domingo, 1 de julho de 2007

ESTRADA

Estrada


Luanda Dondo vão,
cento e tal quilômetros
mangas e cajus
marcos brancos
meninos nus


Branco algodão
crescendo
corpos negros
na cacimba


O Lucala corre
confiante
indiferente à ponte que ignora


Verdes matas
Sangram vermelhas acácias
imbondeiros festejam
o minuto da flor anual


Na estrada
o rebanho alinha
pelo verde
verde capim


Adivinhados
caqui lacraus
de capacete giz
trazem a morte


Meninos
se embalam
em mães velhas
de varizes:


Rios azuis
da longa estrada


E é fevereiro
sardões ao sol
Cassoalala


Eia Mucoso
tão cheio agora
Adivinhados
permanecem
lacraus caqui
capacetes giz


Não param as colheitas
Que razão seriam
fevereiro
acácias sangrando vermelho
verdes sisais
cantando o parto
da única flor?


Não param as colheitas!

António Cardoso, in "No reino de Caliban II"- antologia panorâmica de poesia africana de expressão portuguesa

Pensar e Falar Angola

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