terça-feira, 26 de março de 2013
Ligações a Lugares de Kuduro
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Kuduro International Conference | Luanda de 23 a 25 de Maio de 2012

terça-feira, 20 de março de 2012
Titica e Própria Lixa
GRANDE SHOW [TITICA & PRÓPRIA LIXA] + [BAILARINAS]
[6´ABRIL @22h00] [LOCAL? PARADISE GARAGE @LISBOA]
[Rua João Oliveira Migueis, nº 38-48, Lisboa] [Próximo a estação de Comboios de Alcântara]
SPECIAL GUEST [DJS CINCITY´SYAZZ - DIRECTAMENTE DA HOLANDA]
OUT SPECIAL GUESTS [MC´GASOLINA @SWCKERS BOYZ @TETA @DON POWER]
OFICIAL GUEST DJS [DJ EL MATADOR & DJ BASE]
VALOR DE INGRESSO [15€]
POSTOS DE VENDA DE INGRESSOS [..?]
INF@LINE [217923715 & 963909246]
[NÃO FALTE!!! É PRÓPRIA & TIKINY]
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Kuduro- Autobiografia de Bruno M

Ainda em 2004, por influência de amigos com quem partilhou vizinhança, tornou-se membro de um gang juvenil, conhecido por Alameda Squad, grupo muito polémico na época. Nos finais do mesmo ano, também conhecido por “Scocia” no seio do grupo, Bruno M e alguns membros do grupo são presos na C.C.L. (cadeia central de Luanda), fruto das praticas anti-sociais desencadeadas na época, vindo a passar lá alguns dias antes de liberdade. «Aquele foi como um mal necessário, pois foi praticamente ali onde tudo começou… Por influência de alguns jovens que lá faziam kuduro por diversão, comecei a escrever alguns versos de kuduro, nos quais retractava as minhas vivências na época...».
Mais tarde, pós liberdade, decidiu corrigir e concluir alguns dos versos compostos na C.C.L., tendo então a sua primeira letra concluída intitulada “Não respeita, né?!”. «No princípio do segundo semestre de 2004 ainda procurei por alguém que cantasse o “Não respeita, né?!”, mas foi um esforço em vão, pois não encontrei alguém que cantasse como eu quis que a letra fosse interpretada. Na altura eu já fazia instrumentais de kuduro e captação de voz em estúdio caseiro, onde fazia a produção de vários kuduristas mesmo antes de eu começar a cantar, daí o nome de “Bruno Mágico” assim baptizado pelos mesmos kuduristas dos quais fazia a produção musical. Foi então quando experimentei interpretar a letra por cima de um instrumental de minha autoria e felizmente a música foi bem aceite, não obstante o facto de, nos primeiros dias receber ainda muitas criticas e ser alvo de troça de algumas pessoas que ainda não compreendiam a tendência inovadora que eu trazia ao estilo Kuduro, apesar de não ter cantado por fins de expansão». Não foi necessário muito tempo e já era notável um grande número de jovens que faziam kuduro inspirando-se no “Não respeita, né?!” de Bruno M.
Daí observava-se, então, um grande exemplo de vida, particularmente aos jovens luandenses, numa altura em que estavam na sua maioria envolvidos em práticas menos lícitas como associações de malfeitores (gangs) e outras espécies de má conduta social. Após aperceber-se que podia fazer algo melhor, Bruno M entregou-se à arte na sua forma musical arrastando consigo uma legião de jovens que no passado perdiam-se em práticas criminosas e encontraram no Kuduro consolo e meio de manifestação e expressão.

Sem qualquer objectivo profissional, Bruno M lançou nos meados de 2005 a sua segunda musica intitulada “I am”, expressão inglesa que significa “Eu sou”. «Como não deixava de ser, era uma música onde eu retractava as minhas vivências, a minha zona, em fim… Na verdade eu achei no kuduro um canal aberto onde pude me exprimir de modo livre e demonstrar ao público em geral que não éramos exactamente o que as pessoas diziam, mas sabíamos e fazíamos coisas melhores, dai a minha preocupação em trazer sempre um conteúdo musical de abrangência social com vista a contribuir modestamente para o equilíbrio da classe juvenil…».
Ainda nos finais de 2005 Bruno M começou a compor a sua terceira letra intitulada “1 para 2”, tendo concluído a mesma apenas no segundo mês do ano seguinte. Era uma letra mais matura onde já apareciam versos com desencorajamento ao crime, em fim… “1 para 2” foi simbolicamente o começo de uma nova era do kuduro, tudo porque daí em diante já apareciam músicas de kuduro com um certo conteúdo informativo e educativo acima de tudo. Foram surpreendentemente três sucessos consecutivos, o suficiente para convencer qualquer ouvinte, e como onde há fumo, quase sempre há fogo, Bruno M foi recebendo muitas propostas contratuais de editoras e empresários atraídos pelo sucesso alcançado, sem querer, por este jovem músico que já não tinha nada para além do prazer em musicalizar para consolar a sua alma quebrantada pelos problemas sociais que o afrontavam. Estavam então as portas abertas para que se tornasse sólido o projecto “Batida Únika”.
Foi então a partir de 2006 que Bruno M iniciou a produção executiva do seu primeiro álbum que viria a intitular-se “Batida Únika”, por se tratar de uma nova vertente do estilo Kuduro e que, desde então, tornou-se na forma padrão de fazer o estilo até aos dias de hoje. O processo de produção das 15 faixas musicais que compunham o álbum, nomeadamente “Não Respeita, Ne?!”, “Olha Quem Vem Ai”, “Para-choque”, “Toques De Caixa”, “Tsunami”, “I Am”, “Dança Da Tropa”, “Endju Tupiluke”, “E Bom!”, “Tropa 100 Farda”, “Txubila”, “1 Para 2”, “Sentem”, “60 Segundos” e “Maratona”, foi concluído apenas em 2008, ano em que foram oficialmente expostas 14 mil copias à disposição do impetuoso público amante do estilo, no dia 3 de Fevereiro, na portaria do cine Atlântico em Luanda, e subsequentemente Bruno M e o seu elenco iniciaram uma tournée inter-provincial em Angola com vendas do seu álbum e os respectivos shows de apresentação.
Dentre outros eventos internacionais em que participou Bruno M, um dos mais relevantes aconteceu ainda no ano 2008, aos 25 de Janeiro, no Brasil em que, juntamente com outras vozes da música angolana, nomeadamente Ary, Noite e Dia e Yola Semedo, representou Angola em um evento cultural alusivo a mais um aniversario do estado de S. Paulo, no Brasil e concomitantemente da província de Luanda, em Angola. Trata-se de um evento que entreteve aproximadamente 80.000 espectadores estrangeiros que puderam presenciar o desigual ritmo do estilo Kuduro como uma vertente moderna da musica angolana. A grande importância do evento residiu no intercambio cultural que contribuiu para a expansão da musica angolana, em particular o Kuduro, sem esquecer a grande importância da data para os povos brasileiro e angolano.
Também foi em 2008 que Bruno M aparece no Top dos Mais Queridos, festival musical de maior relevância em Angola de frequência anual realizado pelo grupo Rádio Nacional de Angola onde são eleitos, através de votação pública, os dez melhores músicos de cada ano. A participação de Bruno M veio confirmar a qualidade da sua criação musical, evidenciando a sua modesta contribuição para a boa imagem do estilo Kuduro e a sua aceitação nos grandes grupos sociais.

Em Julho de 2009, Bruno M produz e lança o single “Dança Do Scomba” que tornou-se em um grande sucesso alem de fronteiras e garantiu a sua vitória na primeira edição do prémio Top Kuduro, realizado e produzido pela Rádio Escola, através do Grupo Cefojor aos 27 de Dezembro do mesmo ano.
Casou-se em Agosto de 2009 com Wine Carvalho do Amaral, com a qual tem um filho, William César do Amaral.
Aos 10 de Abril de 2010, Bruno M participou de forma relevante em outro grande evento internacional no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, Portugal. Ate agora considera-se que foi o maior evento internacional da musica angolana, pois levou um leque de aproximadamente 50 dos melhores artistas nacionais da idade contemporânea. O evento foi realizado pela LS Producoes comemorando uma grande efeméride para o Estado Angolano que significava o oitavo aniversario desde o acordo de paz definitivo assinado em Luanda aos 04 de Abril de 2002. Dentre o extensivo leque de artistas que que representaram no grande palco do Pavilhão Atlântico, Bruno M foi o escolhido para encerrar o evento, possibilitando assim que ate as 04 horas da manha ainda se encontrassem ai, de pe e sentados, milhares de cidadãos do quadro dos PALOPs e não so que aguardavam expectantes pela actuação de Bruno M. Foi um dos eventos mais singulares de toda a minha carreira musical... Eu me encontrava trancado no meu camarim, totalmente desesperado pois não acreditava que ainda encontraria publico na plateia visto que ja eram 04 horas da madrugada, mas confesso que, quando subi ao palco pude ter uma idea do quanto as pessoas ja estavam ligadas a minha musica, tanto africanos como indivíduos de outros pontos do mundo que se faziam presentes naquela grande sala de espectáculos, pois encontrei uma grande plateia que ultrapassou as minhas expectativas.
De lá para cá, Bruno M é simplesmente uma das figuras mais emblemáticas do estilo Kuduro de todos os tempos, pelas suas características artísticas desiguais e por ser ele mesmo o compositor, interprete e produtor das suas próprias musicas, tudo isso de forma consideravelmente excelente e sem precedentes pelo seu outro lado de intervenção como agente social através da chamada de atenção, principalmente aos jovens angolanos de maneiras a contribuírem activamente no crescimento saudável do país por via da formação académica e profissional e consequente inserção no mercado de trabalho, pautando também pela boa conduta social dentro dos limites da moral e do civismo.
Actualmente Bruno M encontra-se a preparar o seu próximo álbum e uma das grandes metas que tem agora é a de criar um nexo entre o elemento “acústico” e o elemento “electrónico” da sua música, dos estúdios aos palcos diversos proporcionando momentos de actuação ao vivo e com banda, com o objectivo de transmitir a tão questionada alma artística existente por traz do carácter empírico do Kuduro.
Dentre outras competências profissionais ou intelectuais, Bruno M é compositor e produtor musical, estudante da Faculdade de Direito da Universidade Independente, em Angola e recentemente formado em Jornalismo Profissional pelo CeFoJor (Centro de Formação de Jornalistas) na modalidade teórica e pratica. É membro da associação A.H.A.R.P.E. (Acção Humanitária de Assistência e Reinserção de Presos e Exilados), na categoria de benemérito, com um objecto social unicamente filantrópico.
Dentre outros projectos vindouros, Bruno M e a sua produtora têm em vista a realização de um filme que ira inclinar-se na própria historia da trajectória do artista. Existe também o projecto de produção e apresentação de um programa de Kuduro no canal internacional de musica africana, Afro Music Channel, ainda para o ano 2010.
Bruno M pretende lançar o seu segundo álbum o mais brevemente possível, traçando um afastamento parcial ao mercado musical activo, mormente o Kuduro, para dedicar mais do seu tempo e atenção a sua formação com a finalidade de iniciar o próximo ano direccionado a uma perspectiva diferente, propriamente ligada ao seu tão augurado estatuto social.
Considerações do autor:

A musica angolana ganha cada vez mais credibilidade a nível internacional bem como ganha mais reconhecimento a nível interno como um modo de manifestação cultural, fruto do esforço levado a cabo por honrados artistas, produtoras e não só. Portanto, na minha opinião, a musica angolana já merece o estatuto de profissão por ser a fonte de rendimento e sustentabilidade de muitos artistas, não necessariamente todos dos mais conceituados. Quanto a mim, sempre fiz musica por elevado prazer, para sentir-me bem comigo mesmo e comunicar-me de maneira massiva com os demais. Defendo pois, que a arte deve ser desenvolvida sem a influencia directa da vertente comercial do produto “criação intelectual”, ou produto musical, neste caso. Em outra linguagem, para que a arte musical seja considerada como um bom produto final (aceitável por toda a maioria), esta deve ter uma componente natural, fruto da imprescindível espontaneidade criativa do artista e, queria eu dizer que, a influencia directa da vertente comercial afasta gradualmente a entrega natural do artista naquilo que e a criação das suas obras musicais, pois ele acaba também influenciado pelo desejo da prosperidade financeira e, certamente isto não e bom, se partirmos de um ponto de vista conservador da arte natural originaria ou ainda se enquadrarmos o artista na conjuntura social e o identificarmos como um abrangente agente social de publica influencia e de mobilização massiva. Ciente dessas verdades, prefiro não sacrificar a minha formação em detrimento da musica, pois tenho grandes sonhos na vertente em que estou a me formar. Por isso, peco a colaboração das pessoas que gostam da minha musica, das instituições que acreditam no lado positivo da minha musica, da grande classe dos medias, de toda a comunidade que interage no musicol angolano, principalmente os intervenientes do estilo Kuduro e, de certeza conto também com a colaboração dos meus familiares e amigos.
Pensar e Falar Angola
quarta-feira, 23 de junho de 2010
VAGABANDA
sábado, 5 de junho de 2010
KUDURO, a batida de Luanda
KUDURO, a batida de Luanda
retirado de BUALA cultura contemporânea africana
Fogo no musseque', de Jorge António
O Kuduro é um género de música e dança emergido em Luanda no início da década de 90. O som é originado por uma fusão de influências que vão do Semba angolano ao Zouk congolês, ao Soca das Caraíbas, ou ao Techno, Hip-Hop e o House Music americanos. A esta mega-fusão rítmica são associadas letras apropriadas da linguagem oral urbana de Luanda, um calão também ele de fusão linguística sobretudo de kimbundo e português, mas também algum lingala e inglês.
A dança Kuduro, tão ou mais importante que a música, foi inspirada, segundo Tony Amado (um dos seus inventores), num filme onde o actor belga Jean-Claude Van Damme dança embriagado. Movimentos de dança angolana são associados ao Break-dance e ao Popping, em verdadeiras performances individuais ou em grupo, muito teatralizadas. Apesar de ter uma base de movimento comum, na dança kuduro prima-se a individualidade onde cada um representa uma acção própria, com forte uso de expressão facial.
O ritmo acelerado da cidade, nas suas dimensões económica, política e social, reflecte-se neste fenómeno de cultura urbana, de base rítmica também acelerada, não só no seu aspecto formal, mas também na velocidade com que diariamente re-inventa, aporta e propõe novas palavras, ritmos e movimentos.
O Kuduro é criado e produzido nos musseques de Luanda e rapidamente difundido nos Kandongueiros. Diariamente surgem novas músicas que alimentam o vocabulário de Luanda de novas dicas (expressões), novas batidas (ritmos / sons), e novos toques (movimentos). Esta criação frenética de linguagens urbanas tem uma expressão importante na sociedade angolana actual e sobretudo nos mais jovens.
Segundo o escritor angolano José Eduardo Agualusa num comentário sobre Kuduro “Talvez nunca antes em toda a história de Angola um outro fenómeno cultural tenha conseguido ganhar tanta expressão.”1
Certamente por essa razão o Kuduro tem sido alvo de tanta polémica na sociedade angolana. Uns criticam a sua forma musical por fugir à “tradição” melódica da música angolana, outros criticam a sua linguagem e mensagem agressiva, associando o Kuduro à violência e Gangs dos musseques, outros sentem algum incómodo com as suas palavras cáusticas e de crítica social. Exemplo disso é a letra da música de Dog Murras, “Angola bwé de caras”:
(…) Angola do petróleo, do diamante e muita madeiraAngola do paludismo, febre tifóide e muita diarreiaAngola dos talé bosses comem sozinho e muita ambiçãoAngola que é da gasosa, corrupção tapa visãoAngola dos herdeiros que não fazem nada e tem bwé de massaAngola do kota honesto, que bumba bwé e não vê nada (…)
Citando novamente José Eduardo Agualusa no mesmo artigo sobre Kuduro:
“Um dos aspectos mais interessantes tem a ver com a forma como se vem afirmando, não apenas à margem do poder, mas em muitos casos, contra o poder instituído.”2
Musseques de Luanda, espaços de resistência, inovação e criatividade
O Kuduro surge nos musseques de Luanda, onde é criado, produzido e difundido. Os CD’s gravados são vendidos pelos zungueiros (vendedores ambulantes) nas ruas da cidade e internacionalizados através da internet sobretudo no YouTube e no Myspace.
“Os musseques foram o centro de criação da música popular urbana angolana, e do imaginário da nação e da história contemporânea do país.” (Moorman, 2008: 28)3
Aí habita a maioria da população da cidade que, em fases distintas, tem sido caracterizada por um crescimento explosivo iniciado depois da 2ª Guerra Mundial e, com características e efeitos muito diferenciados, exponenciado durante a guerra civil de Angola.
“Durante a luta pela independência, os musseques foram a plataforma onde o imaginário nacional foi feito e refeito, o lugar principal de mobilização da resistência contra o Estado Colonial. Mais do que apenas uma etapa no processo da modernidade ou urbanização, os musseques foram um lugar onde várias gerações, classes, etnias, raças e sexos, conheceu e imaginou um novo mundo, nas práticas da vida quotidiana.” (Moorman, 2008: 55).
Contudo, a guerra contra o regime colonial, iniciada em 1961, foi adensando divisões internas (fortemente apoiadas no contexto político internacional da Guerra Fria) que, com a revolução de Abril em Portugal, em 1974, e o prenúncio da independência, deram origem a uma luta pelo poder entre as três forças políticas angolanas MPLA, UNITA e FNLA.
À proclamação de independência em Luanda pelo MPLA, em 1975, sem acordo pacífico com as restantes forças, seguiu-se uma guerra civil que terminou apenas em 2002, com a morte do líder da UNITA, Jonas Savimbi.
Com o desmoronamento do Bloco Socialista e o fim da Guerra Fria, houve no início dos anos 90 uma série de reformas políticas e económicas em Angola, concretamente a abertura para um sistema democrático pluripartidário e uma economia de mercado livre.
Estas profundas e rápidas transformações políticas, associadas, no caso de Luanda, à progressão geométrica do crescimento demográfico, transformaram radicalmente a capital. Em 1975 a população de Luanda somava cerca de 700 mil habitantes e em 2007 ascendia os 4 milhões, cerca de 1/4 da população total do país (estimativa ONU _ Urban Agglomerations 2007).
No panorama musical mundial, nos anos 90, vive-se a massificação da música electrónica, e em Luanda, ouve-se Hip-Hop, House Music, Techno, Rap, etc.
O Hip Hop, de grande influência no Kuduro, surgiu em Nova Iorque, no bairro Bronx, no final dos 70, como revindicação social da juventude marginalizada da periferia, habitada essencialmente por imigrantes e afro-americanos. Não é de estranhar o impacto deste movimento nos jovens angolanos dos bairros peri-urbanos.
“As sociedades da periferia têm estado sempre abertas às influências culturais ocidentais e, agora, mais do que nunca. A ideia de que esses são lugares fechados – etnicamente puros, culturalmente tradicionais e intocados pelas rupturas da modernidade – é uma fantasia ocidental sobre a alteridade: uma fantasia colonial sobre a periferia, mantida pelo Ocidente, que tende a gostar de seus nativos apenas como puros e de seus lugares exóticos apenas como intocados”. (Hall, 2003: 79-80)
Em Luanda surgiram grupos de Hip-Hop, uns mais underground e com maior consciência social4, e outros mais comerciais, mais agressivos e sexistas, com toda a parafernália consumista que lhe está associada (as marcas de ténis, de roupa, etc).
Mas apesar das influências, o Kuduro não é Hip-Hop. O Kuduro é um género próprio de Luanda, espontâneo e imprevisível, resultante da fusão da cultura local e global, aquilo a que a se pode chamar por cultura Glocal.
Contrariando algumas críticas à hegemonia ocidental das culturas locais, o Kuduro pode ser um exemplo de como a tensão gerada pela globalização no encontro das culturas locais pode produzir novos factos, novas dinâmicas, novas afirmações. Como nos propõe Stuart Hall podemos fazer uma nova leitura da pós-modernidade:
Kuduro: dos musseques para os Kandongueiros, do YouTube para o mundo
Interessa destacar a importância do acesso às novas tecnologias que permitiram uma rápida difusão e proliferação do Kuduro não só a nível nacional como nas pistas de dança europeias e entre os grupos de música e Dj’s de todo o mundo.5
As últimas décadas do século XX, foram caracterizadas pelo aumento da informação e da sua velocidade de circulação.
Estas novas possibilidades abriram um caminho fundamental na liberdade criativa e autonomia dos novos processos e dinâmicas de produção, mercantilização e difusão. Rivalizando com os processo tradicionais do mercado musical das editoras e fugindo ao controlo do estado e das instituições, estes fenómenos periféricos conseguem não só uma produção e difusão nacional em grande escala, como ainda uma internacionalização, que no caso do Kuduro, trouxe a sua legitimação: da informalidade ao mainstream.
No caso do Kuduro, a importante expressão (de adesão e polémica) na população angolana, é de extrema relevância na reconstrução e questionamento da sociedade actual.
Se, como nos diz Marissa Moorman, durante a luta pela independência os musseques foram a plataforma onde se construiu o imaginário nacional e o lugar principal de mobilização da resistência contra o Estado Colonial, na Luanda de hoje, estes espaços continuam a ser os pilares da expressão social e da construção de uma critica activa às tensões actuais.
Citando o músico angolano Paulo Flores, no documentário “Kuduro, Fogo no Musseke”6:
“O Kuduro representa uma voz de uma nova Angola. Uma Angola que quer ser ouvida, e mais que isso, tem de ser ouvida. Angola dos jovens, Angola dos bairros, da periferia… Angola que tem uma mensagem para dizer e para contar. Parece-me que a única forma de nos conhecermos a nós próprios é se tivermos esse espaço para ouvir os outros.”
Bibliografia
- 1.Parte 2: Kuduro, a voz da periferia de Angola 10/10/2009, Natalia Viana, São Paulowww.operamundi.com.br/reportagens_especiais_ver.php?idConteudo=1517
- 2.Parte 2: Kuduro, a voz da periferia de Angola 10/10/2009, Natalia Viana, São Paulowww.operamundi.com.br/reportagens_especiais_ver.php?idConteudo=1517
- 3.Em termos musicais, o exemplo mais emblemático desta época foi o grupo N’Gola Ritmos, cujos principais iniciadores, Liceu Vieira Dias, Amadeu Amorim e Zé Maria dos Santos, foram presos, em 1959, acusados de conspiração contra as autoridades coloniais portuguesas.
- 4.Destaca-se o estudante de filosofia MC Kapa, que se tornou um símbolo de resistência em Angola, depois de um jovem de 27 anos, ter sido morto, pela guarda presidencial, por cantar uma das música do seu primeiro álbum: Trincheira de Ideias (ou Petróleo Bruto para os piratas), 2002.
- 5.De destacar o sucesso do grupo Buraka Som Sistema, sobretudo com a musica Sound of Kuduro (do disco Black Dimond, 2007) com a participação da artista britânica M.I.A. entre os Kuduristas angolanos: DJ Znobia, Puto Prata e Saborosa. Destaca-se também o recente álbum Kuduro Sound System, (2007) do músico francês Frederic Galliano, com a participação de Dog Murras, Pai Diesel, Tony Amado, Gata Agressiva, entre outros.
- 6.Kuduro, Fogo no Musseke, documentário de Jorge António, Luanda, 2007.
RITA GT em Viana do Castelo
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