quarta-feira, 1 de maio de 2019
terça-feira, 18 de junho de 2013
De Luanda à Contra Costa
Pensar e Falar Angola
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
VIAGEM ECOLOGICA 2011
HUAMBO (11,12 E 13) MARÇO
Preço por pessoa: Akz 27.500.00
1-Pontos Turísticos e atracções:
Possui cerca de três mil peças de artes sacras e botânicas, antropomórficas, zoomórficas, etnográficas, arqueológicas, foto gravuras e obras de pintura, das estão expostas aos visitantes e outras em depósito. O Museu Regional do Huambo foi criado em 1948.
Pensar e Falar Angola
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
VIAJOLOGIA - Haroldo Castro (5)
Na costa, deserto vira oásis e sardinhas sustentam Tombwa
A descida da Serra da Leba toma tempo. Além da atenção redobrada, descobrimos, a cada curva, que a vegetação muda, acompanhando a chegada do calor. A 1.200 metros, vemos os primeiros baobás, árvores majestosas que representam tão bem o continente africano.
A estrada, como uma serpente, vence abismos e vertentes. Narcotizados por tantos laços, paramos no primeiro vilarejo tropical. As bacias oferecidas aos viajantes agrupam uma nova surpresa: nada de cogumelos gigantes, mas mangas suculentas.
Uma menina da etnia Mumuila oferece mangas doces. Ela parece estar acostumada à chuva que rega o pé da Serra da Leba.
Chegamos a Namibe com cogumelos e frutas nos braços. Pelo menos, não aterrissamos na casa de Miguel Gullander e de Pedro dos Santos de mãos vazias. As conversas começam na cozinha e terminam na sala de jantar. Aprendemos sobre os traumas da guerra civil, as riquezas potenciais do país e o muito que precisa ser feito em educação. Miguel é escritor publicado, mas aplica seus conhecimentos práticos no cotidiano africano. Está em Namibe para treinar professores, tarefa essencial para que o país possa avançar.
A conversa converge para Viajologia, a ciência-arte de entender nosso planeta. Miguel lê um trecho de seu livro “Perdido de Volta” (Editora Língua Geral, Rio). Tem tudo a ver com nossa jornada, tanto jornalística como rodoviária.
“E o casco arrebentado sobre este mar sem fim, avança e avança e avança e assim se faz a viagem toda, se chega a um destino, e se cumprem 200 páginas sem sequer se saber, conscientemente, por onde se ia. Como uma Land Rover* em África. Mas no fim, olhando para trás, a via está lá e faz sentido. Porque é a nossa estrada. A de todos nós.”
No seu original, Miguel escreveu Toyota, em lugar de Land Rover. Aviso que, quando eu transcrever a frase, tomarei a liberdade de homenagear a Nandi.
Miguel, Pedro e amigos angolanos querem nos mostrar um lugar chamado Arco. Saímos de Namibe cedo, seguimos a costa e caímos em um deserto. Nenhuma vegetação, apenas areia e pedras. É a continuação da Costa do Esqueleto, na Namíbia, 200 km ao sul. Trocamos o asfalto pela poeira e penetramos em um pequeno desfiladeiro, como se seguíssemos o leito de um rio que deixou de ter água há séculos. Na última curva, Miguel declara: “Preparem-se para mais uma surpresa em Angola.”
Em um piscar de olhos, saímos do Saara e ingressamos em um oásis. Uma vegetação abundante enche nossos olhos de vida. O verde nos envolve. Foi a água, com sua magia, que criou o lugar. Sem poder sair para o mar ou gerar um rio subterrâneo, a água formou uma lagoa – imensa e piscosa lagoa.Água e vento moldaram outras formas surpreendentes na rocha. O local ganhou o nome de Arco pelo imenso buraco-escultura deixado na pedra.
A pequena comunidade que vive em volta da lagoa do Arco depende da pesca, assim como os pássaros que moram nesse pequeno paraíso.
Apesar do calor, não hesitamos em percorrer a trilha ao redor da lagoa.
A jornada continua rumo ao sul e chegamos em Tombwa, uma cidade que (ainda) subsiste da pesca. Já teve seus tempos mais gloriosos. As carcaças enferrujadas de barcos pesqueiros são lembranças de um período fausto. “Ouvi dizer que os barcos chineses estão a limpar nosso litoral”, diz um pescador local. “A produção hoje é pequena”.
Miguel e a turma querem tomar banho no mar. Prefiro deixar o mergulho para outro dia e observar o movimento daqueles que vivem das dádivas do oceano. Um carregamento de sardinhas chega à praia e cada família compra seu lote.
As sardinhas são banhadas em água com sal. Depois da salmoura, elas são levadas para as dunas.
Os peixes são espalhados na areia. Em dois dias, graças ao sol e ao sal, eles estarão secos e prontos para a venda.
É um trabalho realizado em família e cada uma possui seu território demarcado na areia. Mães, pais, jovens e crianças estão juntos na tarefa. Converso com alguns. Ninguém reclama da vida e todos são saudáveis. “Temos bastante peixe para comer”, afirma Xinha, filha de pescador e residente no bairro.Para os meninos que terminaram seu serviço, só lhes falta comemorar com um salto na areia!
Um jovem dá uma cambalhota na praia, antes de mergulhar na água. Angola vive momentos bem mais felizes do que há algumas décadas.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
VIAJOLOGIA - Haroldo Castro (4)
Sul de Angola oferece tortulhos, fendas e serras abruptas
SEG, 08/02/10POR HAROLDO CASTRO || TAGS ANGOLA, LUZES DA ÁFRICAAs marcas da guerra civil que assolou Angola durante quatro décadas espalham-se pelo país e – infelizmente – ainda estão nas mentes e nos corações da população. Lubango, capital da província da Huila, situada no sul, sofreu um pouco menos do que as cidades do centro do país. Depois de oito anos de paz, Lubango mostra sinais claros que Angola está em um novo rumo.
Mais do que a simpatia de seus habitantes, o que mais nos surpreendeu em Lubango foi o contexto geográfico da cidade. Para começar, em pleno verão, fazia frio. Frio, de colocar casaco! Mais do que em São Paulo! A explicação é óbvia: Lubango está a 1.800 metros de altitude e os angolanos orgulham-se desse clima fresco e ameno. “Quando a temperatura está aqui a 15 graus, na capital Luanda o termômetro pode chegar a 40 graus”, diz Suwendy Gomes, professor de matemática. Como referência, a cidade mais alta no Brasil é Campos de Jordão, a 1.630 metros.
Lubango situa-se em um belo vale, cercado por montanhas e por um fértil planalto onde abundam projetos agrícolas. As formações rochosas – bem parecidas com nossos chapadões brasileiros – escondem tesouros naturais, como a cachoeira da Estação Zootécnica de Humpata, a 30 km da cidade (foto).

Nosso primeiro destino é a Fenda da Tundavala, a 18 km da cidade. A estrada de terra ainda contem muitos buracos e apenas 4×4 podem chegar até o final. Mas é uma questão de tempo: dois tratores trabalham regularmente para transformar a trilha em uma rodovia asfaltada. Seu Antonio, chefe da obra, promete: “se vocês voltarem no ano que vem, a estrada estará perfeita”, uma mostra que o governo investe na infraestrutura turística da região.
Na beira da estrada, encontramos um grupo de mulheres e crianças, com várias bacias no solo. Oferecem imensos objetos redondos brancos. Nasuka, uma das vendedoras, desfaz minha expressão de curioso: “são tortulhos, muito bom para comer”.
Nasuka (à direita) tem sete filhos. Para ganhar a vida, ela colhe e vende tortulhos, cogumelos gigantes selvagens encontrados no mato nessa época do ano.
Nasuka precisa andar vários quilômetros para encontrar cogumelos selvagens. Ela vende uma bacia por 1000 kwanzas, equivalente a 18 reais. Ela insiste que compremos uma bacia inteira! Levamos metade, sabendo que teremos cogumelos por muitos e muitos dias.
A estrada piora a medida que subimos. Odé, nosso GPS, avisa que atingimos a marca de 2.200 metros.Em poucos minutos somos envolvidos por uma espessa neblina. Uma garoa molha nosso parabrisa. Fechamos a janela, o frio aumenta. Mikael e eu nos olhamos com cara de “onde-estamos?” Descobrimos uma Angola bem diferente daquela que esperávamos.
Chegamos ao final da pista. Sabemos que as montanhas também terminam ali. Mas a névoa aumenta e não podemos vislumbrar grande coisa. Três soldados se aproximam. Parecem meninos, mas todos têm mais de 35 anos. Combateram na guerra civil pelo PFLA, uma das facções perdedoras. Depois da paz, foram reinseridos na sociedade e hoje servem no exército nacional. Moram em um acampamento a meia-hora de caminhada e passam o dia na Tundavala. “Nós chamamos essa neblina de cachimbo, porque parece fumaça”, diz um deles. “Ela fica aqui até as 11 horas da manhã.” Mal o soldado fala do cachimbo e uma lufada de vento deixa transparecer um paredão vertical. Vamos até a beira para descobrir uma queda vertiginosa. Estamos a 2.250 metros e o vale da cidade de Bibala, lá embaixo, está a 850 metros. Faço as contas: o buraco tem 1.400 metros de vazio!
A Fenda da Tundavala marca o final do planalto de Lubango. O local possui um microclima particular.
Poucos minutos depois, o cachimbo volta a soprar e tudo fica branco novamente. Dessa vez, a neblina traz uma nuvem mais cinzenta e recebemos um brinde: chuva. Os soldados lembram que é importante ter paciência na Tundavala.
Os minutos passam tão rápido como a chuva, a neblina e os raios de sol. Ficamos seis horas na Tundavala e nos molhamos sete vezes. O sol – mesmo se tímido – abre e esquenta as cores dos paredões em dois momentos diferentes. Ficamos impressionados com as mudanças do clima. Mas essas transformações súbitas parecem ser o encanto principal da Tundavala. Nos despedimos dos soldados e queremos agradecer o apoio. Eles perguntam se não temos um sabonete de sobra. Com prazer, presenteamos o grupo com um novinho.
Nosso próximo destino é Namibe, cidade no litoral angolano, onde nos espera Miguel Gullander. Já sabemos que, para chegar ao Atlântico, teremos de descer a Serra da Leba. Miguel indica que devemos fazer uma parada no mirador. “Vire à esquerda, logo depois de pagar o pedágio, e siga em frente”, diz. Mudamos de vertente de montanha e a imagem a nossa frente é surpreendente: a estrada desce desenhando laços como se fosse uma serpente interminável.
A primeira parte da descida da Serra da Leba conta com seis curvas fechadas de 180 graus. A estrada foi construída pelos portugueses na década de 70.
A diferença de altura também é grande. Saímos de 1.700 metros e chegamos a uma planície a 500 metros! O frio e a umidade transformam-se em um calor escaldante e seco. Viva a diversidade! Sabemos que Angola tem mais surpresas para nos oferecer.
As marcas da guerra civil que assolou Angola durante quatro décadas espalham-se pelo país e – infelizmente – ainda estão nas mentes e nos corações da população. Lubango, capital da província da Huila, situada no sul, sofreu um pouco menos do que as cidades do centro do país. Depois de oito anos de paz, Lubango mostra sinais claros que Angola está em um novo rumo.
Mais do que a simpatia de seus habitantes, o que mais nos surpreendeu em Lubango foi o contexto geográfico da cidade. Para começar, em pleno verão, fazia frio. Frio, de colocar casaco! Mais do que em São Paulo! A explicação é óbvia: Lubango está a 1.800 metros de altitude e os angolanos orgulham-se desse clima fresco e ameno. “Quando a temperatura está aqui a 15 graus, na capital Luanda o termômetro pode chegar a 40 graus”, diz Suwendy Gomes, professor de matemática. Como referência, a cidade mais alta no Brasil é Campos de Jordão, a 1.630 metros.
Lubango situa-se em um belo vale, cercado por montanhas e por um fértil planalto onde abundam projetos agrícolas. As formações rochosas – bem parecidas com nossos chapadões brasileiros – escondem tesouros naturais, como a cachoeira da Estação Zootécnica de Humpata, a 30 km da cidade (foto).
Nosso primeiro destino é a Fenda da Tundavala, a 18 km da cidade. A estrada de terra ainda contem muitos buracos e apenas 4×4 podem chegar até o final. Mas é uma questão de tempo: dois tratores trabalham regularmente para transformar a trilha em uma rodovia asfaltada. Seu Antonio, chefe da obra, promete: “se vocês voltarem no ano que vem, a estrada estará perfeita”, uma mostra que o governo investe na infraestrutura turística da região.
Na beira da estrada, encontramos um grupo de mulheres e crianças, com várias bacias no solo. Oferecem imensos objetos redondos brancos. Nasuka, uma das vendedoras, desfaz minha expressão de curioso: “são tortulhos, muito bom para comer”.
Nasuka (à direita) tem sete filhos. Para ganhar a vida, ela colhe e vende tortulhos, cogumelos gigantes selvagens encontrados no mato nessa época do ano.
Nasuka precisa andar vários quilômetros para encontrar cogumelos selvagens. Ela vende uma bacia por 1000 kwanzas, equivalente a 18 reais. Ela insiste que compremos uma bacia inteira! Levamos metade, sabendo que teremos cogumelos por muitos e muitos dias.
A estrada piora a medida que subimos. Odé, nosso GPS, avisa que atingimos a marca de 2.200 metros.Em poucos minutos somos envolvidos por uma espessa neblina. Uma garoa molha nosso parabrisa. Fechamos a janela, o frio aumenta. Mikael e eu nos olhamos com cara de “onde-estamos?” Descobrimos uma Angola bem diferente daquela que esperávamos.
Chegamos ao final da pista. Sabemos que as montanhas também terminam ali. Mas a névoa aumenta e não podemos vislumbrar grande coisa. Três soldados se aproximam. Parecem meninos, mas todos têm mais de 35 anos. Combateram na guerra civil pelo PFLA, uma das facções perdedoras. Depois da paz, foram reinseridos na sociedade e hoje servem no exército nacional. Moram em um acampamento a meia-hora de caminhada e passam o dia na Tundavala. “Nós chamamos essa neblina de cachimbo, porque parece fumaça”, diz um deles. “Ela fica aqui até as 11 horas da manhã.” Mal o soldado fala do cachimbo e uma lufada de vento deixa transparecer um paredão vertical. Vamos até a beira para descobrir uma queda vertiginosa. Estamos a 2.250 metros e o vale da cidade de Bibala, lá embaixo, está a 850 metros. Faço as contas: o buraco tem 1.400 metros de vazio!
A Fenda da Tundavala marca o final do planalto de Lubango. O local possui um microclima particular.
Poucos minutos depois, o cachimbo volta a soprar e tudo fica branco novamente. Dessa vez, a neblina traz uma nuvem mais cinzenta e recebemos um brinde: chuva. Os soldados lembram que é importante ter paciência na Tundavala.
Os minutos passam tão rápido como a chuva, a neblina e os raios de sol. Ficamos seis horas na Tundavala e nos molhamos sete vezes. O sol – mesmo se tímido – abre e esquenta as cores dos paredões em dois momentos diferentes. Ficamos impressionados com as mudanças do clima. Mas essas transformações súbitas parecem ser o encanto principal da Tundavala. Nos despedimos dos soldados e queremos agradecer o apoio. Eles perguntam se não temos um sabonete de sobra. Com prazer, presenteamos o grupo com um novinho.
Nosso próximo destino é Namibe, cidade no litoral angolano, onde nos espera Miguel Gullander. Já sabemos que, para chegar ao Atlântico, teremos de descer a Serra da Leba. Miguel indica que devemos fazer uma parada no mirador. “Vire à esquerda, logo depois de pagar o pedágio, e siga em frente”, diz. Mudamos de vertente de montanha e a imagem a nossa frente é surpreendente: a estrada desce desenhando laços como se fosse uma serpente interminável.
A primeira parte da descida da Serra da Leba conta com seis curvas fechadas de 180 graus. A estrada foi construída pelos portugueses na década de 70.
A diferença de altura também é grande. Saímos de 1.700 metros e chegamos a uma planície a 500 metros! O frio e a umidade transformam-se em um calor escaldante e seco. Viva a diversidade! Sabemos que Angola tem mais surpresas para nos oferecer.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
VIAJOLOGIA - Haroldo Castro (3)
De Angola a Zâmbia: encontros e desencontros da Fase Três
Já entendemos que nossa viagem acontece por fases. Colocamos o pé na estrada, filmamos, tiramos milhares de fotos e vamos descobrindo maravilhas por essa África a fora. Mas, depois de uma dezena de dias no mato, precisamos dar uma parada. Não para descansar – mas para trabalhar em frente aos laptops! Sim, necessitamos escrever nossas colunas em português e em inglês, fazer o upload delas nos sites Viajologia e Lights of Africa, preparar as histórias de TV que irão ao ar no Canal Futura e processar todas as fotos e as imagens de vídeo. Uma trabalheira! E, durante esses momentos, uma conexão internet é (quase) indispensável.
Assim, completamos mais uma etapa. De Lubango (Angola) às Cataratas Vitória (Zâmbia), levamos 19 dias e rodamos 2.650 km. Embora ainda no início da jornada, já começamos a conferir alguns prêmios. O troféu “Estrada Mais Detonada” fica – até agora – com o trecho de 100 km entre Humbe e Cahama, em Angola. A rodovia original data do tempo da colônia portuguesa, há uns 50 anos. Durante meio século, não houve nenhuma manutenção da estrada e as crateras foram crescendo – em tamanho e em profundidade. Tivemos de passar por esse maldito pedaço duas vezes!
A estrada de Lubango até a fronteira da Namíbia tem trechos modernos, outros antigos e também marcas da guerra civil que assolou o país até 2002.
O prêmio “Pessoa Mais Azeda” foi abiscoitado – sem nenhum páreo – pela proprietária do Casper Lodge, em Lubango. Tratando os empregados com desprezo (e racismo), até mesmo em frente a clientes, Dona Irene conseguiu manter seu stress e mau humor durante os sete dias que passamos na simpática capital do sul de Angola. Detalhe importante (para não comprometer os africanos): Dona Irene é uma portuguesa branca e ela comprova que a mentalidade colonialista ainda existe.
Nos próximos posts, revelaremos alguns dos prêmios positivos, relacionados com as mais belas paisagens, encontros com animais selvagens, momentos espetaculares e as pessoas maravilhosas que temos encontrado. Um destaque especial (para compensar a Dona Irene) vai para o escritor luso-sueco Miguel Gullander que mora em Namibe, na costa angolana. Miguel, que vive na África há duas décadas, tem um livro publicado no Brasil – Perdido de Volta – pela Editora Língua Geral. Um viajólogo de primeira!
O fim de uma etapa também é uma oportunidade para fazer um balanço. Nossa saúde continua em excelente estado, estamos nos alimentando de forma saudável e dormimos 7 ou 8 horas por noite.Mas nossas máquinas tem tido suas crises! Nossa geladeira, depois de dois problemas que resolvemos, decidiu, um dia, parar de funcionar. Quase perdemos todas nossas “carnes de soja” que estavam no interior. Demoramos para descobrir que o fusível (na caixa da bateria) havia derretido. De volta à Namíbia, Mikael e eu tomamos uma decisão. Sentimos que nossa geladeira, que guarda tão carinhosamente alimentos e bebidas, precisava (como uma namorada exigente) de um pouco mais de atenção. Resolvemos assim batizá-la e comprar uma super bateria nova para ela.
A cerimônia de batismo aconteceu na Pousada Lianshulu, na Faixa de Caprivi, na Namíbia. A geladeira recebeu o nome de Ocaia, “companheira” em Suaíli.
Acho que também vamos batizar nossas câmeras e objetivas. Um incidente totalmente banal – a queda de uma das máquinas de uma altura de apenas 20 cm – provocou um estrago catastrófico: a lente 18-200 mm perdeu seu foco (manual e automático) e já não funciona perfeitamente. Mas, graças aos eficientíssimos gerentes das pousadas Wilderness Safaris onde estivemos (na Namíbia – onde aconteceu o estrago – e na Zâmbia), uma nova lente foi comprada em Nova York e, depois de passar pela África do Sul, Namíbia e Zimbábue, ela chegou às minhas mãos, na Zâmbia, em apenas seis dias!
Vale notar que, ainda na Namíbia, fizemos um pequeno desvio para visitar o meteoro Hoba, considerado como o maior do mundo. O bloco de ferro (parece até inoxidável) e níquel pesa 50 toneladas e teria aterrissado há 80 mil anos.
O meteoro Hoba foi encontrado apenas em 1920 e tem 3 metros de diâmetro por 1 metro de altura.
Nessa terceira etapa viajamos, com a Nandi, por três países: Angola, Namíbia e Zâmbia. Mas a pé, estivemos também em Botsuana (quando cruzamos as margens do rio Kwando para filmar hipopótamos) e no Zimbábue(quando visitamos o outro lado das Cataratas Vitória). No total, durante esses 47 dias de viagem e 8.870 km de estradas, passamos por seis países.
Mikael conseguiu colocar em um mapa da África todo o trajeto original realizado pela Nandi. Para entender melhor nossa jornada, o mapa abaixo mostra o trajeto da Fase 1 em azul, o da Fase 2 em verde e o da Fase 3 em violeta.
VIEW LIGHTS OF AFRICA III IN A LARGER MAP
Enquanto viajamos pela Zâmbia rumo ao norte, postaremos – todas as SEGUNDAS e QUINTAS – as crônicas dessa terceira etapa, começando com os lugares incríveis que descobrimos em Angola.
Para concluir, viajantes atraem viajantes. Estamos seguindo a “Expedição Indochina” de Valéria Zopello, que está entre a Tailândia e o Cambodia, e também a jornada “Saara a Pé” de Toco Lenzi. Boa sorte para vocês e que Omega Megog tome conta de todos nós.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
VIAJOLOGIA - Haroldo Castro (2)
Costa do Esqueleto revela naufrágios, ossadas e diamantes
O governo da Namíbia está no processo de consolidar várias reservas já existentes situadas no litoral e, com isso, criar uma das maiores áreas protegidas do planeta. O futuro Parque Nacional Namibe-Costa do Esqueleto terá 107.540 km2 (maior que o Estado de Pernambuco), abrangerá toda a costa do país e será a sexta maior reserva terrestre do mundo.
O nome Costa do Esqueleto, apesar de dar medo, excita nossa curiosidade e, mais uma vez, trocamos de rota. Em vez de escolher a estrada asfaltada que corta o país de sul a norte, resolvemos subir pelo litoral e visitar um dos parques já existentes (denominado, obviamente, Costa do Esqueleto).
Falésias vermelhas descem abruptamente até as praias de pedras roliças. A água é fria: a corrente marítima vem da Antártida.
A região é completamente desabitada e existem apenas dois “povoados” dentro do parque. Torra Bay é um acampamento para pescadores, aberto durante os dois meses de verão. Terrace Bay é uma pousada construída pela NWR (Resorts de Vida Selvagem da Namíbia) para servir de base para aqueles que desejam conhecer a costa e, consequentemente, que precisam pernoitar em algum lugar. A pousada aproveitou o lugar de uma mina de diamante abandonada e tem uma vista interminável de dunas, ondas e falésias.
Contando com um litoral dos mais piscosos, os namibianos possuem uma paixão pela pesca esportiva. Um capitalino pode facilmente rodar 600 km de estrada de chão (ou melhor, de sal batido) para passar algumas semanas pescando com amigos. Em Torra Bay, contei mais de 100 barracas (algumas gigantes, com sala, cozinha e quartos), todas munidas de geradores.
A pesca esportiva é liberada durante os dois meses de verão no parque da Costa do Esqueleto, mas os pescadores devem seguir normas de tamanho e de quantidade.
Davinus, gerente do bar da pousada NWR, aproveita seus momentos de folga para ir pescar. A bordo de uma 4×4 e munido de algumas varas e diferentes iscas, ele passa horas olhando o mar. “Acabo trazendo peixe fresco para a pousada. Não precisa ser bom pescador para encher uma bacia”, afirma. Davinus e os demais pescadores possuem um grande inimigo, a Foca do Cabo (foto) (Arctocephalus pusillus).Quando centenas de focas encontram um cardume de peixes, não há espaço para nenhum pescador. “Melhor encontrar outro lugar alguns quilômetros mais longe. Cada foca come diariamente seu próprio peso em peixes”, diz Davinus.
Uma boa razão da região ter sido batizada com o nome de Esqueleto é a quantidade encontrada de ossos de baleia e animais terrestres, assim como de destroços de naufrágios. Quando vemos uma pedra pintada com as palavras “ship wreck”, não hesitamos e saímos da estrada rumo ao oceano. Subimos no topo de um morro e, lá embaixo, está uma carcaça de uma pequena embarcação. Resolvemos continuar explorando a pé, câmeras em punho. Entendemos um pouco mais os desafios dos navegantes quando uma onda, bem maior do que as anteriores, nos pega de surpresa, molhando nossa roupa e até mesmo uma máquina fotográfica.
Na Costa do Esqueleto existem dezenas de escombros de barcos naufragados. Todos são um testemunho da violência do Atlântico Sul.
Para uma bela vista do entardecer, subimos ao topo de uma duna na traseira da Toyota da NWR. Preferimos deixar nossa Nandi aos pés da montanha de areia de 80 metros. Afinal, com tanta coisa dentro, ela pesa quase três toneladas. Regressamos famintos ao simpático restaurante de Terrace Bay. Suas três paredes brancas são um convite a que viajantes de todo o mundo escrevam assinaturas e recados. Nós deixamos a marca de “Luzes da África” e o símbolo de nossa divindade protetora Omega Megog.
Depois de devorar uma Pasta Primavera, conversamos com Peter. Ele está em Terrace Bay há um mês, implantando uma pequena mina de diamantes. “Depois de três anos, consegui a concessão, a poucos quilômetros daqui. A praia antiga, a 50 metros da água, está cheia de diamantes, de alta qualidade. Aqui posso encontrar 38 quilates em cada 100 toneladas de areia”, afirma o explorador. Ele pensa iniciar a produção ainda nesse ano, logo que encontrar um parceiro que traga um milhão de euros. “É um investimento garantido. Tem retorno nos primeiros três meses. Você não tem um milhão de euros?” O convite é sério e ele me dá seu celular e seu email. “Se algum amigo seu quiser virar milionário, entre em contato comigo”, afirma Peter. A Costa do Esqueleto ainda possui muitos tesouros em suas areias.
Nosso companheiro Davinus aventura-se nas dunas de Terrace Bay. A Costa do Esqueleto possui belas paisagens, mas também muitos diamantes escondidos.
RITA GT em Viana do Castelo
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