quarta-feira, 19 de junho de 2019

Hoje me apetece fazer opinião

Hoje me apetece fazer opinião. Não faço questão de ser político ou enaltecedor de qualquer politico ou regime. Hoje, relendo notícias, observando comentários e vendo finais de novelas reais, sinto-me sequestrado pela amargura, decepção, impotência e contorcionista de malabarismo de uma classe política que se vê como omnipotente, omnipresente e intocavelmente de bem com a vida. Os comentários variados da classe anónima que durante anos bajulou, enalteceu e deu vivas, como num jogo de futebol, carregados de paixão só vêem o que lhes interessa, os que lhes faz feliz, esquecendo o obscuridade de pequenos actos clandestinos que sempre foram fazendo no equilíbrio do trapezista circense.
Ontem criticavam A e B por terem feito, inalteciam Ce D por que não fizeram, hoje todo o alfabeto parece ter entrado na idade média da decadência, na idade do ferro da contracorrente.
Hoje apetecia-me ser surdo e cego e não ver as cambalhotas dos contorcionistas nem o toque do tambor dos oportunistas.
Creio na justiça e na maturidade.


Pensar e Falar Angola

sábado, 15 de junho de 2019

Discurso do Presidente do MPLA no VII congresso

Discurso de abertura do VII CONGRESSO EXTRAORDINÁRIO DO MPLA, proferido pelo Camarada João Manuel Gonçalves Lourenço, Presidente do MPLA.

-Caros Camaradas do Presidium

-Camaradas Delegados ao VII Congresso Extraordinário do Partido

-Camaradas militantes, amigos e simpatizantes do Partido

-Estimados convidados

-Povo angolano

O MPLA, maior força política nacional vencedora das eleições gerais de Agosto de 2017 com uma maioria qualificada no Parlamento, realiza hoje o seu VII Congresso Extraordinário num ambiente de paz e de concórdia nacional, tendo contudo grandes desafios por enfrentar e superar.

Gostariamos imenso de ter entre nós a presença do Camarada José Eduardo dos Santos, que ao longo de 39 anos conduziu o MPLA nos momentos bons e maus e hoje é o Presidente emérito do nosso Partido.

Muito se falou e especulou sobre a real necessidade da realização deste Congresso, cujo objectivo principal é sobretudo o de alargar a composição do Comité Central, de forma a torná-lo mais consentâneo com a actual conjuntura de moralização da nossa sociedade, de combate à corrupção e à impunidade, de maior abertura democrática, com reais ganhos no que diz respeito à liberdade de imprensa, de pensamento, de expressão e de manifestação.

Este processo só pode ter sucesso se a Direcção do Partido for reforçada com camaradas realmente comprometidos com a causa das reformas políticas e económicas em curso, que visam criar um verdadeiro Estado Democrático de Direito baseado no primado da lei, uma sociedade mais justa que dê às angolanas e aos angolanos, iguais oportunidades de inserção na sociedade e de sucesso na realização e concretização de seus sonhos.

Vencemos as eleições gerais tendo como lema principal, a necessidade de “Melhorar o que está bem, Corrigir o que está mal”. Palavras muito nobres, bonitas no papel mas em certa medida difíceis, mas não impossíveis de as tornar realidade.

No que diz respeito ao “Corrigir o que está mal”, uma coisa é dizer, é a manifestação de uma intenção, outra coisa é ter a verticalidade moral, a coragem de o fazer realmente sem ceder à pressões, chantagem ou mesmo ameaças.

Os eleitores votaram massivamente no MPLA, porque acreditaram que somos realmente capazes de começar a construir uma sociedade diferente, onde os que têm a responsabilidade de fazer respeitar a Constituição e a lei, sejam os primeiros a cumpri-la para que com seu exemplo eduquem toda a sociedade na necessidade do respeito pelo bem público, da necessidade de todos prestarem contas da forma como gerem o erário público que é propriedade de todos os contribuintes.

É de dirigentes com este perfil, que não esperam encontrar regalias, facilidades e privilégios, que têm a consciência que ser membro do Comité Central exige mais trabalho, mais responsabilidade, melhor conduta social, que o Partido precisa de descobrir e de promover.

Ao elegermos hoje os 134 camaradas, provenientes das listas de precedência do Congresso Ordinário, da JMPLA, da OMA, das Conferências provinciais extraordinárias e da Direcção Central do Partido, o MPLA fez o seu melhor no sentido de alcançar ou pelo menos nos aproximarmos ao máximo do objectivo traçado quando decidimos realizar o Congresso Extraordinário com este propósito.

Realçámos o facto de termos alcançado os 42% para o género e 61% para os jovens com idades até os 45 anos.

Congratulamo-nos ainda com o facto de 125 dos 134 candidatos, terem formação superior, o que ficou acima das nossas próprias expectativas.

Caros Camaradas

Foi no cumprimento das orientações e directrizes do Partido, que o Executivo desde muito cedo se preocupou em tomar medidas de combate à corrupção, de combate aos monopólios e à concentração da riqueza nas mãos de poucos, medidas a favor da sã concorrência entre as empresas, de facilitação do visto de turista e da criação do visto especial do investidor estrangeiro.
Abrimos o país ao mundo e como resultado disso, temos hoje acesso mais fácil à emissão dos eurobonds, aos financiamentos do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial em condições vantajosas, e que ao mesmo tempo passam a imagem de credibilidade da nossa política macro-económica, das nossas instituições financeiras, do nosso Banco Central, enfim do nosso país.

Como resultado disso, o país começa a ter uma outra perspectiva no que ao investimento privado diz respeito. As Conferências internacionais do turismo e do petróleo e gás recentemente realizadas no país, são bem o indicador do interesse que a economia angolana vem despertando junto dos investidores internacionais.

Com o fim do conflito armado que destruiu grande parte das principais infra-estruturas, o país teve necessidade de se endividar bastante para realizar investimento público em estradas e pontes, portos, aeroportos, caminhos de ferro, centrais hidro e termoeléctricas e respectivas linhas de transmissão, centrais de captação e tratamento de água, e outras necessárias ao desenvolvimento económico e social.

Realizou-se um grande esforço de reconstrução nacional, que obrigou o país a recorrer ao endividamento externo situado hoje nos 63% da dívida pública que por sua vez representa hoje 84% do Produto Interno Bruto nacional.

A dívida pública e particularmente a dívida externa, atingiram estes níveis tão altos comparado ao que realmente se investiu nas infra-estruturas, porque ela serviu também para financiar o enriquecimento ilícito de uma elite restrita muito bem seleccionada na base do parentesco, do amiguismo e do compadrio, que constituíram conglomerados empresariais com esses dinheiros públicos.
Com esta situação de injustiça que precisamos corrigir, por cada dólar que despendemos para realizar o serviço da divida, o Estado está também a pagar o investimento “dito privado” na banca, na telefonia móvel, nos media, nos diamantes, na joalharia, nas grandes superfícies comerciais, na indústria de materiais de construção e outros, que uns poucos fizeram com dinheiros públicos.

Não é aceitável e não podemos nos conformar, com o facto de se ter chegado ao ponto de colocar empresas públicas com destaque para a SONANGOL, a financiar também alguns desses negócios privados, como se de instituições de crédito se tratassem.

Se conseguirmos inverter esta situação, batalha ainda não ganha, então com estes e outros recursos vamos combater melhor a pobreza, retirar cada vez mais cidadãos do limiar da pobreza e edificar uma verdadeira classe média com um nível de vida aceitável.

Caros Camaradas

Para fazer os investimentos públicos em infra-estructuras e atender o sector social como a educação, a saúde, a habitação social, a cultura, o desporto e outros, o Estado conta sobretudo com uma fonte privilegiada de receitas” os impostos”, pagos regra geral pelas empresas e pelos cidadãos, vulgo contribuintes fiscais.

Para não penalizar muito o contribuinte, ao longo dos anos foram sendo experimentados e aplicados um conjunto de diferentes impostos, mas foi sempre preocupação dos governos, encontrar e aplicar um imposto que seja o mais justo quer para o contribuinte como para o Estado que arrecada para utilizá-lo para o bem público, no fundo no interesse do próprio contribuinte.

Hoje no mundo, é opinião quase unânime que o mais justo de todos os impostos é o imposto sobre o valor acrescentado ou simplesmente IVA, adoptado pela quase totalidade dos países de economia de mercado e que Angola se prepara para introduzir em breve, tão logo tenha o mínimo de condições de o fazer.

Como tudo na vida, o desconhecido inspira sempre dois sentimentos possíveis, curiosidade ou receio.
A incidência será de apenas de 14%, e não haverá acumulação do IVA com o imposto de consumo que hoje ronda os 30%.

A eventual subida de preços culpabilizando o IVA, não tem razão e fundamento para acontecer, porque se acontecer será apenas por mera especulação de comerciantes especuladores de má fé, com relação aos quais as instituições de defesa do consumidor devem ficar atentas.

Por ser uma novidade na nossa economia, a introdução do IVA será um processo a implementar de forma gradual e faseada, se tivermos em conta que o seu sucesso depende em muito da capacidade que as empresas terão a partir de agora na organização da sua contabilidade.

Uma janela de oportunidade se abre para os estabelecimentos de ensino de contabilidade, e a profissão de contabilista passa assim a ser mais valorizada na nossa sociedade.

Se por um lado não existem dúvidas quanto a pertinência da aplicação deste imposto, por outro deve a equipa económica do Executivo, avaliar o melhor momento para o seu arranque de preferência ainda este ano, tendo em conta um conjunto de factores.

Caros Camaradas Delegados

Estimados Convidados

Realizamos este Congresso Extraordinário sob o lema “MPLA e os Novos Desafios”.

O maior desafio é sem sombra de dúvidas o do aumento da produção interna, o da diversificação da nossa economia, tornando-a cada vez menos dependente das receitas da exportação do crude.

Trabalhamos para o aumento significativo da produção nacional de bens e de serviços com vista a alcançar a auto-suficiência em bens de consumo de primeira necessidade, reduzindo a importação e aumentando a exportação, e com isso a arrecadação de divisas.

Para o êxito deste programa ambicioso e desafiante, a que chamamos de PRODESI, Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição das Importações, contamos sobretudo com o empresariado privado nacional e com os investidores privados estrangeiros, para desenvolverem projectos em praticamente todos os ramos da nossa economia com destaque para a agro-pecuária, as pescas, o turismo, os transportes, as diferentes indústrias extractivas e de transformação, as energias renováveis e outras.

Com isso estaremos não só a garantir o aumento da oferta de bens de consumo interno, como também os de exportação como os cereais, a carne, o peixe e o marisco, a fruta, as rochas ornamentais, o diamante, o ouro e outros materiais, como também a garantir o emprego duradouro para os angolanos, para os jovens em particular.

Continuaremos a trabalhar de forma permanente com as associações empresariais angolanas, para em conjunto encontrarmos as melhores políticas que o Executivo deve tomar, que contribuam para o fortalecimento e crescimento do empresariado nacional e garantam o fomento da produção interna e do emprego.

Caros Camaradas

O conflito armado que se abateu sobre o país ao longo de algumas décadas, embora tenha definitivamente terminado já há 17 anos, constitui a principal causa do massivo êxodo rural das populações para os grandes centros urbanos sobretudo do litoral mas não só.

É verdade que a excessiva concentração do poder central, na tomada das decisões administrativas até das mais elementares à partir da capital Luanda, contribuíram também de forma negativa para o abandono a que o interior do nosso país está hoje em certa medida votado.

Constitui por isso um grande desafio para a Nação, para além da implementação do poder autárquico quando houver legislação que o suporte, o resgate da vida dos municípios, de forma a estancar o êxodo crescente das populações, através da criação de melhores condições sociais, oferta de emprego, saúde, educação, mobilidade, água e energia entre outros atractivos.

Com este propósito, o Executivo lançará ainda este mês, o PIIM Programa Integrado de Intervenção nos Municípios, cujos contornos mais detalhados serão conhecidos na devida altura.
Caros Camaradas

Este Congresso embora extraordinário, passará para a história como aquele que melhor cumpriu com a responsabilidade de garantir pelo menos 40% do género nos órgãos de Direcção do Partido tendo mesmo ultrapassado, aquele que mais rejuvenesceu a sua Direcção, aquele que em termos de escolaridade elegeu para o Comité Central mais membros com formação superior.

Este mesmo Congresso, é ainda o que definiu a necessidade imperativa do fomento da produção interna e das exportações, o fomento do emprego, o resgate da vida dos municípios e a ambição de conquistar a esmagadora maioria das câmaras municipais no quadro das eleições autárquicas, como os “Novos Desafios do MPLA” deste meio termo de mandato que nos resta até as eleições gerais.

É caso para se dizer que este Congresso Extraordinário, se constitui numa boa base para a garantia do sucesso do próximo Congresso Ordinário de 2021.

Com estas palavras, Declaro aberto o VII Congresso Extraordinário do MPLA.

Obrigado pela atenção!

quinta-feira, 13 de junho de 2019

48 º Ano da Casa de Angola em Lisboa

Caríssimos (as)

A Casa de Angola tem-se projetado no tempo e respeitando a história que permitiu chegar a 2019 com momentos de grande orgulho para todos que amam Angola e possuem o espírito da angolanidade Assim, este ano iremos promover um conjunto de atividades, para as quais apelamos a atenção.

Os melhores cumprimentos

Pel' A Comissão da Casa de Angola
Zeferino Boal


Pensar e Falar Angola

terça-feira, 28 de maio de 2019

Contributos para a História


Do Jornal de Angola e com autorização do Historiador Alberto de Oliveira Pinto


ENTREVISTA

“Não há uma verdade única sobre o 27 de Maio”

Isaquiel Cori
Autor de uma já vasta obra sobre história e cultura angolanas, da qual avulta a “História de Angola: da Pré-História ao Início do Século XXI”, Alberto de Oliveira Pinto, doutor em História, traz-nos uma visão do 27 de Maio de 1977, à luz da História. Entre outros tópicos, fala do papel de Agostinho Neto nos acontecimentos daquele fatídico ano.
Fotografia: DR
Vós, historiadores angolanos, tendes a maturidade, serenidade e isenção suficientes para narrar a verdade do 27 de Maio de 1977?
Em História, é sempre mais difícil abordar factos da História recente. O 27 de Maio de 1977 não tem ainda meio-século. Por isso, para mim, é recente ou mesmo contemporâneo. Penso, no entanto, que ao mesmo tempo – parece paradoxal, mas não é - se há uma necessidade em apurar a verdade – ou as verdades – há que deixar falar as pessoas que a viveram e que ainda se encontram vivas. Eu não vivi o 27 de Maio. Tinha 15 anos na época, mas já vivia em Portugal. O 27 de Maio, ao tempo, chegou-me apenas pelos meios de comunicação social portugueses e por alguns familiares que andavam entre Angola e Portugal. Mais tarde, vim a conhecer pessoalmente, em Portugal, muita gente que o viveu e que me transmitiu diversíssimas visões. Houve um período, nos anos de 1994 e 1995, em que realizei no CIDAC (Centro de Informação e Documentação Amílcar Cabral), em Lisboa, uma investigação que se restringiu a ler de ponta a ponta as edições do Jornal de Angola de então, nomeadamente, os discursos de Agostinho Neto e os editoriais de Fernando Costa Andrade (Ndunduma Uelépi). Acabei por não fazer nenhum trabalho a partir dessa investigação e a minha especialidade, como historiador, virou-se, sobretudo, para a história do discurso colonial e para a história cultural angolana. Entre 2012 e 2016, escrevi a “História de Angola”, cuja 3ª edição foi publicada em Lisboa, no passado dia 15. Nela dedico sete páginas ao 27 de Maio. Procurei sintetizar tudo o que recebi de informações de testemunhas, um bocadinho da minha incompleta investigação dos anos de 1990 e, sobretudo, do que apurei com os trabalhos de dois historiadores indubitavelmente autorizados: a infelizmente já falecida Dalila Cabrita Mateus e o meu amigo Jean-Michel Mabeko-Tali, que, além de ser um historiador meticuloso e honestíssimo, é também ele uma testemunha do 27 de Maio, pois vivia em Luanda na época. Foi com orgulho que traduzi para português e posfaciei a versão ampliada do seu livro Guerrilhas e Lutas Sociais. O MPLA perante si próprio. 1960-1977, cuja 2ª edição vai ser lançada em Lisboa, no próximo dia 29.
E já agora, qual é a verdade do 27 de Maio de 1977, à luz da História?

Aí encontramo-nos perante outro paradoxo aparente na actividade de um historiador. Embora eu entenda que um historiador deva pugnar pela verdade, doa a quem doer, nunca se pode dizer que haja uma verdade única. As perspectivas dos homens são sempre diferentes e é isso que dignifica a História e as demais ciências sociais. O importante é que sejamos intelectualmente honestos e prestemos atenção a todas as fontes.
Há consenso, entre os historiadores, sobre a natureza das ocorrências do 27 de Maio de 1977? Foi uma tentativa de golpe de Estado? Um levantamento popular?

Evidentemente que, pelo que acabei de afirmar, não pode haver consenso entre os historiadores. Do meu ponto de vista, houve uma tentativa de golpe de Estado a 27 de Maio de 1977. Quando se ocupa uma estação de rádio e um quartel e se exalta o povo a sair à rua e a marchar até ao Palácio presidencial, estamos perante o quê? Tal, porém, de modo algum justifica a repressão sangrenta que se seguiu.
Há uma dificuldade tremenda em encontrar interlocutores que, à época, estavam em posição de poder. Na sua opinião a que se deverá isso?
O motivo só pode residir no facto de, efectivamente, terem sido praticados crimes na repressão à tentativa de golpe de Estado a 27 de Maio. No entanto, compreendo que certas pessoas não queiram falar e tenham esse direito.
Qual é a explicação para tanta violência, tanta intolerância, associadas ao 27 de Maio?

Não vejo qualquer explicação para a violência e para a intolerância, seja em que circunstância for. Há coisas que, para mim, não têm nunca qualquer justificação, nomeadamente, a violência física e a corrupção.
O MPLA/Estado em 1977 estava envolto num conflito intestino e ao mesmo tempo tinha poderosos inimigos externos, a si e ao país. Como é que o MPLA/Estado se conseguiu manter de pé, num cenário de aparente fragilidade?

Precisamente pelo que acabou de dizer: conseguindo tornar-se um partido-Estado, mantendo-se como tal até hoje e sabendo habilmente adaptar-se às conjunturas históricas internacionais. Ao tempo, estava-se em plena Guerra Fria, também chamada conflito Leste-Oeste. Quer queiramos, quer não, com maiores ou menores divergências, mesmo entre Cuba e a União Soviética, o certo é que o MPLA saiu vitorioso, conseguindo o apoio do Bloco Leste. Penso, no entanto, que o Ocidente também tem qualquer coisa a dizer, porquanto os EUA e os países europeus ocidentais, como a França, nunca deixaram de ter capitais em Angola, no que diz respeito à produção petrolífera e diamantífera.
Algo de que se fala muito e de que se vai falar mais, certamente, é o papel de Agostinho Neto no quadro daqueles acontecimentos. Ele tinha como pôr um travão a tudo aquilo? Era possível?

Conheci pessoas não angolanas – inclusive que nunca estiveram em Angola – e muito isentas que conheceram pessoalmente Agostinho Neto na juventude e que me garantiram que ele não podia ser o autor dos discursos aterradores que proferiu. O certo, porém, acrescentavam, é que Agostinho Neto aceitou lê-los em público. Não sei se Agostinho Neto tinha como pôr um travão, mas, como Chefe de Estado, sem dúvida que teve a sua quota-parte de responsabilidade pelo que aconteceu. É certo que a liderança de Agostinho Neto dentro do partido desde 1962 – e Jean-Michel Mabeko-Tali demonstra-o bem no seu livro Guerrilhas e Lutas Sociais. O MPLA perante si próprio. 1960-1977 – nunca favoreceu o debate de ideias, o que contribuiu muito para o desprestígio de Agostinho Neto depois do 27 de Maio. Inclusive, há quem ponha em causa a sua qualidade como poeta. A meu ver, é um dislate. A obra literária de Agostinho Neto e de outros autores seus contemporâneos é incontornável. Não sendo intocável – pois ninguém o é -, Agostinho Neto é, indubitavelmente, o primeiro chefe de Estado da Angola independente e isso é inalienável. Mais uma vez, segundo a análise de Jean-Michel Mabeko-Tali, um dos erros cometidos por Nito Alves foi precisamente o facto de ter projectado um golpe de Estado mantendo a cabeça do Estado, ou seja, Agostinho Neto.
Acha que faz sentido estar a discutir hoje quem tinha ou não tinha razão?

Ir à procura de quem tinha ou não razão, do meu ponto de vista, não faz o menor sentido. A História não é um tribunal e, por isso, a meu ver, não há nunca, em História, quem tenha ou não razão. Faz sentido, isso sim, é compreender os tempos e as conjunturas, sem nunca silenciar as memórias, esconder ou escamotear o que quer que seja. Debater sempre, enfim. Isso aplica-se a todos os factos históricos, mesmo àqueles que têm séculos ou milénios.
O Presidente da República, João Lourenço, criou por decreto uma comissão para estudar e propor o tipo de homenagem às vítimas dos vários conflitos políticos de 1975 a 2002. O que acha dessa medida?

Acho uma medida acertada. As homenagens são sempre lugares de memória e um Chefe de Estado deve preservar as memórias do seu povo.
Quando escreveu a sua “História de Angola” teve dificuldade em abordar os acontecimentos relacionados com o 27 de Maio de 1977?
Nunca é fácil abordar a História. E as dificuldades que defrontei, já as mencionei. No entanto, penso que o que vale a pena referir é alguns dissabores por que passei, depois de publicar o livro. Por um lado, certos sectores ligados ao poder em Angola (que, evidentemente, não posso identificar aqui) censuraram-me por, alegadamente, ter mencionado um número “excessivo” de mortos no 27 de Maio. Na verdade, os números que apresentei são díspares, uns apresentados por Dalila Cabrita Mateus e outros por Jean-Michel Mabeko-Tali. Nas minhas 7 páginas, não fui muito além de pôr em confronto os dois historiadores, o que entendo perfeitamente plausível num trabalho como o meu livro “História de Angola”, que se pretende de carácter compendiador. Mas, por outro lado, alguns amigos em Portugal, defensores da ideia de que não houve qualquer conspiração nem qualquer golpe de Estado a 27 de Maio, passaram a olhar-me de soslaio, por eu manifestar essa perspectiva e inclusive por ter utilizado, mesmo entre aspas, a expressão “fraccionista”. Insisto na ideia de que, para um historiador, a verdade tem que ser sempre apurada, doa a quem doer. Mas é triste que o nosso trabalho, por vezes, acabe com algumas amizades. E o 27 de Maio é um excelente exemplo.Pensar e Falar Angola

Recordando o 27 de maio de 1977

rebuscando um texto antigo e à espera que o tempo limpe as arestas e as areias que toldam as mentes ainda.

Hoje, 27 de Maio de 2012, recordo o 27 de Maio de 1977 sem necessidade de fazer qualquer levantamento do número de vitimas, dos culpados, dos inocentes e dos que nem tiveram tempo de saber o que é que se passou realmente. 

As famílias choram os seus 
mortos, seus heróis e vitimas, de forma afectiva, carinhosa e saudosa, como é próprio das família. Em ambos lados, do triângulo ou quadrado dos acontecimentos, dos paralelismos coincidentes, vão culpar A ou B, ou todo o abecedário, dos torturados, desaparecidos ou concentrados em campos de concentração provisórios ou imaginários, dos fuzilados e dos assassinados.

Eu apenas não quero deixar de mencionar a data, porque faz parte da Historia de Angola, escrita, desenhada, investigada mas não esclarecida, porque ainda faz parte da alma de quem fez todas estas outras coisas. Os que tentam esquecer e os que querem reviver não conseguem ser transparentes e equidistantes de razões, acções e reacções.

Esta imagem veio-me parar ao e-mail, como outras chocantes. Não identificadas e 'escondidas' num anonimato pelo que a uso para, repito, recordar um dia da História de Angola e não como propaganda política actual, porque acredito que um dia vai ser escrita como História de Angola e não como um facto político carregado de emoção.



Pensar e Falar Angola

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Africa transformation

Pensar e Falar Angola

Lúcio Lara - Trajectória de um Combatente

Celebrando o 90º aniversário do nascimento de Lúcio Lara “Tchiweka” (9 de Abril de 1929 – 27 de Fevereiro de 2016), a Associação Tchiweka de Documentação (ATD) produziu um minidocumentário evocando momentos do percurso desta destacada figura da história de Angola: desde os tempos da infância e juventude aos da sua actuação política na Angola independente, passando por diversas etapas da luta de libertação nacional.
É com prazer que a ATD apresenta: “Lúcio Lara – Trajectória de um combatente” 

os nossos agradecimentos e devida vénia

Pensar e Falar Angola

domingo, 12 de maio de 2019

Liceu Vieira Dias

Cem anos de Liceu Vieira Dias: Uma das figuras da História de Angola

Analtino Santos
O nacionalista Carlos Aniceto "Liceu" Vieira Dias, fundador do agrupamento musical Ngola Ritmos e considerado por muitos o Pai da Moderna Música Popular Urbana Angolana, foi durante sete dias alvo de intensas homenagens pelo centenário do seu aniversário natalício. O promotor das celebrações, que contaram com a participação de familiares, contemporâneos, amantes e pesquisadores da música angolana, foi o Centro de Estudos Africanos da Universidade Católica de Angola (UCAN). Fizeram parte da agenda de eventos uma conferência, exposição de fotografias, apresentação de livros e exibição de filmes.

As actividades começaram na terça-feira, 1 de Maio, dia em que se Carlos Aniceto Vieira Dias estivesse em vida completaria exactamente 100 anos. O primeiro dia das celebrações foi marcado por testemunhos de familiares e momentos emotivos. Nas instalações do Centro de Estudos da UCAN, no Largo das Escolas, depois das saudações da Reitoria, foram expressos importantes testemunhos, como o do filho, o músico Carlitos Vieira Dias, que realçou não apenas o lado artístico do pai, muito marcado pela música clássica, iniciado com aulas de piano e a música brasileira. Carlitos Vieira Dias destacou o facto do pai ser um homem de fortes convicções e o seu envolvimento com o nacionalismo. Também revelou que tinha apenas 11 anos quando o pai foi preso pelo regime colonial.
Uma outra revelação, desconhecida por parte dos presentes e omitida pelos políticos e determinados segmentos da sociedade, foi feita pelo primo, Dom Filomeno Vieira Dias, que depois de ter apresentado o tema "O Homem e o Nacionalista", falou da cumplicidade e hostilidade de alguns padres católicos. De uma forma pedagógica e conciliadora, foi forçado a responder à pergunta sobre o ostracismo que Liceu viveu nos anos que se seguiram à Independência. Depois de ter feito o enquadramento histórico, com menção ao anseio pela liberdade, às contradições internas, abandono da causa, traições e outros aspectos que acontecem na vida de qualquer movimento de libertação, sem rodeios afirmou que o envolvimento de Liceu Vieira Dias na Revolta Activa, dentre outras desilusões, determinou o seu ostracismo. 
Era tanto o incómodo, que quando um grupo de cidadãos realizou uma homenagem a Liceu Vieira Dias, onde o etno-musicólogo Jorge Macedo fez uma apresentação, o Bureau Político do MPLA saiu, de seguida, com uma nota manifestando o seu posicionamento. O clérigo afirmou que apesar deste “irritante”, Liceu não sofreu outras represálias e sempre teve o carinho da população.
O nacionalista Amadeu Amorim, colega de Liceu no Ngola Ritmos, também falou, na primeira pessoa, sobre a influência de Liceu e a ousadia que teve de estilizar ritmos locais para uma audiência de colonos e da elite africana. Reconheceu a capacidade de Liceu Vieira Dias em transportar para a guitarra o que recolhiam e ouviam de proveniência das zonas rurais. Também citou Manuel dos Passos como sendo o homem que recolhia e tinha maior conhecimento da “outra” realidade vivida pelos nativos.
Amadeu Amorim, que também esteve na cadeia com Liceu, confidenciou que na época em que estavam no Tarrafal e ouviram as gravações de conjuntos como Os Kiezos, Jovens do Prenda e outros, que começavam a se destacar, reconheceram que estes conseguiram dar outras sonoridades à música angolana e apelaram para que tivessem cuidado, para não serem explorados em função da qualidade das obras.

Homenagem poética

No primeiro dia da conferência ainda houve declamação de poesia, com Amélia da Lomba e Quesinha Van-Dúnem, pseudónimo da magistrada judicial Pulquéria Van-Dúnem. Foram declamadas duas obras poéticas que citam Liceu Vieira Dias e os Ngola Ritmos, uma de Agostinho Neto e outra de Ernesto Lara Filho. Se na primeira Neto lembra as farras e cita Liceu como um herói, na segunda Lara Filho fala de um funeral onde as canções do Ngola Ritmos seriam tocadas. Na voz de Amélia da Lomba sentiu-se a abrangência nacional da figura de Liceu Vieira Dias, comprovada pela sobrinha Pulquéria Van-Dúnem, que com emoção deu o testemunho do que viveu da relação entre o pai, Antoninho Van-Dúnem, e o seu primo Liceu, mostrando que mesmo em Benguela, onde residiam na altura, os feitos do primo e do grupo não passavam despercebidos. 
O momento cultural com o grupo coral da UCAN, a inauguração da exposição fotográfica e a leitura e assinatura de uma petição pública para atribuição do nome de Liceu Vieira Dias ao Largo do Cruzeiro, marcaram o primeiro dia. A presença, mesmo doente, do coordenador do grupo de cidadãos que em meados dos anos 1980 ousou realizar uma quinzena em homenagem a Liceu Vieira Dias, o professor, homem de cultura e sindicalista Manuel de Victória Pereira, num dia que para o mesmo teve o duplo sentido de celebração da vida e obra de Liceu e do Dia do Trabalhador, foi um dos destaques.

Novos paradigmas

Carlitos Vieira Dias esteve muito interventivo e com abordagens surpreendentes, muito porque algumas pessoas negam-se a aceitá-las ou estão dispostas a ouvir outras narrativas. Como músico, Carlitos é cuidadoso e diz que carece de investigação assumir que o Samba teve origem no Semba. Mas a grande quebra de paradigma que o guitarrista impôs foi quando demonstrou, com uns toques de violão, o distanciamento rítmico do Semba e da Massemba, revelando que do pai ouviu que a Kazukuta está na base do Semba, que apenas passou a chamar-se assim porque foi uma forma dos assimilados apropriarem-se do ritmo, dando-lhe uma outra “levada” e afastando-se do rótulo “kazukuteiro”, como eram tratados os africanos que não pertenciam a esta classe de colonizados.
Num dia muito musical, Kizua Gourgel falou da influência de Liceu Vieira Dias na música moderna angolana. O artista, que tem recuperado temas do reportório do histórico grupo, defendeu a inclusão das sonoridades dissonantes na música angolana, sustentando que as mesmas, quando bem doseadas, não fazem mal e estão presentes em todos os géneros musicais. Um exemplo de artistas nacionais que recorrem a estes acordes são Filipe Mukenga, Ruy e André Mingas, Carlos Lopes, Filipe Zau, assim como os jovens que apostam em fusões musicais. 
Importa salientar que Carlitos Vieira Dias disse que, nos últimos anos, o seu pai foi introduzindo estas notas em temas seus, numa altura que o piano e a guitarra voltaram a fazer parte da sua vida. Carlitos, depois de tocar nas mais emblemáticas formações da música angolana de raiz, incluindo os Ngola Ritmos, tem sido um dos músicos mais profícuos no uso dos acordes dissonantes.

Abordagem científica

O terceiro dia ficou reservado para os conferencistas, que, no período na manhã, abordaram o painel “A música de Liceu Vieira Dias e do Ngola Ritmos e a história social angolana”, que foi moderado por Jorge Gumbe, artista plástico e director do ISART-Instituto Superior de Artes. Esse painel contou com a participação da americana Marissa Moorman, do brasileiro Washington Nascimento e do angolano Jomo Fortunato, respectivamente com as propostas temáticas “Liceu Vieira Dias e a sua acção musical”, “O papel da música na construção da Nação” e a “A materialização do Semba”. 
Os conferencistas internacionais, ambos historiadores, prenderam-se à história social angolana, valorizando a importância dos espaços físicos e do Kimbundu como língua franca. A elite assimilada africana e sua influência no nacionalismo angolano, dentre outros aspectos ligado à música e à construção da Nação foram tópicos discorridos por Marissa Moorman, autora de um livro sobre o assunto.
O brasileiroWashington Nascimento, ainda na mesma linha, afirmou que durante as suas pesquisas, mesmo quando não estava interessado na questão musical, Liceu Vieira Dias era uma personagem-chave. O interesse na figura alargou-se depois de tomar contacto com o livro dos jornalistas angolanos Drumond Jaime e Hélder Barber,onde entrevistam actores políticos que citaram Liceu como personagem central, falaram da sua dimensão política e do sentimento de afectividade por ele. Nascimento uma apresentação cronológica dos ritmos brasileiros, em paralelo relacionando as duas sociedades, e terminou com um trecho de uma novela brasileira onde “Birim Birim” é entoada numa cerimónia fúnebre.
Jomo Fortunato retomou um texto seu publicado no Jornal de Angola há quase uma década, onde de forma historiográfica fala da renovação estética da música angolana. O crítico musical e um dos maiores investigadores da música popular angolana, teve de enfrentar um público que se mostrou convencido com a perspectiva apresentada por Carlitos Vieira Dias, relativamente à origem do Semba. Sempre mantendo que o seu ponto de partida é a Massemba e não a Kazukuta, Jomo Fortunato sustentou um debate acalorado, que teve de ser activamente moderado e “equilibrado” por Mário Rui Silva, outro pesquisador musical de créditos firmados, que alertou para a necessidade da questão ser levada à discussão num fórum de especialistas, com o uso da partitura musical e da tecnologia, para registar os sons.

Depoimentos ricos

A segunda parte dos debates consistiu numa mesa redonda, rica em depoimentos de figuras da sociedade civil e parentes. Podemos destacar as participações do nacionalista e juiz jubilado Rui Clinton, o arquitecto Troufa Real, o deputado Vicente Pinto de Andrade, o general Paulo Lara, o músico e realizador do programa radiofónico da RNA“Poeira no Quintal”, Dikambu, o compositor Soky dya Nzenze, o jornalista e autor de um livro sobre música angolana José Weza, o coordenador do evento, Nelson Pestana Bonavena, dentre outros, com contributos que ajudam a melhor compreender não apenas a obra e a música de Liceu Vieira Dias e do Ngola Ritmos, mas também aspectos periféricos da história sócio-cultural e da política nacional.
Depois dos dias dedicados aos debates, houve tempo para que Mário Rui Silva, com o seu violão, mostrar alguns dos temas que resultaram da pesquisa que realizou junto de Liceu. Na Liga Africana, no sábado, o guitarrista que depois de ter-se destacado na chamada música moderna fez a transposição para a música de raiz, não conteve as lágrimas de emoção ao cantar Ngola Ritmos, proporcionando um dos momentos mais fortes de todo o cenário. O domingo foi o dia dedicado à liturgia, com a realização de uma missa em memória de Liceu Vieira Dias e uma romaria ao Cemitério do Alto das Cruzes.
Um ponto alto foi a participação deMarissa Moorman, Soky dya Nzenze, José Weza e Bonavena no programa radiofónico “Conversa à Sombra da Mulemba”, comandado por Drumond Jaime e Raimundo Salvador e emitido nas tardes dominicais na Rádio Ecclesia. Outro ponto alto foi a sentada musical no Largo do Cruzeiro. 
Os dois momentos foram igualmente férteis em revelações. No programa radiofónico a conversa teve detalhes antes poucos explorados, com destaque para a formação dos Ngola Ritmos em paralelo com os movimentos políticos que precederam a criação do MPLA, assim como a inclusão de um elemento pouco citado, o nacionalista Matias Miguéis, que esteve na linha da frente desta formação artística e teve uma vida totalmente entregue ao nacionalismo angolano. 
A questão da música de intervenção foi debatida. Sem rodeios falou-se do 27 de Maio de 1977, sendo esta parte da discussão marcada pela frase de Soky dya Nzenza: “Com a morte dos elementos do Trio da Saudade [David Zé, Urbano de Castro e Artur Nunes] perdeu-se parte do legado de Liceu”.
Ainda houve tempo para, no penúltimo dia, no Salão Nobre da UCAN, realizar-se uma conversa com Amadeu Amorim, que resultou numa discussão acalorada com a participação dos estudantes e outros interessados. Carlitos Vieira Dias manteve o seu posicionamento quanto à origem do Semba e discordou de Amadeu Amorim, defendendo que resultou de vários estilos. As projecções dos filmes “O Ritmo do Ngola Ritmos”, de António Ole, que durante muito tempo foi censurado, e “O lendário Tio Liceu”, de Jorge António, assim como a apresentação do livro “Ritmos da Luta”, da autoria de Fernando Carlos, foram actividades que aconteceram nesta semana comemorativa, que encerrou com uma Gala no Cine Tropical.

Gala a fechar
A Gala, diferente dos eventos anteriores onde as cadeiras vazias dominavam a cena, teve uma forte presença dos convidados. A noite de festa contou com a participação de Dumay Missete, que em Kimbundu e na companhia de Quelinha Van-Dúnem, declamou o poema“Içar da Bandeira”. Nguami Maka foi outra proposta, assim como uma formação artística liderada por Lito Graça, com inclusão de Zé Manico e Dina Santos, interpretou canções recriadas pelo Ngola Ritmos. 
Carlitos Vieira Dias e Mário Rui Silva também mostraram o seu potencial e o que carregam em si do acervo musical do homenageado. A noite fechou com uma simbiose entre todos os músicos participantes a reviverem em palco o Quintal do Tio Liceu, emocionando toda a plateia, a partir da qual Ferdinando Vieira Dias, filho mais-novo do Tio Liceu, acompanhou o fecho das actividades de homenagem a uma das grandes figuras angolanas do século XX.


in Jornal de Angola

Pensar e Falar Angola

terça-feira, 30 de abril de 2019

Colonização da Huíla

Retirado da internet
Entre 1868 e 1872, fixaram-se os primeiros condenados no Chivinguiro.
Em 1877 estabeleceu-se o primeiro europeu, João Bordalo, a 3 Km da Humpata, Fazenda Esperança.
Em 1881 fixou-se na Humpata a colónia boër, S. Januário, constituída por 55 famílias (47 mulheres, 85 homens, 81 rapazes e 82 raparigas) com 100 cavalos, 2000 bois, 500 ovelhas e 60 cães
Saíram 6 anos antes do Transwaal, por pressões inglesas, vindo após dolorosas marchas e penosas etapas, fixar-se no Caoko, a sul do Cunene.
Em 1650 a Holanda tinha tomado posse do Cabo da Boa Esperança, tendo Van Riebeck fundado uma colónia, onde hoje assenta a cidade do Cabo.
A Companhia das Índias deu passagem a emigrantes franceses, que em virtude de lutas religiosas e da renovação do Edito de Nantes, haviam fugido para a Holanda. Deste cruzamento em África, nasceu “raça” Boër.
Em 1795 o general inglês Clarke tomou conta da povoação do Cabo, sendo que os boërs não quiseram sujeitar-se ao domínio inglês, daí datando a identidade e a vida errante do povo boër.
Ao lado desta colónia böer o governo português decidiu intercalar famílias portuguesas, para que através de seus cruzamentos, os absorvessem.
O primeiro grupo de colonos portugueses chegou em Março de 1883 e em Abril de 1884 começou a chegar a leva de colonos madeirenses, seguindo também 42 pessoas que haviam chegado a Mossamedes como colonos, vindos de outros pontos, leva que se prolongou até 1892.
Em 1883 o governador geral dissolveu a colónia Júlio de Vilhena, na Mahaballa, Pungo Andongo, facultando a esses colonos a vinda para a Humpata.
A estas famílias de colonos era dado o direito a transporte, hectare e meio de terra, uma junta de bois, utensílios de lavoura, sementes e vencimento: homens 300 reis diários, mulheres 200 e crianças menores de 15 anos 100 reis.
Os boërs viram com maus olhos a chegada dos portugueses, e foram minados por um inglês W. Jordan, que ali se veio estabelecer, o que fez sair grande parte das famílias, para se estabelecerem em 1885 na Palanca, voltando mesmo alguns ao Transwaal, de onde depois voltaram a regressar de novo, em 1888.
Do primeiro núcleo, ficaram na Humpata cerca de 12 famílias. Boërs.
Este inglês arrastou consigo algumas famílias da Humpata para fundar a república Upingtonia na Damara, que teve a efémera existência de 2 anos, depois da qual, as famílias que a compunham, voltaram em parte à Humpata.
Em 1885 foram da Humpata, 44 colonos para a Chibia.
Ainda em 1880, os territórios a leste da Humpata, não eram seguros, onde o soba do Lubango, “Cabeça Grande”, tinha a sua embala, no Muholo. Foram precisos 2 anos para se alcançar a pacificação.
O concelho do Lubango começou pois, em fins de 1884 com a fundação da colónia de Sá da Bandeira, cujos colonos foram recrutados da Madeira, nos termos do decreto de 16 Agosto de 1881. Os primeiros chegaram a Mossamedes, a 19 de Novembro de 1884, a bordo do Índia e ao planalto a 16 de Janeiro de 1885.
Logo a seguir veio novo contingente, chegado a Mossamedes a 18 Junho desse ano e à colónia a 1 Agosto.
Sucessivamente foram chegando novas levas de colonos, até 1892, em que cessou a emigração oficial.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Angola - Pôr do Sol



Pensar e Falar Angola

25 de Abril


Desde madrugada parece melhorou o tempo. Foi na madrugada de 25 que mudou o tempo. E desde esse tempo existe a ladainha boa e a má. Uns que ganharam e outros que perderam. Parece até amor desamando-se. Tem uns que cantam e outros que vêem o tempo passar, dormindo no passado. Tem uns que se floram e dão vivas, outros vestem-se de lágrimas ganhando distância dos dias de hoje. Não tem madrugada de unanimidade. Não tem espelho que mostre com matemáticos cálculos se existe dia mais lindo que a madrugada deste dia ou se foi dia que esqueceu de amanhecer..
Viva o 25 de Abril

Pensar e Falar Angola

sábado, 2 de março de 2019

Dia da Mulher Angolana

Numa mensagem alusiva ao Dia da Mulher Angolana, que hoje se celebra em Angola, o Presidente João Lourenço indica que, na qualidade de “Presidente de todos os angolanos”, reconhece o papel das mulheres “como esteio da multiplicidade de tarefas do quotidiano que concorrem para a elevação dos níveis de educação, patriotismo e aperfeiçoamento de habilidades das crianças e dos jovens que terão sobre os ombros a missão histórica de assegurar a perenidade da pátria” angolana. 
“Transmito a todas as mulheres que ajudam de modo determinado a construir um país melhor, de Cabinda ao Cunene, uma palavra de encorajamento e incentivo, certos de que os desafios que hoje se nos apresentam nas mais variadas frentes – com realce para a economia – continuarão a conclamar a vossa determinação e sabedoria, para serem vencidos”, escreve o chefe de Estado angolano na mensagem.
Na mensagem, distribuída pela Casa Civil do Presidente da República, João Lourenço diz-se “convicto” de que a “força” da mulher angolana “continuará a ser decisiva na árdua e longa batalha pelo resgate dos valores cívicos e morais e na luta sem tréguas contra as injustiças sociais e a discriminação”. 
Em Angola, a data é assinalada em todo o país com um conjunto de palestras e conferências sobre o papel da mulher na sociedade angolana, a par de iniciativas de índole cultural, recreativo e desportivo.
Quarta-feira passada, em Genebra, na 72ª sessão ordinária do Comité para a Eliminação de Todas as Formas de Discrição Contra a Mulher, a secretária de Estado da Família e Promoção da Mulher angolana, Ruth Mixinge, afirmou que o Governo angolano tem estado a consolidar os órgãos consultivos de concertação social e a acompanhar e controlo a execução das medidas legislativas e políticas, reforçando a articulação da resposta social a favor da mulher e a protecção dos seus direitos.
Na ocasião, Ruth Mixinge realçou que as acções do governo angolano visam valorizar o papel da mulher nos domínios familiar, social, político, económico e empresarial, bem como na perspectiva de assegurar, de forma sustentável, o empoderamento das jovens mulheres e da mulher no meio rural, iniciativas enquadradas no Plano de Desenvolvimento Nacional (PDN 2018/22).
Com o foco na mulher, Ruth Mixinge destacou estarem em execução programas de promoção do género e empoderamento da mulher, valorização da família e reforço das competências familiares, apoio às vítimas de violência baseada no género e a estruturação económica e produtiva das comunidades.
Dados do Censo Geral da População e Habitação em 2014 apontam que o número de habitantes está perto dos 30 milhões dos quais 52% são mulheres, tendo Ruth Mixinge salientando que a implementação da Política Nacional para a Igualdade e Equidade de Género “proporcionou a ascensão de um número considerável de mulheres aos cargos de tomada de decisão”.
A secretária de Estado angolana salientou que 30,5% dos assentos parlamentares são ocupados por mulheres, enquanto no aparelho do Estado a percentagem é de 19,5%, com maior presença nos sectores da Educação, Saúde e Trabalho Doméstico.
Ruth Mixinge considerou importante a aprovação do novo Código Penal angolano por conter disposições que reforçam a implementação da convenção e os princípios da igualdade, não discriminação com base na raça, orientação sexual e crença, e agrava as penalizações aos crimes cometidos contra a mulher previstos na Constituição da República de Angola, de 2010.
Dados apontam que, em 2018, foram registados 1.893 casos de denúncias de violência doméstica, das quais 83% feitas por mulheres e 17% por homens.
Por outro lado, lembrou que Angola assinou e ratificou várias convenções, como a dos Direitos das Pessoas com Deficiência e seu protocolo adicional, Protocolo adicional ao Pacto dos Direitos Civis e Políticos relativo a Pena de Morte, Convenção contra a Discriminação Racial, Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos Cruéis, Desumanos e Degradantes e Convenção sobre os Desaparecimentos Forçados.


Pensar e Falar Angola

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

domingo, 13 de janeiro de 2019

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

economia

No primeiro comunicado de 2019, o banco central angolano refere que a venda de divisas se destina também para garantir os "plafonds" para cartas de crédito, bem como à liquidação de cartas de crédito, ao atendimento às casas de cambio e às operadoras de remessas.
Após cada sessão, o BNA divulgará, no seu portal institucional, o montante disponibilizado, o número de participantes, as taxas de câmbio máxima e mínima admitidas bem como a taxa de câmbio média resultante da sessão.
Hoje, as taxas de câmbio mantêm-se inalteráveis face às registadas no último dia de 2018, a moeda europeia está cotada a 354,828 kwanzas/euro (a 01 de janeiro de 2018 transacionava-se a 185,4 kwanzas/euro), o que corresponde a uma depreciação de mais de 47%, tendo atingido mínimos históricos há cerca de mês em meio (355,057 kwanzas/euro).
Em relação ao dólar, a moeda angolana manteve-se estável desde 26 de dezembro último, transacionando-se a 310,158 kwanzas/dólar (há um ano, quando se situava nos 165,92 kwanzas/dólar, a moeda angolana depreciou-se 46,504%).
Acabadas as sessões de venda trissemanais de divisas em leilão aos bancos comerciais, iniciadas a 09 de janeiro de 2018, o BNA está desde 01 de novembro a proceder a operações diárias, tendo, em dezembro colocado no mercado primário 1.450 milhões de dólares (1.260 milhões de euros).

Pensar e Falar Angola

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Viagem a Windhoek por Santa Clara - Ondjiva

Viagem a Windhoek por Santa Clara

Aterramos em Ondjiva, capital do Cunene, depois de uma tranquila viagem de aproximadamente hora e meia. O brilho intenso do sol obriga as pessoas mais sensíveis a protegerem os olhos. A estação quente atinge o pico nesta província no mês de Dezembro. O calor aperta, apesar da tarde caminhar para o fim. Fora da sala de desembarque, os passageiros deparam-se com motoristas e cobradores que “chamam” para Ondjiva e Santa Clara, o mais movimentado dos quatro postos fronteiriços que ligam o Cunene à vizinha República da Namíbia. Este é um dos principais destinos de boa parte dos viajantes da companhia de bandeira nacional, que garante três frequências aéreas semanais a partir de Luanda. De distintos pontos do país chegam, diariamente, por via terrestre, turistas a bordo de autocarros, táxis colectivos de pequeno e grande porte ou em viaturas próprias.
Muita gente sai directamente do aeroporto para Santa Clara, localidade si-tuada a cerca de 45 quilómetros de Ondjiva.A passagem de táxi comum, vulgo candongueiro, custa 500 kwanzas, mas pode encarecer, dependendo da índole do transportador. Alguns oportunistas só precisam de saber que o passageiro desconhece o tarifário local para alterarem a tabela. Não foi o nosso caso. Ao amanhecer, circulamos com a “viatura oficial” da Edições Novembro, o que ampliou as possibilidades de apreciar paisagens, parar, rever detalhes e rentabilizar ao máximo a estadia. 
Antes de nos fazermos à estrada, damos um passeio básico pela cidade. Às 8 horas da manhã, o sol vai alto. O calor seco começa a importunar. Nada que impeça a caminhada. “O segredo é beber muita água, principalmente pela manhã”. O conselho vem do colega aqui radicado há alguns anos.
As repartições públicas abrem pontualmente as portas. Parece que todos se conhecem, porque as pessoas se saúdam com um sorriso autêntico. Ondjiva, porém, está quase irreconhecível. Poucos aspectos lembram a cidade fantasma dos duros anos de guerra. Há muito movimento, mas o trânsito flui. Várias opiniões convergem no ponto de vista se-gundo o qual a gestão do falecido governador Didalewa contribuiu para o visível crescimento dos últimos anos. A “centralidade” construída para albergar os 3 mil desalojados pelas cheias decorrentes das chuvas tem casas que muitos gostariam de deslocar para os seus endereços em Luanda. 
O Governo Provincial mudou de sede. A nova biblioteca faz jus ao nome. Há uma igreja construída de raiz, já entregue à  Católica. Deve ser inaugurada no início do próximo ano. O Tribunal provincial foi transferido para um edifício com maior dignidade, onde também funciona a Procuradoria Geral da República. Espaçosa e confortável é a sala do juiz presidente. Nela se sente o ar de solenidade que só os magistrados transmitem, incluindo durante conversas informais. Ondjiva cresce a olhos vistos, embora seja cedo para se sentir o impacto da actual governação. 
Entretanto, nem tudo mudou. Cercados por chapas, os destroços da guerra continuam no mesmo lugar. Esses, sim, remetem o transeunte para o período em que a aviação sul-africana praticamente reduziu a escombros a capital do Cunene. A província foi palco de batalhas memoráveis que concorreram para alicerçar o espírito pa-triótico contextualizado na devida época. Os cânticos revolucionários que narravam epopeias heróicas exaltavam o facto de o Cunene só ter entrada. “Não há saída”, entoavam os militares, secundados por pioneiros da OPA, imortalizados no programa “Opção”, da TPA. A guerra ficou no passado. O tempo também passa nesta manhã ensolarada. É hora de apanharmos a direcção sul, rumo à fronteira. 

Saudar Mandume
Encontrámos a Estrada Nacional 372 em óptimas condições. Os velocistas por vocação são compelidos a desacelerar. A Polícia Nacional montou postos de controlo ao longo da via. Gestualmente, os agentes aconselham os condutores a abrandar a velocidade. Quan-do necessário, mandam parar viaturas para conferir se está tudo em ordem. Quinito Kanhameni, o director provincial da Edições Novembro, que gentilmente se predispôs a servir de cicerone, aposta na prudência. Prefere “caminhar devagar, porque temos pressa. Queremos chegar ao destino”. A rodovia dá igualmente acesso ao Complexo Turístico do Memorial Rei Mandume Ya Ndemmufayo, em Oihole, município de Namacunde. 
Inaugurado em 2002, por Sam Nujoma e José Eduardo dos Santos, antigos Chefes de Estados da Namíbia e de Angola, respectivamente, o Memorial foi construído no local onde o lendário soberano perdeu a última batalha diante das tropas portuguesas e inglesas. O Memorial pretende homenagear Mandume e, através dele, todos quantos resistiram à ocupação colonial. Revestido de imenso simbolismo, o espaço é terreno sagrado para os povos da região que veneram a memória do soberano. 
“O meu coração me diz que nada fiz de errado”, a célebre frase   de Mandume destoa do actual estado do Memorial. Em 2008, foram anunciadas obras de beneficência. A reabilitação do complexo, interrompida por falta de verbas, previa a construção de uma estátua do Rei na antiga “embala”, termo kwanyama que significa “Palácio Administrativo”. Já em Namacunde, sede do município, sente-se a presença da Administração Pública no sossegado município que floresce à beira da estrada. O hospital, a unidade de corpo de bombeiros, escolas e lojas ao redor fazem crer que a localidade tem infra-estruturas. O número de antenas parabólicas sugere que a caixinha mágica leva a informação e entretenimento aos habitantes, conectando-os em torno da grande aldeia global em que vivemos.
Menos interessante é a paisagem natural. Anuncia penúria. As zonas de pasto estão acastanhadas. O capim secou. Em várias ocasiões, bois dispersos da manada cruzam a estrada. Muitos expõem o esqueleto devido à magreza excessiva. Procuram comida e água. As bacias naturais de retenção do \"líquido da vida\" começam a escassear. Os animais percorrem distâncias cada vez maiores em busca da sobrevivência. Não é cordato augurar maus momentos, mas a falta de chuvas pode resultar em catástrofes. Previsíveis, diga-se, porque a seca na região é cíclica. Por outro lado, as consequências das chuvas não são propriamente desconhecidas. En-quanto os seres humanos imbuídos de competências não concebem estratégias para minimizar situações evitáveis, resta a quem pode a opção de perfurar o solo em busca de água. Dos crentes pedem-se orações, com fé, implorando aos céus por dias melhores. 

Efeito Resgate 
A jornada prossegue. A manhã vai para o fim, quando chegamos à paragem de autocarros e de táxis. À medida que nos aproximamos, multiplicam-se os armazéns, assim como as áreas de pequeno e grande comércio. Vemos zonas residenciais e muitas pensões residenciais. Quem passou algum dia por aqui não reconhece a localidade. A televisão mostra imagens cheias de gente e de confusão. A tranquilidade aparente desloca-nos da realidade. 
Estamos em Santa Clara, o município fronteiriço, que, por razões diversas, aparece regularmente nas manchetes noticiosas. É a principal porta para a Namíbia a partir do Cunene. Onde param os zungueiros? E os kínguilos, maioritariamente homens que dominam o câmbio informal? Não se vêm “ngandulos”, igualmente conhecidos por “matocheiros”, os \"comissionistas\" ou ainda \"micheiros\". Em bom português, são intermediários disponíveis para todo o tipo de serviço. À primeira vista, diminuíram as cantinas dos Mamadús. Os verdadeiros entrepostos dos amigos Youssoufs, originários de qualquer ponto de África, desapareceram das redondezas. A resposta-chave para a surpreendente metamorfose assenta na designada “Operação Resgate”. 
A rua principal mudou de aspecto desde o início da Operação. “Acabaram as aglomerações de gente. Os kínguilos agora ficam ali atrás.” Solícito, João Miguel, funcionário público, aponta para um lugar remoto. Perto da fronteira, fazemos paragem obrigatória na cancela que nos separa dos edifícios que ocupam uma superfície considerável. Aqui funcionam a Administração Geral Tributária (AGT), a Polícia Fiscal, os Serviços de Migra-
ção e Estrangeiros e a Polícia de Guarda Fronteira, à qual compete garantir a inviolabilidade dos marcos.
A província do Cunene partilha 460 quilómetros de fronteira com a vizinha Namíbia. Desses, 340 são terrestres e 120 fluviais. Diariamente, regista-se um intenso movimento de saída e entrada de cidadãos nos dois sentidos, através dos postos fronteiriços de Santa Clara, Calueque, Okalongo e Ruacaná.

Movimento fronteiriço
Este ano, um total de 198.662 cidadãos nacionais saíram do país a partir dos postos fronteiriços de Santa-Clara, Okalongo, Calueque e Ruacaná, na Província do Cu-nene, menos 79.986 do que em 2017.
Os números vêm expressos  no Relatório de Balanço Anual do Serviço de Migração e Estrangeiro (SME) no Cunene. De acordo com os dados, 64.436 cidadãos nacionais usaram passaportes, 615, salvo-condutos e 133.611, passes de travessia, a partir dos postos fronteiriços de Santa-Clara, Okalongo, numa média de 600 pessoas por dia.
De acordo com o relatório de balanço do SME no Cunene, durante o ano, entraram no país, pela mesma via, 167.084 pessoas, menos 94.449 do 
que em 2017. Deste número, 144.690 são de diversas nacionalidades. 40.266 usaram visto de turista, 204 de residentes e 444 vistos de trabalho.
Estes portadores de vistos tiveram como destino as províncias do Cunene, Huíla, Huambo, Benguela, Namibe, Lunda-Norte, Cuando-Cu-bango e Luanda. 
Registou-se igualmente a entrada de 103.774 namibianos com passes de travessia.

  Separados pela Conferência de Berlim
A Namíbia foi o primeiro país do mundo a suprimir a necessidade de visto de entrada no seu território para cidadãos angolanos. As formalidades migratórias são céleres dos dois lados. Ao contrário do tempo da guerra, de triste memória, Cunene tem saída. E entrada, desde que os procedimentos sejam rigorosamente feitos entre as 08h00 e as 17h00. Apesar do fuso horário da Namíbia, com uma hora a mais, as autoridades locais aceitam o horário de Angola. Os residentes num perímetro de 5 quilómetros usufruem de passe válido para 72 horas. É-lhes permitida circulação num raio de sessenta quilómetros. 
Abundam pormenores interessantes. Há famílias divididas entre as fronteiras. “O pai pode viver na Namíbia e a mãe em Angola. Muitos angolanos preferem que os filhos estudem na Namíbia, por causa da Língua Inglesa. As crianças kuanyamas não zungam. São orgulhosas. Vão à escola”, afirma Tomás, jovem angolano de 30 anos. Não falava uma única palavra em Português, quando começou a trabalhar na fronteira. Suspende a entrevista, feita em território neutro, ao ouvir alguém gritar o seu nome. 
Depois da Emigração, a estrada tem um cruzamento em transversal. A partir desse ponto, a condução faz-se em sentido contrário. Ou seja, da direita para a esquerda, para quem sai de Angola e da esquerda para a direita, para quem entra em território nacional. O carro fica na terra de ninguém. Entramos em Oshikango, território namibiano. As cidades namibianas mais próximas são Enhana, Rundu e Nkurenkuru. Pertinho daqui, passa o rio Okavango. Nova reportagem agendada para o futuro. Hoje estamos aqui. O assédio é grande. Afinal, os “matocheiros” ausentes de Santa Clara estão na Namíbia. Trata-se maioritariamente de cidadãos angolanos, residentes em Angola.
“Chegam para fazer biscates”, explica um ocasional companheiro de jornada. “Mãezinha, trocamos rands e dólares. Fazemos traduções, levamos aos médicos originais. Eles tratam tudo, tiram mioma nas mulheres. A mãe precisa de quê?”. O homem, enorme, vestido de calças brancas e camisola do Chelsea, oferece uma gama de serviços indistintos.  
Quinito Kanhameni, o guia turístico de ocasião, interrompe diplomaticamente a sequência publicitária. Ga-rante que boa parte dos grandes armazéns aceita paga-
mentos em kwanzas. Em território namibiano, comunica-se principalmente em Kua-
nyama, língua transfronteiriça integrante do grupo étni-co-linguístico Oshiwambo. Em Angola, incluiu o Ovambadja e Ovavale. Atento, Quinito recomenda cuidados redobrados em relação à mochila. Às vezes, o azar acompanha os viajantes. Os intimidatórios relatos elucidam. Fala-se de roubos, assaltos violentos com uso de arma branca. Há agressões e raptos.
 “Muitas pessoas são desviadas por supostos taxistas. Com sorte, deixam algum dinheiro para o transporte. O segredo é não responder a nada. Não abrir a boca. Quando se apercebem que somos estrangeiros”. Na verdade, Guidinha refere-se a não falantes das línguas lo-cais. A outra prima, surgida no corredor do movimentado armazém, confirma os riscos. Saúda sorrateiramente. Como se estivesse a fugir de um peri-go eminente. 
“Chegámos ontem. Ficamos dois dias”. Elas fazem parte do lote de \"moambeiras\" que, desafiando a crise económica,  especializaram-se em identificar potenciais negócios rentáveis em estabelecimentos namibianos.
Permanecemos no primeiro armazém, situado a sensivelmente duzentos metros do posto fronteiriço. Com os bolsos abarrotados de notas, o homem do Chelsea volta a insinuar-se. “A secção dos telemóveis é ali. As mobílias estão lá em cima. Conhecemos bons despachantes…”, aponta para o andar superior. 
Conhecido por Camilo, nome de um dos principais empregados, o armazém sinaliza um ponto de encontro de angolanos. Misturam-se nos seus corredores sotaques de todo o país. Durante uma hora no seu interior, não vimos uma pessoa que seja a pagar as compras com outra moeda, além de kwanzas. Ou seja, os clientes namibianos são raríssimos. Os angolanos compram electro-­domésticos, telemóveis, malas de viagem, mobílias, artigos para casa, produtos industriais, mas também quinquilharia. A esta altura, saem inúmeras árvores e enfeites de Natal. Os preços são taxados em dólares americanos ao câmbio do dia.
A compra, por exemplo, de uma pasta de viagem cotada em 35 dólares remete para o outro lado do armazém, onde inúmeros clientes angolanos esperam pelas respectivas mercadorias. A depender do tamanho do volume, uma carrinha transporta-as para a zona alfandegária. As poucas cadeiras não satisfazem a demanda. Não faz mal! Ninguém se verga ao cansaço. Distraídos a indagar, não sentimos passar os exactos vinte minutos. A persistente chamada em tom alto desperta a atenção. “Roguério, Roguério”, repete o homem em pronúncia inglesa. Mercadoria confirmada. 
A espera não terminou. O empregado leva a mercadoria. A tal pasta, orçada em 35 dólares norte-americanos, equivale a 13.300 Kwanzas. Pouco dinheiro, realmente. Mas a “carga” não sai sem o correspondente manifesto. A recepção do documento emitido pela Autoridade Alfandegária da Namíbia consumiu aproximadamente 45 minutos. Quase o tempo que Reginalda, enfermeira do Hospital Geral de Ondjiva, aguarda pela arca de três cestos e pelo colchão. 
“Aproveitei a folga para fazer compras. Paguei pela arca 56.600 kwanzas”. Em Ondjiva, o mesmo electro-doméstico custa acima de cem mil Kwanzas. “Incluindo o valor pago na nossa Alfândega, fica sempre mais barato”, acrescenta.
“Há sempre carros para levar a mercadoria até a casa. Deixamos os papéis e o número do telefone. Recebemos tudo no mesmo dia”, esclarece. A enfermeira é interrompida pelo Tomás, o “matocheiro”, aquele que estava na terra de ninguém. A esta altura contabiliza rendimentos de uns quantos “ngandulos”. Ele também agencia a enfermeira Reginalda. Quanto aos honorários, “dependem da conversa”. O sorriso de Tomás sugere uma jornada lucrativa. 
O 10 de Dezembro, Dia Mundial dos Direitos Humanos, é feriado na Namíbia. A data coincide com a celebração dos direitos da mulher na pátria de Sam Nujoma. A proximidade da Quadra Festiva e o pagamento da remuneração referente ao 13º mês fazem aumentar a clientela no vizinho do sul. E o homem do Chelsea volta a rondar a área. Desta vez, não apregoa nada. O olhar é expressivo. Desconfiamos que o dia não está a ser muito bom para ele. O Tomás corre para atender a chamada. Assunto resolvido. “Vou seguir a minha carga”, despede-se a enfermeira de Ondjiva.
A par de compras acessíveis, os angolanos procuram saúde na Namíbia. John, 34 anos, é um dos poucos intermediários namibianos que circula na fronteira. Clarifica que os cidadãos do seu país pagam 15 rands (225 kwanzas) nos hospitais públicos e os angolanos 60 (aproximadamente 900 kwanzas). Ainda assim, fica em conta. 
“Nas clínicas privadas, os preços dependem da complicação, mas todos pagam valores iguais. O que conta é o dinheiro”, comenta o trabalhador informal, que prefere ser tratado por João. “Costumo acompanhar muitos angolanos”, afirma. 
Limitamo-nos a acompanhar as movimentações nos armazéns lotados de gente para comprar, pesquisar e comparar preços. Como a ocasião apura o engenho, o pequeno comércio prospera. Zungueiras angolanas vendem ameixas e laranjas pela metade do preço cobrado em Ondjiva. Para isso, não precisamos de pagar impostos. 
O sol de Santa Clara engana. Os passos apressados em direcção aos portões indicam a passagem do tempo. Em menos de duas horas, a fronteira estará encerrada. Algum desavisado lança lixo para o chão. Angolano, claro! John ou João, como preferirmos, recolhe a sujeira que deposita no cesto ignorado pelo apressado viajante. O prazo expirou. Faltam estórias para ilustrar o quotidiano na zona fronteiriça. Contudo, as poucas horas deram a ver intensas movimentações. Factos interessantes. Fronteiras artificiais; de povos de dois países separados pela conferência de Berlim.




Pensar e Falar Angola

RITA GT em Viana do Castelo

https://youtube.com/shorts/qZkb4CfXTZQ?si=3K65JJEr5VQqsZZS Ao longo dos últimos dois anos tive a oportunidade de desenvolver “8”, uma obra d...