Pensar e Falar Angola
Anoitece. A lua, iniciando seu trajeto pelo céu, perfurava as trevas, com sua luz prateada, liberando sua energia sobre a terra.
Os animais noctívagos, começavam a acordar e se dirigiam para a savana e para os bosques, a procura de caça.
No céu, as corujas e morcegos começavam suas rondas.
Ao redor de uma fogueira, todos os jovens da aldeia, aguardavam a chegada do velho Makúràyé, para dele receberam estórias, ensinamentos e muitas aventuras.
O velho chega, senta-se em seu toco preferido, enche o seu velho cachimbo, negro pelo uso, com tabaco e ervas, que somente ele sabia quais, arruma-se, acomoda-se, levando um tempo que, para os jovens ativos, era interminável.
Limpa a garganta com um pigarro profundo e, quando começa a falar, desce sobre o grupo reunido um silencio tão pesado quanto ao da morte.
• ”Nas manhãs da existência do homem em Ayè, quando necessitavam se comunicar com os Orisà, os kadiiala invocavam Legbarà, que prontamente surgia para saber o que eles queriam...
• Oh Èbora Divino, Mensageiro dos Orisà! Nós servos dos Senhores do Mundo, humildemente imploramos ao Nosso Pai Omolu, que perdoe as faltas do pequeno Apotakiè, e oferecemos ao Nosso Grande Pai, um cesto de doburù com coco, uma cabaça de emu, uma cabaça de dendem, uma cabaça de com tabaco e mel e uma bandeja de frutas, conforme prescreveu Ifà. Imploramos, oh Pai, cura-o! Ajuda-nos Pai!
E, incontinente, Legbarà, partia para Orum, levando a mensagem...
No caminho, Legbarà, encontrava ricos campos com bananeiras carregadas de frutos amarelinhos, pinhas, mangas, sapotis, cajás e outras frutas divinas.
Parava para comer e saciar sua fome.
Mais adiante, encontrava palmas sumosas.
Parava para retirar sua seiva, destilá-la e matar a sua sede com o doce emu.
E, assim, a viagem prosseguia, de parada em parada, até a mensagem chegar a seu destinatário.
Infelizmente, quando o Pai Omolu, recebeu a notícia, era tarde demais. Eku chegara primeiro...
Os homens, então, choravam e lamentavam:
• Teriam os Orisà nos abandonado?
Orisala, na sua grande sabedoria, convocou uma reunião entre os homens e os Orisà, assim que ouviu as lamúrias.
Ela se realizou na fronteira entre Orum e Ayè.
Soroké recebeu instruções para guardar, com seu exército, o perímetro em torno da reunião, contra os seres que só sabem perturbar.
Os homens escolheram o mais sábio dos babalawó, dois babalorisà e uma iyalorisà (para que as Iyabàs não se ofendessem) como representantes.
Todos os Orisà estavam presentes.
Orisà Olufon, o mais velho, presidia a reunião.
Seria sempre o último a falar e seu voto seria o de “Minerva”.
Sangó e Nànà, seriam os mediadores, para evitar perda de tempo com assuntos supérfluos.
E a palavra foi dada aos homens, o babalawô, foi o primeiro a falar:
• Nós Os louvamos e adoramos. Nós Lhes damos oferendas. De nossa caça, a parte melhor, de nossas colheitas, as melhores frutas e frutos, procuramos nas matas, com a licença de Ossaym, as ervas da preferência dos Senhores, e Senhoras, tudo, dentro do que Ifá nos transmite dos desejos dos Senhores, e Senhoras, nós fazemos e, mesmo assim, não obtemos respostas às nossas súplicas. Seguimos os preceitos ensinados pelos ancestrais e, mesmo assim, nada conseguimos... Aos antigos, bastavam cruzar a fronteira onde ora nos reunimos, para encontrar e falar com nossos Pais.
Solene, Orisà Olufon interveio:
• Separai-nos pois não mereceram nossa confiança...
• Foi justa a separação - disse Sangó - mas também é justa a reclamação...
Intempestivamente Ógùn fala:
• Porque da demora em solicitar nossa ajuda?
Prostrando-se ao chão, Mgbògun, um dos babalorisà, exclama:
• Não Pai! No caso de Apotakiè solicitamos a benécie do Pai Omolu assim que a febre se manifestou...
• Mas, quando fui avisado, - disse Omolu - Eku já havia passado por lá...
Oríketúzarà Katendé, descendo do Iróko, disse:
• Nem o homem demorou a pedir indulgência, nem o Orisà Ademimonazambi demorou a chegar. A notícia é que demorou muito tempo para sair de Ayè e chegar a Orum.
E Ógùn foi chamar Soroké.
Soroké argüiu Legbarà.
Legbarà se defendeu:
• O caminho é longo, sede e fome nos alcançam entre Ayè e Orum, precisamos repor nossas forças para viajar entre os espaços, precisamos comer e beber.
• Precisamos ver isso... - Falou pensativamente Orisà Oguian.
• Sim, Legbarà precisa de energia. - Concordou Osun.
• Que seja feita a justiça! - Completou Sangó.
Orisà Olufon, erguendo seu opasoró, proferiu a sentença:
• Que Legbarà, para ter energia para suas viagens, receba, sempre, em todos os tempos, de agora e para o futuro, sua bebida e comida preferidas, antes de qualquer outro. Que sejam abertos a noite, o dia, as festas, as saudações e tudo o mais com oferendas aos nossos mensageiros, para que, rapidamente, saibamos o que acontece em Ayè. Gravado ficará em Loko e nos planos de meu Opasoró, e para sempre assim será feito...
• E hoje, sempre que invocamos o asè de nossos Pais, seja porque motivo for, primeiro damos de comer e beber aos Divinos Mensageiros, para que Eles possam viajar entre os espaços, rápidos como a luz do Pai Maior, sem interrupções, para que possamos receber, quando merecemos, a ajuda de nossos Orisà...”
Conto por José Alberto Ayres
Contam que no Palácio de Kèrémanwo, o Rei de Kitào, havia se cercado com os melhores guerreiros de toda a Afrikà.
Armou-os com que de melhor havia.
Arcos de Inõ, com cordas de couro de gazela trançado, e flechas com penas de gavião.
Seus escudos eram feitos de couro de elefantes, duros como o aço.
Seus machados de guerra eram forjados com perfeição, e amolados nas pedras da beira do Rio de Òba.
Eles treinavam do nascer ao ápice solar.
Descansavam, bem alimentados, no Jardim das Maravilhas do palácio, até o sol deitar.
Vestiam-se com peles finas de tigre, leopardo e outros animais. Menos com a do leão, pois estas pertenciam a Sangó.
Era o exército mais temido. A vontade de Kitamògúm era sua lei. A presença dele era o bastante para o avaro pagar seus impostos e até o mendigo encontrar uma leitoa prenha em suas terras.
Kitamògúm reinava feliz.
Suas oito mulheres lhe deram trinta e dois filhos. Apenas onze mulheres.
Seu tesouro crescia a cada dia. Seus rebanhos se multiplicavam. Sua terra era fértil.
Uma de suas filhas, Oyámantú, a mais nova, linda, irrequieta e brava como um búfalo, resolveu que não poderia continuar a aprender a tecer, cozinhar, tingir, e moldar a tabatinga.
Sua paixão eram as armas.
Seu sonho era guerrear.
Kitamògún consultou o babalao e pensou.
- Se o pano de seu tear é áspero como palha, se um gorila pinta melhor do que ela, se sua cabidela é recusada até pelas hienas, por que não deixá-la tentar ser uma flecheira?
E ela se tornou a melhor flecheira do reino.
Seus vinte e um irmãos não aceitavam mais, nem por brincadeira, disputar com ela.
- Sua flecha é certeira como profetizou o cordão de Ifá. Como será sua lança?
Oyàmantú se tornou a melhor seteira do reino.
Seus vinte e um irmãos ficavam chorando de raiva a cada vez que com ela treinavam.
- Atira como um homem, ou melhor. Sua lança é rápida e finca fundo. Mas não terá força para disputar com um guerreiro. Desta vez acho que conseguirei dobrá-la.
E com vinte e dois guerreiros lutou corpo-a-corpo. Acha e escudo. Machado e escudo. Faca com e sem escudo. Do mais fraco ao mais forte. A todos venceu. Nem todos, dos seus vinte e um irmãos, quiseram com ela lutar.
Seus vinte irmãos, um deles, apenas por acidente, faleceu devido aos ferimentos, começaram a não mais querer andar com pele de animais, símbolo do guerreiro.
Andavam de cabeça baixa. Quase não falavam.
- Derrotados por uma mulher!!!
Kitamògún vivia irritado:
- Vinte e um varões! Qual deles é o melhor? Uma mulher!
Esbravejava aos céus e à terra. Não mais dormia. Suas oito mulheres eram bem menos procuradas do que a cabaça de emu. Seus cabelos, ralos, embranqueceram.
Não mais era “O REI”. Agora, tão somente, “O Velho Rei”.
Seus conselheiros, o aconselhavam:
- Grande Kitamògún! Rei de Kitào! Comandante do mais bravo e temido exército da Afrikà! Se Orisanlà me tivesse agraciado com tão valente filho, ou filha, eu me sentiria o mais rico dos homens...
- Oh resplandecente Majestade! Orgulho de nossa nação! Mão justa e poderosa! Se meu filho, ou filha, fosse, eu me sentiria o premiado dos Orisà.
Mas a tristeza era a sua companheira. M'Ògún seu mais dileto, e mais velho, filho não mais usava a sua orgulhosa pele de tigre. Seu erosin de general andava esquecido em algum canto de sua câmara. Seu arco de, pau dourado, não mais andava cruzado em suas costas. Sua cabeça não mais se via erguida.
Kitamògún mandou chamar Kingitè. Tinha de culpar alguém...
- Seu ventre, que me deu M'Ògún, deu-me também essa que está destruindo minha casa.
Humilde, como se devesse desculpas por ter tido uma filha, Kingitè responde:
- Amado esposo e rei, tu que és a razão de minha existência, tens razão de comigo reclamares. Mas, amo e senhor, ao invés de te amofinares, por que não despachas tal ebó? Desterre-a!
- Como sempre suas idéias sempre me mostram o melhor caminho.
Oyàmantú foi desterrada.
O sol nasceu e morreu, dando à lua o seu lugar.
Muitas e muitas vezes.
Kitamògún reinava feliz.
Um corajoso guerreiro, com penas de avestruz, irrompeu na câmara real, correndo do tal.
- Meu rei e meu pai, contam que um exército, não muito numeroso, como dizem, invadiu Kitào vindo pelo norte. É comandado por um guerreiro não muito grande ou forte, como ouvi dizer.
- M'Ògún! M'Ògún! Reuna nosso exército. Após anos de paz, voltamos a guerrear! Será mais uma vitoria para juntar aos nossos louros!
E, ao redor do reino, por toda a paliçada, foram erguidas cortinas de mariwó.
Cães selvagens foram sacrificados em todos os altares, ao Senhor do Ferro e das Armas. O emu corria a solta, de boca em boca. Danças, cantigas e brados de guerra se ouviam. Armas eram afiadas e preparadas. Partiram...
Vestiam-se com peles de tigres, sheetas e panteras. Vinte e sete guerreiros iam na frente do exército, logo atrás de Kitamògún. Mais sete filhos, homens, graças aos Orisà, haviam nascido.
- Vamos, em frente, à vitória, voltaremos cobertos com o sangue de nossos inimigos.
Muito sangue correu...
Os campos se cobriam de corpos...
Os feridos gemiam à noite, e de dia também...
O pranto de luto era a canção mais popular...
Até um dia, com o silencio do fim da batalha, a paz voltou...
O general do exército inimigo, além do escudo de pele de elefante, duro como aço, machado, acha, faca e sabre, todos cobertos de sangue, trazia a cabeça oculta por trás de um capacete de palha e bambu.
Sua veste, uma túnica que deixava um seio de fora, estava tinta de vermelho.
Diante dele, todos vestidos com peles de animais nobres, andavam cabisbaixos, rotos, machucados, os homens da casa de Kitào...
Diante das sete mulheres, uma morrera de parto, Iyabás de Kèrémanwo, o general vitorioso, entrando na câmara real, sentou-se no trono de peles e tomou do erosin real.
Tirando o capacete de palha e bambu, revelou-se, para espanto geral, com cabelos de tranças coladas, enfeitados com ouro e ossos, olhos castanhos suaves e uma beleza irreal.
As vozes, como em coro ensaiado, gritaram de uma só vez:
- Oyàmantú! Oyàmantú!
Hoje, em Kitào, no palácio de Kèrémanwo, único matriarcado de toda a Afrikà, Kitamògún, já velho, meio cego e surdo, bem alquebrado, relembra os fatos passados e ensina a que queira lhe ouvir, sem nada pedir em troca:
- ”Se encontrares na vida,
Seja menino, menina, homem ou mulher,
Que se mais forte que és,
Lembra-te bem do que digo,
Dê-lhe tudo o que quiser,
Ajoelha-te aos seus pés,
Mas faça dele um amigo...”
Conto por José Alberto Ayres

https://youtube.com/shorts/qZkb4CfXTZQ?si=3K65JJEr5VQqsZZS Ao longo dos últimos dois anos tive a oportunidade de desenvolver “8”, uma obra d...