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sexta-feira, 9 de junho de 2023
quarta-feira, 21 de março de 2012
ALGUNS SUBSÍDIOS SOBRE VIRIATO DA CRUZ
ALGUNS SUBSÍDIOS SOBRE VIRIATO DA CRUZ
por Osvaldo Silva
Viriato da Cruz (Porto Amboim, Angola, 1928 – Pequim, China, 1973) é considerado, pela própria historiografia política angolana, um dos “pais fundadores” do moderno nacionalismo angolano, a par de Agostinho Neto, Mário P. de Andrade, Lúcio Lara, Holden Roberto e outros, e foi ainda um dos edificadores do que se convencionou chamar “o discurso literário modernista angolano”, emergente dos finais da década de 1940. Mentor do que ficou conhecido como o Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, cujo ideário sociocultural teve o seu sumário no grito «Vamos descobrir Angola!» de 1948, distinto dirigente, membro e colaborador da antiga Associação dos Naturais de Angola (ANANGOLA) – aqui publicou a tão divulgada revista Mensagem (1951-52) –, da Liga Nacional Africana (LNA) e da Sociedade Cultural de Angola (SCA), obreiro e partícipe de um amplo e variado conjunto de movimentos revolucionários libertários angolanos – dentre eles, o PCA (1955), o PLUAA (1956), o MIA (1957), MAC (1957), MINA (1959), FRAIN (1960), PAI (1960) e o próprio MPLA (1960) –, autor do celebre Manifesto de 1956 e de um discurso poético/ideo-estético contestatário de vanguarda e de angolanidade, da Cruz teve, assim, a sua vida devotada à acção cultural-literária e política de cisão com a ideologia colonial hegemónica e os cânones culturais do seu tempo. Como chega mesmo a dizer Edmundo Rocha (2002b: 41), a trajectória política (e não só) de Viriato da Cruz confunde-se com as origens do moderno nacionalismo angolano…
Porém, é notavelmente curioso o facto de Viriato da Cruz ser um daqueles nacionalistas e escritores angolanos que, tendo produzido uma obra política e literária de sublime relevância para a Nação (como são os casos de Matias Miguéis, Manuel dos Santos Lima, Joaquim P. de Andrade, José Miguel, etc.) não tenham merecido, até hoje, a atenção e a valorização crítica merecida – em linha de comparação com outras figuras históricas do moderno nacionalismo angolano –, não apenas da parte do discurso político-histórico oficial, mas também da parte do discurso intelectual. E assim, com a sua figura-maldita, no dizer de alguns), a sua obra (política e literária) vai por arrastamento.
Tal ostracismo deverá ter o seu fundamento explicativo (e não necessariamente justificativo) no seu próprio percurso histórico. Uma vez ter sido dissidente irrevogável da cúpula central MPLA (isto no ano de 1963), gerando uma crise sem precedentes no seio do movimento para nunca mais merecer a memória dos seus antigos camaradas, Viriato da Cruz e toda a sua obra passariam a ser julgados, postumamente, pelo discurso hegemónico vencedor e vingativo. Quer o sujeito político, quer o sujeito poético, ambos foram alvos, convenientemente, da construção descaracterizadora do discurso hegemónico, tanto por manifestação, como por omissão. Ou seja, o sujeito e a sua obra estariam a ser proscritos do legado histórico-nacionalista, assim como do corpus canónico da moderna literatura angolana, não apenas quando a eles se referisse à luz duma retórica (que foi sempre) manipuladora da história, mas também quando deles não se emitisse quaisquer referências. Assim, a principal e aterradora consequência desse passado que, consideravelmente, ainda é presente é, por um lado, a inexistência de um devido (re)conhecimento da operacionalidade do sujeito e da sua obra no contexto histórico em referência e, por outro, a existência de um (re)conhecimento convencional do sujeito e da sua obra, que apenas (re)conhece aquilo que convém para o discurso hegemónico, não admitindo o debate e pluralidade como fonte maior de (re)conhecimento. Atestam esta acepção a inexistência de uma construção biografia sobre Viriato da Cruz, a imagem ostracista que se mantém e que não discute e não reconhece méritos, a escassez de referências históricas sobre a sua figura e um aprofundamento sobre a dimensão da sua obra, etc.
Portanto, por esta e por outras razões que lhe são conexas, Viriato da Cruz, político e poeta, é ainda maioritariamente conhecido ou desconhecido segundo uma visão hegemónica pobre em debate, parcial e inoperante, porque avalia um percurso histórico com o sindroma político do passado, sem distanciação histórica e por conveniência corporativa. Por isso, pensa-se ser pertinente e urgente criar um campo crítico de debate, baseado num discurso científico alternativo ao discurso político-intelectual hegemónico, que visa ampliar e congregar a pluralidade de visões sobre o sujeito e a sua obra, ambicionando reabilitar e homenagear pela via do questionamento, da imparcialidade, da crítica e da verdade científica. Porque, para que haja transformações profundas na estrutura do saber ortodoxo-apreendido, veiculado pelo discurso hegemónico, é urgente que emirja um novo discurso do (e sobre o) mesmo saber, cuja razão orientadora deverá ter outros princípios, objectivos e operacionalidade.
(retirado de uma proposta de pesquisa)
Pensar e Falar Angola
domingo, 10 de agosto de 2008
(26) - Ágora - Algumas letras dum longo caminho

Recentemente, saiu o livro “ Viriato da Cruz, o Homem e o Mito”, numa co-edição da Prefácio e Chá de Caxinde, com depoimentos dos coordenadores Edmundo Rocha, Francisco Soares e Moisés Fernandes e com depoimentos também de Adriano Parreira, Fernando Mourão, Noémia de Sousa, Patrícia Pinheiro e Tomaz Jorge.
Viriato da Cruz é provavelmente uma das figuras da história recente do País, que concita mais silêncios, mas que muita gente, hoje desejaria que em seu redor houvesse mais discussão. Estou provavelmente a hiperbolizar, quando digo que acontece com Viriato da Cruz, um pouco o que aconteceu com Trotsky, e outras vítimas das purgas estalinistas, que foram pura e simplesmente apagados da historiografia oficial, incluindo das fotos onde eles apareciam; Só timidamente os seus poemas aparecem em manuais de ensino oficial, já que o “Namoro” e “Mamã Negra” (Em memória do poeta haitiano Jacques Romain), foram musicados e atingiram uma certa notoriedade, e pouco mais há a acrescentar.
Este livro, vem de certa forma complementar o do Dr. Edmundo Rocha, “Contribuição ao Estudo da Génese do Nacionalismo Moderno Angolano”, e vem divulgar alguns textos do Viriato, que provam que era uma pessoa de grande capacidade intelectual, profundamente empenhado em libertar Angola do colonialismo, com enorme disponibilidade para trabalhar, mas também pouco paciente e quiçá mesmo com alguma “pontaria” para o erro político circunstancial, o que o prejudicou sempre entre os seus pares e aumentou desmesuradamente a sua permanente angústia.Como diz a historiografia actual, foi com esta frase onde tudo começou, e é da mão de Viriato da Cruz que saiu o “Manifesto”, em Dezembro de 1956, que em dado momento diz: «Porém, o colonialismo português não cairá sem luta. Deste modo, só há um caminho para o povo angolano se libertar: o da luta revolucionária. Esta luta, no entanto, só alcançará a vitória através de uma frente única de todas as forças anti-imperialistas de Angola, sem ligar às cores políticas, à situação social dos indivíduos, às crenças religiosas e às tendências filosóficas dos indivíduos, através portanto do mais amplo MOVIMENTO POPULAR DE LIBERTAÇÃO DE ANGOLA.»
Confesso que ao ler o livro, que expõe mais alguma coisa do espólio, do malogrado fundador do PCA, do PLUA. do MPLA, de que foi seu 1º secretário-geral, vejo análises de uma lucidez extraordinária, sobre como se deveria evoluir para um País, e como se teria de construir uma sociedade angolana, contextualizada objectivamente na ausência de industria, com uma elite crioula de pouco peso económico e intelectual, e um campesinato rural, que sai de uma situação híbrida entre a proletarização e o quase esclavagismo, textos escritos no dealbar da década de 50 até meados da década de 60.Tem-se em conta que grande parte destes documentos, fazem parte de correspondência trocada entre Viriato da Cruz e outros angolanos no exílio, principalmente Mário Pinto de Andrade, Mário António de Oliveira, Edmundo Rocha, Carlos Rocha (Dilolwa), José Carlos Horta, Lúcio Lara, Hugo de Menezes e tantos outros que com ele partiram para o exílio.
Não acho que o livro possa ser um pouco o grito de Viriato da Cruz, “Vamos Descobrir Angola”, mas é certamente um trabalho que vai trazer novo debate, sobre um período em que há cada vez menos sobreviventes para contarem como tudo aconteceu, de uma forma descomprometida de grupos, aparelhos, líderes ou candidatos a caudilhos.Da vida de Viriato da Cruz, que talvez pelo mistério em que sempre se envolveu a sua pessoa, e que me intriga e fascina simultaneamente, não deixa de ser estranho que nem o MPLA, nem a FNLA, gostem muito de falar no assunto, e de certa forma há alguma incomodidade no assunto, entre alguns kotas que viveram Dolisie, Brazza, Argel, Conakry, Leo, Kinshasa, etc.
Fico a aguardar que mais gente escreva e que o faça alto e bom som!
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