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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Mestre Humberto no Porta Curtas

Mestre Humberto

Gênero Documentário | Diretor Rodrigo Savastano | Elenco Amorim, Angelo, Bob Estrela, Godot, Loura, Marleide, Mestre Humberto

Ano 2005 | Duração 20 min | Cor Colorido | Bitola 35mm | País Brasil | Local de Produção: RJ

Um passeio pela Lapa, Campo de Santana e pela África através dos amigos e da memória de um aluno mais antigo da vida, cuja graça é Humberto de Souza.

Ficha Técnica

Produção Rodrigo Savastano, Luisa Pitanga, Marcia Mansur Fotografia Pedro Urano Roteiro Rodrigo Savastano Som Direto Eduardo Guedes, Rodrigo Veras Direção de Arte Rodrigo Savastano Empresa produtora Caxanga iLTDA. Edição de som Ricardo Mansur Assistente de Direção Marcia Mansur Argumento Luisa Pitanga, Marcia Mansur Pesquisa Marcia Mansur, Luisa Pitanga Montagem Rodrigo Savastano Música Humberto de Souza Informações cedidas por Kinoforum

Prêmios

Os 10 Mais - Escolha do Público no Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2005
Prêmio aquisição Canal Brasil no Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2005

Festivais

RIOFILME 2003
FAM - Florianópolis 2005
Festival de Curtas de Belo Horizonte 2005

Inscreva-se no Porta Curtas

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

“As relações Angola-Brasil: referências e contatos” (XII)

por Marcelo Bittencourt


Bibliografia

ALVES, Márcio Moreira. Torturas e Torturados. Rio de Janeiro: s/e, 1966.

BARBOZA, Mario Gibson. Na Diplomacia, o Traço Todo da Vida. Rio de Janeiro: Record, 1992.

BENDER, Gerald J. Angola. Mito y Relidad de su Colonización. México: Siglo Veintiuno Editores, 1980.

BITTENCOURT, Marcelo. Estamos Juntos. O MPLA e a Luta Anticolonial (1961-1974). Niterói: Tese de Doutorado / Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense, junho de 2002.

______. Dos Jornais às Armas. Trajectórias da Contestação Angolana. Lisboa: Vega Editora, 1999.

______. A História Contemporânea de Angola: seus Achados e suas Armadilhas. In: Construindo o Passado Angolano: as fontes e a sua interpretação. Actas do II Seminário Internacional sobre a História de Angola (4 a 9 de agosto de 1997). Luanda: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000(a). p. 161-185.

DÁSKALOS, Sócrates. Um Testemunho para a História de Angola. Do Huambo ao Huambo. Lisboa: Vega, 2000.

DIAS, Jill R. Uma Questão de Identidade: Respostas Intelectuais às Transformações Econômicas no Seio da Elite Crioula da Angola Portuguesa entre 1870 e 1930. In: Revista Internacional de Estudos Africanos. Lisboa, nº 1, janeiro-junho de 1984, p. 61-94.

MACÊDO, Tania. Angola e Brasil – Estudos Comparados. São Paulo: Arte & Ciência / Via Atlântica, 2002.

MOREIRA, Adriano. Ensaios. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar/Estudos de Ciências Políticas e Sociais, 1963.

OLIVEIRA, Mário António Fernandes de. Luanda, “Ilha” Crioula. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1968.

SARAIVA, José Flávio Sombra. O Lugar da África: a Dimensão Atlântica da Política Externa Brasileira de 1946 a Nossos Dias. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1996.

VENÂNCIO, José Carlos. Colonialismo, Antropologia e Lusofonias. Lisboa: Vega, 1996.

Marcelo Bittencourt, doutor em História pela Universidade Federal Fluminense, é professor de História da África da Universidade Federal Fluminense, Niterói RJ.


[1] Esse tema foi trabalhado em BITTENCOURT, Marcelo. Dos Jornais às Armas. Trajectórias da Contestação Angolana. Lisboa: Vega, 1999.

[2] As estatísticas sobre povoamento e a comparação com o Brasil podem ser encontradas no clássico trabalho de BENDER, Gerald. Angola. Mito y Realidad de su Colonización. México: Siglo Veintiuno, 1980.

[3] Do mesmo modo que o caso anterior – da crioulidade –, esse tema foi estudado mais atentamente em BITTENCOURT, Marcelo. Dos Jornais às Armas. Trajectórias da Contestação Angolana.

[4] O livro de Tania Macêdo apresenta muitas outras referências, em especial no campo da literatura. MACÊDO, Tania. Angola e Brasil – Estudos Comparados. São Paulo: Arte & Ciência / Via AtlÂntica, 2002.

[5] O argumento ora apresentado vale-se tanto do estudo iniciado no mestrado (e já citado – Dos Jornais às Armas), quanto de seu aprofundamento no doutoramento (Estamos Juntos. O MPLA e a Luta Anticolonial (1961-1974), defendido em junho de 2002 no Programa de Pós-Graduação em História da UFF).

[6] Ambos foram analisados mais atentamente na tese de doutorado Estamos Juntos. O MPLA e a Luta Anticolonial (1961-1974).

[7] Também esse trecho mereceu mais atenção na tese Estamos Juntos. O MPLA e a Luta Anticolonial (1961-1974).

Fonte: blog redeimprensalivre



Pensar e Falar Angola

domingo, 23 de agosto de 2009

“As relações Angola-Brasil: referências e contatos” (XI)

por Marcelo Bittencourt

OS NOVOS CAMINHOS DA “NOSSA HISTÓRIA COMUM”

Ainda que desmentindo em parte o objetivo inicialmente apontado, não gostaria de terminar este texto sem mencionar, num primeiro momento, um reparo e em seguida as novidades que se apresentam no campo de atuação daqueles que buscam escrever sobre essa história comum.

O reparo vai no sentido do reconhecimento de que se apontou neste texto mais exemplos de caso em que o Brasil funcionou como referência para os angolanos, ou como ponto de partida para os contatos estabelecidos, do que o inverso. Ainda que não se pretenda aqui inventariar o caminho inverso, cabe ressaltar alguns pontos da contra-mão desse sentido.

No que se refere aos estudos sobre a escravidão, por exemplo, são fortes os sinais de que o aprofundamento da pesquisa nos possibilitará observar com mais detalhes a influência cultural daquela região específica do continente africano sobre o Brasil. Mas outros temas também poderão ser alvo de futuras investigações, como a batalha pela divulgação da luta anticolonial angolana no Brasil e o lobby colonialista português. Também a pesquisa sobre a migração de angolanos a partir de meados dos anos 70 para o Brasil apresenta grandes possibilidades e questões, como a racial, por exemplo. Por último, mas não menos importante, há que lembrar o comércio formal e, sobretudo, o informal que se estabeleceu entre os dois países a partir dos anos 80 e que devido ao marco cronológico aqui adotado escapou à nossa atenção.

Quanto às novidades, há, indiscutivelmente, uma nova safra de antropólogos e historiadores brasileiros que se dedicam ao estudo dessas relações, ou tão-somente aos temas angolanos, com destaque para aqueles que se concentram no século XIX, mas cada vez mais também no XX. Atualmente, no campo da história e da antropologia, estão em andamento no Brasil cerca de uma dezena de teses de doutorado sobre Angola. É, certamente, o maiorboom na produção de trabalhos acadêmicos sobre esse país no Brasil.

O fundamental, no entanto, é que esse interesse tem sido acompanhado (ou será a causa?) da abertura de disciplinas ligadas à temática africana nos departamentos de história e ciências sociais. O que se traduz em espaço de trabalho, estímulo para o professor ampliar seus conhecimentos, expansão dos grupos de interesse e, num segundo momento, em intercâmbio de professores e idéias entre a África e o Brasil.

Por outro lado, o Brasil foi descoberto pelos africanos de língua oficial portuguesa, principalmente os angolanos, como alternativa acadêmica, e não apenas comercial, ao agora europeizado Portugal. O número de angolanos matriculados em cursos de pós-graduação no Brasil nunca foi tão grande como agora.

Vivemos, portanto, um momento de amplas possibilidades no campo dos estudos africanos no Brasil, com destaque para as relações entre Angola e Brasil, que foi o alvo deste trabalho. Cabe a nós, pessoas interessadas em aprofundar esses conhecimentos e em divulgar tais percursos, a tarefa de expandir esses estudos e vencer os obstáculos ainda teimosamente existentes.



Pensar e Falar Angola

sábado, 22 de agosto de 2009

“As relações Angola-Brasil: referências e contatos” (X)

por Marcelo Bittencourt

A ÚLTIMA TENTATIVA DE INTERVENÇÃO BRASILEIRA

No início dos anos 70, o governo brasileiro tenta interceder junto a Portugal no sentido de se buscar uma solução negociada com os movimentos de libertação das colônias portuguesas na África.

Segundo José Flávio Saraiva, essa iniciativa se passa no correr dos “anos dourados da política africana do Brasil”, quando a dimensão atlântica da política externa brasileira ganhou força, associando o projeto nacional-desenvolvimentista à busca por novos mercados, tendo especial atenção ao petróleo africano. Tudo isso embalado por um discurso culturalista de ligação à África que já de longa data estava presente nos comunicados do Itamaraty (SARAIVA, 1996, p. 128).

Os laços comerciais seriam efetivamente estabelecidos, com a viagem do ministro das Relações Exteriores Mario Gibson Barboza a nove países africanos, entre outubro e novembro de 1972. No entanto, o estreitamento dessas relações seria logo de início marcado pela ressalva africana quanto à posição até então demonstrada pelo Brasil de apoio à política colonial portuguesa.

Do lado brasileiro, esse tema ultrapassava o Ministério das Relações Exteriores e alcançava o Congresso Nacional e a imprensa. O lobby português era forte e presente em vários setores – nos partidos políticos, nos jornais e nas associações empresariais luso-brasileiras.

Ainda assim, em fins de 1972 o Itamaraty já tinha se definido pela aliança com a África Negra. Não havia como cortejar novos aliados no continente vizinho, sem romper com o apoio à política colonial portuguesa, tendo o petróleo africano exercido um papel decisivo nessa opção (SARAIVA, 1996, p. 170).

Em seu livro Na Diplomacia, o Traço Todo da Vida, Mario Gibson Barboza – diretamente envolvido no centro dessas negociações – relembra as duras disputas no interior do próprio governo brasileiro a respeito de que posição tomar quanto ao colonialismo português. O General Ernesto Geisel, então presidente da Petrobrás, defendia uma união com Portugal na exploração do petróleo angolano, enquanto o poderoso ministro da Fazenda Delfim Netto planejava penetrar na África através das “províncias ultramarinas portuguesas”, já que o governo português oferecia vantagens nesse sentido.

Ainda em 1973, foi necessária uma nova intervenção de Gibson Barboza. Dessa vez, o Brasil pretendia vender o veículo blindado Urutu a Portugal, que obviamente seria utilizado para reprimir a guerrilha na África (BARBOZA, 1992, p. 244-53). Mais uma vez, prevaleceu a idéia da separação entre o Portugal metropolitano e o colonial. Definitivamente, o comércio brasileiro com o continente africano, capitaneado pelo petróleo nigeriano, passava a ditar o pragmatismo diplomático em relação ao colonialismo português.

Segundo Gibson Barboza, a intervenção mais direta brasileira junto a Portugal ocorre em janeiro de 1973, quando ele se encontra com o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Rui Patrício, em Roma, dois meses após o périplo do brasileiro pelo continente africano. Gibson Barboza teria alertado Rui Patrício para a impaciência de alguns chefes de Estado africanos com a guerra colonial, principalmente na Guiné-Bissau, e que estes estavam considerando a possibilidade de uma intervenção armada.

O recado seria acompanhado da ameaça de que, na persistência do imobilismo da situação, o Brasil votaria contra Portugal na ONU. Diante disso, o governo português cede e Rui Patrício diz estar disposto a encontrar-se com chefes de Estados africanos (BARBOZA, 1992, p. 263-4).

O Brasil, então, inicia os preparativos e contacta a Costa do Marfim, o Senegal, o Quênia, o Zaire e a Nigéria. Todavia, quando o governo brasileiro sugeriu que representantes dos movimentos guerrilheiros fizessem parte das delegações dos países africanos, Portugal se afastou da iniciativa. Como forma de pressão, o Brasil se abstém em duas votações condenatórias a Portugal na ONU, em dezembro de 1973, e recebe como resposta uma entrevista do chefe de governo Marcelo Caetano ao jornal O Globo, no mesmo mês, na qual ele se oferece como mediador entre o governo brasileiro e a guerrilha que se instalara no Brasil (SARAIVA, 1996, p. 173). Estavam encerradas as negociações.

Logo em seguida, ocorre o 25 de Abril, o acordo de cessar-fogo entre as Forças Armadas portuguesas e os movimentos de libertação angolanos em 1974, o confronto entre os três grupos independentistas angolanos – MPLA, FNLA e UNITA (União para a Independência total de Angola, fundada em 1966) –, a declaração de independência do MPLA e o reconhecimento brasileiro à independência de Angola.




Pensar e Falar Angola

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

“As relações Angola-Brasil: referências e contatos” (VIII)

“As relações

Angola-Brasil: referências e contatos”, por Marcelo Bittencourt

O MEDO CONTINUA

A preocupação portuguesa com um possível apoio brasileiro às ações anticoloniais em Angola, demonstrada nesses casos, continuaria por um longo tempo ocupando espaço no xadrez político pensado por Lisboa.

Segundo a Pide, em decorrência da “atitude assumida pelo Governo do Brasil em relação à política ultramarina de Portugal”, todas as autoridades diplomáticas brasileiras, independentemente dos países em que estivessem fixadas, deveriam receber um acompanhamento especial. Qualquer movimento de aproximação em relação aos nacionalistas angolanos deveria ser assinalado.

Em resposta a essas orientações vindas de Lisboa, a Pide de Luanda informa ao governo que não havia diplomatas brasileiros em Brazzaville, nem em Léopoldville, naquele ano de 1961, e que o cônsul em Luanda estava vigiado, não se registrando “nada de interesse até o momento”.

Mais uma vez, a entrevista realizada com o embaixador Alberto da Costa e Silva nos fornece um testemunho que confirma essa “atenção especial” da Pide aos diplomatas brasileiros, quando se tratava de investigar a proximidade destes em relação aos partidários das independências africanas. Segundo o embaixador, em Lisboa essa vigilância era mais severa sobre ele, que respondia pelos assuntos africanos, e sobre o responsável pela área cultural, o escritor Odilo Costa Filho, ambos muito receptivos aos estudantes africanos residentes em Portugal. Como forma de ilustrar o que se passava, Alberto da Costa e Silva destaca um episódio em que Odilo Costa Filho, após demitir a empregada portuguesa que trabalhava em sua casa, é defrontado por essa senhora com a resposta de que ele não poderia demiti-la, pois ela tinha sido colocada naquela função por um determinado major português e que, portanto, só sairia dali com ordem desse militar.

A Pide, no entanto, segundo Alberto da Costa e Silva, estava certa em suas suspeitas, já que, em muitas das viagens à África, os diplomatas brasileiros sofriam o assédio de integrantes dos movimentos de libertação das colônias portuguesas, em especial o MPLA.

Ainda assim, o destaque dado ao Brasil na imprensa portuguesa colonial e metropolitana permanece. Em especial, em relação às delegações de políticos brasileiros. Só no ano de 1963 foram duas, em visita ao distrito do Uige. Ao que parece, foram as únicas delegações estrangeiras nesse ano.

A maior delegação, com treze deputados do estado de São Paulo, chegou a Carmona no dia 20 de novembro de 1963, ocasião em que as autoridades coloniais aproveitaram para enfatizar a “obra de promoção social das populações rurais”. Do lado brasileiro, os discursos oficiais ficaram por conta dos deputados Araripe Serpa e Conceição da Costa Neves. O jornal não faz a transcrição dessas intervenções, mas realça que ambas foram simpáticas e reafirmaram a solidariedade do povo brasileiro (Jornal do Congo, 21 de novembro de 1963).






Pensar e Falar Angola

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

“As relações Angola-Brasil: referências e contatos” (VII)

por Marcelo Bittencourt




Duas visitas brasileiras

Ainda nesse ano de 1961, dois eventos devem ser destacados a fim de nos auxiliar na análise da política externa brasileira em relação a Portugal e Angola: a exposição flutuante do navio-escola Custódio de Mello, ao longo de vários meses, por diversos países africanos, e a visita do embaixador brasileiro em Portugal a Angola.[6]

Organizada pelo Itamaraty e pelo Ministério da Marinha, a viagem do navio-escola tinha por objetivo estabelecer laços de amizade e apresentar produtos nacionais para comercialização. A passagem dos brasileiros por Luanda ganharia repercussão na imprensa portuguesa, quer metropolitana, quer colonial. As autoridades coloniais, carentes de notícias que alterassem o repetitivo discurso da guerra, fizeram questão de demonstrar o mais amplamente possível o ambiente festivo com que foram recebidos os brasileiros em Luanda.

As reportagens do Jornal de Angola e da Revista de Angola, abusando das fotografias tiradas numa recepção ocorrida na Associação dos Naturais de Angola, procuraram realçar a diversidade racial desse convívio e descrever a visita, de forma por vezes pouco sutil, como uma demonstração de apoio do Brasil à política de Salazar para o seu “Ultramar”. As declarações dos visitantes brasileiros durante a curta estadia em Angola facilitaria e muito tal interpretação.

Vale lembrar que essa tendência de aproximação com o continente africano seria muito discutida no meio político e acadêmico da época, ultrapassando os debates ocorridos no Legislativo e alcançando as páginas dos jornais e algumas revistas acadêmicas. Entre os debatedores, além de deputados e senadores, constavam os nomes de Afonso Arinos, Alceu Amoroso Lima, Candido Mendes de Almeida, Eduardo Portella, Gilberto Amado, José Honório Rodrigues, Manuel Maurício de Albuquerque, Maria Yedda Linhares, Moacir Werneck de Castro, Oswaldo Aranha e San Tiago Dantas. A África, com especial destaque para as colônias portuguesas, estava na pauta dos temas importantes a serem defrontados pelo Brasil.

Por outro lado, o Brasil era uma presença constante na imprensa portuguesa metropolitana e colonial, daí o receio de que tal referencial servisse aos anseios autonomistas existentes em Angola. O Jornal de Angola de 15 de novembro de 1961, o mesmo que fez a reportagem com a visita dos tripulantes do Custódio de Mello a Luanda, publica um outro artigo de fundo no qual é feito um balanço dos problemas enfrentados por João Goulart para assumir o governo.

Esse periódico possuía ainda uma sessão chamada “Notícias do Brasil”, na qual se veiculavam pequenas notas sobre a economia brasileira. Longe de se constituir uma exceção na imprensa portuguesa, as matérias sobre o Brasil eram mais do que constantes, quase obrigatórias, o que demonstra o interesse que o país suscitava entre os portugueses e também entre os africanos, todos com pouco acesso a outras fontes de informação que não fossem as rádios e os jornais oficiais.

É nesse cenário que decorre a visita do embaixador brasileiro em Portugal, Negrão de Lima, a Angola. Nessa viagem, Negrão de Lima se fez acompanhar do terceiro secretário da embaixada brasileira em Lisboa, Alberto da Costa e Silva, e do professor do Instituto de Cultura Brasileira em Portugal Thiers Martins Moreira. A viagem seria fruto de um convite português ao Presidente Jânio Quadros para que o governo brasileiro tomasse conhecimento da realidade angolana antes de se posicionar nas votações sobre o colonialismo português na ONU.

Durante sua estadia em Angola, Negrão de Lima fez declarações salientando a amizade entre Brasil e Portugal e que logo ganhariam uma conotação “favorável” na imprensa portuguesa, tanto na metrópole como em Angola, em que se associa a delicadeza do discurso do embaixador brasileiro a um possível apoio a Portugal. Segundo Saraiva (1996, p. 80-1), em relatório interno para o Itamaraty, o embaixador expressou opinião bem diversa, defendendo a hipótese da autonomia de Angola.

A visita não se restringiu a Luanda e, por onde passassem, os brasileiros seriam acompanhados de perto pela imprensa angolana, como no Uíge, província do extremo norte de Angola, onde receberam grande destaque noJornal do Congo de 8 de junho de 1961. O tom dado a essa visita, quer pelas autoridades coloniais quer pela imprensa local, era o de uma aproximação brasileira e de certeza do apoio do Brasil à política portuguesa para Angola.

Os arquivos da Pide mostram, entretanto, que não eram só os jornalistas que estavam no encalço dos brasileiros. Durante toda a viagem, que se estendeu dos últimos dias de maio até a segunda semana de junho de 1961, a comitiva seria seguida de perto pelos agentes da polícia política portuguesa, temerosa de possíveis encontros com independentistas angolanos.

E aqui vale a pena referir uma nota muito interessante e bem-humorada dessa viagem que nos foi contada pelo embaixador Alberto da Costa e Silva, à época o secretário que acompanhava o embaixador Negrão de Lima, e que ilustra a longevidade das relações entre o Brasil e Angola, ao mesmo tempo que reflete as sutilezas da diplomacia, em especial da brasileira, nesse caso específico do colonialismo português.

Segundo Alberto da Costa e Silva, o fato ocorrera durante um discurso do embaixador Negrão de Lima em Benguela, após a visita ao túmulo de um inconfidente mineiro, sepultado nas cercanias da cidade. O também mineiro Negrão de Lima acabaria por demonstrar uma grande emoção, ao discursar sobre a inconfidência e sobre as ligações Brasil-Angola. Percebendo a perigosa associação que estava sendo feita e o desfecho complicado que poderia resultar do tom do discurso, o então terceiro secretário Alberto da Costa e Silva chama a atenção do embaixador para o fato, alertando-o, bem-humorado, de que sua fala terminaria levando a uma proclamação de um grito de “independência ou morte” para Angola. Após o aviso, o embaixador conseguiria conter o tom emocionado de suas palavras e terminar o discurso sem grandes problemas.

Os passos dos diplomatas brasileiros estavam controlados posto por posto de vigilância. Por exemplo, o posto da Pide em Sá da Bandeira, atual Lubango, no planalto angolano, envia um breve relatório da passagem pela cidade da comitiva brasileira, informando que Alberto da Costa e Silva deixara transparecer sua aprovação em relação à independência de Angola e que teria afirmado que num prazo de dois a três meses Holden Roberto, líder da FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), um dos movimentos de libertação angolanos em luta armada contra Portugal, iria ao Brasil. Segundo esse relatório, os brasileiros teriam feito contatos com alguns oposicionistas, previamente preparados para tanto pela própria Pide. Só que a situação era tão óbvia que os representantes brasileiros mostraram-se extremamente cautelosos.

A entrevista realizada com o embaixador Alberto da Costa e Silva e o livro de memórias de Sócrates Dáskalos (2000, p. 88-9), antigo militante do MPLA, outro dos movimentos de libertação angolanos, também em luta armada contra o exército colonial português, nos confirmam que, apesar da vigilância cerrada, foi possível a realização de contatos entre a comitiva e alguns independentistas angolanos, como o que ocorreria entre Alberto da Costa e Silva e o próprio Sócrates, em Benguela.

Alberto da Costa e Silva afirma ainda que o fato de a Pide tê-lo identificado como partidário da independência angolana não o surpreendeu, visto que a estratégia de aproximação com os oposicionistas fora traçada pelo próprio embaixador Negrão de Lima, que logo percebera que não iria conseguir observar nada além do que os portugueses pretendiam mostrar. Costa e Silva aproveitou a entrevista para desmentir a idéia presente no relatório da Pide de que o governo brasileiro teria articulado uma visita de Holden Roberto ao Brasil.


Pensar e Falar Angola

terça-feira, 18 de agosto de 2009

“As relações Angola-Brasil: referências e contatos” (VI)

por Marcelo Bittencourt

A luta e o temor colonialista

Em março de 1959, a Pide realizou vasta operação em Luanda e noutras cidades que culminou com a prisão de vários suspeitos de conspirarem contra a soberania portuguesa, ou mesmo de serem simpáticos a tal idéia. A partir dessas prisões, o governo português instaurou um inquérito que ficaria conhecido como “Processo dos 50”, todo ele repleto de irregularidades jurídicas, destacando-se a proibição de os advogados visitarem seus clientes. Estabelecia-se, dessa forma, duro golpe contra o movimento nacionalista angolano.[5]

Apesar do retrocesso que essas prisões significavam para o movimento de contestação colonial, elas proporcionaram o reconhecimento, por parte de Portugal, de que havia grupos organizados lutando pela independência das colônias. Com isso, finalmente, a luta por uma Angola independente alcançava o noticiário internacional e punha em xeque o discurso luso-tropicalista de Salazar.

Os acontecimentos se intensificam. Na madrugada de 4 de fevereiro de 1961, grupos independentistas tentam resgatar os presos políticos detidos nas ações policiais de 1959 e 1960. Jornalistas estrangeiros em Luanda – que aguardavam a chegada de Henrique Galvão e seus homens, que haviam seqüestrado um navio português, numa ousada ação contra o regime de Salazar – dariam ressonância aos fatos. Galvão acabaria por negociar com o Presidente Jânio Quadros, desviando o navio para o Brasil.

Até aquele momento, as desculpas portuguesas ficaram circunscritas às sessões da ONU, ocasiões em que as críticas ao colonialismo luso não avançavam para medidas mais concretas, dadas as alianças portuguesas, incluindo as existentes com o governo brasileiro de então.

Na elaboração de suas estratégias defensivas, as autoridades portuguesas sempre levaram em consideração o papel a ser exercido pelo Brasil, principalmente após a deflagração da luta nas colônias portuguesas na África, em especial Angola. O temor de uma simpatia brasileira pelo desejo de autonomia em Angola era uma preocupação já antiga na política portuguesa. Fora alvo de cláusula documental no acordo de 1826 entre Brasil e Portugal, para que este último reconhecesse a independência do primeiro, estipulando-se ainda o impedimento do Brasil em aceitar o controle direto sobre qualquer território português na África. Esse receio, mesmo após as independências das colônias africanas, não seria de todo extinto, mudaria de forma e de interpretação.

No início da década de 60, essa apreensão do governo português encontrava elementos nas reformulações ocorridas na política externa brasileira. Era o período de manifestação do discurso culturalista de ligação e dívida com a África, o qual, porém, logo demonstraria suas limitações.

O novo discurso da política externa brasileira assustava os colonialistas portugueses, alicerçados numa retórica de fundo luso-tropicalista da qual o Brasil seria a melhor comprovação da capacidade portuguesa de fornecer “civilização” a outros povos.

Era, portanto, de grande importância a concordância brasileira com a política de Portugal em relação às colônias. Até então, o continente africano era encarado por alguns setores do governo brasileiro apenas como um rival na exportação de produtos primários. O café angolano, por exemplo, competia diretamente com o café brasileiro. Tais disputas na área econômica fundamentavam uma política titubeante do Brasil nos fóruns internacionais a respeito do processo de descolonização na África.

Nas votações da ONU em 1960, o Brasil, ao mesmo tempo que apoiou a resolução que garantia a independência dos povos e países coloniais, foi contra uma outra que forçava Portugal a dar informações sobre suas colônias na África. Essa atuação ambígua também era praticada em relação à África do Sul, parceiro estratégico no Atlântico Sul. O Brasil abstinha-se nas votações sobre o apartheid com o argumento de se tratar de um problema interno sul-africano.

Nos governos de Jânio Quadros e João Goulart, a chamada política externa independente traria novidades ao posicionamento brasileiro no tocante ao processo de descolonização africano. A política externa desse período refletiria a idéia de uma maior exposição internacional do Brasil, de uma diversificação de interesses e aliados e também de penetração em zonas até então pouco tocadas. Essa postura resultou na abertura de embaixadas em Acra, Rabat, Túnis, Dacar (onde antes existia um consulado) e Lagos, além dos consulados em Luanda, Lourenço Marques (hoje Maputo), Nairóbi e Salisburry (atual Harare).

Também nesse ano de 1961, seriam criados a Divisão de África no Itamaraty e o Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiáticos (IBEAA), tendo à frente Candido Mendes de Almeida, Eduardo Portella e Maria Yedda Linhares (SARAIVA, 1996, p. 64-5 e 94). Entretanto, as alterações na política externa brasileira não foram suficientes para superar as hesitações em relação ao problema das colônias portuguesas. Na votação de março de 1961 na ONU, em torno da reação portuguesa aos levantes ocorridos em Angola, o Brasil se absteve.



Pensar e Falar Angola

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

“As relações Angola-Brasil: referências e contatos” (V)

por Marcelo Bittencourt

REVISTA SUL

Uma das vias de diálogo seria através do que por longo tempo se convencionou chamar “amigos do António Jacinto”. Durante alguns anos, o segredo se manteve sem que, aparentemente, assim desejassem os intervenientes. No entanto, num raro momento de coincidência, enquanto escrevo essas linhas recebo o mais recente trabalho da professora Tania Macêdo, Angola e Brasil – Estudos Comparados, que em seu segundo capítulo desfaz o mistério.

O contato foi estabelecido com o Grupo Sul, criado por jovens de Florianópolis em 1947, que num primeiro momento receberia o nome de Círculo de Arte Moderna. Entre artes plásticas, música e teatro, o grupo navegaria por diferentes áreas até que em 1948 lança a revista Sul. Com o passar do tempo, a publicação receberia a colaboração de jovens portugueses e africanos que tinham os seus caminhos fechados pela ditadura salazarista. É dessa forma que as relações se estreitam e um espaço de troca de idéias, textos e debates se estabelece. Como afirma Tania Macêdo, o extraordinário é que a revista cumpriu ao mesmo tempo o papel de resistência e resgate. Pois, por um lado, manteve um canal aberto de expressão para os angolanos e, por outro, constitui hoje um repositório de textos até então pouco ou nada conhecidos.[4]

Os contatos entre angolanos e brasileiros, nos anos 50, se desdobrariam por diferentes caminhos, assim como as conseqüências. Até mesmo os estatutos do Partido Comunista de Angola seriam muito semelhantes aos do Partido Comunista Brasileiro. A versão quanto à adaptação dos estatutos do PCB está presente, por exemplo, no interrogatório de Mário António Fernandes de Oliveira feito pela polícia política portuguesa (Pide) em 1959. Não seria de surpreender que o canal de cooperação literária comportasse também aspirações e propostas políticas.

O BOTAFOGO

As referências brasileiras em Angola se fariam sentir ainda através de uma outra ligação às redes clandestinas de contestação ao poder colonial. Nos anos 50 do século passado, um dos locais dessa agitação seria o Botafogo. O clube era um local de encontro que permitia fazer algum trabalho clandestino de conscientização política. O nome era devido ao clube carioca e se dedicava, na sua área desportiva, quase integralmente ao futebol.

O Botafogo era um clube de musseque que chegou a disputar jogos com os clubes da cidade de asfalto, os clubes dos colonos. Comportava nomes ligados ao nacionalismo angolano e facilitava a circulação dos livros brasileiros, citados anteriormente, que ajudariam a expandir a conscientização para a luta anticolonial. O clube possuía também um serviço de assistência gratuita para consultas médicas. Em 1961, o Botafogo seria fechado pelas forças coloniais.



Pensar e Falar Angola

domingo, 16 de agosto de 2009

“As relações Angola-Brasil: referências e contatos” (IV)

por Marcelo Bittencourt


Conexão livre e dispersa

TODAVIA, UM OUTRO MOVIMENTO DE CONEXÃO ENTRE ESSAS DUAS MARGENS DO ATLÂNTICO, MAS COM ORIENTAÇÃO, AGENTES E DESFECHOS TOTALMENTE DIFERENTES, IRIA SE ESTABELECER EM PARALELO ÀS RELAÇÕES DE CARÁTER OFICIAL E COLONIAL QUE ASSUMIRIAM AS TESES FREYRIANAS.

A luta pela independência em Angola, já com uma perspectiva nacional, tem como um de seus locais de gestação o ambiente cultural luandense. Estimuladas por jovens de finais dos anos 40 e principalmente do início dos anos 50 do século XX, revistas culturais, rodas de leitura e uma produção literária preocupadas em realçar a sua africanidade ganham destaque como instrumentos de contestação à imposição dos padrões coloniais.[3]

Formada por jovens negros, mestiços e brancos, em sua maioria mergulhados há bastante tempo no ambiente crioulo de Luanda, ou ainda recém-chegados para completar os estudos, a revista Mensagem, criada em 1951, foi uma das principais precursoras de toda essa agitação e, certamente, a primeira tentativa de maior expressão na busca de reabilitação dos valores angolanos, apesar da sua curta duração – encerra-se com o segundo número, em outubro de 1952. Evidentemente, a “revista” seria mais do que uma publicação. Passou a ser uma referência e um local de encontro e discussão.

De forma nada surpreendente, seus principais expoentes seriam também os primeiros a fornecerem uma formatação política mais consistente aos anseios independentistas. A ligação entre atividade cultural e iniciativa política era já bem conhecida tanto dos angolanos, quanto das autoridades governamentais. Foi o caminho possível para se buscar a conscientização e a organização necessárias para o início da luta anticolonial. Essa articulação se faria presente também em outros centros urbanos, principalmente mais ao sul, como Benguela e Huambo.

Progressivamente, muitos desses quadros que lutavam por uma melhor organização dos independentistas passaram à clandestinidade, outros foram para a metrópole em busca de formação universitária e alguns poucos conseguiram se estabelecer em outros países europeus, a fim de darem continuidade aos estudos. Todos, porém, lutavam pela manutenção dos contatos, para que a chama não se extinguisse.

Apesar das dificuldades, desenvolve-se o processo de articulação política e surgem os primeiros grupos clandestinos. Nesse processo de formação das pequenas células, ocorre a incorporação não só dos remanescentes da crioulidade luandense, mas também daqueles que fugiam a tal classificação cultural. O objetivo principal, guardadas as devidas precauções com a atividade policial portuguesa, era justamente a divulgação do clima contestatório em âmbito nacional.

Nessa passagem de uma etapa de divulgação cultural para um momento de criação e organização de pequenos grupos de ação política clandestina, contou, sobretudo, a influência do pensamento de esquerda, principalmente de orientação marxista, transmitido aos angolanos independentistas pelos trabalhadores marítimos, pelos exilados do regime e por alguns brancos marxistas, ou ainda por intermédio de estrangeiros. E o que nos interessa ressaltar é que parte desse instrumental e dessas referências era proveniente do Brasil.

O material a que tinham acesso era bem diversificado, desde panfletos e revistas brasileiras até livros de formação política e romances de Jorge Amado e Graciliano Ramos, entre outros. O que realmente importava era fazer circular publicações que divulgassem autores de concepção marxista. Os livros da editora brasileira Vitória também conseguiam chegar; ainda que com grande dificuldade, dada a ação da polícia política portuguesa (Pide), que impedia a entrada deste material.

A influência brasileira podia ser notada ainda na imprensa angolana, através dos canais de livre acesso, como o rádio e os jornais. Nesse último caso, temos o exemplo do quinzenário Jornal de Angola. A coleção desse periódico também se encontra no Arquivo Histórico Nacional, em Luanda, e é um belíssimo exemplo da presença da imagem e da informação do Brasil em terra angolana.

Com respeito a esse campo – do estudo das influências culturais brasileiras, em meados do século passado, sobre a geração que iria dar nova formatação ao desejo de independência –, é preciso mencionar a contribuição dos pesquisadores brasileiros da área da literatura. Partindo de entrevistas com autores angolanos, muitos desses pesquisadores conseguiram reconstruir o quadro de referências brasileiras a que foram expostos os angolanos.



Pensar e Falar Angola

sábado, 15 de agosto de 2009

“As relações Angola-Brasil: referências e contatos” (III)

por Marcelo Bittencourt


O luso-tropicalismo

Nos anos 50, observa-se outra das conexões entre Angola e Brasil. O governo colonial português, adotando uma visão preventiva quanto às conseqüências libertadoras das independências que se sucediam no continente africano, passa a enaltecer o discurso luso-tropicalista de Gilberto Freyre. A proposta buscava XXXX desestabilizar a movimentação dos pequenos grupos urbanos com pretensões anticoloniais, XXXX especialmente em Angola.

Teoricamente, com o reforço da idéia assimilacionista, surgiriam novas possibilidades de reerguimento dos indivíduos mestiços e negros, principalmente os descendentes da crioulidade, detentores de uma maior intimidade com o meio urbano.

Evidentemente, não irá ocorrer uma reedição do cenário favorável à cultura crioula, pois este se prende a um contexto específico, fruto de implicações sociais e econômicas. O colonialismo português, nessa nova fase, não pretendia ultrapassar a fase propagandística de tal política. Tratava-se apenas de utilizá-la defensivamente num momento em que o domínio português sobre as províncias ultramarinas passava a ser questionado internacionalmente de maneira mais incisiva.

Esse foi o papel dispensado às argumentações freyrianas sobre a família patriarcal portuguesa e sobre a forma peculiar de ser e estar do português no mundo, em especial nos trópicos. Consistiria também numa ideologia para consumo interno. Isto é, uma tentativa de elevação do baixo prestígio nacional. Adriano Moreira esclarece, com recorrentes citações à obra de Gilberto Freyre, tal apropriação, principalmente no seu trabalho intituladoEnsaios, não por acaso publicado pela Junta de Investigação do Ultramar, onde assegura:

“Tem por isso razão o grande sociólogo Gilberto Freyre quando oportunamente repara que na obra de Toynbee, ao estremar e classificar as civilizações, falta a consideração desta forma peculiar de estar no mundo que afortunadamente designou por luso-tropicalismo (…) E foi sem dúvida esta concepção de vida igualitária, de democracia humana, a contribuição mais significativa da acção portuguesa no mundo para a valorização do homem. Uma acção no mundo absolutamente alheia à idéia de conflito e de domínio, ao sentimento de superioridade e inferioridade racial, ao esquema simplista da dialética entre a agressão e a resposta.” (MOREIRA, 1963, p. 13.)

As extrapolações das teses de Gilberto Freyre cresceram à medida que se fazia necessário aumentar o poder de argumentação de defesa das chamadas províncias ultramarinas. É interessante notar, de parte das autoridades coloniais portuguesas, não só a utilização recorrente do Brasil como exemplo da “capacidade” lusitana em criar “sociedades multirraciais”, mas também o esforço em transformar essa “característica” do colonialismo português – a “multirracialidade” – em direito à manutenção de suas colônias.

A legislação resultante dessa nova postura luso-tropicalista, evidentemente, não implicou o fim da discriminação racial. Pelo contrário, ao agravar a disputa econômica, principalmente com os chamados “pequenos brancos”, acabou por fomentar atitudes racistas por parte destes, o que estimulou uma resposta também de cunho racial dos nacionalistas, que estavam envolvidos no processo de conscientização da população contra os ditames coloniais.

A nova propaganda luso-tropicalista ocorria paralelamente a um crescimento do número de portugueses que escolhiam Angola como local para viver e, claro, enriquecer. Essa ambição estava associada às oportunidades que passaram a surgir em fins da década de 40 e início da década de 50, com o crescimento, principalmente, da produção de café. O dado interessante é que esses brancos possuíam baixa escolaridade, o que numa pretensa política “multirracial” aproximaria as possibilidades entre brancos, negros e mestiços. Em 1950, quase a metade dos brancos em Angola nunca freqüentara a escola e menos de 17% tinham ido além da quarta classe. Mesmo assim, as oportunidades de trabalho “teimavam” em não aparecer para negros e mestiços.

Dentro do espírito de sua política luso-tropicalista e tentando dar uma resposta de imediato ao início da luta pelos movimentos de libertação angolanos em 1961, o governo português decretou, em setembro desse mesmo ano, o fim do sistema do indigenato, abolindo a distinção entre “civilizados” e “não-civilizados”. Criaram-se também organismos administrativos africanos e alargou-se o regulamento de propriedade da terra. Todavia, a promulgação do decreto pouco alterou a vida dos negros e mestiços, que então poderiam, pela ausência de barreiras legais, matricular-se no ensino superior, ocupar posições elevadas no governo, freqüentar restaurantes e morar em bairros luxuosos. O longo período de expropriação a que eles haviam sido expostos impedia-os de agora usufruir da igualdade jurídica. Os poucos que conseguiram tal feito eram em número tão irrelevante que só confirmavam a discriminação.



Pensar e Falar Angola

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

“As relações Angola-Brasil: referências e contatos” (II)

por Marcelo Bittencourt


Espelho independentista

O primeiro destaque é para a intensificação da adoção do Brasil como referência por parte dos angolanos nas duas últimas décadas do século XIX, em sua luta contra Portugal. É o caso do “exemplo brasileiro”.[1]

Na costa angolana, principalmente nos centros mais antigos de contato entre europeus e africanos, como Luanda e Benguela, surgiu um grupo social diferenciado. Séculos de negociações e imposições entre europeus e africanos resultaram numa interação que propiciou a formação do que muitos autores chamam de “sociedade crioula”, um espaço de construção de canais de comunicação entre culturas diferentes, gerando algo novo, mestiço culturalmente (OLIVEIRA, 1968 e 1997; VENÂNCIO, 1996; e DIAS, 1984), e que difere também da leitura latino-americana da crioulidade.

Vários são os nomes que tentam definir esse grupo: crioulos, filhos da terra, angolenses, euro-africanos, nativistas. Todavia, a discordância parece se restringir mais à sua designação do que à sua existência enquanto segmento diferenciado cultural e socialmente. Não há grande questionamento quanto às singularidades desse grupo – uma camada intermediária, com interesses próprios e enraizados lentamente, geração após geração, nas áreas apontadas. Era formada por indivíduos próximos tanto da matriz cultural européia – expressa pelas letras, pela maneira de se vestir e na forma de administrar o comércio e o espaço urbano –, quanto da matriz cultural africana, muitas vezes chamada de tradicional, implicando diferenciadas estruturas de parentesco, aquisição de bens, delegação de poderes e cerimônias religiosas e festivas.

A ascensão econômica e social de negros e mestiços no cenário angolano estava longe de ser um fato raro. A porcentagem de naturais brancos era muito pequena naquela época, dada a escassez de mulheres brancas em Angola. Em 1846, havia aproximadamente uma mulher branca para cada 11 homens brancos em Luanda.[2] Muitos dos naturais ocupantes de postos nas estruturas administrativas, militares e eclesiásticas da colônia eram negros e mestiços.

Isso não implica a construção de um cenário de “democracia racial”. As famílias luandenses buscavam se manter tão brancas quanto possível, através do casamento de suas filhas com oficiais da Marinha portuguesa e também brasileira. A “multirracialidade” existente revelava a fragilidade da presença do Estado português na colônia. E foi essa fragilidade, materializada na falta de mão-de-obra, que teria propiciado o aproveitamento em grande escala dos filhos da terra em cargos na administração. Foi também por conta disso que até mesmo os deportados foram aceitos na função pública. Em suma, os traços de permeabilidade social e racial encontrados devem ser entendidos como o resultado de um processo socioeconômico específico, próprio daquela sociedade e daquele determinado momento histórico. Há, no entanto, uma certa concordância entre os historiadores de que essa permeabilidade foi sendo extinta, a partir de meados do século XIX, à proporção que se implementava o processo de colonização.

Os comerciantes instalados em Luanda atuavam, em grande parte, do ponto de vista mercantil, como subsidiários dos interesses brasileiros. E, em decorrência desse posicionamento, não apreciaram as novas determinações do governo liberal português, a partir de 1834, de se expandir na África, no quadro de um novo colonialismo.

Os crioulos passaram a sofrer, então, as conseqüências daquilo que pode ser considerado a outra face da mesma moeda: o aumento da imigração portuguesa. Ambas – a reestruturação do comércio e a chegada de um número maior de portugueses – eram decorrência do início do processo de consolidação do sistema colonial em Angola. Os não-brancos do grupo perderam a sua posição econômica e foram então marginalizados das posições sociais ocupadas no aparato colonial.

Os cargos do aparelho administrativo da colônia se transformaram então num espaço vital para a sobrevivência de parte dessa elite crioula, da mesma forma que a Igreja e o Exército constituíram importantes espaços de mobilidade social. No entanto, multiplicaram-se as queixas de discriminação contra eles nas nomeações para tais cargos e de favorecimento de candidatos metropolitanos. Nem mesmo a participação dos crioulos ao lado dos portugueses na consolidação do território e no enfrentamento dos bolsões de resistência africana no interior resultaria favoravelmente a esse grupo diante das novas ações coloniais.

Ainda em finais do século XIX, os intelectuais crioulos passaram a questionar abertamente a capacidade portuguesa em desenvolver a colônia. Não eram discutidas as idéias de desenvolvimento e de civilização, mas sim a fragilidade de sua implementação por Portugal. Em artigo publicado no jornal O Futuro d’Angola, José de Fontes Pereira – o representante mais radical dessa safra de intelectuais crioulos e por muitos considerado o precursor do XXXXX nacionalismo angolano – deixa claro um posicionamento ainda mais contestador:

“Passando uma pequena revista sobre o muito que temos escrito, destaca-se a magna questão da independência desta nossa querida pátria, cuja idéia vem criando raízes no coração africano, afirmando-nos as adesões unânimes por esta nossa propaganda. (…) O sol que se descobre no horizonte aponta-nos um futuro igual ao que salvou Brasil e felicita a América. Trabalhador do futuro, dia e noite espargimos a semente fecunda da emancipação e cultivando sem cessar buscamos germinar o doce ideal da nossa independência, procurando quebrar o ovo fecundo nos rochedos da escravidão. Há de um dia chegar. Esperar e crer.” (José de Fontes Pereira, em artigo publicado no jornal O Futuro d’Angola, em 26-4-1889.)

Como se pode observar neste e em outros periódicos disponíveis no Arquivo Histórico Nacional de Angola, em Luanda, e na Biblioteca Municipal de Luanda, o Brasil foi eleito como referência no questionamento ao controle português. Fontes Pereira seria um dos principais utilizadores dessa bandeira.

Mirando numa perspectiva mais ampla, percebemos que se tratava do processo expansionista europeu sobre a África, que no caso angolano teve como característica peculiar a existência de “postos avançados” no território.

Segmentos crioulos fundaram associações culturais que serviam como espaços de demonstração de “civilidade”, além de permitir reuniões para se discutir os graves problemas que enfraqueciam e ameaçavam suas conquistas. Mas os resultados alcançados foram modestos, e mesmo a proclamação da República portuguesa, em 1910, aguardada por parte desse segmento crioulo como solução para tais problemas, mostrou-se, apesar de mais descentralizadora, insensível a seus anseios.

Antes mesmo de as medidas de contenção de Salazar entrarem em vigor, os crioulos presenciaram o fechamento de seus principais canais reivindicativos: as associações culturais e os jornais sob sua tutela. A década de 20 do século passado seria o período de maior embate e perdas.


Pensar e Falar Angola

RITA GT em Viana do Castelo

https://youtube.com/shorts/qZkb4CfXTZQ?si=3K65JJEr5VQqsZZS Ao longo dos últimos dois anos tive a oportunidade de desenvolver “8”, uma obra d...