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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Prémio Maboque



‎"Gustavo Costa, jornalista do “Novo Jornal”, conquistou, na noite desta terça-feira, em Luanda, a 19ª edição do Prémio Maboque de Jornalismo"."Gustavo Costa venceu, em 2010, o Prémio Nacional de Jornalismo, na categoria de imprensa."-ANGOP.
Sou suspeito por falar sobre o Gustavo Costa, porque partilhamos uma amizade há mais de trinta anos, cumplicidades multiplas e muitos caminhos paralelos no domínio da comunicação social e no dirigismo desportivo. 
O Gustavo é uma das referencias do jornalismo escrito angolano e um simbolo da irreverencia cuidada, sem ultrapassar a linha sempre difícil de limitar entre a crítica política e a pessoalização.
Hoje, quando lhe dei os parabéns ele lembrou que o Novo Jornal é um fazedor de prémios. Todos os que fizemos, ou fazemos parte desta equipa, como é o meu caso sentimos um orgulho enorme partilhar esta "avalanche" de reconhecimento em Angola e no exterior. O NJ é provávelmente o melhor jornal de Angola, e só digo provavelmente porque sou seu colaborador desde o numero 1, e não ficaria bem fazer elogios em casa própria. Este prémio atribuído ao nosso director tem que ser partilhado com todos e aqui cabe também o contributo dado peloVictor Silva, 1º director do NJ, companheiro de muitos passos nesta jornada onde caminhámos todos juntos. O Gustavo Costa é também o correspondente do "Expresso" em Angola e por isso motivo de orgulho tb de portugueses que há 40 anos vão tendo esse jornal todas as semanas. 
Um reiterado obrigado por teres conquistado mais um prémio meu amigo, companheiro e camarada GUSTAVO COSTA

Fernando Pereira

Pensar e Falar Angola

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Carta a um anti-país

Gustavo Costa*

Num tempo em que o tempo vive e convive «com igrejas e os seus jurarcas, os políticos e as suas mentiras, a sociedade e as suas resignações”, também acabou por haver aqui um tempo para atender a Brecht e sobretudo ao alerta que Berthold nos fez na grande “Indiferença”. Esse tempo bateu à porta de uma Hora que ficou sem Hagá durante duas semanas, mas graças a Berthold Brecht volta a hospedar-se aqui com a dignidade daquele outro também escritor (entre muitas outras coisas) e descrito por Stefan Zweig no seu ensaio sobre autobiografias literárias como o que “poderia ser tudo” mas que “prefere não ser nada, absolutamente nada, excepto ser livre”…

Num país, que não é o meu, para muita gente deslumbrada com o poder, gente tatuada com pesadelos censórios, a liberdade de pensar em voz alta deveria ser ocultada no nevoeiro e lacrada com o selo da interdição. Nesse país, que não é o meu, esse acto, digno de um festim com fogo-de-artifício, deveria consagrar o embalsamar de quem, como eu, cultiva como traços distintivos da sua forma de fazer jornalismo três valores intransaccionáveis: a liberdade, a pedagogia e a crítica.

Nesse país, que não é o meu, em que algumas igrejas e as seitas religiosas estão convertidas em fontes de enriquecimento ilícito dalguns dos seus líderes e fiéis, tudo pode acontecer. Nesse país, que não é o meu, em que os partidos políticos preferiram leiloar os princípios e trocá-los por interesses, transformando-se, em plena hasta pública, em poderosas centrais de negócios, tudo pode acontecer. Nesse país, que não é o meu, que aceita o primado dos idólatras sobre os homens, tudo pode acontecer…

Nesse país, que não é o meu, alugado por inquilinos entontecidos com as contas de subtrair e que se apunhalam entre si, tudo pode acontecer. Nesse país, que não é o meu e que assistiu a um escandaloso processo de privatização de bens públicos altamente danoso para o Estado, tudo pode acontecer. Nesse país, que não é o meu, onde se banqueteia ao ar livre a (con)gestão ruinosa dos recursos públicos, festeja se a fraude, comemora-se a consagração da corrupção e assiste-se ao estímulo dos infractores com a adopção de um “período de graça” de quinze dias para cometimento de novos crimes e uma “amnistia” ancorada na simbologia de um areópago partidário, tudo pode acontecer…

Nesse país, que não é o meu, onde os cidadãos, com coluna vertebral, já não aceitam ser tomados por tolos, nem levam a sério quem julga poder anestesiá-los com ocas promessas de estancamento do saque, tudo pode acontecer. Nesse país, que não é o meu e que vive de discursos fantasiosos, eivados de automatismos verbais pouco edificantes e que coloca a dignidade na gaveta, tudo pode acontecer…

Nesse país, que não é o meu, em que o principal pivot da governação é um factor de estabilidade, mas também e simultaneamente factor de inibição da libertação da raiva crítica encubada na mente de gente cínica, que sabe falsear a sua fidelidade ao líder, tudo pode acontecer. Nesse país, que não é o meu, herdeiro de tradições securitárias monstruosas, onde até os telefones afugentam os seus mais altos dignitários, como se os mesmos queimassem a língua, tudo pode acontecer…

Pois bem, nesse país que não é o meu, bêbado com vários sacos azuis, a ilusão de óptica desportiva está transformada num “olímpico” sorvedouro de fundos do Estado, que escorregando direitinho para majestosas algibeiras, deixarão um dia os seus cidadãos a ver o futuro por um “CAN”. Esse país, em permanente e doentio estado de auto-flagelação, acredita que os doentes, antes de serem consultados, gostariam, se calhar, de saber primeiro qual a filiação partidária dos médicos e enfermeiros que os atendem…

Nesse país, que não é o meu, mas que é grandioso na forma, todavia “piquinino” no conteúdo, a auto flagelação constitui um ingrediente venenoso, que fazendo parte da sua história, está a desgastar a alma de gente decente na grandeza de espírito e na verticalidade intelectual. Esse mesmo país, que não é o meu, “exemplar” na distribuição da riqueza, ao mesmo tempo que se lambuza com a cultura de desperdício proporcionada pelo dinheiro do “carvão”, rasteja, inglório, aos pés do “Triunfo dos Porcos”… Extraordinário a exibir a fasquia de irrealizáveis promessas eleitoralistas, esse país, que não é o meu, “esquece-se” muitas vezes que não consegue sequer ter um ensino básico qualificado e que, por via do deficiente ingresso dos estudantes no ensino médio – é claro nem todos – se atropela o ensino superior e, a mais das vezes, se incorre em fraude académica.

Nesse país, que não é o meu, o culto da incompetência e a escassez de valores de excelência funcionam “como uma nódoa de azeite”. Ou seja, como escreveu Émile Faguet, crítico literário e moralista francês do séc. XIX, aquela “propaga-se por contágio, sendo natural que, sendo endémico, seja também epidémico e que, encontrando-se no centro e núcleo do Estado (…) se transmita e alastre nos (seus) hábitos e costumes”. É, portanto, um país maravilhoso que, em lugar do carácter, da meritrocacia e da honra, prefere trasandar o culto das distinções, dos
galões e das honrarias…

Nesse democrático país, que não é o meu, há governantes que, confundindo tudo e todos e tropeçando nas suas trapalhadas, dormem, coitados, atormentados com o que os jornalistas podem ou não escrever no dia seguinte. Nesse democrático país, que não é o meu, há governantes que, ao despertarem, atordoados com a enormidade das suas asneiras, insistem em ver a imprensa com lentes cor-de-rosa. Nesse democrático país, que não é o meu, com uma comunicação social “livre” de quaisquer pressões, a estupidificação política dalguns desses governantes, ávidos de enjaular a liberdade de pensamento, de expressão e de imprensa, no “armário obscuro das coisas proibidas”, chega a meter dó, ao vê-los pretenderem negar o seu exercício ao ar livre, ao mesmo tempo que, mentalmente atrofiados, acabam por se espatifar na estrada da auto-censura…

Esse país, que não é o meu, está povoado de uns poucos governantes, que padecendo de “epilepsia cultural”, vivem acorrentados à censura e estonteados com o fantasma da perseguição dos jornalistas. É um país que acredita que a Academia Sueca seria capaz, se calhar, de aceitar o estatuto de Ministro como atributo para integrar muitos deles como júri encarregue de atribuir um qualquer Prémio Nobel…

É um país, que não é o meu, engordurado de rancor, prisioneiro de gente atada ao passado, gente que cultiva a autofagia política, gente que insiste em “julgar” políticos mortos há mais de trinta anos, em lugar de os valorizar como homens de letras e reconhecer a sua obra literária como património nacional.

É um país que, por isso, vergado a valores culturais importados, se gaba por ver sufragado pelo poder político e pelos aparelhos partidários, o reconhecimento de uma distinção literária. Nesse país, que não é o meu, o ódio e a intolerância, empanturraram de rasuras a História. Nesse país, que na verdade é o meu, vai ser preciso partir ainda muita pedra para derrubar os seus muros. Porquê? Porque no meu país, afinal, o “Muro de Berlim” continua de pé! Desgraçadamente de pé…

*Publicado no regresso do Horagá, edição 97 do Novo Jornal
_ Pedro Cardoso
Retirado do blogue: http://www.mukuarimi.blogspot.com/
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Pensar e Falar Angola

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