sexta-feira, 19 de junho de 2020

Dr. Marcolino Moco - A mesa do café


Interessados na História do Direito e da Justiça ou mesmo no âmbito mais largo da História Universal, já ouviram falar, certamente, do caso Dreyfus, que decorreu entre os anos de 1894 a 1904, em França. Telegraficamente, para quem nunca ouvio falar: No cesto de papéis do adido militar da Embaixada alemã, em França, é descoberto, por uma empregada francesa, um documento suspeito de resultar de uma acção de espionagem contra o país. De forma quase aleatória, aliás, sob um critério no mínimo eivado de anti-semitismo, é atribuída responsabilidade de tal actividade espiã, a um oficial francês de origem hebraica que funcionava num dos mais altos escalões da Forças Armadas, de seu nome Alfred Dreyfus. Do coro de vozes daqueles que, em circunstância semelhantes, apresentam-se sempre como os mais autênticos guardiões do patriotismo e dos valores mais sublimes do país e pela aparente necessidade de a “culpa nunca dever morrer solteira”, à formalização judicial duma acusação gratuita, não foram muitos passos. Resultado: Dreyfus foi condenado ao degredo militar e prisão perpétua para uma ilha, ironicamente, chamada do Diabo. O homem só se livraria dessa situação (que deve ter inspirado o escritor Franz Kafka na concepção do seu, mundialmente, conhecido romance “O processo”) anos depois, por reacções persistentes da sociedade, ante evidencias tão claras de que Dreyfus não estava de forma alguma ligado àquele documento, nem à qualquer outro acto de espionagem, a favor da Alemanha. Tenho razões para esperar que esta comparação, entre um caso de justiça francesa, ancorada no foro militar, de finais do século XIX e princípios do XX, com o nosso caso Tomás/CNC (mesmo que por maioria de razão, este último mais escandaloso que o primeiro, se tivermos em conta que corre no século XXI e no foro civil de uma república em plena “nova era”) vai ser apodada, por alguns, como despropositada. E lá me cairá em cima mais uma saraivada de insultos e insinuações. Não se confunda, essa referência, com opiniões diferentes da minha, quer sejam de carácter técnico-jurídico (que vários juristas têm levantado porque tão fáceis de constatar) quer de outro tipo de avaliação. Eu sou “forçado” a regressar a este caso (que, entre outros, abordei, apenas a título exemplificativo, em sede de uma tese de carácter mais geral, já consagrada em livro) numa altura em que tenho evitado intervenções mais assíduas, para contornar uma conotação promovida de que eu esteja a ser um factor de estorvo aos esforços da nova direcção do país, cuja emergência saudei, por nos ter dado sinais iniciais relativamente positivos. É que no âmbito de mais uma oportunidade para a Justiça angolana puder emendar um soneto marcado por uma crueldade inaudita e, sobretudo, por um tratamento claramente desigual, não só a Augusto Tomás mas a todos os elementos do CNC (que, aparentemente, só estão ali porque o destino cruel os ligou ao antigo Ministro dos Transportes) se começa pressentir um “déjá vu” de informações e contra-informações. Até, pasme-se, nessas informações e contra-informações, coloca-se em causa o engajamento de uma advogada, na defesa do seu próprio constituinte. Como se não fosse de lei fazê-lo. Já para não falar de uma estranha notícia (boato-desejo?) que refere eventual jubilado compulsivo do actual Presidente do Tribunal Constitucional. Já para não referir também, quiçá de mesmas estranhas fontes, a indução em erro que ocorreu em tempos, de que Tomás teria sido libertado, causando equivocado mal-estar em sectores da população que acredita, piamente, que o caso CNC/Augusto Tomás se enquadra no âmbito de um processo justo, em sede do combate cerrado à corrupção. Será que a nossa Justiça quer que este caso de injustiça tão evidente termine assim mesmo? E, sobretudo, será que essa crueldade (“in dubio contra reo”) se repetirá contra todos aqueles que se encontraram (se encontram) em situações semelhantes ou mais graves? Não vou aqui enumerar tais casos, alguns dos quais estão a correr no foro judicial, com rítmos claramente diferentes (reconhecido pelo PR) e relativamente mais consentâneos com os ditames legais. Será da pressão dessas fontes de informação e contra-informação? O que significaria que na área da justiça, neste país que parece ter galgado algumas distâncias positivas na área da liberdade de expressão e da comunicação social, continuaremos a ter casos Rafael Marques, William Tonet, Miala, 15+2, entre outros? Para tudo parecer igual à “justiça” dos últimos anos do consulado de José Eduardo dos Santos, só faltará a organização de algumas manifestações do partido no poder ou de algumas associações clamando: “nós somos milhões e contra milhões ninguém combate e quem combater será vencido; deixem a justiça fazer o seu trabalho”. Mais do que frustrante isso é para mim extremamente angustiante. Como seria interessante que jornalistas de investigação tentassem esclerecer se se trata do regresso do “Sr Ordens Superiores” (rejeitado pelo actual PR), de simulação intimidatória consentida por algumas das próprias vítimas ou apenas antigos hábitos para tentar agradar os centros do poder, por tão ilustres dignitários do poder que nos deve julgar!? Aberta está a discussão. Permito-me até que poderia ser um dos temas a ser tratado pela comissão recentemente criada pelo Presidente da República, para a Reforma da Justiça, que mais do que ocupar-se de estruturas e formalidades normativas, devia antes cuidar daquilo que, na minha opinião, mais tem corroído a nossa sociedade: atitudes lamentáveis dos nossos operadores políticos e judiciais, sempre afoitos em exibir a ideia do “agora é a nossa vez”. E não se diga, à partida, que se deve olhar para este caso como apenas um entre muitos. Pela sua visibilidade e acinte este é um caso paradigmático. Quem maltrata uma árvore, logo ali à beira do próprio quintal, não garante que nos venha a tratar bem da floresta. Falo da Justiça e do Direito e do seu papel para consolidar as transformações positivas que pareciam estar a ter lugar. -- 


 "Marcolino José C. Moco - Advogado/Consultor/Docente Universitário/Conferencista Marcolino Moco & Advogados - Ao serviço da Justiça e do Direito Marcolino Moco International Consulting - Um parceiro para o seu sucesso! Cuidamos de si e dos seus negócios! www.marcolinomoco.com Pensar e Falar Angola

domingo, 31 de maio de 2020

Death Metal Angola | Filme completo

Filme/documentário completo sobre Rock Made in Angola com o Título "Death Metal Angola" filmado em 2010/2011 e estreado em 2012 em vários festivais de cinema, também esteve mencionado para vários prémios internacionais. Infelizmente pouco reconhecimento a nível nacional.





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Lopo do Nascimento sobre o 27 de Maio de 1977 | em entrevista áudio

Lopo do Nascimento sobre o 27 de Maio de 1977 | em entrevista áudio







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quarta-feira, 27 de maio de 2020

27 de Maio

A História só é possível fazer-se muitos anos depois. Há muitas feridas não saradas nos múltiplos ângulos desta questão. Há quem conheça a SUA história e ainda não consiga transmiti-la. Há quem saiba muito e tenha receio de falar. Há muita gente que fala e não sabe o que está a dizer. Há muito mito, muita ficção, muito passado atrás deste passado.
Quanto a este blog, não partidarizado, cabe lembrar a data, divulgar o que encontra, poder contribuir para a História, sabendo que a História tem muitos pontos de vista, o lado A e o lado B. Estamos disponíveis para saber TUDO de todos os lados.



P L A T A F O R M A  27  DE MAIO
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COMUNICADO DE IMPRENSA
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As associações integradas na PLATAFORMA 27 de MAIO, designadamente: a Associação 27 de Maio, a Associação M27 e o Grupo de Sobreviventes do 27 de Maio, levam ao conhecimento da opinião pública Angolana e Internacional o seguinte comunicado:

1. A PLATAFORMA 27 de MAIO tomou conhecimento da aprovação pela Assembleia Nacional, no passado dia 21 de Maio do ano em curso, da lei denominada “Regime Especial de Justificação dos Óbitos ocorridos em consequência de conflitos políticos”

2. A PLATAFORMA 27 de MAIO não pode deixar de manifestar que, embora tratando-se de um passo importante para responder aos sucessivos apelos dos familiares das vítimas e sobreviventes, o mesmo é, no entanto, manifestamente insuficiente, não podendo sequer ser considerado como um ponto de partida para um verdadeiro processo de Reconciliação Nacional e Pacificação da Sociedade Angolana.

3. A PLATAFORMA 27 de MAIO reitera a necessidade da realização de um registo histórico completo com vista a apurar as violações e abusos, a identificação pormenorizada das vítimas e perpetradores, bem como o papel das várias instituições estatais e não estatais, tal como de pessoas singulares com responsabilidade moral e material nas violações e abusos acorridos durante a repressão sangrenta. Só assim, com este acto de reconhecimento e de justiça, estarão reunidas as verdadeiras condições para uma reconciliação e regeneração social.

4. A PLATAFORMA 27 de MAIO insiste uma vez mais que, em função da gravidade e magnitude das atrocidades cometidas durante a repressão sangrenta, é indispensável que o processo do 27 de Maio de 1977 seja tratado separadamente dos demais “conflitos políticos,” para que se possa levar a cabo uma investigação séria, isenta e responsável.

5. O passado vive e continuará sempre a viver dentro das famílias afectadas por esta tragédia. A PLATAFORMA 27 de Maio mantém a reivindicação de um pedido de perdão expresso, por parte do Estado ou seus agentes, por tais crimes. É de facto necessário e imperioso proporcionar aos perpetradores, ainda vivos, a oportunidade de romperem com o passado, pedirem perdão e, na medida do que for possível, confessarem onde estão depositados os restos mortais das vítimas ainda desaparecidas. É absolutamente fundamental garantir a entrega dos restos mortais das vítimas desaparecidas às suas famílias.

6. Finalmente, a PLATAFORMA 27 de Maio insta o Governo Angolano a observar sem reservas, o disposto no artigo 4º do Acto Constitutivo da União Africana sobre a Política de Justiça Transicional, que orienta que na resolução pacífica dos conflitos, os Governos membros devem sempre levar em conta o respeito pelo carácter sagrado da vida humana e a condenação e rejeição da impunidade. Não observando tal exigência, à PLATAFORMA 27 de Maio, enquanto entidade representativa das vítimas, assiste plena legitimidade, à luz do Direito Internacional, de impugnar a política de impunidade que insiste adoptar como modelo, numa clara intenção de desresponsabilizar os responsáveis pela chacina perpetrada contra milhares de angolanos.

Luanda 27 de Maio de 2020

A Associação 27 de Maio
A Associação M 27
O Grupo de Sobreviventes 27 de Maio


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terça-feira, 26 de maio de 2020

DIA DE ÁFRICA

O dia 25 de Maio é o Dia de África.
Neste dia, em 1963, criou-se a Organização de Unidade Africana (OUA), na Etiópia, com o objetivo de defender e emancipar o continente africano. 
Em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu o dia 25 de maio como o Dia da África ou o Dia da Libertação da África. 
Em 2002 a OUA foi substituída pela União Africana mas a celebração da data manteve-se.
Este dia recorda a luta pela independência do continente africano, contra a colonização europeia e contra o regime do Apartheid, assim como simboliza o desejo de um continente mais unido, organizado, desenvolvido e livre.

A data é celebrada em vários países de África e pelos africanos espalhados pelo mundo. 
No Gana, Mali, Namíbia, Zâmbia e no Zimbabwe, o Dia da África é um feriado.


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domingo, 24 de maio de 2020

ENTREVISTA COM O DR. JOÃO VIEIRA LOPES



ENTREVISTA COM O DR. JOÃO VIEIRA LOPES

Dia 18 de Junho de 2010


Presenças: João Vieira Lopes, Cristina Ataíde e Pinto, Carlos Ferreira


Entrevista com o Dr. João Vieira Lopes

Carregue na ligação para abrir o PDF Online.




















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quarta-feira, 29 de abril de 2020

16 ANIVERSÁRIO COMPANHIA DE ACTORES DE ANGOLA


16 ANOS DE VIDA
A Companhia de Actores faz 16 anos!
Uma idade especial. A idade da emancipação!
Aos 16 anos, a vida é complexa. As respostas não chegam ao ritmo das perguntas.

É a idade das dúvidas, das inseguranças, mas também da esperança, das causas, dos sonhos, do ter ainda tanto para fazer.
E deste desequilíbrio se faz o caminho.
Desta busca se faz a criação.
Desta inquietação se alimenta o teatro.
16 anos cheios de vida e de pessoas.
Pessoas que conceberam e deram à luz a CDA, pessoas que a ensinaram a andar, pessoas que lhe deram o primeiro amparo e também o primeiro raspanete. Pessoas, sempre pessoas que nela acreditaram.
Chegados aos 16 anos, aqueles de quem nos rodeamos são determinantes para os tempos que se seguem.
São os que nos ajudam a procurar respostas, a encontrar caminhos e, acima de tudo, a fazer boas perguntas.
Olhamos à volta e só podemos concluir que a CDA é uma jovem de 16 anos, madura e cheia de sorte!
Tem consigo uma equipa unida, solidária, sempre pronta a perguntar-se, sem nunca se fechar numa primeira resposta. Pronta a amparar, sem nunca deixar de criticar. Pronta a partir, sem se preocupar mais com a meta do que com a jornada.
A CDA tem também consigo um grande número de amigos que a querem bem, que a acompanham a todo o momento e que jamais a deixarão para trás.
E aos 16 anos, uma idade em que tanta coisa acontece, ter a companhia certa é fundamental para nos perguntarmos cada vez melhor.
O teatro da CDA vive das perguntas que se coloca e das pessoas que viajam juntas nessa interrogação.

Obrigado a todos aqueles que fizeram, fazem e farão parte desta viagem tão bonita chamada CDA.
16 anos, CDA!
Estás crescida. Parabéns!!

Companhia de Actores
Rua Eduardo Augusto Pedroso, 16 A · Algés 1495-047 · Portugal
cda.companhiadeactores@gmail.com
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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

E vão mudando as cadeiras

O antigo ministro angolano Rui Mangueira foi esta quarta-feira eleito novo presidente do Conselho de Administração do Banco de Fomento Angola (BFA), numa deliberação unânime dos acionistas, informou o banco angolano.
Os acionistas Unitel, que detêm 51,9% do capital, e BPI (os restantes 48,1%) elegeram hoje os seus órgãos sociais para o triénio 2020/2022, designando além de Rui Mangueira, António Domingues e Osvaldo Salvador de Lemos Macaia como vice-presidentes.
Rui Jorge Carneiro Mangueira é jurista e diplomata de carreira e exerceu o cargo de ministro da Justiça e Direitos Humanos, no governo liderado pelo ex-Presidente José Eduardo dos Santos, entre 2012 e 2017.
Foi nomeado embaixador no Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte em março de 2018, por João Lourenço, tendo sido exonerado do cargo pelo Presidente angolano em outubro de 2019.
O anterior presidente do Conselho de Administração do Banco de Fomento Angola (BFA), Mário Leite Silva, apresentou a sua renúncia ao cargo na passada quinta-feira, decisão que justificou por ter sido excluído da nova lista de administradores aprovada em dezembro pela operadora de telecomunicações angolana Unitel.
A Comissão Executiva do BFA será presidida por António Manuel Silveira Catana e o Conselho Fiscal por Ari Nelson Brandão.
João Francisco Quipipa vai ser o presidente da Mesa da Assembleia Geral, que tem como vice-presidente Luís Graça Moura.
Mário Leite da Silva, gestor e apontado como o braço direito de Isabel dos Santos é um dos implicados nos esquemas financeiros vindos a público através da investigação jornalística conhecida como “Luanda Leaks” e foi constituído arguido pela Procuradoria-Geral da República de Angola.
in Observador


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sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Domingos da Cruz "Activista "pronuncia-se sobre Luanda Leaks e Isabel do...



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Uma opinião de vez em quando

Ligo a televisão e só me aparece a Luanda Leaks. Mas onde é que estou? Passado, presente, futuro ou já me defuntei e isto é apenas uma cena dum filme de mal-feitores, mal feito, tardio, cinzento. Ou será que estou noutro país e não dei por ter mudado? A família em polvorosa. E o Senhor X, e o Y e reúnem-se aqui e ali. Só agora? Só estas personagens? E agora são todos contra? Bolas, Angola deve ter mais que fazer, mais que mostrar, mais que progredir. A Sra. Engenheira fez... e ninguém deu por nada na altura? Quem assinou por baixo? E ao lado? Quem foi que deu 750 mil documentos? Todos são deste caso?????? 
Acho que estou a assistir em directo na televisão da Banda a um golpe de Estado na Dipanda. 
Seriamente: vamos arrumar tudo direitinho e deixar a justiça actuar. Não vamos acusar ninguém antes de tempo. Pratos limpos e tempo ao tempo com transparência.


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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

45 anos dos Acordos de Alvor

Faz hoje 45 anos a Assinatura do Acordo de Alvor, em que Portugal reconhece a independência de Angola.


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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Hoji-ya-Henda



Hoji-ya-Henda
José Mendes de Carvalho, mais conhecido por Hoji-ya-Henda (nome de Guerra), foi um comandante das FAPLA morto em combate.
É hoje um herói nacional angolano e patrono da juventude angolana.

O Comandante Hoji-ya-Henda (José Mendes de Carvalho), morreu em combate, aos 27 anos de idade, durante um assalto ao quartel de Karipande, do exército colonial português, no Moxico, em 14 de Abril de 1968.
A I Assembleia da III Região Militar do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), realizado no dia 23 de Março de 1969, declarou que, em sua memória, o 14 de Abril passa-se a ser comemorado, em Angola, como o Dia da Juventude Angolana.
Foi sepultado próximo do rio Lundoji a 30 quilómetros do então quartel de Karipande, da Frente Leste/3ª Região Político-Militar.
Já em Agosto de 1968, o MPLA havia atribuído a Hojy-ya-Henda o título de "Filho querido do povo angolano e combatente heróico do MPLA".
Uma assembleia que congregou, em Cabinda, há anos, várias associações juvenis, algumas das quais de partidos políticos, filiados no Conselho Nacional da Juventude (CNJ) determinou que o 14 de Abril continuaria a ser o Dia Nacional da Juventude Angolana.


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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Quem foi Simão Toco

Você sabe quem foi Simão Toco?
Simão Gonçalves Toco nasceu em 1918 na localidade de Sadi-Zulumongo (Ntaia, Maquela Do Zombo, província do Uíge, Angola), tendo recebido o nome kikongo de Mayamona. Após frequentar o ensino primário na missão baptista de Kibokolo, concluiu os estudos liceais no Liceu Salvador Correia em Luanda. 
Por esta altura, terá havido um acontecimento  que chamaria de milagroso e que terá despoletado a sua missão religiosa: o encontro com Deus em Catete (Abril de 1935). 
Regressa ao Uíge para trabalhar nas missões baptistas de Kibokolo e Bembe. Em 1942, decide partir para Leopoldville (Congo Belga) para colaborar com a missão local e dirigir um coro musical com cantores zombos, oriundos da mesma região que ele (Maquela do Zombo). A este coro dará o título de Coro de Kibokolo.
Em 1946, graças ao trabalho que lhe fora reconhecido no âmbito da missão baptista e do coro, foi convidado, juntamente com outros (Gaspar de Almeida e Jessé Chipenda Chiúla) para intervir nos trabalhos da Conferência Missionária Internacional Protestante, realizada de 15 a 21 de Julho de 1946, na localidade de Kaliná em Leopoldville (actual cidade de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo). Nesse momento, dirige uma prece onde pede para o Espírito Santo descer em África.
Tal prece é atendida a 25 de Julho de 1949 quando, após um desentendimento com a Missão Baptista de Leopoldville, decide convocar uma vigília de oração na sua residência (rua de Mayenge, nº 159). 
Naquele momento, segundo contam os presentes, sentiram um vento e começaram a tremer, realizando milagres invocando algumas passagens bíblicas.
Este momento é assumido pelo tocoísmo como o momento em que o Espírito Santo desceu em África e a igreja cristã foi “relembrada”, de forma a retomar o caminho da igreja original do tempo dos Apóstolos. É portanto a data da fundação do movimento tocoísta.

Após estes acontecimentos, Simão Gonçalves Toco e muitos dos seus seguidores foram presos pelas autoridades belgas, sob a acusação de alterar a ordem pública. 
Em Janeiro de 1950, são deportados do Congo Belga e entregues, no posto fronteiriço de Nóqui (província do Zaire), às autoridades portuguesas. Estas procuram dar por terminado o movimento daquilo que consideravam ser uma “seita perigosa”, dividindo o grupo em pequenos grupos que serão dispersos, no âmbito da política de povoamento colonial vigente à época, 4 em distintos colonatos e campos de trabalho forçado por toda a colónia. O líder é enviado numa primeira instância pelo Vale do Loge e, após passagens por Luanda, Caconda e Jáu, é enviado para a Baía dos Tigres, na província de Moçâmedes (hoje Namibe). Pouco tempo depois, é enviado para trabalhar como assistente num farol em Ponta Albina, na mesma região...


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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Luanda, era uma vez na Baixa

Luanda, era uma vez na Baixa

Rui Ramos
5 de Outubro, 2019
Ao domingo, entre o largo do Baleizão e a Lello, a avenida Rainha Njinga, antiga avenida dos Restauradores, transforma-se numa pista.
Apesar da sua proximidade com a principal esquadra da Polícia Nacional, a larga via não é patrulhada nem possui qualquer sinalética horizontal, num vasto percurso, nem passadeiras para peões. Quando cai a noite, um grande troço mergulha na escuridão por ausência de iluminação pública, mas ao lado do degradado e agora entaipado Baleizão a iluminação funciona sempre em quatro postes, dia e noite. No lado oposto, há troços sem iluminação, que só surge lá no fundo, nas imediações da empresa francesa Total.
Não é raro ver-se, aos domingos, carros e motorizadas a alta velocidade e jovens a patinar nas faixas, tudo num zigue-zague despido de temor no meio de centenas ou milhares de jovens que vão ou vêm da Ilha a pé e passam rapidamente pela “cidade” ao encontro dos seus bairros. É a rua que liga a Fortaleza de S. Miguel, hoje Museu Militar, e anfitriã do centro comercial Fortaleza, ao centro da cidade. A encosta da fortaleza já foi poiso de macacos nos tempos idos do colonialismo e a rua que a circunda lugar de namoro romântico.
O centro de Luanda onde imperam os altaneiros e novéis prédios da Sonangol, em vias de ser privatizada, a antiga livraria Lello, hoje fantasmagórica, o largo da Portugália, onde os portugueses faziam câmbio paralelo, com as suas duas árvores-avós, o prédio da Biker - ainda com alguns serviços, como a Foto Ngufo, e com um “restaurante típico", fechado com chapas e onde ratos e insectos convivem com o povo real que aí almoça por mil kwanzas, num ambiente “apocalíptico” -, que já albergou mesas de snooker e ambiente de tertúlia de jornalistas, outros tempos, pré-históricos, de que não restam escritos. Ali ao lado destruíram o largo e edificaram dois blocos de vidro com dezenas de andares, onde trabalha uma classe burocrática nacional-expatriada.
Mas a grande avenida não se detém, na esquina onde era a Sonylândia e hoje é um banco, estreita-se, a Moviflor portuguesa substituiu o luxuoso Quintas & Irmão, cujo dono permaneceu na Independência, mas viu a sua casa ocupada ilegalmente, e o fundo da rua desemboca no Eixo-Viário, uma obra feita pelo colonialismo português, que liga o Kinaxixi à Marginal e ao Miramar, hoje quase toda castanha e sem verdura, com iluminação aqui e ali.
As árvores começaram a ser arrancadas em 1975, quando começou a faltar o carvão para cozinhar, e o Largo do Ambiente é frio, nada acolhedor, quase escuro e sem presença humana. Eixo-Viário do antigo Benfica de Luanda do Victorino Cunha, onde os portugueses plantaram verdura nas barrocas e a Independência construiu arranha-céus da Sonangol e de outras empresas estatais majestáticas. Os abandonados e degradados edifícios coloniais, com janelas com persianas, são na maioria “fantasmas” mudos e quietos, desafiando o futuro da capital.

Um mundo novo
Os colonos foram embora e o Estado tomou conta das suas propriedades, expropriou e começou a vender a si próprio ao desbarato. Os elevadores foram destruídos e transformados em contentores de lixo, os corrimãos das escadas desapareceram, divisões e mais divisões foram construídas sem qualquer plano ou segurança para albergar familiares vindos dos bairros e do mundo rural, nada oferecido, tudo pago.
Os quintais foram apropriados por quem chegou primeiro e transformados em autênticas “pensões residenciais” surreais, com divisões precárias e sujas alugadas a bom preço, 40-50 mil kwanzas mensais, porque estão na cidade e Luanda é a cidade mais cara do mundo. Os quintais, ou melhor, os cubículos também são alugados ao dia às zungueiras para guardarem as mercadorias que não conseguem carregar para os seus casebres nos bairros.
Mas não só, os quintais são pontos de grande tráfego comercial, sobretudo, de bebidas alcoólicas, quem os detém há mais tempo usufrui de tudo o que pode acrescentar dinheiro sem muito trabalho.
Os terraços não existem. Em seu lugar surgiu uma miríade de cubículos, muitos de chapa, sem água e quase sempre com luz puxada de gatos e paga mensalmente a alguém, alugados por quem chegou primeiro ao prédio e se diz “dono”. O luandense é manso. Quando lhe falam “o dono”, se cala, se ajoelha, submisso, e paga, mesmo que o dinheiro não seja o seu, e depois diz em voz baixa “está mal”.
Sem árvores
Só se encontram árvores com troncos muito grossos, sinal de longa vida, árvores coloniais, no Largo do Atlético, hoje largo sem nome definido, mas que 44 anos após a proclamação da Independência continua a celebrar a batalha de Ambuíla, que ditou a perda da soberania do Reino do Congo e a decapitação do rei, cuja cabeça foi transportada para a ermida da Nazaré, na Marginal, que este ano comemora 355 anos. Um largo agora fechado e em obras sem prazo. As vendedoras dizem-me que passou para a propriedade do banco BCI, "se apropriaram", diz-me um jovem que todos os dias me pede dinheiro para comer.
Do BCI não é o urinol da esquina, que não funciona, nunca funcionou. Importado a peso de ouro do Brasil, a “casa de banho” faz parte de outras talvez centenas espalhadas pela cidade que nunca funcionaram. Ninguém conhece os contornos do negócio, apenas se sabe que nunca funcionaram, nem se conhece ninguém que tenha lá dentro urinado.
O Rialto já não existe, só ficaram as saudades dos apetitosos pregos com jindungo e os finos tirados com a pressão exacta. Em seu lugar, recentemente, foi construído um alvo Monumento ao Soldado Desconhecido. Os jovens não sabem o que isso seja, imaginam, segundo me disse um jovem na rua, ser um soldado sem registo de nascimento.
Ali ao lado estão os Correios, já centenários, mas de que ninguém parece tirar utilidade. Perguntámos a um jovem, vagabundeando por ali, o que são os correios. Ele olhou, tranquilo e respondeu muito sereno “não sei, pai”. Ninguém sabe nada, aqui nesta cidade. Também não precisam de saber. O tempo parou, sitiado entre a madrugada das 6 horas e o pôr do sol das 18 horas, vaivém, a cidade se povoa e despovoa, aqui se faz tudo, mas ninguém é daqui, as pessoas desabitam aqui, por isso não há tempo.
As fugitivas da Independência
Os extremos da extensa avenida Njinga ou Jinga ou Nzinga ou Ginga são dominados pelo banco estatal BPC, a agência Kaponte e a agência lá do fundo perto do Eixo Viário, ao lado da Unitel. Ninguém sabe o que é Kaponte, os jovens, desempregados, não sabem nada, não lhes diz respeito. Mas Kaponte pode ser uma pequena ponte, aquela ponte que liga à Praia do Bispo e onde se mataram, dizem, brancos desesperados com dívidas ou com desamores, naqueles tempos remotos.
Lá dentro do BPC, para onde os mais velhos espreitam, diz-nos o jovem Mbambi, nunca há sistema nos computadores, especialmente, reforça, depois das 14h-14h30. Os funcionários querem ir para casa e não toleram ser retardados por clientes sem dinheiro, mas com problemas complexos deles, de primos e tios que obrigam a consultas demoradas.
Lá fora, um mundo mudo, ninguém fala, toda a gente parada sentando-se onde pode. É o mundo das kinguilas, as cambistas de rua, as verdadeiras bancárias do sistema, que também vendem recargas da Unitel, são dezenas largas de mamãs opulentas, vigilantes, carregadas de kwanzas e de divisas, inexistentes nos Bancos. A operação Transparência não lhes toca, parecem da família. Só dão corrida nas pobres zungueiras que povoam a Baixa durante o dia, sempre com um olho aqui outro ali, já estrábicas, tipo ciganas na Europa, prontas a correr em defesa da mercadoria. São as fugitivas da Independência.
Mas é também o mundo dos pensionistas, centenas, ou milhares todos os dias desde manhã cedo, ainda quase escuro e ao som dos primeiros pio-pio dos agora raros pardais, seres ainda vivos se abeirando do óbito, tentando ver se a pensão já caiu. Não têm cartões multicaixa, levam um papelinho muito gasto ao balcão com nome e número da conta para averiguar. Começam a entrar às 8h00 e só param no início da tarde, comendo poeira e fome.
A burguesinha, essa, trabalha nos Bancos enquanto não há despedimentos. Fatinhos com calças e casacos apertados, elas com boas roupas oferecidas por não se sabe quem, com vestidos parecendo que estão na “City” de Londres. Em comum, têm a vaidade, a arrogância, a jactância, a mente vazia. Não dão confiança aos pobres, aos sujos, como que para enxotarem a sua consciência. Ah, os burguesinhos da Sonangol também não se misturam. Mas às 12h00 eles ficam com água na boca, quando os inexistentes aparecem no muro baixo com dezenas de recipientes de alumínio com almoço para venda, cada mil.
Os pobres? Estão por todo o lado na Baixa de Luanda, imóveis. Pobres, é uma maneira de escrever, porque nem mesmo todo o dinheiro do mundo os tiraria da pobreza, porque, na verdade, têm medo da riqueza, assusta-os, não saberiam o que fazer com ela. Como se a pobreza fosse já uma tatuagem na pele.
Mundo dos pescadores deu lugar à nova Ilha
A Ilha, de um lado e de outro, onde o Sol nasce e o Sol se põe, era o mundo dos pescadores, um povo que nunca se misturou com os continentais. Os homens, de panos, vinham à cidade dos brancos à tarde, vender ostras e eram exímios nadadores. Não se sabe como a Ilha de Luanda se degradou, foi rápido. De repente a Floresta foi invadida pelo lixo, por rapazes e delinquentes, pela Polícia Fiscal e por barcaças transformadas em empresas.
O hotel Panorama, único no mundo onde os quartos virados para o oceano eram mais baratos do que os quartos virados para a cidade, ninguém sabe como foi destruído, ninguém sabe de nada. Lá dentro há quadrilhas de miúdos, sobrevivem dia-a-dia, entre cheiro de gasolina, liamba e outros acessórios de morte, fugindo à Polícia que os vai rusgando de vez em quando.
Assim, sem mais nem menos, os afortunados conseguiram boas casas. Foi só mandar fazer obras com o dinheiro do OGE. Outros, amancebados com o poder, construíram prédios que noutras partes do mundo são proibidos junto à praia. Os primos começaram a pedir para abrir bares e restaurantes. “São meus primos”, disse-me alguém, “que podia fazer senão autorizar?”.
Há muitos anos, a Ilha estava dividida. As praias não eram universais, havia as dos brancos e a dos “patrícios”.O Harlém era em frente da Marinha e os brancos não punham lá os pés, não se misturavam. Depois passou para os soviéticos que estavam na Marinha, iam todos de igual nadar.
No fundo da Ilha, de um lado e do outro, no Cabo e na Chicala, podia-se namorar dentro do carro, mesmo em 1980 havia segurança. À noite podia-se romantizar, mas depois tudo mudou. Os namoros foram para outros lados; o Cabo foi entaipado com obras, já não se chama assim, é o “Ponto Final”. A Chicala já não tem a rotunda nem asfalto e foi tomada por populações que sobrevivem de muitos negócios, desde venda de peixe, mufete, prostituição e, curiosamente, golpeando veleidades turísticas, o parque de recolha de viaturas do Governo Provincial de Luanda assentou arraiais na Praia do Sol, onde nós íamos com as nossas namoradas nos idos 1960.
Hoje, já ninguém fala dos pescadores. Parece que foram tragados pelo mar. Diz-se "vamos à Ilha comprar peixe", mas não se diz a quem se compra, é a alguém indefinido. Na Ilha, hoje, coexistem sem se misturar os portugueses com as suas praias quase privadas e milhares de jovens que deambulam sem sentido, bebendo cerveja ou convivendo apenas, enchendo todos os espaços ao fim de semana e semeando as praias com cacos de garrafas de cerveja.
A Ilha descaracterizou-se, está entaipada. Do lado direito, infindáveis muros de chapa escondem as praias e a Baía, de noite, longos percursos da avenida estão ás escuras e não é agradável. De repente, encaramo-nos com as rotundas sem iluminação. Mas imperam os restaurantes de luxo, de um lado e de outro, com animação nocturnas, mas sem saneamento básico, tudo improvisado, come e os restos deita no mar.
A Baixa
A Baixa de Luanda sem a Marginal não teria norte, já não tem o Porto Pesqueiro frente ao Banco Nacional, nem o Mercado Municipal. Mas ainda tem a Alfândega, a Marinha e a Polícia, convivendo com arranha-céus dignos de um Abu Dabi, com auto-saneamento e auto-energia, onde vivem ou trabalham exemplares da classe alta burocrática, despachando com tranquilidade os expedientes, porque aqui não há pressa para nada.
Para o interior, as ruínas dos armazéns do Minho, onde as senhoras brancas iam comprar tecidos e vestidos, um mundo que se extinguiu, só sobrou o Mabílio Albuquerque que vende “coisas”. A Baixa de Luanda é um extenso e intenso “musseque”, tudo está ocupado, parece que as poucas árvores poluem, cortam-se, ocupam lugares que podem ser rentabilizados pelos miúdos vindos do fim do mundo e que tomaram conta das ruas durante o dia, arrumando e lavando os carros, com “puxadas” de água gratuita da EPAL.
Rainha Njinga, a estátua, enorme, jaz à entrada da fortaleza, à espera que os arranha-céus do Kinaxixi, onde eu já vi uma grande lagoa com uma mafumeira e um majestático mercado de frescos verdadeiros, vindos das hortas da cintura de Luanda, sejam pagos, um dia, um dia, como os portugueses dizem, de “são nunca”.
Avenida Rainha Njinga, que podia ser uma metrópole, mas que em dias de enxurradas se transforma em rio lamacento, lançando água na Baía, rua da dança capoeira dos domingos à tarde, dos candongueiros para os “congolé”, das zungueiras em frente da Sé, que deixou se ser Sé, mas mantém a travessa, vendendo fruta, tambarindos, maçâs da índia, loengos, gajajas, caju, mangas, mulheres sem sorriso sentando no fio do muro ou na pedra para endurecer os interiores, fugindo, fugindo dos fiscais da Administração, submissas, a sua mente se organizou há muito, netas dos rusgados dos cipaios do chefe do posto Poeira.
As galerias Kibabo abriram onde era a antiga, luxuosa e branca Versalhes, agora também dirigidas por brancos, um mundo de compra e venda de tudo: plásticos baratos, pequenos empregos que mal dão para apanhar o candongueiro. Mas a actividade comercial atraiu também um enxame de rapazes sujos, de cabelo a ficar russo, que enfrentam tudo e todos os poderes para ficarem na porta, pedindo esmola para o pão ou para os pais ou para outras coisas.
Há muito, muito tempo, a Baixa era apropriação de uma parte da população branca. A população negra vinha dos bairros, a pé ou de autocarro, trabalhar nas fábricas, nas lojas e nas casas. Muita gente passava a correr pela pensão Fomentadora, no Kinaxixi, para comer uma grande sandes de peixe frito e uma grande caneca de café muito açucarado. Pré-História.
No dia da Independência, no próprio dia, a Baixa transfigurou-se, parecia não existir, nem uma só alma nas ruas, sentia-se medo pela solidão, tinha sido o mundo dos brancos, que de repente foram embora. Quem primeiro se apropriou nos novos tempos da Luanda africana foram os “regressados do Zaire”, invadiram tudo, criaram a venda parada no chão das ruas, não era raro encontrá-los na Mutamba, de manhã, em pijama, na rua. Todo o mundo queria sair dos bairros e viver na cidade do asfalto. Mas era um mundo estranho, não era do povo, era algo que se plantou ali, vindo de fora.
Que futuro?
Sem transportes públicos, sem uma malha comercial digna desse nome, sem saneamento básico conhecido, com escassos minimercados, sem um mercado de frescos, nem sequer uma livraria digna desse nome, a Baixa, e sobretudo a sua parte central, a extensa avenida Rainha Njinga é a parente pobre da Marginal, reconstruída e embelezada pela Independência.
Aí coexistem as classes mais altas e as mais baixas, como dois mundos intocáveis. A degradação do entaipado prédio do antigo “Diário de Luanda” contraria os arranha-céus de vidro, que parecem redomas extraterrestres numa Luanda que precisa de ar, de vento, de céu. Nos becos, também há becos e contrabecos desaguando na Rainha, mil negócios silenciosos. A liamba instalou-se num trono de que não abdica, imperando nos lados dos degradados Coqueiros, outrora coqueluche dos brancos.
Há um plano director, dizem, mas tudo tem plano director em Angola, tudo tem “desiderato” e tudo vai acontecer “brevemente”. O futuro é, pois uma incógnita, como o “X” de uma equação simpels, mas que se complica pela incompetência, pelo laxismo, pela corrupção transversal à sociedade. Por trás de um aparente modernismo, toda esta vasta zona, outrora “chique”, alberga centenas de milhares de pessoas em cada canto, casebres construídos dentro de outros casebres.
Já não há terminal de autocarros digno desse nome na Mutamba. O poder agora é dos candongueiros e dos “corolas”, pão e cerveja de muitos lares. Em plena Rainha Njinga, sim, funciona a “Mutamba”, na esquina frente à Embaixada da Guiné, candongueiros de e para os subúrbios. Tentaram “colocar” mini-autocarros, mas só os vi um dia.
O que vai acontecer a tantos edifícios degradados no tempo colonial? Como será a cidade de Luanda daqui a 20 anos? O futuro a quem pertence? Quem agarra nele com coragem e sem medo? Os “velhos luandenses” estão em risco de extinção. Em seu lugar, uma multidão dessincronizada de jovens, “por enquanto jovens”, imigrantes, vindos de todo o lado, que de Luanda só sabem que têm de ganhar o pão nosso de cada dia e, utopicamente, um emprego.



Pensar e Falar Angola

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Discurso do Senhor presidente

Discurso de Sua Excelência João  Lourenço, Presidente da República de Angola, no Conselho de Relações Exteriores dos EUA

Nova Iorque, 23 de Setembro de 2019

-Senhores Altos Dignitários do Conselho de Relações Exteriores dos EUA,

-Ilustres Convidados,

-Minhas Senhoras, Meus Senhores,

Agradeço o amável convite que me foi endereçado pela direção desta prestigiosa organização que se dedica à reflexão e ao estudo de temas sobre política internacional, para falar da nova Angola que estamos a construir, com a expectativa de que consigamos transmitir uma mensagem que vos leve a construir uma visão positiva sobre o nosso País.

                  Está a realizar-se em Angola, com a participação de políticos, da sociedade civil, da população em geral e do Executivo, um esforço de mudança por via do qual pretendemos colocar o país, tão rapidamente quanto possível, no mesmo patamar em que se encontram as nações empenhadas em promover o progresso, o desenvolvimento e o bem-estar dos seus povos, através de boas práticas de governação.

                  Temos conseguido resultados significativos no processo de transformação do país, que se vem preparando a cada dia, para realizar os seus grandes interesses em articulação com os seus principais parceiros internacionais, de que fazem parte na primeira linha os Estados Unidos da América.

                 Apesar dos grandes avanços verificados no relacionamento político-diplomático entre Angola e os EUA, achamos que continua a existir um défice de conhecimento da parte norte-americana em relação ao programa que o meu Governo tem vindo a realizar.

                   Esta é uma oportunidade soberana para colmatar esse défice e para falarmos sobre as medidas que estamos a adoptar para superar alguns vícios do passado e para empreender reformas que restituam à nossa população a esperança num futuro melhor.

                  O programa de Governo que mereceu há dois anos a aprovação da grande maioria dos eleitores nas urnas tem vindo a ser implementado com resultados positivos.

                  Para a mais fácil implementação desse programa tem sido importante a colaboração construtiva de sectores públicos e privados e da sociedade civil angolana, que voltaram a acreditar que, através dele, os seus direitos e interesses podem ser defendidos e salvaguardados.   

                 Estamos a implementar um conjunto de medidas que se inscrevem num Plano do Executivo sobre o desenvolvimento de Angola, que assenta em alguns eixos fundamentais como o desenvolvimento económico sustentável, a boa governação, a integração regional e internacional, o desenvolvimento das infraestruturas.

                   Para a sua concretização, torna-se necessário atrair investimento estrangeiro para a nossa economia, a fim de a diversificar, aumentar a nossa produção interna e assegurar assim o aumento das exportações de bens diversos.

                 O Governo angolano está a tomar medidas enérgicas para combater e inibir a corrupção, para que Angola melhore as suas práticas de governação, no âmbito das normas que vigoram nos Estados Democráticos e de Direito.

                 Está também a trabalhar para implementar novas medidas de combate à lavagem de dinheiro e para recuperar activos que foram transferidos ilegalmente para países estrangeiros.

                 Para levar o seu programa a bom porto, o Governo angolano sabe que não está sozinho. Contamos com a assistência técnica do FMI e do Banco Mundial, de quem beneficiamos também de financiamentos.

                 Temos um forte apoio dos nossos parceiros internacionais, como os Estados Unidos da América, que continuam a prestar um importante e vital contributo à economia nacional, particularmente o Tesouro americano na assistência ao Ministério das Finanças, Ministério do Interior, Banco Nacional de Angola e à Unidade de Informação Financeira UIF com relação ao complience, combate ao branqueamento de capitais e combate ao financiamento ao terrorismo.

Senhores Dignitários do Conselho de Relações Exteriores,

Minhas Senhoras, Meus Senhores,

Por muito tempo, o potencial de Angola ficou refém de uma economia centralizada, com um peso excessivo do sector público, tendo se iniciado um novo caminho em direcção à sua restruturação e adequação aos modelos bem-sucedidos e capazes de garantir a sua credibilidade, sustentabilidade, transparência e prosperidade, privilegiando o sector privado da economia.

               Duas das primeiras etapas desse caminho foram necessariamente o combate aos comportamentos nocivos à sociedade, o fortalecimento dos direitos e das liberdades fundamentais dos cidadãos onde já se registam importantes conquistas.

                Destacamos a prevenção e repressão dos crimes de corrupção e a reformulação do Código Penal de Angola, com vista a incluir um novo capítulo sobre crimes económicos e financeiros com punição mais severa por corrupção activa e passiva.

                  A Justiça angolana tem estado a investigar, a processar e a condenar altos funcionários por corrupção e o Conselho de Ministros aprovou recentemente uma nova Lei de Combate à Lavagem de Dinheiro, elaborada em estreita colaboração com o FMI e que será aprovada pela Assembleia Nacional antes do final do corrente ano.

Senhores Dignitários do Conselho de Relações Exteriores,

Minhas Senhoras, Meus Senhores,

As reformas que estão a ser implementadas têm por objectivo adequar Angola aos princípios sobre os quais se fundam o funcionamento dos Estados modernos para tornar a economia mais competitiva e atractiva ao investimento privado em Angola.

                 Essas reformas difíceis mas necessárias, estão a começar a diminuir o envolvimento do Estado na economia, a aumentar a transparência, a reduzir os riscos fiscais, a diversificar a economia, a gerar desenvolvimento liderado pelo sector privado, numa palavra, a melhorar o ambiente de negócios e investimentos no país.

                  Entre essas medidas, destaca-se a nova Lei de Investimento Privado, que permite que os estrangeiros invistam em Angola sem ter necessariamente um parceiro local se assim o entenderem, a introdução do IVA já dentro de uma semana e que vai aumentar as receitas fiscais não-petrolíferas, e um ambicioso programa de privatizações.

                 Esse programa, que tem por base a nova Lei das Privatizações e contou com a ajuda do Banco Mundial, prevê a privatização de quase duas centenas de empresas, subsidiárias estatais e outros activos públicos, por meio de concurso público, leilão público ou venda em bolsa.

                 Entre elas está a empresa estatal de petróleo, a Sonangol, que está a implementar um programa para alienar alguns dos negócios fora do seu core business e reduzir a sua participação em blocos de petróleo.

                 Haverá, assim, muitas oportunidades de investimento numa grande variedade de indústrias, incluindo telecomunicações, agricultura, companhias aéreas, bancos e instituições financeiras, energia, fábricas têxteis, transporte e outras infra-estruturas.

                Apelamos ao investimento privado americano em todos esses ramos da economia, na agricultura, nas pescas, na construção de autoestradas, na exploração e transformação de minerais como os diamantes, o ferro, o ouro, no turismo, nos concursos de concessão da gestão de portos, caminhos de ferro e aeroportos.

                  Em todo este processo, temos vindo a interagir com mais regularidade e a um nível consideravelmente mais alto com os EUA, tendo assinado vários instrumentos de cooperação nos domínios da Defesa, do Tesouro e do Eximbank, e tomado boa nota da estratégia da administração Trump para África, em cujo contexto vemos muitos interesses comuns.

                 O Executivo angolano considera assim o aumento do investimento norte-americano em Angola como uma componente-chave dos seus esforços de reforma económica com vista à construção de uma nova Angola, assente numa economia mais inclusiva e destinada a melhorar o bem-estar da grande maioria do povo angolano.

               Estamos conscientes que os resultados das reformas em curso levarão ainda algum tempo a ser alcançados, mas acreditamos que, com o apoio dos nossos parceiros internacionais, em especial de países como os EUA, conseguiremos alcançar os objectivos almejados.

               No âmbito da política de restruturação da economia nacional, temos desenvolvido para além das acções já referidas, um conjunto de outras no capítulo da estabilização macroeconómica que permitem a flexibilização da taxa de câmbio, tendo-se passado para um sistema de câmbio flutuante com a perspectiva de se reduzir a pressão exercida sobre as reservas internacionais líquidas, a qual pretendemos manter a um nível que reforce a sua condição de importante indicador de confiança para o contínuo acesso do nosso país ao mercado financeiro internacional.

                Estamos a aplicar estas medidas e outras que lhes estão associadas tomando como referência os resultados positivos que as mesmas produziram em outras economias com características similares à de Angola, com a intenção de se alcançar uma maior competitividade da moeda nacional, de se estimular a produção nacional e o investimento privado nacional e estrangeiro.

Senhores Dignitários do Conselho de Relações Exteriores,

Minhas Senhoras, Meus Senhores,

Angola está inserida em duas importantes regiões geopolíticas, a África Austral e a África Central. Consciente de que a paz e a estabilidade são indispensáveis para se garantir a segurança e o desenvolvimento sustentável dos países que as integram, Angola tem dado um importante contributo para a resolução dos conflitos aí existentes.

                Angola tem assumido um papel activo no fomento do diálogo construtivo e pacífico entre as forças desavindas, pugnando sempre pelo respeito pelo Estado de Direito e pelos legítimos interesses de todas as partes envolvidas.

               Assim aconteceu, por exemplo, em relação à República Democrática do Congo, à República Centro-Africana, ao Leshoto e à Região dos Grandes Lagos no geral, onde o papel de Angola tem contribuído para a instauração da paz e da segurança.

              O mais recente caso de facilitação de Angola, que colocou os Chefes de Estado do Rwanda e do Uganda frente a frente a assinarem em Luanda um Memorandun de Entendimento, é prova disso e já está a dar seus frutos.                Teve lugar há dias em Kigali a primeira reunião ministerial bilateral testemunhada por Angola, onde se abordaram questões concretas que conduzirão à reabertura da fronteira comum dentro de sensivelmente um mês.

                 Há em Angola uma sensibilidade muito grande para questões relativas à paz e, por isso, sentimo-nos sempre impelidos a colocar o capital de experiência adquirido com a resolução do nosso próprio conflito, ao serviço da paz no continente africano, procurando invariavelmente com o consentimento das partes, e com a colaboração de importantes actores internacionais como é o caso dos Estados Unidos da América, idealizar soluções africanas para os conflitos com que o continente ainda se debate.

                Fiel a esse espírito, acaba de decorrer na capital angolana a primeira edição da Bienal de Luanda, uma iniciativa do Governo angolano, apoiada pela UNESCO e pela União Africana, destinada à prevenção da violência e dos conflitos e à consolidação da paz.

                  Uma vez mais Angola pretende dar o exemplo de estar empenhada numa cultura de paz, promovendo um movimento pan-africano para a afirmação da diversidade cultural e da unidade africana.

               A terminar, reiteramos os nossos agradecimentos pela oportunidade que nos foi dada de nos dirigirmos aos altos dignitários do Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos da América.

Muito obrigado!

RITA GT em Viana do Castelo

https://youtube.com/shorts/qZkb4CfXTZQ?si=3K65JJEr5VQqsZZS Ao longo dos últimos dois anos tive a oportunidade de desenvolver “8”, uma obra d...