terça-feira, 30 de junho de 2020
sexta-feira, 26 de junho de 2020
De "A província de Angola" a "Jornal de Angola"
Uma adaptação rápida às novas adversidades
Filomeno Manaças
Esta velha casa de Imprensa, que tantos bons profissionais já produziu e de que nos orgulhamos, alguns dos quais serviram e continuam ainda hoje a servir com galhardia outras instituições, desde públicas a privadas, passando por jornais, ministérios, embaixadas, organizações internacionais, etc., cumpre neste dia mais um aniversário de vida - o 44º -, com os jornalistas e demais pessoal indispensável à feitura de jornais imbuídos da certeza de que se continua a fazer história.
Foi a 26 de Junho do ano de 1976 que o então Presidente Agostinho Neto assinou o decreto 51/76, que determinava o confisco da então Empresa Gráfica de Angola - SARL e abria as portas para a criação da Edições Novembro, primeiro UEE (Unidade Económica Estatal) e, mais tarde, Empresa Pública. Já antes, no calor das transformações políticas que o país então vivenciava, em 1975, e fazendo jus ao desejo de emancipação que fervilhava de Cabinda ao Cunene e do mar ao Leste, o único jornal que esta casa de imprensa produzia despia-se do título “A Província de Angola” e passava a designar-se, a partir de 1 de Julho desse ano, Jornal de Angola.
De lá para cá, foi o trilhar de um percurso, com altos e baixos, que transformou a Edições Novembro - EP numa das principais empresas gráficas do país e o Jornal de Angola no principal diário do país.
Escola de profissionais das mais diversas áreas do saber que concorrem para a produção dos diferentes títulos da empresa - desde o jornalismo ao sector das artes gráficas, passando pela publicidade e área administrativa, em que não se pode esquecer as finanças e, nesse quesito, a contabilidade, além naturalmente da gestão dos recursos humanos -, a Edições Novembro continua focada em acompanhar as transformações que o mundo da imprensa está a sofrer, agora de forma particularmente acentuada com o advento da pandemia da Covid-19.
Trabalhar em ambiente de tempestade - assim se pode caracterizar o momento actual, pautado pela vaga de ataques do novo coronavírus, que está a semear apreensões e incertezas em todo o mundo e a pôr em causa as previsões mais optimistas, como que a alertar que nestes tempos elas têm pouco ou nenhum valor - está a ser um aprendizado que, desde logo, nos mostrou a necessidade de potenciar a aposta nas plataformas digitais.
Por força das restrições a que o mundo esteve e continua obrigado a observar, a Internet passou a ocupar maior espaço nas nossas vidas, tal como o acesso ao audiovisual, para o consumo de informação relevante sobre a evolução da Covid-19 no mundo e outros acontecimentos que vão tendo lugar.
Digamos que a pandemia veio reforçar a importância da Internet e dos smartphones, tratando de pôr em relevo toda a diferença que fazem num tal contexto. Recursos sem os quais muita coisa poderia estar a acontecer no mundo e simplesmente ser abafada, porque teria escapado ao conhecimento e sufrágio da aldeia global que hoje somos.
Recuando no tempo, é possível imaginar o cortejo de horrores que terá acontecido à pala da gripe espanhola, que varreu o mundo entre 1918 e 1920, e que ficaram por ser contados.
A rápida adaptação, feita pela empresa e pelos jornalistas, ao novo contexto, permitiu esbater os efeitos negativos da Covid-19 e continuar a manter, nestes tempos conturbados, a Edições Novembro e o Jornal de Angola como empresas de referência na produção de conteúdos informativos, vincando o profissionalismo e o empenho dos quadros em manter o público sempre ao corrente das principais novidades políticas, económicas, culturais e sociais, quer em relação aos acontecimentos no âmbito doméstico, quer a nível mundial.
Vindo dos tempos em que o jornal físico era o rei todo - poderoso - e até hoje não troco o prazer de folheá-lo e de poder fazer anotações à lápis ou lapiseira aos textos - foi com um aperto no coração que olhei para o vendaval que a pandemia de Covid-19 anunciava, como a possibilidade de o vírus poder ser transmitido de uma para outra pessoa até mesmo através de documentos.
E o jornal físico - tenho defendido -, é um documento diferente do documento virtual. Tem mesmo vantagens incomparáveis, como a possibilidade de o que for postado num site ser susceptível de alteração, de ser retirado ou apagado, ao contrário do que for escrito em papel de jornal. Fica lá e não sai! Se estiver errado, há sempre a possibilidade de ser rectificado/corrigido nas edições seguintes ou posteriores e, se não o fizer, há ainda o instituto do direito de resposta. Isto obriga o jornalista a um maior cuidado no apuramento dos factos, nestes tempos em que as fake news também disputam as atenções do público, pretendendo impôr-se como verdades, e uns quantos teimam em querer confundir o jornalismo com qualquer informação produzida e postada nas redes sociais.
Quem me estiver a ler pode pensar que sou contra as redes sociais. Desengane-se! Sou partidário de que a empresa deve abraçar os dois modelos de negócio: os jornais nas plataformas digitais e os jornais físicos. Acredito que há uma grande margem de progressão dos jornais impressos ainda não explorada convenientemente, tal como é verdade que temos uma grande avenida a percorrer em matéria de qualidade gráfica e editorial dos produtos digitais, que são uma ferramenta que permite chegar a um público mais vasto, que as publicações físicas, pelas especificidades que lhe são inerentes, não conseguem alcançar.
Conhecedores desta realidade, eis-nos aqui prontos a desbravar novos caminhos, com a mesma firmeza de sempre. Para todos os profissionais desta casa de imprensa, aos que partiram e aos que, de forma abnegada, continuam a dar o seu melhor em prol da empresa, hoje é um dia de merecido tributo.
in Jornal de AngolaDe lá para cá, foi o trilhar de um percurso, com altos e baixos, que transformou a Edições Novembro - EP numa das principais empresas gráficas do país e o Jornal de Angola no principal diário do país.
Escola de profissionais das mais diversas áreas do saber que concorrem para a produção dos diferentes títulos da empresa - desde o jornalismo ao sector das artes gráficas, passando pela publicidade e área administrativa, em que não se pode esquecer as finanças e, nesse quesito, a contabilidade, além naturalmente da gestão dos recursos humanos -, a Edições Novembro continua focada em acompanhar as transformações que o mundo da imprensa está a sofrer, agora de forma particularmente acentuada com o advento da pandemia da Covid-19.
Trabalhar em ambiente de tempestade - assim se pode caracterizar o momento actual, pautado pela vaga de ataques do novo coronavírus, que está a semear apreensões e incertezas em todo o mundo e a pôr em causa as previsões mais optimistas, como que a alertar que nestes tempos elas têm pouco ou nenhum valor - está a ser um aprendizado que, desde logo, nos mostrou a necessidade de potenciar a aposta nas plataformas digitais.
Por força das restrições a que o mundo esteve e continua obrigado a observar, a Internet passou a ocupar maior espaço nas nossas vidas, tal como o acesso ao audiovisual, para o consumo de informação relevante sobre a evolução da Covid-19 no mundo e outros acontecimentos que vão tendo lugar.
Digamos que a pandemia veio reforçar a importância da Internet e dos smartphones, tratando de pôr em relevo toda a diferença que fazem num tal contexto. Recursos sem os quais muita coisa poderia estar a acontecer no mundo e simplesmente ser abafada, porque teria escapado ao conhecimento e sufrágio da aldeia global que hoje somos.
Recuando no tempo, é possível imaginar o cortejo de horrores que terá acontecido à pala da gripe espanhola, que varreu o mundo entre 1918 e 1920, e que ficaram por ser contados.
A rápida adaptação, feita pela empresa e pelos jornalistas, ao novo contexto, permitiu esbater os efeitos negativos da Covid-19 e continuar a manter, nestes tempos conturbados, a Edições Novembro e o Jornal de Angola como empresas de referência na produção de conteúdos informativos, vincando o profissionalismo e o empenho dos quadros em manter o público sempre ao corrente das principais novidades políticas, económicas, culturais e sociais, quer em relação aos acontecimentos no âmbito doméstico, quer a nível mundial.
Vindo dos tempos em que o jornal físico era o rei todo - poderoso - e até hoje não troco o prazer de folheá-lo e de poder fazer anotações à lápis ou lapiseira aos textos - foi com um aperto no coração que olhei para o vendaval que a pandemia de Covid-19 anunciava, como a possibilidade de o vírus poder ser transmitido de uma para outra pessoa até mesmo através de documentos.
E o jornal físico - tenho defendido -, é um documento diferente do documento virtual. Tem mesmo vantagens incomparáveis, como a possibilidade de o que for postado num site ser susceptível de alteração, de ser retirado ou apagado, ao contrário do que for escrito em papel de jornal. Fica lá e não sai! Se estiver errado, há sempre a possibilidade de ser rectificado/corrigido nas edições seguintes ou posteriores e, se não o fizer, há ainda o instituto do direito de resposta. Isto obriga o jornalista a um maior cuidado no apuramento dos factos, nestes tempos em que as fake news também disputam as atenções do público, pretendendo impôr-se como verdades, e uns quantos teimam em querer confundir o jornalismo com qualquer informação produzida e postada nas redes sociais.
Quem me estiver a ler pode pensar que sou contra as redes sociais. Desengane-se! Sou partidário de que a empresa deve abraçar os dois modelos de negócio: os jornais nas plataformas digitais e os jornais físicos. Acredito que há uma grande margem de progressão dos jornais impressos ainda não explorada convenientemente, tal como é verdade que temos uma grande avenida a percorrer em matéria de qualidade gráfica e editorial dos produtos digitais, que são uma ferramenta que permite chegar a um público mais vasto, que as publicações físicas, pelas especificidades que lhe são inerentes, não conseguem alcançar.
Conhecedores desta realidade, eis-nos aqui prontos a desbravar novos caminhos, com a mesma firmeza de sempre. Para todos os profissionais desta casa de imprensa, aos que partiram e aos que, de forma abnegada, continuam a dar o seu melhor em prol da empresa, hoje é um dia de merecido tributo.
Pensar e Falar Angola
quinta-feira, 25 de junho de 2020
Livros Ultramar - Guerra Colonial: Angola & Descolonização (FNLA) - Jornal 'LIBERDADE...
Livros Ultramar - Guerra Colonial: Angola & Descolonização (FNLA) - Jornal 'LIBERDADE...: Angola & Descolonização (FNLA) - O primeiro número do órgão de informação da organização liderada por Holden Roberto, editado em ter...
Sanzalando
Sanzalando
quarta-feira, 24 de junho de 2020
João Melo, irreverente e livre
João Melo, irreverente e livre
Adriano Mixinge
Para mim, ele começou sendo apenas um poeta mais. Soube que existia, em finais dos anos 80: os seus primeiros seis livros são de poesia, tendo o primeiro deles, “Definição”, sido publicado em 1985.
Mas, foi “Fabulema”, o livro que publicou no ano seguinte, o que me chegou às mãos, na “Ciudad Libertad”: o livro estava entre vários outros na caixa de livros, que, em 1990, a minha irmã São me ofertou quando eu ainda vivia naquela cidade universitária, no bairro de Marianao, em Havana.
Para ser sincero, na altura, dei pouca ou nenhuma importância àquele livro de João Melo (Luanda, 1955). Depois de tudo, - creio ter pensado na época -, no nosso país, os poetas surgiam e proliferavam como cogumelos depois da chuva, para além de que, como sabemos, apesar do muito que se publica em poesia, escasseiam os bons livros deste género literário: eu sempre tive ( e continuo a ter) dificuldades em encaixar o João Melo, entre os poetas da geração 80 e ainda bem.
Porém, apesar do escritor ter publicado “Limites & Redundâncias” (1997), quando eu já tinha regressado à Angola e vivia, em Luanda, foi com “Imitação de Sartre & Simone de Beauvoir” (1998) que eu desfrutei, fartei-me de rir e descobri o escritor livre, sem tabús e irreverente que ele é: a ideia do escritor insosso, asfixiado na sua própria gravata, sério, que nunca foi boémio e bon vivant como eu imaginava - talvez, com pouco tino-, que tinham sido os “escritores revolucionários” dos anos 60 e 70 esvaiu-se, completamente, quando eu li o primeiro livro de contos de João Melo, foi uma autêntica revelação.
Falando sobre a obra do escritor, o ensaísta Pires Laranjeira, professor da Universidade de Coimbra (Portugal) afirma que: “é imperdoável o desconhecimento de uma obra contística única nos cinco países africanos de língua portugesa, que não busca o efeito castiço de origem étnico-pop, nem o delicodoce das ternurentas aventuras infanto-juvenis ou das estórias piadéticas para entreter turistas, que merecem o seu lugar”.
Apesar de ter escrito e continuar a escrever poesia, o conto é o género literário em que João Melo se exprime e se espraia com maior acutilância, com muita piada, com um humor por vezes corrosivo e com absoluta liberdade: quem quiser compreender as subtilezas, os acertos e desacertos de parte significativa da sociedade angolana actual deve ler, atentamente, os livros de contos do escritor.
João Melo é um dos escritores que melhor soube navegar dentro do sistema político, social e económico que se instalou, em Angola, nos últimos trinta e cinco anos, adoptando diferentes perfis sócio-profissionais, mas, em todos eles, e à sua maneira, empurrando as barreiras do conservadorismo, ajudando a consumar transformações positivas dentro do próprio sistema: jornalista, publicitário, professor universitário, consultor e político.
“O dia em que Charles Bossangwa chegou à América” é o seu mais recente livro, que reúne contos escritos entre 2017 e 2019. Editado pela editorial Caminho, com prefácio de Maria Teresa Salgado da Universidade Federal de Rio de Janeiro (Brasil), este livro de contos de João Melo traz sete contos, nomeadamente, “O país está desgovernado”, “Uma pequena saga ministerial”, “o perigo amarelo”, “Uma mulher séria”, “O torcicolo”, “O angolano que não gostava do verbo malhar” e “O dia em que Charles Bossangwa chegou à América”.
Longe da ideia e da atitude de intelectual eremita e solitário, apático e indiferente ao seu tempo e às suas circunstâncias, João Melo é um cidadão que fez-nos ouvir sempre a sua voz – a troca de galhardetes com o actual embaixador do Brasil em Angola foi uma consequência das posturas e ideias que bem defende - e não tem receio nem tabú nenhum em abordar temas escabrosos, - já sejam eles temas sociais, políticos e ou sexuais-, falar sobre os problemas e as inquietações do homem, em todas as suas facetas existenciais.
“Mestre do conto”, no dizer da professora Maria Teresa Salgado da Universidade Federal de Rio de Janeiro (Brasil), João Melo é, sobretudo, um escritor irreverente, útil, livre e à ler, permanentemente.
Ele é o contista que não devemos ignorar.
in Jornal de AngolaPara ser sincero, na altura, dei pouca ou nenhuma importância àquele livro de João Melo (Luanda, 1955). Depois de tudo, - creio ter pensado na época -, no nosso país, os poetas surgiam e proliferavam como cogumelos depois da chuva, para além de que, como sabemos, apesar do muito que se publica em poesia, escasseiam os bons livros deste género literário: eu sempre tive ( e continuo a ter) dificuldades em encaixar o João Melo, entre os poetas da geração 80 e ainda bem.
Porém, apesar do escritor ter publicado “Limites & Redundâncias” (1997), quando eu já tinha regressado à Angola e vivia, em Luanda, foi com “Imitação de Sartre & Simone de Beauvoir” (1998) que eu desfrutei, fartei-me de rir e descobri o escritor livre, sem tabús e irreverente que ele é: a ideia do escritor insosso, asfixiado na sua própria gravata, sério, que nunca foi boémio e bon vivant como eu imaginava - talvez, com pouco tino-, que tinham sido os “escritores revolucionários” dos anos 60 e 70 esvaiu-se, completamente, quando eu li o primeiro livro de contos de João Melo, foi uma autêntica revelação.
Falando sobre a obra do escritor, o ensaísta Pires Laranjeira, professor da Universidade de Coimbra (Portugal) afirma que: “é imperdoável o desconhecimento de uma obra contística única nos cinco países africanos de língua portugesa, que não busca o efeito castiço de origem étnico-pop, nem o delicodoce das ternurentas aventuras infanto-juvenis ou das estórias piadéticas para entreter turistas, que merecem o seu lugar”.
Apesar de ter escrito e continuar a escrever poesia, o conto é o género literário em que João Melo se exprime e se espraia com maior acutilância, com muita piada, com um humor por vezes corrosivo e com absoluta liberdade: quem quiser compreender as subtilezas, os acertos e desacertos de parte significativa da sociedade angolana actual deve ler, atentamente, os livros de contos do escritor.
João Melo é um dos escritores que melhor soube navegar dentro do sistema político, social e económico que se instalou, em Angola, nos últimos trinta e cinco anos, adoptando diferentes perfis sócio-profissionais, mas, em todos eles, e à sua maneira, empurrando as barreiras do conservadorismo, ajudando a consumar transformações positivas dentro do próprio sistema: jornalista, publicitário, professor universitário, consultor e político.
“O dia em que Charles Bossangwa chegou à América” é o seu mais recente livro, que reúne contos escritos entre 2017 e 2019. Editado pela editorial Caminho, com prefácio de Maria Teresa Salgado da Universidade Federal de Rio de Janeiro (Brasil), este livro de contos de João Melo traz sete contos, nomeadamente, “O país está desgovernado”, “Uma pequena saga ministerial”, “o perigo amarelo”, “Uma mulher séria”, “O torcicolo”, “O angolano que não gostava do verbo malhar” e “O dia em que Charles Bossangwa chegou à América”.
Longe da ideia e da atitude de intelectual eremita e solitário, apático e indiferente ao seu tempo e às suas circunstâncias, João Melo é um cidadão que fez-nos ouvir sempre a sua voz – a troca de galhardetes com o actual embaixador do Brasil em Angola foi uma consequência das posturas e ideias que bem defende - e não tem receio nem tabú nenhum em abordar temas escabrosos, - já sejam eles temas sociais, políticos e ou sexuais-, falar sobre os problemas e as inquietações do homem, em todas as suas facetas existenciais.
“Mestre do conto”, no dizer da professora Maria Teresa Salgado da Universidade Federal de Rio de Janeiro (Brasil), João Melo é, sobretudo, um escritor irreverente, útil, livre e à ler, permanentemente.
Ele é o contista que não devemos ignorar.
23-06-2020
Pensar e Falar Angola
terça-feira, 23 de junho de 2020
sexta-feira, 19 de junho de 2020
Dr. Marcolino Moco - A mesa do café
Interessados na História do Direito e da Justiça ou mesmo no âmbito mais largo da História Universal, já ouviram falar, certamente, do caso Dreyfus, que decorreu entre os anos de 1894 a 1904, em França.
Telegraficamente, para quem nunca ouvio falar:
No cesto de papéis do adido militar da Embaixada alemã, em França, é descoberto, por uma empregada francesa, um documento suspeito de resultar de uma acção de espionagem contra o país. De forma quase aleatória, aliás, sob um critério no mínimo eivado de anti-semitismo, é atribuída responsabilidade de tal actividade espiã, a um oficial francês de origem hebraica que funcionava num dos mais altos escalões da Forças Armadas, de seu nome Alfred Dreyfus.
Do coro de vozes daqueles que, em circunstância semelhantes, apresentam-se sempre como os mais autênticos guardiões do patriotismo e dos valores mais sublimes do país e pela aparente necessidade de a “culpa nunca dever morrer solteira”, à formalização judicial duma acusação gratuita, não foram muitos passos. Resultado: Dreyfus foi condenado ao degredo militar e prisão perpétua para uma ilha, ironicamente, chamada do Diabo. O homem só se livraria dessa situação (que deve ter inspirado o escritor Franz Kafka na concepção do seu, mundialmente, conhecido romance “O processo”) anos depois, por reacções persistentes da sociedade, ante evidencias tão claras de que Dreyfus não estava de forma alguma ligado àquele documento, nem à qualquer outro acto de espionagem, a favor da Alemanha.
Tenho razões para esperar que esta comparação, entre um caso de justiça francesa, ancorada no foro militar, de finais do século XIX e princípios do XX, com o nosso caso Tomás/CNC (mesmo que por maioria de razão, este último mais escandaloso que o primeiro, se tivermos em conta que corre no século XXI e no foro civil de uma república em plena “nova era”) vai ser apodada, por alguns, como despropositada. E lá me cairá em cima mais uma saraivada de insultos e insinuações. Não se confunda, essa referência, com opiniões diferentes da minha, quer sejam de carácter técnico-jurídico (que vários juristas têm levantado porque tão fáceis de constatar) quer de outro tipo de avaliação.
Eu sou “forçado” a regressar a este caso (que, entre outros, abordei, apenas a título exemplificativo, em sede de uma tese de carácter mais geral, já consagrada em livro) numa altura em que tenho evitado intervenções mais assíduas, para contornar uma conotação promovida de que eu esteja a ser um factor de estorvo aos esforços da nova direcção do país, cuja emergência saudei, por nos ter dado sinais iniciais relativamente positivos. É que no âmbito de mais uma oportunidade para a Justiça angolana puder emendar um soneto marcado por uma crueldade inaudita e, sobretudo, por um tratamento claramente desigual, não só a Augusto Tomás mas a todos os elementos do CNC (que, aparentemente, só estão ali porque o destino cruel os ligou ao antigo Ministro dos Transportes) se começa pressentir um “déjá vu” de informações e contra-informações. Até, pasme-se, nessas informações e contra-informações, coloca-se em causa o engajamento de uma advogada, na defesa do seu próprio constituinte. Como se não fosse de lei fazê-lo. Já para não falar de uma estranha notícia (boato-desejo?) que refere eventual jubilado compulsivo do actual Presidente do Tribunal Constitucional. Já para não referir também, quiçá de mesmas estranhas fontes, a indução em erro que ocorreu em tempos, de que Tomás teria sido libertado, causando equivocado mal-estar em sectores da população que acredita, piamente, que o caso CNC/Augusto Tomás se enquadra no âmbito de um processo justo, em sede do combate cerrado à corrupção.
Será que a nossa Justiça quer que este caso de injustiça tão evidente termine assim mesmo? E, sobretudo, será que essa crueldade (“in dubio contra reo”) se repetirá contra todos aqueles que se encontraram (se encontram) em situações semelhantes ou mais graves? Não vou aqui enumerar tais casos, alguns dos quais estão a correr no foro judicial, com rítmos claramente diferentes (reconhecido pelo PR) e relativamente mais consentâneos com os ditames legais. Será da pressão dessas fontes de informação e contra-informação? O que significaria que na área da justiça, neste país que parece ter galgado algumas distâncias positivas na área da liberdade de expressão e da comunicação social, continuaremos a ter casos Rafael Marques, William Tonet, Miala, 15+2, entre outros? Para tudo parecer igual à “justiça” dos últimos anos do consulado de José Eduardo dos Santos, só faltará a organização de algumas manifestações do partido no poder ou de algumas associações clamando: “nós somos milhões e contra milhões ninguém combate e quem combater será vencido; deixem a justiça fazer o seu trabalho”. Mais do que frustrante isso é para mim extremamente angustiante.
Como seria interessante que jornalistas de investigação tentassem esclerecer se se trata do regresso do “Sr Ordens Superiores” (rejeitado pelo actual PR), de simulação intimidatória consentida por algumas das próprias vítimas ou apenas antigos hábitos para tentar agradar os centros do poder, por tão ilustres dignitários do poder que nos deve julgar!?
Aberta está a discussão. Permito-me até que poderia ser um dos temas a ser tratado pela comissão recentemente criada pelo Presidente da República, para a Reforma da Justiça, que mais do que ocupar-se de estruturas e formalidades normativas, devia antes cuidar daquilo que, na minha opinião, mais tem corroído a nossa sociedade: atitudes lamentáveis dos nossos operadores políticos e judiciais, sempre afoitos em exibir a ideia do “agora é a nossa vez”. E não se diga, à partida, que se deve olhar para este caso como apenas um entre muitos. Pela sua visibilidade e acinte este é um caso paradigmático. Quem maltrata uma árvore, logo ali à beira do próprio quintal, não garante que nos venha a tratar bem da floresta. Falo da Justiça e do Direito e do seu papel para consolidar as transformações positivas que pareciam estar a ter lugar.
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"Marcolino José C. Moco - Advogado/Consultor/Docente Universitário/Conferencista
Marcolino Moco & Advogados - Ao serviço da Justiça e do Direito
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Pensar e Falar Angola
terça-feira, 2 de junho de 2020
domingo, 31 de maio de 2020
quarta-feira, 27 de maio de 2020
27 de Maio
A História só é possível fazer-se muitos anos depois. Há muitas feridas não saradas nos múltiplos ângulos desta questão. Há quem conheça a SUA história e ainda não consiga transmiti-la. Há quem saiba muito e tenha receio de falar. Há muita gente que fala e não sabe o que está a dizer. Há muito mito, muita ficção, muito passado atrás deste passado.
Quanto a este blog, não partidarizado, cabe lembrar a data, divulgar o que encontra, poder contribuir para a História, sabendo que a História tem muitos pontos de vista, o lado A e o lado B. Estamos disponíveis para saber TUDO de todos os lados.
P L A T A F O R M A 27 DE MAIO
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COMUNICADO DE IMPRENSA
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As associações integradas na PLATAFORMA 27 de MAIO, designadamente: a Associação 27 de Maio, a Associação M27 e o Grupo de Sobreviventes do 27 de Maio, levam ao conhecimento da opinião pública Angolana e Internacional o seguinte comunicado:
1. A PLATAFORMA 27 de MAIO tomou conhecimento da aprovação pela Assembleia Nacional, no passado dia 21 de Maio do ano em curso, da lei denominada “Regime Especial de Justificação dos Óbitos ocorridos em consequência de conflitos políticos”
2. A PLATAFORMA 27 de MAIO não pode deixar de manifestar que, embora tratando-se de um passo importante para responder aos sucessivos apelos dos familiares das vítimas e sobreviventes, o mesmo é, no entanto, manifestamente insuficiente, não podendo sequer ser considerado como um ponto de partida para um verdadeiro processo de Reconciliação Nacional e Pacificação da Sociedade Angolana.
3. A PLATAFORMA 27 de MAIO reitera a necessidade da realização de um registo histórico completo com vista a apurar as violações e abusos, a identificação pormenorizada das vítimas e perpetradores, bem como o papel das várias instituições estatais e não estatais, tal como de pessoas singulares com responsabilidade moral e material nas violações e abusos acorridos durante a repressão sangrenta. Só assim, com este acto de reconhecimento e de justiça, estarão reunidas as verdadeiras condições para uma reconciliação e regeneração social.
4. A PLATAFORMA 27 de MAIO insiste uma vez mais que, em função da gravidade e magnitude das atrocidades cometidas durante a repressão sangrenta, é indispensável que o processo do 27 de Maio de 1977 seja tratado separadamente dos demais “conflitos políticos,” para que se possa levar a cabo uma investigação séria, isenta e responsável.
5. O passado vive e continuará sempre a viver dentro das famílias afectadas por esta tragédia. A PLATAFORMA 27 de Maio mantém a reivindicação de um pedido de perdão expresso, por parte do Estado ou seus agentes, por tais crimes. É de facto necessário e imperioso proporcionar aos perpetradores, ainda vivos, a oportunidade de romperem com o passado, pedirem perdão e, na medida do que for possível, confessarem onde estão depositados os restos mortais das vítimas ainda desaparecidas. É absolutamente fundamental garantir a entrega dos restos mortais das vítimas desaparecidas às suas famílias.
6. Finalmente, a PLATAFORMA 27 de Maio insta o Governo Angolano a observar sem reservas, o disposto no artigo 4º do Acto Constitutivo da União Africana sobre a Política de Justiça Transicional, que orienta que na resolução pacífica dos conflitos, os Governos membros devem sempre levar em conta o respeito pelo carácter sagrado da vida humana e a condenação e rejeição da impunidade. Não observando tal exigência, à PLATAFORMA 27 de Maio, enquanto entidade representativa das vítimas, assiste plena legitimidade, à luz do Direito Internacional, de impugnar a política de impunidade que insiste adoptar como modelo, numa clara intenção de desresponsabilizar os responsáveis pela chacina perpetrada contra milhares de angolanos.
Luanda 27 de Maio de 2020
A Associação 27 de Maio
A Associação M 27
O Grupo de Sobreviventes 27 de Maio
terça-feira, 26 de maio de 2020
DIA DE ÁFRICA
Neste dia, em 1963, criou-se a Organização de Unidade Africana (OUA), na Etiópia, com o objetivo de defender e emancipar o continente africano.
Em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu o dia 25 de maio como o Dia da África ou o Dia da Libertação da África.
Em 2002 a OUA foi substituída pela União Africana mas a celebração da data manteve-se.
Este dia recorda a luta pela independência do continente africano, contra a colonização europeia e contra o regime do Apartheid, assim como simboliza o desejo de um continente mais unido, organizado, desenvolvido e livre.
A data é celebrada em vários países de África e pelos africanos espalhados pelo mundo.
domingo, 24 de maio de 2020
ENTREVISTA COM O DR. JOÃO VIEIRA LOPES
ENTREVISTA COM O DR.
JOÃO VIEIRA LOPES
Dia 18 de
Junho de 2010
Presenças:
João Vieira Lopes, Cristina Ataíde e Pinto, Carlos Ferreira
Carregue na ligação para abrir o PDF Online.
Pensar e Falar Angola

quarta-feira, 29 de abril de 2020
16 ANIVERSÁRIO COMPANHIA DE ACTORES DE ANGOLA
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020
quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
E vão mudando as cadeiras
O antigo ministro angolano Rui Mangueira foi esta quarta-feira eleito novo presidente do Conselho de Administração do Banco de Fomento Angola (BFA), numa deliberação unânime dos acionistas, informou o banco angolano.
Os acionistas Unitel, que detêm 51,9% do capital, e BPI (os restantes 48,1%) elegeram hoje os seus órgãos sociais para o triénio 2020/2022, designando além de Rui Mangueira, António Domingues e Osvaldo Salvador de Lemos Macaia como vice-presidentes.
Rui Jorge Carneiro Mangueira é jurista e diplomata de carreira e exerceu o cargo de ministro da Justiça e Direitos Humanos, no governo liderado pelo ex-Presidente José Eduardo dos Santos, entre 2012 e 2017.
Foi nomeado embaixador no Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte em março de 2018, por João Lourenço, tendo sido exonerado do cargo pelo Presidente angolano em outubro de 2019.
O anterior presidente do Conselho de Administração do Banco de Fomento Angola (BFA), Mário Leite Silva, apresentou a sua renúncia ao cargo na passada quinta-feira, decisão que justificou por ter sido excluído da nova lista de administradores aprovada em dezembro pela operadora de telecomunicações angolana Unitel.
A Comissão Executiva do BFA será presidida por António Manuel Silveira Catana e o Conselho Fiscal por Ari Nelson Brandão.
João Francisco Quipipa vai ser o presidente da Mesa da Assembleia Geral, que tem como vice-presidente Luís Graça Moura.
Mário Leite da Silva, gestor e apontado como o braço direito de Isabel dos Santos é um dos implicados nos esquemas financeiros vindos a público através da investigação jornalística conhecida como “Luanda Leaks” e foi constituído arguido pela Procuradoria-Geral da República de Angola.
Pensar e Falar Angola
sexta-feira, 24 de janeiro de 2020
Uma opinião de vez em quando
Ligo a televisão e só me aparece a Luanda Leaks. Mas onde é que estou? Passado, presente, futuro ou já me defuntei e isto é apenas uma cena dum filme de mal-feitores, mal feito, tardio, cinzento. Ou será que estou noutro país e não dei por ter mudado? A família em polvorosa. E o Senhor X, e o Y e reúnem-se aqui e ali. Só agora? Só estas personagens? E agora são todos contra? Bolas, Angola deve ter mais que fazer, mais que mostrar, mais que progredir. A Sra. Engenheira fez... e ninguém deu por nada na altura? Quem assinou por baixo? E ao lado? Quem foi que deu 750 mil documentos? Todos são deste caso??????
Acho que estou a assistir em directo na televisão da Banda a um golpe de Estado na Dipanda.
Seriamente: vamos arrumar tudo direitinho e deixar a justiça actuar. Não vamos acusar ninguém antes de tempo. Pratos limpos e tempo ao tempo com transparência.
Pensar e Falar Angola
quinta-feira, 16 de janeiro de 2020
quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
45 anos dos Acordos de Alvor
domingo, 5 de janeiro de 2020
segunda-feira, 16 de dezembro de 2019
quarta-feira, 4 de dezembro de 2019
Hoji-ya-Henda
Hoji-ya-Henda
José Mendes de Carvalho, mais conhecido por Hoji-ya-Henda (nome de Guerra), foi um comandante das FAPLA morto em combate.
É hoje um herói nacional angolano e patrono da juventude angolana.
O Comandante Hoji-ya-Henda (José Mendes de Carvalho), morreu em combate, aos 27 anos de idade, durante um assalto ao quartel de Karipande, do exército colonial português, no Moxico, em 14 de Abril de 1968.
A I Assembleia da III Região Militar do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), realizado no dia 23 de Março de 1969, declarou que, em sua memória, o 14 de Abril passa-se a ser comemorado, em Angola, como o Dia da Juventude Angolana.
Foi sepultado próximo do rio Lundoji a 30 quilómetros do então quartel de Karipande, da Frente Leste/3ª Região Político-Militar.
Já em Agosto de 1968, o MPLA havia atribuído a Hojy-ya-Henda o título de "Filho querido do povo angolano e combatente heróico do MPLA".
Uma assembleia que congregou, em Cabinda, há anos, várias associações juvenis, algumas das quais de partidos políticos, filiados no Conselho Nacional da Juventude (CNJ) determinou que o 14 de Abril continuaria a ser o Dia Nacional da Juventude Angolana.
Pensar e Falar Angola
terça-feira, 3 de dezembro de 2019
Quem foi Simão Toco
Você sabe quem foi Simão Toco?
Simão Gonçalves Toco nasceu em 1918 na localidade de Sadi-Zulumongo (Ntaia, Maquela Do Zombo, província do Uíge, Angola), tendo recebido o nome kikongo de Mayamona. Após frequentar o ensino primário na missão baptista de Kibokolo, concluiu os estudos liceais no Liceu Salvador Correia em Luanda.
Por esta altura, terá havido um acontecimento que chamaria de milagroso e que terá despoletado a sua missão religiosa: o encontro com Deus em Catete (Abril de 1935).
Regressa ao Uíge para trabalhar nas missões baptistas de Kibokolo e Bembe. Em 1942, decide partir para Leopoldville (Congo Belga) para colaborar com a missão local e dirigir um coro musical com cantores zombos, oriundos da mesma região que ele (Maquela do Zombo). A este coro dará o título de Coro de Kibokolo.
Em 1946, graças ao trabalho que lhe fora reconhecido no âmbito da missão baptista e do coro, foi convidado, juntamente com outros (Gaspar de Almeida e Jessé Chipenda Chiúla) para intervir nos trabalhos da Conferência Missionária Internacional Protestante, realizada de 15 a 21 de Julho de 1946, na localidade de Kaliná em Leopoldville (actual cidade de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo). Nesse momento, dirige uma prece onde pede para o Espírito Santo descer em África.
Tal prece é atendida a 25 de Julho de 1949 quando, após um desentendimento com a Missão Baptista de Leopoldville, decide convocar uma vigília de oração na sua residência (rua de Mayenge, nº 159).
Naquele momento, segundo contam os presentes, sentiram um vento e começaram a tremer, realizando milagres invocando algumas passagens bíblicas.
Este momento é assumido pelo tocoísmo como o momento em que o Espírito Santo desceu em África e a igreja cristã foi “relembrada”, de forma a retomar o caminho da igreja original do tempo dos Apóstolos. É portanto a data da fundação do movimento tocoísta.
Após estes acontecimentos, Simão Gonçalves Toco e muitos dos seus seguidores foram presos pelas autoridades belgas, sob a acusação de alterar a ordem pública.
Em Janeiro de 1950, são deportados do Congo Belga e entregues, no posto fronteiriço de Nóqui (província do Zaire), às autoridades portuguesas. Estas procuram dar por terminado o movimento daquilo que consideravam ser uma “seita perigosa”, dividindo o grupo em pequenos grupos que serão dispersos, no âmbito da política de povoamento colonial vigente à época, 4 em distintos colonatos e campos de trabalho forçado por toda a colónia. O líder é enviado numa primeira instância pelo Vale do Loge e, após passagens por Luanda, Caconda e Jáu, é enviado para a Baía dos Tigres, na província de Moçâmedes (hoje Namibe). Pouco tempo depois, é enviado para trabalhar como assistente num farol em Ponta Albina, na mesma região...
quinta-feira, 31 de outubro de 2019
segunda-feira, 7 de outubro de 2019
Luanda, era uma vez na Baixa
Luanda, era uma vez na Baixa
Rui Ramos
5 de Outubro, 2019
Ao domingo, entre o largo do Baleizão e a Lello, a avenida Rainha Njinga, antiga avenida dos Restauradores, transforma-se numa pista.
Apesar da sua proximidade com a principal esquadra da Polícia Nacional, a larga via não é patrulhada nem possui qualquer sinalética horizontal, num vasto percurso, nem passadeiras para peões. Quando cai a noite, um grande troço mergulha na escuridão por ausência de iluminação pública, mas ao lado do degradado e agora entaipado Baleizão a iluminação funciona sempre em quatro postes, dia e noite. No lado oposto, há troços sem iluminação, que só surge lá no fundo, nas imediações da empresa francesa Total.
Não é raro ver-se, aos domingos, carros e motorizadas a alta velocidade e jovens a patinar nas faixas, tudo num zigue-zague despido de temor no meio de centenas ou milhares de jovens que vão ou vêm da Ilha a pé e passam rapidamente pela “cidade” ao encontro dos seus bairros. É a rua que liga a Fortaleza de S. Miguel, hoje Museu Militar, e anfitriã do centro comercial Fortaleza, ao centro da cidade. A encosta da fortaleza já foi poiso de macacos nos tempos idos do colonialismo e a rua que a circunda lugar de namoro romântico.
O centro de Luanda onde imperam os altaneiros e novéis prédios da Sonangol, em vias de ser privatizada, a antiga livraria Lello, hoje fantasmagórica, o largo da Portugália, onde os portugueses faziam câmbio paralelo, com as suas duas árvores-avós, o prédio da Biker - ainda com alguns serviços, como a Foto Ngufo, e com um “restaurante típico", fechado com chapas e onde ratos e insectos convivem com o povo real que aí almoça por mil kwanzas, num ambiente “apocalíptico” -, que já albergou mesas de snooker e ambiente de tertúlia de jornalistas, outros tempos, pré-históricos, de que não restam escritos. Ali ao lado destruíram o largo e edificaram dois blocos de vidro com dezenas de andares, onde trabalha uma classe burocrática nacional-expatriada.
Mas a grande avenida não se detém, na esquina onde era a Sonylândia e hoje é um banco, estreita-se, a Moviflor portuguesa substituiu o luxuoso Quintas & Irmão, cujo dono permaneceu na Independência, mas viu a sua casa ocupada ilegalmente, e o fundo da rua desemboca no Eixo-Viário, uma obra feita pelo colonialismo português, que liga o Kinaxixi à Marginal e ao Miramar, hoje quase toda castanha e sem verdura, com iluminação aqui e ali.
As árvores começaram a ser arrancadas em 1975, quando começou a faltar o carvão para cozinhar, e o Largo do Ambiente é frio, nada acolhedor, quase escuro e sem presença humana. Eixo-Viário do antigo Benfica de Luanda do Victorino Cunha, onde os portugueses plantaram verdura nas barrocas e a Independência construiu arranha-céus da Sonangol e de outras empresas estatais majestáticas. Os abandonados e degradados edifícios coloniais, com janelas com persianas, são na maioria “fantasmas” mudos e quietos, desafiando o futuro da capital.
Um mundo novo
O centro de Luanda onde imperam os altaneiros e novéis prédios da Sonangol, em vias de ser privatizada, a antiga livraria Lello, hoje fantasmagórica, o largo da Portugália, onde os portugueses faziam câmbio paralelo, com as suas duas árvores-avós, o prédio da Biker - ainda com alguns serviços, como a Foto Ngufo, e com um “restaurante típico", fechado com chapas e onde ratos e insectos convivem com o povo real que aí almoça por mil kwanzas, num ambiente “apocalíptico” -, que já albergou mesas de snooker e ambiente de tertúlia de jornalistas, outros tempos, pré-históricos, de que não restam escritos. Ali ao lado destruíram o largo e edificaram dois blocos de vidro com dezenas de andares, onde trabalha uma classe burocrática nacional-expatriada.
Mas a grande avenida não se detém, na esquina onde era a Sonylândia e hoje é um banco, estreita-se, a Moviflor portuguesa substituiu o luxuoso Quintas & Irmão, cujo dono permaneceu na Independência, mas viu a sua casa ocupada ilegalmente, e o fundo da rua desemboca no Eixo-Viário, uma obra feita pelo colonialismo português, que liga o Kinaxixi à Marginal e ao Miramar, hoje quase toda castanha e sem verdura, com iluminação aqui e ali.
As árvores começaram a ser arrancadas em 1975, quando começou a faltar o carvão para cozinhar, e o Largo do Ambiente é frio, nada acolhedor, quase escuro e sem presença humana. Eixo-Viário do antigo Benfica de Luanda do Victorino Cunha, onde os portugueses plantaram verdura nas barrocas e a Independência construiu arranha-céus da Sonangol e de outras empresas estatais majestáticas. Os abandonados e degradados edifícios coloniais, com janelas com persianas, são na maioria “fantasmas” mudos e quietos, desafiando o futuro da capital.
Um mundo novo
Os colonos foram embora e o Estado tomou conta das suas propriedades, expropriou e começou a vender a si próprio ao desbarato. Os elevadores foram destruídos e transformados em contentores de lixo, os corrimãos das escadas desapareceram, divisões e mais divisões foram construídas sem qualquer plano ou segurança para albergar familiares vindos dos bairros e do mundo rural, nada oferecido, tudo pago.
Os quintais foram apropriados por quem chegou primeiro e transformados em autênticas “pensões residenciais” surreais, com divisões precárias e sujas alugadas a bom preço, 40-50 mil kwanzas mensais, porque estão na cidade e Luanda é a cidade mais cara do mundo. Os quintais, ou melhor, os cubículos também são alugados ao dia às zungueiras para guardarem as mercadorias que não conseguem carregar para os seus casebres nos bairros.
Mas não só, os quintais são pontos de grande tráfego comercial, sobretudo, de bebidas alcoólicas, quem os detém há mais tempo usufrui de tudo o que pode acrescentar dinheiro sem muito trabalho.
Os terraços não existem. Em seu lugar surgiu uma miríade de cubículos, muitos de chapa, sem água e quase sempre com luz puxada de gatos e paga mensalmente a alguém, alugados por quem chegou primeiro ao prédio e se diz “dono”. O luandense é manso. Quando lhe falam “o dono”, se cala, se ajoelha, submisso, e paga, mesmo que o dinheiro não seja o seu, e depois diz em voz baixa “está mal”.
Sem árvores
Só se encontram árvores com troncos muito grossos, sinal de longa vida, árvores coloniais, no Largo do Atlético, hoje largo sem nome definido, mas que 44 anos após a proclamação da Independência continua a celebrar a batalha de Ambuíla, que ditou a perda da soberania do Reino do Congo e a decapitação do rei, cuja cabeça foi transportada para a ermida da Nazaré, na Marginal, que este ano comemora 355 anos. Um largo agora fechado e em obras sem prazo. As vendedoras dizem-me que passou para a propriedade do banco BCI, "se apropriaram", diz-me um jovem que todos os dias me pede dinheiro para comer.
Do BCI não é o urinol da esquina, que não funciona, nunca funcionou. Importado a peso de ouro do Brasil, a “casa de banho” faz parte de outras talvez centenas espalhadas pela cidade que nunca funcionaram. Ninguém conhece os contornos do negócio, apenas se sabe que nunca funcionaram, nem se conhece ninguém que tenha lá dentro urinado.
O Rialto já não existe, só ficaram as saudades dos apetitosos pregos com jindungo e os finos tirados com a pressão exacta. Em seu lugar, recentemente, foi construído um alvo Monumento ao Soldado Desconhecido. Os jovens não sabem o que isso seja, imaginam, segundo me disse um jovem na rua, ser um soldado sem registo de nascimento.
Ali ao lado estão os Correios, já centenários, mas de que ninguém parece tirar utilidade. Perguntámos a um jovem, vagabundeando por ali, o que são os correios. Ele olhou, tranquilo e respondeu muito sereno “não sei, pai”. Ninguém sabe nada, aqui nesta cidade. Também não precisam de saber. O tempo parou, sitiado entre a madrugada das 6 horas e o pôr do sol das 18 horas, vaivém, a cidade se povoa e despovoa, aqui se faz tudo, mas ninguém é daqui, as pessoas desabitam aqui, por isso não há tempo.
Os quintais foram apropriados por quem chegou primeiro e transformados em autênticas “pensões residenciais” surreais, com divisões precárias e sujas alugadas a bom preço, 40-50 mil kwanzas mensais, porque estão na cidade e Luanda é a cidade mais cara do mundo. Os quintais, ou melhor, os cubículos também são alugados ao dia às zungueiras para guardarem as mercadorias que não conseguem carregar para os seus casebres nos bairros.
Mas não só, os quintais são pontos de grande tráfego comercial, sobretudo, de bebidas alcoólicas, quem os detém há mais tempo usufrui de tudo o que pode acrescentar dinheiro sem muito trabalho.
Os terraços não existem. Em seu lugar surgiu uma miríade de cubículos, muitos de chapa, sem água e quase sempre com luz puxada de gatos e paga mensalmente a alguém, alugados por quem chegou primeiro ao prédio e se diz “dono”. O luandense é manso. Quando lhe falam “o dono”, se cala, se ajoelha, submisso, e paga, mesmo que o dinheiro não seja o seu, e depois diz em voz baixa “está mal”.
Sem árvores
Só se encontram árvores com troncos muito grossos, sinal de longa vida, árvores coloniais, no Largo do Atlético, hoje largo sem nome definido, mas que 44 anos após a proclamação da Independência continua a celebrar a batalha de Ambuíla, que ditou a perda da soberania do Reino do Congo e a decapitação do rei, cuja cabeça foi transportada para a ermida da Nazaré, na Marginal, que este ano comemora 355 anos. Um largo agora fechado e em obras sem prazo. As vendedoras dizem-me que passou para a propriedade do banco BCI, "se apropriaram", diz-me um jovem que todos os dias me pede dinheiro para comer.
Do BCI não é o urinol da esquina, que não funciona, nunca funcionou. Importado a peso de ouro do Brasil, a “casa de banho” faz parte de outras talvez centenas espalhadas pela cidade que nunca funcionaram. Ninguém conhece os contornos do negócio, apenas se sabe que nunca funcionaram, nem se conhece ninguém que tenha lá dentro urinado.
O Rialto já não existe, só ficaram as saudades dos apetitosos pregos com jindungo e os finos tirados com a pressão exacta. Em seu lugar, recentemente, foi construído um alvo Monumento ao Soldado Desconhecido. Os jovens não sabem o que isso seja, imaginam, segundo me disse um jovem na rua, ser um soldado sem registo de nascimento.
Ali ao lado estão os Correios, já centenários, mas de que ninguém parece tirar utilidade. Perguntámos a um jovem, vagabundeando por ali, o que são os correios. Ele olhou, tranquilo e respondeu muito sereno “não sei, pai”. Ninguém sabe nada, aqui nesta cidade. Também não precisam de saber. O tempo parou, sitiado entre a madrugada das 6 horas e o pôr do sol das 18 horas, vaivém, a cidade se povoa e despovoa, aqui se faz tudo, mas ninguém é daqui, as pessoas desabitam aqui, por isso não há tempo.
As fugitivas da Independência
Os extremos da extensa avenida Njinga ou Jinga ou Nzinga ou Ginga são dominados pelo banco estatal BPC, a agência Kaponte e a agência lá do fundo perto do Eixo Viário, ao lado da Unitel. Ninguém sabe o que é Kaponte, os jovens, desempregados, não sabem nada, não lhes diz respeito. Mas Kaponte pode ser uma pequena ponte, aquela ponte que liga à Praia do Bispo e onde se mataram, dizem, brancos desesperados com dívidas ou com desamores, naqueles tempos remotos.
Lá dentro do BPC, para onde os mais velhos espreitam, diz-nos o jovem Mbambi, nunca há sistema nos computadores, especialmente, reforça, depois das 14h-14h30. Os funcionários querem ir para casa e não toleram ser retardados por clientes sem dinheiro, mas com problemas complexos deles, de primos e tios que obrigam a consultas demoradas.
Lá fora, um mundo mudo, ninguém fala, toda a gente parada sentando-se onde pode. É o mundo das kinguilas, as cambistas de rua, as verdadeiras bancárias do sistema, que também vendem recargas da Unitel, são dezenas largas de mamãs opulentas, vigilantes, carregadas de kwanzas e de divisas, inexistentes nos Bancos. A operação Transparência não lhes toca, parecem da família. Só dão corrida nas pobres zungueiras que povoam a Baixa durante o dia, sempre com um olho aqui outro ali, já estrábicas, tipo ciganas na Europa, prontas a correr em defesa da mercadoria. São as fugitivas da Independência.
Mas é também o mundo dos pensionistas, centenas, ou milhares todos os dias desde manhã cedo, ainda quase escuro e ao som dos primeiros pio-pio dos agora raros pardais, seres ainda vivos se abeirando do óbito, tentando ver se a pensão já caiu. Não têm cartões multicaixa, levam um papelinho muito gasto ao balcão com nome e número da conta para averiguar. Começam a entrar às 8h00 e só param no início da tarde, comendo poeira e fome.
A burguesinha, essa, trabalha nos Bancos enquanto não há despedimentos. Fatinhos com calças e casacos apertados, elas com boas roupas oferecidas por não se sabe quem, com vestidos parecendo que estão na “City” de Londres. Em comum, têm a vaidade, a arrogância, a jactância, a mente vazia. Não dão confiança aos pobres, aos sujos, como que para enxotarem a sua consciência. Ah, os burguesinhos da Sonangol também não se misturam. Mas às 12h00 eles ficam com água na boca, quando os inexistentes aparecem no muro baixo com dezenas de recipientes de alumínio com almoço para venda, cada mil.
Os pobres? Estão por todo o lado na Baixa de Luanda, imóveis. Pobres, é uma maneira de escrever, porque nem mesmo todo o dinheiro do mundo os tiraria da pobreza, porque, na verdade, têm medo da riqueza, assusta-os, não saberiam o que fazer com ela. Como se a pobreza fosse já uma tatuagem na pele.
Lá dentro do BPC, para onde os mais velhos espreitam, diz-nos o jovem Mbambi, nunca há sistema nos computadores, especialmente, reforça, depois das 14h-14h30. Os funcionários querem ir para casa e não toleram ser retardados por clientes sem dinheiro, mas com problemas complexos deles, de primos e tios que obrigam a consultas demoradas.
Lá fora, um mundo mudo, ninguém fala, toda a gente parada sentando-se onde pode. É o mundo das kinguilas, as cambistas de rua, as verdadeiras bancárias do sistema, que também vendem recargas da Unitel, são dezenas largas de mamãs opulentas, vigilantes, carregadas de kwanzas e de divisas, inexistentes nos Bancos. A operação Transparência não lhes toca, parecem da família. Só dão corrida nas pobres zungueiras que povoam a Baixa durante o dia, sempre com um olho aqui outro ali, já estrábicas, tipo ciganas na Europa, prontas a correr em defesa da mercadoria. São as fugitivas da Independência.
Mas é também o mundo dos pensionistas, centenas, ou milhares todos os dias desde manhã cedo, ainda quase escuro e ao som dos primeiros pio-pio dos agora raros pardais, seres ainda vivos se abeirando do óbito, tentando ver se a pensão já caiu. Não têm cartões multicaixa, levam um papelinho muito gasto ao balcão com nome e número da conta para averiguar. Começam a entrar às 8h00 e só param no início da tarde, comendo poeira e fome.
A burguesinha, essa, trabalha nos Bancos enquanto não há despedimentos. Fatinhos com calças e casacos apertados, elas com boas roupas oferecidas por não se sabe quem, com vestidos parecendo que estão na “City” de Londres. Em comum, têm a vaidade, a arrogância, a jactância, a mente vazia. Não dão confiança aos pobres, aos sujos, como que para enxotarem a sua consciência. Ah, os burguesinhos da Sonangol também não se misturam. Mas às 12h00 eles ficam com água na boca, quando os inexistentes aparecem no muro baixo com dezenas de recipientes de alumínio com almoço para venda, cada mil.
Os pobres? Estão por todo o lado na Baixa de Luanda, imóveis. Pobres, é uma maneira de escrever, porque nem mesmo todo o dinheiro do mundo os tiraria da pobreza, porque, na verdade, têm medo da riqueza, assusta-os, não saberiam o que fazer com ela. Como se a pobreza fosse já uma tatuagem na pele.
Mundo dos pescadores deu lugar à nova Ilha
A Ilha, de um lado e de outro, onde o Sol nasce e o Sol se põe, era o mundo dos pescadores, um povo que nunca se misturou com os continentais. Os homens, de panos, vinham à cidade dos brancos à tarde, vender ostras e eram exímios nadadores. Não se sabe como a Ilha de Luanda se degradou, foi rápido. De repente a Floresta foi invadida pelo lixo, por rapazes e delinquentes, pela Polícia Fiscal e por barcaças transformadas em empresas.
O hotel Panorama, único no mundo onde os quartos virados para o oceano eram mais baratos do que os quartos virados para a cidade, ninguém sabe como foi destruído, ninguém sabe de nada. Lá dentro há quadrilhas de miúdos, sobrevivem dia-a-dia, entre cheiro de gasolina, liamba e outros acessórios de morte, fugindo à Polícia que os vai rusgando de vez em quando.
Assim, sem mais nem menos, os afortunados conseguiram boas casas. Foi só mandar fazer obras com o dinheiro do OGE. Outros, amancebados com o poder, construíram prédios que noutras partes do mundo são proibidos junto à praia. Os primos começaram a pedir para abrir bares e restaurantes. “São meus primos”, disse-me alguém, “que podia fazer senão autorizar?”.
Há muitos anos, a Ilha estava dividida. As praias não eram universais, havia as dos brancos e a dos “patrícios”.O Harlém era em frente da Marinha e os brancos não punham lá os pés, não se misturavam. Depois passou para os soviéticos que estavam na Marinha, iam todos de igual nadar.
No fundo da Ilha, de um lado e do outro, no Cabo e na Chicala, podia-se namorar dentro do carro, mesmo em 1980 havia segurança. À noite podia-se romantizar, mas depois tudo mudou. Os namoros foram para outros lados; o Cabo foi entaipado com obras, já não se chama assim, é o “Ponto Final”. A Chicala já não tem a rotunda nem asfalto e foi tomada por populações que sobrevivem de muitos negócios, desde venda de peixe, mufete, prostituição e, curiosamente, golpeando veleidades turísticas, o parque de recolha de viaturas do Governo Provincial de Luanda assentou arraiais na Praia do Sol, onde nós íamos com as nossas namoradas nos idos 1960.
Hoje, já ninguém fala dos pescadores. Parece que foram tragados pelo mar. Diz-se "vamos à Ilha comprar peixe", mas não se diz a quem se compra, é a alguém indefinido. Na Ilha, hoje, coexistem sem se misturar os portugueses com as suas praias quase privadas e milhares de jovens que deambulam sem sentido, bebendo cerveja ou convivendo apenas, enchendo todos os espaços ao fim de semana e semeando as praias com cacos de garrafas de cerveja.
A Ilha descaracterizou-se, está entaipada. Do lado direito, infindáveis muros de chapa escondem as praias e a Baía, de noite, longos percursos da avenida estão ás escuras e não é agradável. De repente, encaramo-nos com as rotundas sem iluminação. Mas imperam os restaurantes de luxo, de um lado e de outro, com animação nocturnas, mas sem saneamento básico, tudo improvisado, come e os restos deita no mar.
O hotel Panorama, único no mundo onde os quartos virados para o oceano eram mais baratos do que os quartos virados para a cidade, ninguém sabe como foi destruído, ninguém sabe de nada. Lá dentro há quadrilhas de miúdos, sobrevivem dia-a-dia, entre cheiro de gasolina, liamba e outros acessórios de morte, fugindo à Polícia que os vai rusgando de vez em quando.
Assim, sem mais nem menos, os afortunados conseguiram boas casas. Foi só mandar fazer obras com o dinheiro do OGE. Outros, amancebados com o poder, construíram prédios que noutras partes do mundo são proibidos junto à praia. Os primos começaram a pedir para abrir bares e restaurantes. “São meus primos”, disse-me alguém, “que podia fazer senão autorizar?”.
Há muitos anos, a Ilha estava dividida. As praias não eram universais, havia as dos brancos e a dos “patrícios”.O Harlém era em frente da Marinha e os brancos não punham lá os pés, não se misturavam. Depois passou para os soviéticos que estavam na Marinha, iam todos de igual nadar.
No fundo da Ilha, de um lado e do outro, no Cabo e na Chicala, podia-se namorar dentro do carro, mesmo em 1980 havia segurança. À noite podia-se romantizar, mas depois tudo mudou. Os namoros foram para outros lados; o Cabo foi entaipado com obras, já não se chama assim, é o “Ponto Final”. A Chicala já não tem a rotunda nem asfalto e foi tomada por populações que sobrevivem de muitos negócios, desde venda de peixe, mufete, prostituição e, curiosamente, golpeando veleidades turísticas, o parque de recolha de viaturas do Governo Provincial de Luanda assentou arraiais na Praia do Sol, onde nós íamos com as nossas namoradas nos idos 1960.
Hoje, já ninguém fala dos pescadores. Parece que foram tragados pelo mar. Diz-se "vamos à Ilha comprar peixe", mas não se diz a quem se compra, é a alguém indefinido. Na Ilha, hoje, coexistem sem se misturar os portugueses com as suas praias quase privadas e milhares de jovens que deambulam sem sentido, bebendo cerveja ou convivendo apenas, enchendo todos os espaços ao fim de semana e semeando as praias com cacos de garrafas de cerveja.
A Ilha descaracterizou-se, está entaipada. Do lado direito, infindáveis muros de chapa escondem as praias e a Baía, de noite, longos percursos da avenida estão ás escuras e não é agradável. De repente, encaramo-nos com as rotundas sem iluminação. Mas imperam os restaurantes de luxo, de um lado e de outro, com animação nocturnas, mas sem saneamento básico, tudo improvisado, come e os restos deita no mar.
A Baixa
A Baixa de Luanda sem a Marginal não teria norte, já não tem o Porto Pesqueiro frente ao Banco Nacional, nem o Mercado Municipal. Mas ainda tem a Alfândega, a Marinha e a Polícia, convivendo com arranha-céus dignos de um Abu Dabi, com auto-saneamento e auto-energia, onde vivem ou trabalham exemplares da classe alta burocrática, despachando com tranquilidade os expedientes, porque aqui não há pressa para nada.
Para o interior, as ruínas dos armazéns do Minho, onde as senhoras brancas iam comprar tecidos e vestidos, um mundo que se extinguiu, só sobrou o Mabílio Albuquerque que vende “coisas”. A Baixa de Luanda é um extenso e intenso “musseque”, tudo está ocupado, parece que as poucas árvores poluem, cortam-se, ocupam lugares que podem ser rentabilizados pelos miúdos vindos do fim do mundo e que tomaram conta das ruas durante o dia, arrumando e lavando os carros, com “puxadas” de água gratuita da EPAL.
Rainha Njinga, a estátua, enorme, jaz à entrada da fortaleza, à espera que os arranha-céus do Kinaxixi, onde eu já vi uma grande lagoa com uma mafumeira e um majestático mercado de frescos verdadeiros, vindos das hortas da cintura de Luanda, sejam pagos, um dia, um dia, como os portugueses dizem, de “são nunca”.
Avenida Rainha Njinga, que podia ser uma metrópole, mas que em dias de enxurradas se transforma em rio lamacento, lançando água na Baía, rua da dança capoeira dos domingos à tarde, dos candongueiros para os “congolé”, das zungueiras em frente da Sé, que deixou se ser Sé, mas mantém a travessa, vendendo fruta, tambarindos, maçâs da índia, loengos, gajajas, caju, mangas, mulheres sem sorriso sentando no fio do muro ou na pedra para endurecer os interiores, fugindo, fugindo dos fiscais da Administração, submissas, a sua mente se organizou há muito, netas dos rusgados dos cipaios do chefe do posto Poeira.
As galerias Kibabo abriram onde era a antiga, luxuosa e branca Versalhes, agora também dirigidas por brancos, um mundo de compra e venda de tudo: plásticos baratos, pequenos empregos que mal dão para apanhar o candongueiro. Mas a actividade comercial atraiu também um enxame de rapazes sujos, de cabelo a ficar russo, que enfrentam tudo e todos os poderes para ficarem na porta, pedindo esmola para o pão ou para os pais ou para outras coisas.
Há muito, muito tempo, a Baixa era apropriação de uma parte da população branca. A população negra vinha dos bairros, a pé ou de autocarro, trabalhar nas fábricas, nas lojas e nas casas. Muita gente passava a correr pela pensão Fomentadora, no Kinaxixi, para comer uma grande sandes de peixe frito e uma grande caneca de café muito açucarado. Pré-História.
No dia da Independência, no próprio dia, a Baixa transfigurou-se, parecia não existir, nem uma só alma nas ruas, sentia-se medo pela solidão, tinha sido o mundo dos brancos, que de repente foram embora. Quem primeiro se apropriou nos novos tempos da Luanda africana foram os “regressados do Zaire”, invadiram tudo, criaram a venda parada no chão das ruas, não era raro encontrá-los na Mutamba, de manhã, em pijama, na rua. Todo o mundo queria sair dos bairros e viver na cidade do asfalto. Mas era um mundo estranho, não era do povo, era algo que se plantou ali, vindo de fora.
Para o interior, as ruínas dos armazéns do Minho, onde as senhoras brancas iam comprar tecidos e vestidos, um mundo que se extinguiu, só sobrou o Mabílio Albuquerque que vende “coisas”. A Baixa de Luanda é um extenso e intenso “musseque”, tudo está ocupado, parece que as poucas árvores poluem, cortam-se, ocupam lugares que podem ser rentabilizados pelos miúdos vindos do fim do mundo e que tomaram conta das ruas durante o dia, arrumando e lavando os carros, com “puxadas” de água gratuita da EPAL.
Rainha Njinga, a estátua, enorme, jaz à entrada da fortaleza, à espera que os arranha-céus do Kinaxixi, onde eu já vi uma grande lagoa com uma mafumeira e um majestático mercado de frescos verdadeiros, vindos das hortas da cintura de Luanda, sejam pagos, um dia, um dia, como os portugueses dizem, de “são nunca”.
Avenida Rainha Njinga, que podia ser uma metrópole, mas que em dias de enxurradas se transforma em rio lamacento, lançando água na Baía, rua da dança capoeira dos domingos à tarde, dos candongueiros para os “congolé”, das zungueiras em frente da Sé, que deixou se ser Sé, mas mantém a travessa, vendendo fruta, tambarindos, maçâs da índia, loengos, gajajas, caju, mangas, mulheres sem sorriso sentando no fio do muro ou na pedra para endurecer os interiores, fugindo, fugindo dos fiscais da Administração, submissas, a sua mente se organizou há muito, netas dos rusgados dos cipaios do chefe do posto Poeira.
As galerias Kibabo abriram onde era a antiga, luxuosa e branca Versalhes, agora também dirigidas por brancos, um mundo de compra e venda de tudo: plásticos baratos, pequenos empregos que mal dão para apanhar o candongueiro. Mas a actividade comercial atraiu também um enxame de rapazes sujos, de cabelo a ficar russo, que enfrentam tudo e todos os poderes para ficarem na porta, pedindo esmola para o pão ou para os pais ou para outras coisas.
Há muito, muito tempo, a Baixa era apropriação de uma parte da população branca. A população negra vinha dos bairros, a pé ou de autocarro, trabalhar nas fábricas, nas lojas e nas casas. Muita gente passava a correr pela pensão Fomentadora, no Kinaxixi, para comer uma grande sandes de peixe frito e uma grande caneca de café muito açucarado. Pré-História.
No dia da Independência, no próprio dia, a Baixa transfigurou-se, parecia não existir, nem uma só alma nas ruas, sentia-se medo pela solidão, tinha sido o mundo dos brancos, que de repente foram embora. Quem primeiro se apropriou nos novos tempos da Luanda africana foram os “regressados do Zaire”, invadiram tudo, criaram a venda parada no chão das ruas, não era raro encontrá-los na Mutamba, de manhã, em pijama, na rua. Todo o mundo queria sair dos bairros e viver na cidade do asfalto. Mas era um mundo estranho, não era do povo, era algo que se plantou ali, vindo de fora.
Que futuro?
Sem transportes públicos, sem uma malha comercial digna desse nome, sem saneamento básico conhecido, com escassos minimercados, sem um mercado de frescos, nem sequer uma livraria digna desse nome, a Baixa, e sobretudo a sua parte central, a extensa avenida Rainha Njinga é a parente pobre da Marginal, reconstruída e embelezada pela Independência.
Aí coexistem as classes mais altas e as mais baixas, como dois mundos intocáveis. A degradação do entaipado prédio do antigo “Diário de Luanda” contraria os arranha-céus de vidro, que parecem redomas extraterrestres numa Luanda que precisa de ar, de vento, de céu. Nos becos, também há becos e contrabecos desaguando na Rainha, mil negócios silenciosos. A liamba instalou-se num trono de que não abdica, imperando nos lados dos degradados Coqueiros, outrora coqueluche dos brancos.
Há um plano director, dizem, mas tudo tem plano director em Angola, tudo tem “desiderato” e tudo vai acontecer “brevemente”. O futuro é, pois uma incógnita, como o “X” de uma equação simpels, mas que se complica pela incompetência, pelo laxismo, pela corrupção transversal à sociedade. Por trás de um aparente modernismo, toda esta vasta zona, outrora “chique”, alberga centenas de milhares de pessoas em cada canto, casebres construídos dentro de outros casebres.
Já não há terminal de autocarros digno desse nome na Mutamba. O poder agora é dos candongueiros e dos “corolas”, pão e cerveja de muitos lares. Em plena Rainha Njinga, sim, funciona a “Mutamba”, na esquina frente à Embaixada da Guiné, candongueiros de e para os subúrbios. Tentaram “colocar” mini-autocarros, mas só os vi um dia.
O que vai acontecer a tantos edifícios degradados no tempo colonial? Como será a cidade de Luanda daqui a 20 anos? O futuro a quem pertence? Quem agarra nele com coragem e sem medo? Os “velhos luandenses” estão em risco de extinção. Em seu lugar, uma multidão dessincronizada de jovens, “por enquanto jovens”, imigrantes, vindos de todo o lado, que de Luanda só sabem que têm de ganhar o pão nosso de cada dia e, utopicamente, um emprego.
Aí coexistem as classes mais altas e as mais baixas, como dois mundos intocáveis. A degradação do entaipado prédio do antigo “Diário de Luanda” contraria os arranha-céus de vidro, que parecem redomas extraterrestres numa Luanda que precisa de ar, de vento, de céu. Nos becos, também há becos e contrabecos desaguando na Rainha, mil negócios silenciosos. A liamba instalou-se num trono de que não abdica, imperando nos lados dos degradados Coqueiros, outrora coqueluche dos brancos.
Há um plano director, dizem, mas tudo tem plano director em Angola, tudo tem “desiderato” e tudo vai acontecer “brevemente”. O futuro é, pois uma incógnita, como o “X” de uma equação simpels, mas que se complica pela incompetência, pelo laxismo, pela corrupção transversal à sociedade. Por trás de um aparente modernismo, toda esta vasta zona, outrora “chique”, alberga centenas de milhares de pessoas em cada canto, casebres construídos dentro de outros casebres.
Já não há terminal de autocarros digno desse nome na Mutamba. O poder agora é dos candongueiros e dos “corolas”, pão e cerveja de muitos lares. Em plena Rainha Njinga, sim, funciona a “Mutamba”, na esquina frente à Embaixada da Guiné, candongueiros de e para os subúrbios. Tentaram “colocar” mini-autocarros, mas só os vi um dia.
O que vai acontecer a tantos edifícios degradados no tempo colonial? Como será a cidade de Luanda daqui a 20 anos? O futuro a quem pertence? Quem agarra nele com coragem e sem medo? Os “velhos luandenses” estão em risco de extinção. Em seu lugar, uma multidão dessincronizada de jovens, “por enquanto jovens”, imigrantes, vindos de todo o lado, que de Luanda só sabem que têm de ganhar o pão nosso de cada dia e, utopicamente, um emprego.
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