quando desaparece Pinto de Andrade, Gentil Viana, Hugo de Menezes, Eduardo dos Santos, Eugénio Ferreira, António Cardoso, Henrique Abranches, Mário António e tantos outros, vemos partir pessoas que nos legariam testemunhos importantes para fazer a história contemporânea de Angola, que vai sendo sucessivamente adiada e reescrita ao sabor de conveniências circunstanciais.
Aproveitando, quero também deixar aqui uma pequena referencia, ao recente falecimento do engenheiro Paiva de Sousa.
Faço-o aqui, porque sei da estima recíproca, e porque o Paiva de Sousa foi uma pessoa que no tempo colonial, colocando em risco a sua família e os seus bens, apoiou sempre os presos políticos angolanos, dando-lhes sempre emprego na sua empresa (SIGA), e acompanhando os seus familiares, quando estes se encontravam nos calabouços do colonialismo.
Desapareceram dois homens bons, e aguardamos, que a sua justificada homenagem não seja atirada para as calendas gregas, como tem sido um mau hábito na memória colectiva no nosso País.

Fernando Pereira 25/2/08




Pensar e Falar Angola

domingo, 24 de fevereiro de 2008

(2) Ágora - Quando dois elefantes lutam, o que se estraga é o capim!


Quando dois elefantes lutam, o que se estraga é o capim!

Jacinto Veloso, moçambicano que em 1963 abandona com um avião militar com destino a Dar-es-Salam, membro do CC da Frelimo, governante em várias pastas em Moçambique, e presença activa em todos os processos negociais que alteraram o mapa geopolítico da África austral no ultimo quartel do século XX, traz-nos o seu depoimento em “Memórias em voo rasante”.
Este livro, cuja primeira tiragem é de Novembro de 2006, e distribuído em Maputo, só agora chegou aos escaparates das livrarias de outras latitudes, e logicamente mereceu logo alguma atenção.
O livro inicia com um pequeno “pré-intróito”, que de certa forma ousaria chamar de “quase expiação”: “Dedico estas memórias em voo rasante a todos os jovens moçambicanos, para que evitem cometer os erros que os mais velhos já cometeram e em particular, para que saibam sempre em cada momento, colocar o interesse supremo da nação moçambicana acima das suas ambições pessoais”.
Ao longo de um livro muito enriquecido com fotos, documentos, o autor procura ir mostrando o que foi a sua vida de compromisso político com a luta de libertação de Moçambique, as suas ligações a Mondlane, a quem o autor deixa sinais claros que tinha pelo primeiro presidente da Frelimo uma enorme admiração de carácter político, admitindo mesmo que: “Estou persuadido que, se não tivesse sido assassinado, o pós independência de Moçambique poderia ter sido diferente”.
Na sua vivência da transição de Moçambique para a independência, e sobre os contornos do acordo de Lusaka (o acordo de Setembro de 1974, que definiu com Portugal, as etapas a percorrer até à independência), Jacinto Veloso faz uma abordagem de situações, forçado por algum laconismo, aliás presente em todo o livro, um pouco diferentes das avaliações feitas por outros presentes na cimeira e que também já escreveram sobre a sua participação (Falo por exemplo dos livros de Almeida Santos, João Paulo Guerra, Otelo Saraiva de Carvalho e Melo Antunes, isto para falar apenas dos que estiveram por dentro do encontro que precedeu o 7 de Setembro de 1974).
O que o “Memórias em voo rasante”, traz de muito importante foi a análise e avaliação da correlação de forças na África austral face às potencias envolvidas na guerra fria, e não deixa de ser surpreendente quanto qualquer negociação, política, económica ou até de carácter desportivo ou cultural, era sistematicamente condicionada pela luta entre os protagonistas dos dois blocos existentes ao tempo. Os acordos de Lancaster House, de Nhkomati e mesmo os contactos preliminares que se fizeram na Congregação de Santo Egídio, para não falar de adesões frustradas ao FMI, Banco Mundial, ou até mesmo a estruturas de apoio humanitário, era tudo condicionado pela luta das super-potencias, e condicionadas sempre pela colagem de Moçambique ao rótulo do comunismo, o que o relato de Jacinto Veloso demonstra ser completamente desajustado da realidade dos factos de então.
O autor coloca um conjunto de interrogações sobre a tragédia de Mbuzini e à forma como caiu o Tupolev onde ia Samora Machel, Aquino de Bragança e Fernando Howana (convenhamos que Veloso era oficial aviador do exército português), sem contudo indiciar em concreto a responsabilidade de alguém.
No livro descreve com alguma minúcia a troca de Petrus du Toit e os cadáveres de dois sul-africanos, que tentaram fazer uma sabotagem em Cabinda em 1985, por soldados angolanos e cubanos presos pela Unita, em 1987
No que toca à independência da Namíbia, e à tentativa de fazer estancar as investidas sul-africanas a partir do então Sudoeste-Africano ao sul da então Republica Popular de Angola, Jacinto Veloso faz algumas revelações interessantes, nomeadamente a situações que viveu com a delegação angolana em todo o processo negocial, ao tempo liderada por Alexandre Rodrigues (Kito) com quem ele mantém uma grande amizade desde o exílio de ambos em Argel no fim dos anos 60.
O livro é muito interessante, embora pontualmente acho que o autor, porque o está a escrever em discurso directo, podia colocar mais detalhes que pudessem esclarecer melhor um período em que os Estados Unidos e URSS fizeram o seu ultimo lugar de confrontação.
O livro editado pela Papa-Léguas vale bem a leitura, pois é esclarecidamente leve, e parece-me que despretensioso por parte do Jacinto Veloso, um homem de causas e de compromissos claros com Moçambique, deixando claro que é preciso “Reduzir sempre os inimigos e aumentar sempre os amigos” como ele cita Mondlane.

Fernando Pereira
26/01/08


Pensar e Falar Angola

domingo, 17 de fevereiro de 2008

(1) - Ágora / A insustentável ideia do merecer

A insustentável ideia do merecer!
Com a chancela da “Afrontamento”, surgiu já há algum tempo nos escaparates das livrarias, uma obra que será inevitavelmente um documento relevante na história contemporânea de Angola.
O autor, Fernando Tavares Pimenta para além de investigador universitário em Ferrara e Coimbra, é um jovem, já nascido depois de Novembro de 1975, e sem qualquer ligação a África nem tampouco por parte dos seus familiares directos. Aliás do mesmo autor deixo aqui a referencia para o seu primeiro livro “Brancos de Angola. Autonomismo e Nacionalismo (1900-1961)” , que oportunamente aqui terá o seu comentário com maior detalhe. São trabalhos científicos e podendo ser referenciável o distanciamento do autor a África, pode haver algum descomprometimento na análise do século XX angolano.
O livro, como aliás o nome sugere, “ Angola no percurso de um nacionalista. Conversas com Adolfo Maria” é uma longa entrevista, que começa de uma forma reservada, mas que ao longo do livro Adolfo Maria, vai entrecortando as suas experiências pessoais e o seu percurso político, analisando com natural subjectivismo o seu enquadramento na luta de libertação nacional e a sua limitada e sofrida participação no quotidiano político da Angola independente, nomeadamente na sua fase inicial.
A argumentação de Adolfo Maria, que é reveladora de uma enorme capacidade de organização, é ilustrada por muitos documentos e fotos. Ao longo de trezentas e cinquenta páginas, passamos pela adesão nos anos 50 ao emergente movimento nacionalista urbano, centrado no Liceu Salvador Correia e na Sociedade Cultural de Angola (1957). Continuou pela FUA, e a forma como foi a sua entrada no MPLA, as influências que recebeu, e aqui não deixa de ser curiosa a cumplicidade enorme entre A.M. e Gentil Viana, que já vem dos tempos do Liceu. Surpreende em todo o livro, a fluência do “entrevistado”, e fundamentalmente de uma forma que se percebe ser sofrida, Adolfo Maria “desmistifica” de certa forma a guerrilha, onde contrariando a imagem de solidariedade, respeito hierárquico, sentido de justiça e acima de tudo partilha, o que transparece das suas palavras é precisamente o contrário, em que se vai vivendo inúmeras situações de racismo, tribalismo, amiguismo, apego despudorado ao poder, e outros condimentos que levam a manifestações deploráveis de irracionalidade, que segundo o autor se perpetuaram no MPLA ao longo de décadas. È uma fase particularmente interessante do livro, pois algumas personagens são colocadas na guerrilha ou no exílio, e depois compara-se a postura dessas pessoas no novo País libertado do colonialismo.
Há acusações que a serem comprovadamente verdadeiras, podem trazer um olhar diferente na vida política de Angola da ultima metade do século XX.
Adolfo Maria assume claramente a defesa da “Revolta Activa”, e diz claramente que Viriato da Cruz foi o verdadeiro pai do nacionalismo angolano. Partilha, no seu discurso, o que tantos já disseram e escreveram sobre a autofagia no MPLA, e a máxima que as revoluções começam por se alimentar dos seus próprios filhos.
Não deixa de ser rocambolesco, as aventuras do seu período de “clandestinidade” no centro da cidade de Luanda, o que não deixa de ser curioso, tendo em conta as características das forças policiais nessa altura em Luanda (1975-1979). Há no entanto um detalhe não negligenciável na entrevista, que é o facto do autor em circunstância alguma abjurar algo sobre o seu percurso, sem que isso retire qualidade e importância ao livro de Fernando Tavares Pimenta.


Fernando Pereira

Pensar e Falar Angola

domingo, 29 de julho de 2007

Caminhos de Globalização

O mundo em que vivemos está cada vez mais pequeno e todavia têm que caber nele cada vez mais e mais seres humanos.
Esta "diminuição" do tamanho do nosso mundo, que se faz por via de um acesso quase instantâneo à informação e ao conhecimento do que se passa nos antípodas, é no entanto muito mais aparente do que real.
O conhecimento e a informação não estão assim tão acessíveis como nos querem fazer crer. Na verdade estamos perante um gigantesco jogo de "sombras chinesas", através do qual os "senhores do mundo", autênticos manipuladores da realidade, nos fazem acreditar que:
  • a globalização económica é inevitável e é a solução miraculosa que há-de levar o mundo à salvação;
  • os líderes mundiais estão genuinamente preocupados com o bem estar das populações e disponibilizam toda a informação para que os governados possam fazer as suas escolhas conscientemente;
  • neste movimento inexorável, a diversidade é respeitada e promovida, de tal forma que as diferenças entre todos os seres humanos acabarão por se esbater (veja-se a contradição dos termos).
É devido a estas e outras patranhas da retórica política, que aos poucos a ideologia e o debate das políticas públicas se vão progressivamente esvaziando. Tudo fica submetido à necessidade de "ser pragmático". Tudo se reduz à tecnocracia e a tecnicidade. Esquece-se a "Cidadania" e a "Polis".
Mas será isto inevitável? Terão os cidadãos alguma possibilidade de intervir na vida pública, recuperando as suas margens de liberdade e autonomia?
Penso que sim! Seja através do exercício de actividade e debate político no seio de partidos (nos países onde tal é permitido), seja através do exercício da liberdade de pensamento e partilha desse pensamento, usando as tecnologias disponíveis.
Mas para que esse exercício seja efectivo, consequente e possa promover a mudança, torna-se imprescindível uma aposta firme na Educação das populações. Só a educação pode dar o conhecimento e as competências necessárias para o exercício da cidadania.

É por saberem isso que muitos governos, em todo o mundo, não investem o necessário na educação dos seus cidadãos, garantindo dessa forma a perpetuação de um poder que, podendo ser democrático na sua forma exterior (realização de eleições, alternância de partidos no governo), não o é na prática, pois exclui a maioria da população do acesso consciente e informado às decisões sobre a sua vida.

RITA GT em Viana do Castelo

https://youtube.com/shorts/qZkb4CfXTZQ?si=3K65JJEr5VQqsZZS Ao longo dos últimos dois anos tive a oportunidade de desenvolver “8”, uma obra d...