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segunda-feira, 7 de março de 2011

apontamentos de F.Quelhas (12)

Faz algum tempo que não mando notícias daqui de Luanda.
Às voltas com a burocracia angolana que disputa com a brasileira o segundo lugar num “ prémio” inglório de quem mais consegue dificultar a vida de quem quer produzir ( o primeiro lugar, claro, pertence aos burocratas portugueses de quem herdámos esta maldição ), cá vamos andando, “ cantando e rindo”.
Das impressões sobre Angola?
Naquela linha de análises pontuais vou colocar dois dados que são, também, “ pinceladas” de um quadro geral.
Já narrei como por aqui o dólar circula como uma moeda paralela, sendo comum as pessoas e empresas terem contas nas duas moedas ( sinceramente não sei se também se pode abrir conta em euros, ou outras moedas ). Pois bem, quando venho do Brasil, trago sempre comigo alguns dólares. Qual não foi a minha surpresa ao pretender usá-los aqui  ouvir que aquelas notas não tinham valor pois se tratavam de dólares “ cabeça pequena”.
Vim depois a saber que os dólares que eu trouxe eram de uma emissão antiga e que aqui não são aceites. Reparei que realmente a figura do presidente americano em tais notas é menor que nas notas mais recentes. Aliás, em Moçambique e na África do Sul seriam até mais rigorosos pois só estariam aceitando emissões após 2.006. Eis então que por aqui, as " cabeças pequenas "  não têm valor.
Quase argumentei que, valor por valor, nenhuma tinha, mas achei que o bancário não iria entender, até porque imediatamente me deu a entender que por “ uma cara”  ( neologismo da nota de cem ) ele me faria a troca das demais, na linha de que “ para grandes problemas, grandes soluções”. Preferi voltar com elas para o Brasil.
A propósito de dólares, houve aqui um génio que realmente soube “ dar os nomes aos bois”.
Cada vez que aqui se faz uma operação de câmbio num banco seja para pagamento de importação, seja para viagem, adquire-se dólares a partir da conta em kuanzas. E sabem qual é a redação que surge na descrição da operação no extrato bancário quando debitam o valor em kuanzas?
Nem mais!!!  Chamam-lhe COMPRA DE INVISÍVEIS
 
Digam lá se não é genial? Certamente o cara que bolou tal terminologia quis referir-se ao lastro da moeda. Só pode ser, ou então ao tal do “ IN GOD ( invisível ) WE TRUST” .

Mudando de assunto
No ultimo final de semana fui convidado por um amigo brasileiro que conheço há mais de 20 anos e se mudou para cá em definitivo a conhecer o club de tênis de Luanda.
É um club bem simples, mas agradável que fica bem ao lado do campo de futebol dos coqueiros com 4 quadras. Pena aquela suposta escultura de cabeça de leão na porta do restaurante Tia Maria ( caríssimo ). Mesmo para quem, como eu, já foi sportinguista achei horrível.
O meu amigo,  que, como disse,  veio para Angola com intenção de ficar definitivamente, está aqui há uns 3 anos, trabalha também com aerofotogrametria ( numa empresa concorrente ) e por sempre praticar tênis acabou se associando e posteriormente sendo convidado a gerenciar o club de tênis local que por se tratar de um esporte, digamos, de elite, seria diria predominantemente usado por pessoas idem, majoritariamente de origem europeias e com muito poucos jovens..
O Roberto, certamente apoiado pela diretoria ( de angolanos ) do club passou a dar-lhe uma maior dinâmica que vai desde a programação de torneios, etc, até a confraternizações com o legitimo churrasco do sul do Brasil ( de onde ele veio ), sendo que isso não seria a única mudança.
Terão passado a incentivar que garotos ( alguns, meninos de rua, creio  ) que seriam apenas aqueles “ boleiros” passassem a jogar inclusive em parceria com os sócios mais velhos, ao tempo em que sempre que as quadras estão disponíveis podem jogar entre si.
Gostei de ver, ao fim da tarde, depois do churrasco, aberto a todas as pessoas, sócias ou não, aqueles garotos e adolescentes jogar tênis em todas as quadras com altíssima concentração e competição e bastante  qualidade, aliás.
Sinceramente, não me surpreenderei se, em alguns anos surgir algum campeão de tênis por estes lados.
Por falar nisso, vi também algo semelhante com dezenas de meninos e adolescentes saírem na baia para disputar regatas de vela ( snipe, acho ) quando há tempos, fui almoçar no club Naval, na ilha.
Um abraço
Fernando



Pensar e Falar Angola

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

apontamentos de F.Quelhas (11)

Alguns de vocês já devem ter ouvido a expressão “ A maldição do petróleo “  que ‘e usada em relação a alguns países, ricos em petróleo , exportadores, o que se constitui numa benesse, mas que, exatamente, pela facilidade de disponibilização de moeda estrangeira, acabam tendo um cambio artificial, inviabilizando quaisquer tentativa de produção local, principalmente a industria de transformação, posto que não possuem a menor competitividade em relação aos produtos importados.

Neste contexto, a atividade econômica centraliza-se majoritariamente na exploração de petróleo e na logística associada, o que, por sua vez gera uma elevada concentração, com grandes corporações, controlados por estrangeiros e uns quantos nacionais.

O exemplo típico desta situação ‘e a Venezuela que durante dezenas de anos foi ( e ainda ‘e ) um grande exportador de petróleo e jamais conseguiu que a sua população em geral se beneficiasse disso ( não ‘e de se atribuir a culpa apenas ao Chaves, pois durante as dezenas de anos anteriores, em que havia uma pseudo-democracia, a situação não era diferente. Com o Chaves as coisas apenas pioraram ).  Diria que o surgimento do radical Chaves seja uma conseqüência do descaso dos governantes anteriores em promover uma melhor distribuição dos benefícios do petróleo.

Poderíamos levar este tema para discussões sobre elites, corrupção, e outras chagas que acontecem e que sabemos, alias,  não serem exclusividade de países subdesenvolvidos. A corrupção nos países ricos ‘e tanta ou maior que nos demais, só que mais discreta.

Quero analisar mais na perceptiva do modelo econômico com base naquilo que ‘e condicionado pela política monetária. Ou seja, de uma certa forma, usando-se este modelo econômico-financeiro, a situação seria praticamente a mesma, com ou sem corrupção. A não ser claro, que se considere que tal modelo possa ser conseqüência daq corrupção, algo que ‘e muito difícil caracterizar.

Inequivocamente, há uma distorção enorme na cotação da moeda angolana em relação ao dólar e euro e, em conseqüência a todas as demais. O Kuanza esta supervalorizado, fazendo com que os preços locais, medidos em dólar sejam exorbitantes, `a exceção claro, de alguns itens, em que incluo os combustíveis ( com preços que são um quinto do de Portugal ) e dos salários do pessoal não especializado que são extremamente baixos.

Ao contrario do Brasil e China, por exemplo, onde a cotação do dólar ‘e extremamente alta e as moedas locais de cotação baixa, visando facilitar as exportações,  aqui em Angola, os produtos importados são baratos, pelo que há muita dificuldade em se produzir aqui a maior parte de produtos de consumo, e muito menos de bens de capital. Obviamente, não há como falar em exportações salvo, claro, de petróleo e diamantes ( acho que as madeiras nobres de Cabinda / Maiombe  acabaram ou estão quase ).

Poder-se-ia ate esperar que na linha dos modelos das chamadas cadeias produtivas, em seqüências `a producão de petróleo, houvesse a industria transformadora que use tal matéria prima. Não me refiro apenas a refinarias. Seria de se esperar que um pais que produz mais de 2 milhões de barris de petróleo processasse boa parte dele e fosse exportador não apenas de óleo bruto, mas também de derivados. Segundo informações estão construindo agora uma refinaria em Benguela, o que desde logo me deixa uma duvida quanto `a escolha do local, já que não se trata de um centro produtivo ( o petróleo vem de Cabinda ), ao tempo em que o grande consumidor de combustíveis ‘e Luanda. Vão fazer o petróleo passear de navios tanque la para baixo e depois voltar. Deve haver alguma explicação que me escapa.

Como disse, não se trata apenas do refino. Refiro-me também `a petroquímica.

De uma certa forma, a baixa cotação artificial do dólar, ao tempo em que explica que aqui quase tudo seja importado, desde a comida ( frutas, grãos, carne ) ate a maior parte dos produtos industrializados, funciona como uma espécie de ancora em relação `a manutenção dos níveis de preços.  Obviamente sem muito sucesso, posto que já são muito elevados, mas pelo menos não devem subir muito mais.

Como aqui ha uma circulação oficial do dólar ( pode-se abrir contas bancarias em dólar  ) e a moeda ‘e usada também como meio de troca pelas pessoas comuns, no seu dia a dia, resulta que esta deva ser também o principal recurso de poupança das famílias.

Ao tempo em que esta política monetária, de certa forma, mantem a inflação com um certo nível de controle, indiretamente, traz uma conseqüência nefasta, posto que será muito difícil que as autoridades financeiras estabeleçam  uma política cambial de interesse econômico, virada ao desenvolvimento estruturado, desvalorizando o kuanza ( como disse melhoraria a competividade local ), já que a conseqüência imediata seria o aumento dos preços em kuanzas, num processo de indexação de preços, semelhante `a maldita correção monetária que havia no Brasil ( atualmente só o governo a pratica na cobrança de impostos ). Obviamente, se os salários da população local, não forem ajustados, estes serão reduzidos em termos de dólar, gerando, ou mais desigualdade, ou uma pressão trabalhista forte.

Pedindo desde já desculpa por esta dissertação um tanto quanto chata, vou falar de amenidade, ainda no campo da lingüística.

Já coloquei exemplos angolanos e portugueses. Para não parecer injusto vou colocar alguns exemplos brasileiros. E vou exagerar. Vou colocar 3.

O IBOPE

Há alguns anos um individuo ( Carlos Montenegro ) estabeleceu no Brasil uma empresa de pesquisa de opinião que se chama Instituto Brasileiro de Opinião e Pesquisa – IBOPE.

Pois bem, Ibope no Brasil passou a ser sinônimo, não de pesquisa ( o que ate poderia ser considerado normal ), mas sim de algo que esta nos píncaros da preferência popular.

Eu explico. O IBOPE ‘e o principal instituto de pesquisa contratado pelas emissoras de TV ( talvez também do radio ) para avaliação dos índices de audiência. Eis, entretanto, que os meios de informação ao querer divulgar que determinado programa estaria tendo tantos por cento de índice, de acordo com o IBOPE, por simplificação, diziam que estava dando tantos por cento de IBOPE.

Daí a que a população passasse a usar o termo sempre que queriam se referir a alguém ou algo que se destaca, foi um passo. ‘e então comum, ouvir-se que fulano esta com ibope. Reparem no detalhe: Obviamente, o IBOPE, como pesquisador de opinião,  registra estatisticamente opinioes ( positivas e negativas ). Entretanto, na pratica virou sinônimo apenas de preferência. De aceitação. Raramente o contrario.

OS FREIOS

No Brasil, quando alguém quer parar um carro pisando naquele pedal do meio, não esta usando travões, mas sim os freios.

Podem perguntar mas então os brasileiros não travam os carros?

Eu não disse isso. Os brasileiros realmente travam os carros, mas só quando usam o freio de mão

Resumindo. No Brasil usa-se o verbo travar ( jamais com os pés), mas não existem travões.

BOCA A BOCA

Acho que também em Portugal se usa a expressão pela qual determinada informação ‘e disseminada por “ boca a boca” .  ‘E comum, ouvir-se: que determinado restaurante ficou conhecido através da publicidade “ boca a boca “.

Já me detive a pensar como será que isto ‘e feito. Boca a boca que eu conheço seria o ato de beijar. O correto, obviamente, seria a transmissão da informação “ boca a orelha” quando muito. Que ‘e a forma usada pelos franceses. Se não me falha a memória: Bouche oreille.

Tenham um excelente dia.

Fernando



Pensar e Falar Angola

sábado, 22 de janeiro de 2011

apontamentos de F.Quelhas (10)

Ao mesmo tempo que aqui em Luanda se verifica um ritmo de construção frenético, e sabendo do quanto custa adquirir ou alugar imóveis, sejam para habitação, sejam para fins comerciais causa alguma surpresa que muitos empreendimentos imobiliários estejam paralizados, com obras paradas.  Mesmo aqui na Maianga, perto de nossas intalacoes a menos de 200 metros de raio existem uns 4 predios de uns 7 ou 8 pisos paralizados. Alguns desde 2.005 ( informação constante nas placas de licenciamento ).

Ate um projeto grandioso que segundo me contaram seria da Sonangol ( uma das maiores, senão a maior entidade empresarial daqui ) que se refere a um Hotel Casino junto aquela estrada que liga a marginal ao Miramar, aparentemente esta paralisado. Não se trata de um empreendimentozinho, ‘E realmente gigantesco.

Deve haver alguma explicação que me escapa.

Uma descoberta: .

Já falei varias vezes do elevado custo de vida, principalmente no que se refere a comer em restaurantes melhorzinhos ( na Ilha, dificilmente se come por menos de 50 dolares ). Pois bem. Fiz uma descoberta interessante. Pertinho daqui de casa, fica a rua que se chamava Antonio Barroso, rua que foi o meu ultimo endereço antes da independência e que e alias uma avenida ate arrumadinha, com duas faixas separadas separadas por palmeiras reais ( um pouco menores que as imperiais típicas do Jardim Botânico do Rio, mas sem duvida muito bonitas ). Claro que também sofre do excesso de transito, com carros estacionados nos dois lados da rua e nas calcadas.

Pois bem, descobri nessa rua um Hotel/restaurante que pertence a cubanos, ou, pelo menos a maior parte dos freqüentadores são cubanos.

O restaurante, que freqüento assiduamente, pode ser considerado bastante bom. Um serviço excelente, comida bem razoável uma decoração sóbria, e, acreditem, com mesas bem espaçosas com toalhas de linho e extremamente limpo.

O restaurante tem, entretanto duas peculiaridades:

Uma refere-se aos preços. Aqui em Luanda, onde tudo e caríssimo, neste restaurante ‘e possível almoçar-se com direito a covert simples  ( pão com manteiga, uma sopa que faz lembrar aquele caldo de feijão que comemos no Brasil quando se faz feijoada ) um prato de carne ou frango, uma cerveja cuca e café expresso pela módica quantia de 12 dolares.

Recomendo aos moradores daqui.

A outra peculiaridade ‘e, para mim bem estranha. Quando la  fui pela primeira vez observei dezenas de pessoas falando castelhano. Imaginei que fossem espanhóis, chilenos ou argentinos. Jamais imaginei que fossem cubanos ( como me informaram ) pela simples razão de que no meio deles não havia, nem há nenhuma pessoa que não seja da cor branca.

Também aqui deve haver uma explicação, que me escapa.


Tal como em inúmeras outras cidades, aqui em Luanda há vendedores ambulantes ( os nossos camelos do Brasil ) sendo que aqui dificilmente se vê aquelas barraquinhas. Como já disse, os vendedores operam no meio do transito, vendendo realmente de tudo.  Mas hoje quero falar destes autônomos que executam serviços na rua.

‘E muito comum, vermos pessoas que vendem serviços na rua ( nem me refiro `as damas da noite, que são um caso especial ), tais como engraxates, por exemplo.

Ha aqui, no entanto, uma modalidade de serviços bem inusitada. Trata-se de serviços de manicure e pedicure. Não se trata de pessoas que trabalhem na casa dos clientes. Não. Sao adolescentes, majoritariamente do sexo masculino,  que portam pela rua uma caixa com os mais variados vernizes, esmaltes, tesouras, alicates,  etc. As clientes se sentam num banquinho e ali mesmo, em plena calcada, o serviço se realiza.

Na ultima mensagem abordei uma curiosidade lingüística daqui de Angola ao falar dos cartões telefônicos que chamam de saldos.

Por justiça vou colocar aqui uma portuguesa que acho curiosa, já que a forma como colocam a frase, deveria distorcer todo o seu sentido.

Os que moram em Portugal e os que aqui em Angola, eventualmente assistem a canais da TV portuguesa ( esta bem, depois me penitencio ), a cada momento são bombardeados por um anuncio de um supermercado em que o ator coloca o seguinte discurso.
 b
“ Aqui no Pingo Doce o AUMENTO de vida ‘e zero “ . Vamos lutar contra o aumento de vida. Efetivamente, constatei que em Portugal quando querem falar no “ aumento de custo de vida” abreviam e dizem apenas “ aumento de vida” . Ou seja, para os portugueses  aumento de vida ‘e algo ruim.
 
E o que dizer do aumento de morte?

Pois.

Fernando Quelhas


Pensar e Falar Angola

sábado, 15 de janeiro de 2011

apontamentos de F.Quelhas (9)

Sem querer, fui, durante 3 dias, um emigrante ilegal em Angola.
Aconteceu que na data de minha partida para o Rio, em 11 de novembro, a TAAG simplesmente cancelou o vôo e  transferiu os passageiros para o dia 14, sem que existisse qualquer alternativa ( ela tem o monopólio de vôo Brasil/Angola e consta que o defendem com unhas e dentes ) pois os voos via Lisboa e via Johannesburg estavam lotados.
As peripécias que isto gerou, seja em termos de multas, recusa de vistos, etc. da uma estória extra que vou evitar narrar, seja porque não ‘e muito abonadora, seja porque detesto falar de eventos negativos, principalmente quando resultam do exercício do autoritarismo de funcionários públicos que compensam suas frustrações pessoais através da prepotência. Estou convencido que em nenhum local a tal da síndrome das pequenas autoridades ‘e mais exercida do que nos aeroportos, principalmente pelas tais “ autoridades”  de fronteira. Freud explica.

A pedido de alguns amigos volto a escrever sobre Angola, tentando, de forma leve, mostrar um quadro sobre minhas impressões pessoais.
Ate porque a minha atividade na área da cartografia integra uma disciplina mais ampla que se refere a geografia que pressupõe o conhecimento de território e das pessoas que nele habitam, ate por vicio profissional, sempre procuro obter informacoes estatisticas sobre os mais diversos locaispor onde passo.
Realmente, espanta-me a falta de informação geográfica aqui em Angola, nem tanto em termos de mapas, mas sim sobre a população. Simplesmente não existem estatísticas confiáveis de nada. Obviamente, isto não ‘e exclusividade de Angola. Ate nos países ditos desenvolvidos podemos colocar serias restrições `as estatísticas ( acho que foi Bismarck quem disse: Não queiram saber como são feitas as leis, as salsichas e as estatísticas ). Entretanto aqui, a deficiência de dados sobre a população são realmente profundas.
Esta deficiência pode ser observada ao tentarmos saber informações básicas, do tipo, afinal quantos habitantes tem Angola? Ou Luanda?
Se fizerem uma pequena pesquisa na Net < população de Angola > logo na primeira pagina irão se deparar com informações que falam em 11,5 milhoes e outros 16 milhoes, sendo que não ‘e raro ouvir falar aqui em 20 milhoes.
Cabe, desde logo, uma pergunta: Como raios ‘e possível elaborar qualquer tipo de planejamento econômico se não conhecem com um mínimo de exatidão o territorio e a população? Como ‘e possível permanecer muito mais tempo, realizando obras, sem se fazer o básico, qual seja: Um censo demográfico que diga  quantos são, onde ficam e como são.
Um ex-professor meu aqui da Universidade de Economia de Luanda, o Rocha,  recentemente concedeu uma entrevista a um jornal criticando abertamente e com bastante ênfase e contundência a falta de dados estatísticos, colocando que todas as informações de natureza econômica, principalmente quanto ao PIB, níveis de desemprego, inflação, etc. simplesmente são dados obtidos sem o menor rigor cientifico. Seriam, o que chamamos no Brasil de “ chutometria”.
Contaram-me ate uma estória que estou interpretando como piada, mas que talvez nem seja. Refere-se a estatística sobre a população de Luanda. Acreditem: Há informações que falam em 2 milhões em paralelo a outras que falam em 8 milhões. Contam então que a estatística sobre o quantitativo de habitantes de Luanda( acho que de 4 milhoes )  tera sido feita pela Coca-cola com base em parâmetros sobre níveis de consumo da bebida em comunidades similares. Assim, se aqui em Luanda são consumidos tantos milhões de hectolitros de coca-cola a conclusão ‘e que existam aqui tantas pessoas e estamos conversados. Trata-se do mais interessante exemplo que já vi de “ O rabo abanando o cachorro”
Há uns tempos, conversando com um amigo sobre comercio externo de Angola e ate um pouco impressionado sobre o fato de nesta área ate existirem estatísticas de importações  mais ou menos detalhadas ( pais de origem, tipo de produto, etc ) foi-me dada uma resposta que achei muito curiosa e que traduz ate uma certa genialidade.
Segundo ele ( não sei se realmente corresponde `a realidade ), tais informações estatísticas sobre suas importações sao obtidas de forma indireta. Basta tomar em consideracao que a cada importacao de Angola corresponde a uma exportacao de oputro pais. Pronto, esta resolvida a charada.
Simplesmente, basta ler os relatórios sobre exportações dos outros países. Ou seja. Querem saber quanto Angola importa do Brasil ou de Portugal, por exemplo? Ora. Basta saber o que  consta nos relatórios  estatísticos brasileiros e portugueses sobre exportação para Angola. Não ‘e genial?
Fez-me lembrar a estória do cara que sobre xadrez  sabia apenas movimentar as peças e apostou que jogaria contra dois grande-mestres simultaneamente, conseguindo pelo menos 1 ponto ( no xadrez a vitoria vale 1 ponto e o empate 0,5 ) e ganhou.

Agora no capitulo de amenidades:
Quando voltei do Brasil, ao revisar o relatório de prestação de contas de um  funcionário com quem deixei uma verba para despesas, vi que por diversas vezes ele havia gasto dinheiro comprando saldos (?) .
Sabem a origem deste termo? E o que significa?
Aqui em Angola, praticamente não existem telefones fixos. Tão pouco existem celulares em que a conta seja paga após o gasto. Há apenas o pré-pago usando cartões e acreditem: Todo o mundo tem um, ou mais. Estes cartões são vendidos por ambulantes em todo o lugar, sendo que há que se ter cuidado ao comprá-los no transito, pois inúmeras vezes são falsos.
Mas voltando ao tal do saldo:  Há medida que as pessoas vão usando, os créditos vão se esgotando  e, claro, o  saldo se reduzindo e acabando. Assim, quando os créditos se esgotam acaba o saldo e dizem: Estou sem saldo. Logo, nada mais lógico que quando se esteja sem saldo, se compre novo saldo. Eis então que o tal cartão passou a ser chamado  saldo.
Já agora: Aqui em Angola não existem celulares ( termo brasileiro ) nem telemoveis ( termo português ). Aqui usam terminais.
Então, ‘e comum as pessoas dizerem ao perguntar o numero de telefone:
“ Quer dar-me o seu terminal ? “
 Ops. . .
Tenham um excelente final de semana
Fernando Quelhas



Pensar e Falar Angola

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

apontamentos de F. Quelhas (8)

Em vários foruns sempre que discutimos questões associadas a sistemas capitalistas versus marxistas, liberalismo versus socialismo, etc., somos, normalmente,  levados a abordar a questão num enfoque mais abrangente, numa perspectiva macro, analisando mais o papel do Estado e sua interferência em maior ou menor grau na sociedade, etc.

Talvez por vicio de formação, os economistas e até sociólogos, concentrados na visão macro deixam de observar alguns aspetos sobre comportamento individual, que são, no entanto, lá no fundo, o que explica o sucesso ou insucesso de determinados modelos políticos e sociais.

Angola é um excelente laboratório para análises sobre comportamento social, principalmente para quem vem de fora e, de certa forma, ainda esta com a capacidade de analisar sem a interferência dos efeitos da sua inserção nessa sociedade, algo que demora algum tempo a acontecer.

Um amigo meu daqui de Luanda, mora, desde antes da independência, no sexto andar de um prédio cujo elevador há muito está fora de funcionamento. Isto obriga-o, claro, a si e a sua família, a subir e descer, vários lances de escadas para terem acesso a sua casa, algo que se, por um lado, até constitui um bom exercício físico diário, com a idade, passa a ser algo deveras incomodo.


Curiosamente, pelo que me contou, os moradores do edifício são ate, de uma forma geral, pessoas bem situadas economicamente ( majoritariamente, profissionais liberais e executivos ), ao tempo em que os seus apartamentos por estarem bem localizados possuem valor elevado, apesar de não disporem de elevador. Neste contexto, é obvio que a reinstalação do elevador, se possível acompanhada de melhorias nas instalações comuns do prédio, etc,. muito mais que uma despesa, deveriam ser considerado investimentos, já que implicariam numa excelente valorização dos imóveis.

Então, qual o motivo porque não conseguem o consenso para que se instale o desejado elevador?

Acreditem: Por uma razão bem simples que tem a ver com o egoísmo característico do ser humano e sua dificuldade em visualizar que em inúmeras situações, o beneficio individual resulta, indiretamente, de ações em prol do beneficio coletivo ( perspectiva socialista ) em contraponto a outra visão pela qual as coisas acontecem no sentido oposto. “ Se cada um procurar o melhor para si próprio, indiretamente, acontecera o melhor para a sociedade”  ( Nem sempre ).

A dificuldade começa porque a tal necessidade do elevador, apesar de ser uma necessidade coletiva, não e idêntica para os moradores que residem em andares mais altos, vis a vis, o dos moradores do primeiro ou segundo  piso, por exemplo. Sendo assim, estes moradores  se recusam a contribuir com os custos, pelo menos na mesma proporção, para que os elevadores sejam instalados, estabelecendo-se, portanto, o impasse, já que os moradores dos andares mais altos também não acham justo serem so eles a bancar o custo total. Tão pouco é exeqüível a situação pela qual, na eventual instalação dos elevadores, o seu uso futuro, seja restrito aqueles que contribuíram.

Não pensem que estou falando de um caso isolado. Aqui em Luanda, esta situação acontece na maior parte ( certamente quase todos ) os prédios de apartamentos ou escritórios que existem em Luanda e que foram construídos antes da independência. E que não existe aqui ( se é que já existiram ao abrigo da legislação portuguesa, portanto, de aplicação questionável ) aquelas convenções condominiais que regem as relações entre condôminos com a descrição exaustiva e detalhada dos direitos e obrigações de moradores de um imóvel com áreas comuns.

Acredito que, ao largo da analise de posturas e comportamentos sociais com visão mais coletiva ou mais individual, a solução desta questão certamente passara pelo estabelecimento de uma norma jurídica ( no caso padrão ) que o Legislativo de Angola  venha a impor, para ser adotada compulsoriamente  em todos os predios,  e portanto a  todos os moradores e que, entre outras coisas, estabeleça a implantação de convenções e, mais especificamente, o instituto da assembléia de moradores que possua uma soberania decisória obrigando todos.  A decisão de adquirir elevadores, por exemplo. Neste caso, todos os moradores, mesmo os que não concordaram, mas tenham sido voto vencido, seriam obrigados a contribuir.


Mudando  de assunto.

Já por diversas vezes cruzamos aqui, em pleno horário de rush, por cortejos fúnebre ( já estão imaginando o transtorno que provocam no transito  ). São filas enormes de carros e motocicletas, aceitando-se ate, neste caso, que as carrinhas ( pick ups ) carreguem dezenas de pessoas nas carroçarias, com uma peculiaridade curiosa. Todos os carros que compõem o cortejo, acho que obrigatoriamente, portam no para brisas uma fotografia do defunto, impressa numa folha A4.

Um abraço

Fernando Quelhas


Pensar e Falar Angola

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

apontamentos de F. Quelhas (7)

Esta semana resolvi tomar a decisão de dirigir aqui em Luanda, no chamado vôo solo ( sem motorista ).

Na verdade corria três simples riscos:

Não conseguir encontrar o caminho de volta  Podem achar que estou de gozação, mas se vocês vissem a confusão das ruas no Luanda Sul e da Nova Vida concordariam que não estou exagerando. Ainda por cima uns “ gênios”  brasileiros resolveram imitar o pior de Brasília dando as ruas, não nomes mas sim números, com a particularidade que as ruas não são paralelas. Mesmo na cidade antiga ( Maianga, p.e. ) não e fácil a orientação, pelo menos para quem não esta familiarizado, principalmente porque nem adianta perguntar onde fica a rua tal, já que ninguém conhece as ruas pelos nomes. Nem as principais. Achei ate engraçado ao pensar que aqui não vai adiantar o GPS comum que usamos no Brasil ou em outros países, a não ser que em vês de colocarmos o endereço na forma comum, passemos a anotar as coordenadas geográficas de fato. Estou caricaturando, pois que, na verdade, com o tempo nos habituamos.

Dar uma batida, tendo em vista a forma como dirigem aqui. E incrível!!! Não me refiro nem a forma como dirigem no Rio ( inclusive as vans ) em alta velocidade e não respeitando nenhuma lei de transito.  Aqui o engraçado eh nos engarrafamentos em que vale realmente tudo e os carro circulam a uns 10 cm uns dos outros em manobras mais ou menos bruscas. Mesmo observando muitos carros com pequenos mossas, ficamos cogitando sobre qual seja o milagre que faz com que todos deixem de estar amassados. Um detalhe curioso. Quando se estaciona o carro na rua, manda o bom senso, que se recolham os espelhos retrovisores. Já estão a ver porqu^e.

Ser parado numa blitz ( eles aqui chamam de operação stop, ou algo parecido ). E que ate agora não consegui saber ao certo se posso, ou não dirigir com a minha carteira ( aqui chama de carta ) de condução brasileira. Uns dizem que pelo tempo de permanência do visto posso. Outros negam de pés juntos que se possa. Eis então que cada vez que passava por um guardinha de transito vinha aquela adrenalina, já que a maioria deles param os carros pedindo os documentos. Não eh como no Brasil em que quando fazem uma blitz, juntos vários policiais, ( e formam a quadrilha !!!! ), etc. Aqui o policial fiscaliza sozinho.
Numa simples ida a ilha no domingo, contei 8 policiais de transito pedindo documentos aos motoristas. Felizmente o Universo estava conspirando a meu favor e nenhum me parou.
Ao final, já confiante que estava executei ate um pequeno truque que uso muito no  Rio e que funciona, por incrível que pareça. Tentem um dia: ao se aproximarem do guarda que esta selecionando os carros para parar, em vez de desviar o olhar olhem diretamente para o guarda e façam um pequeno gesto com a mao numa espécie de saudação sutil. Normalmente o guarda imagina que você o conhece e tambémpor ficar  um pouco tomado pela surpresa esquece-se de mandar parar. Eh um simples blufe.

No feriado, um amigo me convidou para um churrasco e para conhecer a sua casa nova La para a região sul de Luanda. Ele que não e bobo nem nada, por um quarto do preço fez uma casa magnífica com piscina, churrasqueira, com uma curiosidade também Bastou-lhe, em vez de comprar pronta ou na planta, construir por administração própria

Algo interessante. Já tinha ouvido dizer que num casamento, banheiros e contas bancarias separadas são benéficas. Os meus amigos foram um pouco alem e resolveram também ter escritórios separados na sua nova casa. Acho que e um exemplo a ser seguido.

O churrasco aqui e um pouco diferente do nosso no Brasil em que predomina a carne de boi. Aqui, acho que por influencia de Portugal, eh mais comum utilizarem carne de frango e suíno, inclusive um tipo similar a bacon que assado vira uma espécie de torresmo feito na brasa que eh uma delicia.

Chamou-me a atenção o fato de usarem carvão importado da África do Sul. Acho que e carvão mineral ( de alto poder calórico ) que eh vendido em pellets ( uma espécie de bolotas ) comprimidas. Cheguei a conclusão que aqui ou usam carvão obtido com lenha oriunda de florestas nativas que são vendidas por ambulantes, ou vem da África do Sul. Imediatamente me ocorreu que talvez possa ser um bom negocio plantar uns eucaliptozinhos para daqui a uns 6 ou 7 anos ter matéria prima para fabricar carvão, já que, provavelmente as autoridades ambientais passarão a ser muito mais rigorosas, ou ate porque a madeira nativa esteja acabando, competindo com larga vantagem, com o carvão sul-africano, por conta do custo de transporte deste.

Quem sabe? Eh caso para se pensar.

Já agora uma curiosidade lingüística daqui.

Imaginem que vocês perguntem a alguém se conhece algo. Se conhece algum local, por exemplo, e a pessoa responde que conhece minimamente.

A nossa lógica levaria a concluir que conhecer minimameeeente ( eles carregam na penúltima silaba daquela forma cantante de que já falei ) significaria que conhecem muito pouco ou que nem conhecem. Na verdade o termo pode significar que conhece nos mínimos detalhes.

Usam também esta expressão, de uma forma ainda mais relativa, ao responder “ Conheço para alem de minimamente “ Neste caso pode significar que conhece mais ou menos.

Afinal nada demais. No Brasil e em Portugal ( certamente também em Angola ) nos acostumamo-nos a dizer. Não conheço nada, frase esta que por envolver duas expressões negativas significaria uma posição positiva, claro. Ou seja: Não conheço nada deveria ser sinônimo de conheço tudo, nem que fosse na lógica matemática ( cartesiana ).

Mas tudo isto, eh, ao final, pura retórica sobre uma língua da qual um amigo meu alemão reclamava que não da para entender uma língua,  a portuguesa – tão cheia de exceções ( viram? O Word reclamou quando escrevi excepções e me mandou tirar o “p”  ) em que as pessoas falam que, pela ordem,  se deve  calçar as botas somente depois de botar as calças.

Tenham um excelente dia


Fernando Quelhas



Pensar e Falar Angola

terça-feira, 9 de novembro de 2010

apontamentos de F. Quelhas (6)



Este site que indico acima e um site de imobiliaria, especilalizada na locacao e venda de imoveis ( o que mais poderira ser ? J ). Se derem uma olhada em alguns anúncios ( tem varias paginas. Podem observar que anunciam apartamentos T2, ou T3 por ate 8.000 dolares/mês. Por sua vez para se comprar um simples apartamento t3 tem que se dispor de quantias na faixa de milhão de dólares, ou quase.

Para os amigos do Brasil, não familiarizados com a terminologisa T2, T3, etc, creio que significa o numero de cômodos que o imóvel dispõe. Ainda não consegui descobrir se na contasgem de cômodos se considera apenas os quartos, ou se também as salas. Vou mais pela primeira hipótese. Assim, um T2 seria um sala e dois quartos,, etc.

Vocês poderiam estar pensando que para explicar preços tão elevados para os imóveis, provavelmente teríamos que colocar que os os custos de construção sejam também elevadíssimos.

Nada disso. O preço de um saco de cimento custa pouco mais de 1.000 Kzs, ou seja, pouco mais de 10 dolares, o que significa que e apenas uns 10 a 20% mais caro que no Rio de Janeiro. Já a Mao de obra não especializada, ou semi-especializada , tipo pedreiros, auxiliares  (  aos amigos do Brasil, o nome que em Portugal se da a auxiliares de pedreiro e trolha. Aos amigos portugueses: Trolha no Brasil ‘e sinônimo de órgão sexual masculino lollll. ) e bastante barata, ao tempo que todos os materiais de acabamento etx. São importados e não devem ser muito mais caros que nos países de origem, já que La ao serem exportados ficam isentos dos impostos locais, ao tempo em que aqui os impostos aduaneiros são baixos.

Restaria então, na perpectiva de custos, dois fatores  para justificar os altos preços: o eventual custo da Mao de obra especializada, o tal do mestre de obras e o custo do terreno. Mas será que so isto justifica?

Creio que não. O que deve estar acontecendo e, por um lado o efeito da escassez de imóveis para atender a demanda das empresas que para Ca vieram ( como e o nosso caso ), e por outro lado, os lucros exorbitantes das construtoras, na sua maioria ( senão nma totalidade ) estrangeiras. Puro e simples capitalismo selvagem.

De qualquer forma, não creio que esta situação perdure por muito tempo. Algumas pessoas mais atinadas ( alo Pedro ) já estao descobrindo que sai muito mais em conta comprar um terreno e construir o seu imóvel por administração direta do que adquirir.

Ia-me esquecendo: Tal como aconteceu em Portugal nos idos do J. Pimenta e outros, ou no Brasil com a Encol, começa a ser perigosíssimo adquirir aaqui imóveis a serem construídos ou semi-construidos. Corre-se o serio risco de ficar com um esqueleto e não saber o que fazer para terminar a obra, pois a tal construtora, ou incorporadora, fica com a grana e simplesmente se manda.

Disto tudo ficou-me uma curiosidade e algumas constatações:

Afinal. De que forma as pessoass, digamos de classe media conseguem fazer face a custos tão elevados de moradia. A resposta e simples: Não fazem.

- Existem aqui então dois tipos de usuários: Por um lado o pessoal das empresas estrangeiras que pagam mesmo os tais 8.000 dolares por mês por uma casa bem menor que a minha de Petrópolis que estava alugada por 600 dolares e que estou vendendo por 150.000. E que para uma empresa, os tais 8.000/mês significam meros 266/mês. Ora isso e pouco mais que uma diária de Hotel. Eis então que em termos de custo comparativo e bom negocio alugar mesmo que seja, aparentemente, caro.

Os outros locadores seriam os angolanos, ou residentes permanente aqui. Para estes existem duas situações: Ou ainda moram em imóveis que alugaram nos tempos em que os preços eram mais módicos. Estes atualmente devem estar vivendo num conflito permanente com os senhorios que, provavelmente, querem coloca-los para fora para poder alugar o imóvel mais caro;  Ou são indivíduos proprietários dos imóveis e que vivem em casa própria, digamos assim.

Acontece que neste ultimo caso, raros são os casos em que o tal proprietário comprou efetivamente o imóvel. Na sua grande maioria erm imóveis que pertenciam aos portugueses e foram abandonados. Obviamente, se foram abaandonados, nada mais natural que tenham sido ocupados e que depois de dezenas de anos sejam considerados próprios, nem que seja pelo uso de mecanismos jurídicos do tipo usucapião.

No todo, acho que demorara algum tempo a que este mercado se normalize, pelo menos ate que a oferta de imóveis supere a demanda ( acredito que isto acontecera rapidamente ) e quando o boom econômico que esta acontecendo se modere um pouco.


Neste entretanto, acredito que esteja acontecendo um fenômeno social grave. A dificuldade para se criar, ou pelo menos se manter a chamada classe media. Nitidamente, se observa, seja nos restaursantes, nos carros, etc. que a população local que poderia ser entendida como classe media esta um pouco( ou totalmente ). Excluída.

Imaginem um casal de jovens que esteja iniciando a vida e se casem querendo morar num imóvel so seu ( afinal, como dizia minha mãe, que adorava um ditado popular: , quem casa quer casa ). Duvido que consigam ter rendimentos suficientes para que possam pagar 3 ou 4 mil dólares num simples apartamento. Estarão condenados a morar de forma duradoura com os pais.

Acredito que nas cidades do interior esta situação não seja tão drástica.

Apesar disto tudo, não estou pessimista.


Quando começo a ficar pessimista imediatamente me deparo com episódios que me fazem ter esperanças quanto a angola. Refiro-me ao seu maior patrimônio que não e, como muitos, afoitamente acham, o petróleo ou os diamantes, mas sim a sua população.

Vou dar-lhes dois simples exemplos de duas pessoas que trabalham aqui na empresa.

Temos aqui uma senhora de uns 30paara 40 anos que trabalha em serviços auxiliares domésticos arrumando a casa, lavando roupa, etc. digamos, uma diarista.

No inicio da semana, ela pediu-me se poderia tirar umas xeroxs. Autorizei, mas achei estranho ao observar que se tratava de um caderno com manuscritos e não contive a curiosidade, perguntando-lhe para que era tal material.

Para minha surpresa, revelou-me que se tratava de uma monografia de direito com dissertações sobre normas jurídicas, atos jurídicos, etc e que ao tempo em trabalhava conosco como diarista a noite estava estudando direito. Mais tarde, veio pedir-me ajuda para a elaboracao de uma proposta de serviços destinada a uma licitação que o governo de Luanda estava fazendo para coleta de lixo e varredura de ruas, pelo que estaria querendo participar através de uma cooperativa ou algo do gênero.

Um outro caso aconteceu com meu motorista. E uma figura interessante. Terá sido um menor abandonado sem maiores conhecimentos acadêmicos mas havido por aprender e ao tempo em que tem alguma dificuldade na ortografia, domina facilmente programas de Word, excell, internet, etc. algo que não se vê no Brasil, com facilidade para este tipo de funcionário. E de uma inteligência extrema e uma capacidade de resolver problemas num permanente estado de espírito positivo e alegre.

Quando necessitamos alugar uma viatura para substituir a que se acidentou, em menos de 10 minutos já tinha tudo resolvido.

Quando lhe perguntei como conseguira ser tão eficiente, respondeu-me que ao mesmo tempo que trabalha conosco como motorista e agenciador de carros para locação. Ele e um sócio reúnem angolanos que possuem carros tipo Suv’s ou Pick ups e asd colocam a disposição para locação. Quando surge a demanda ficam alguns dias sem os carros, se virando como podem, mas faturando uns 150 a 200 dolares por dia. O meu motorista, claro, ganha a sua comissão.

Também estranhei o tipo de roupa que ele usa, bem moderna e de bom corte, No muito usual por aqui. Fiquei então sabendo que em finais de semana mais longos pega o avião e viaja para a Namíbia ou para o Congo para comprar roupas que revende por Ca. Segundo ele, investe uns 2.000 dolares por viagem e fatura 4.000. Nada mau.

Teria outros exemplos inclusive de colaboradores “ ad hoc”  que agenciam desde compra de carros ate contratação de seguros, monitores de GPS para carros, ajudas com a burocracia, etc.

Como vem, pode ser que estas amostras não sejam representativas. Claro que não são, mas ou se trata de uma coincidência invulgar, ou representam a constatação de que os angolanos não são acomodados. Longe disso. Almejam futuro melhor e já descobriram que a única solução passa pela educação.

Isto me deixa bem otimista.
Fernando Quelhas


Pensar e Falar Angola

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