terça-feira, 17 de abril de 2012

Achegas para a História de Angola (5)

Rui Ramos
 A FNLA e a UNITA introduziram armas em Angola, tinham boas retaguardas, a MPLA não tinha. Por isso em princípios de 1975 o MPLA tinha poucas armas, não tinha comparação. A FNLA entrava com os militares zairenses, era sobretudo a FNLA que estava mais bem armada e por isso a UNITA ia fingindo querer a paz, para dar tempo a armar-se. Eu vou recordar algo que ilustra. Cerca de Março (?) de 75, eu estava entre os que ajudaram a desencadear a greve estudantil contra o ministro Jerónimo Wanga da UNITA, e a greve foi para a frente, as escolas fecharam... estava iminente um confronto. Então eu fui chamado á Direcção do MPLA e criticado por essa acção radical e o que me foi dito foi mais ou menos isto: A UNITA e a FNLA estavam fortemente armadas, tinham armas por todo o lado, que faziam entrar pelas fronteiras, e só estavam á espera de um pretexto para acabar com o MPLA. E o MPLA tinha poucas armas nessa altura, tinha de ser cauteloso e não podia apoiar actos extremos. Ainda hoje essa crítica de que fui alvo me parece extremamente correcta. Eu era muito extremista, queria acção, e então Jerónimo Wanga tinha-nos chamado «anarquistas», estávamos a ferver... Posteriormente reconheci que a greve foi um erro porque paralisou o ensino, o que a UNITA queria... mas os estudantes eram muito radicais e não toleravam a Unita nem a Fnla.

 Angola estava em chamas, na verdade, o exército portugues já tinha ido embora, abandonaram as viaturas nas ruas e chegaram a dinamitar o Grafanil. Em Luanda a Fnla e a Unita já tinham sido expulsas mas ouviamos as explosões ao longe, eram as armas pesadas a dispararem do Norte. No sul os sul-africanos foram barrados na barra do Kwanza, creio. Nós estavamos cercados, Luanda estava sitiada e todos éramos camaradas, todos nos entendiamos, havia cumplicidade entre todos. O povo confiava no MPLA e estava pronto a defender a cidade. A independencia aconteceu assim, dificil, recordo a noite em que a bandeira subiu, no largo 1º de Maio, a terra tinha sido terraplanada e estava muito húmida, foi noite de festa. Na tarde seguinte as FAPLA desfilaram no Kinaxixe com uniformes castanhos caqui e o povo circulava em massa em cima de carrinhas, a alegria era muita. Mas havia a ameaça vinda norte e do sul...

Sobre o 1º Congresso do MPLA foi em Dezembro de 1977, o MPLA transformou-se em Partido do trabalho, foi um ano traumatizante, 1976- esforço enorme para libertar vastas áreas da subjugação da Fnla e da Unita, enquanto Nito Alves preparava o golpe. Nito estava infiltrado em todo o aparelho, repito, todo, faziam reuniões clandestinas fora da estrutura do MPLA. Então o MPLA fechou-se mais, defendeu-se, virou-se para dentro para se proteger. Falar agora é fácil, mas viver aqueles dias não era nada fácil, e não havia experiencia governativa nem política, o MPLA tinha saíido há pouco de uma guerra de guerrilha para governar um país de 1.246.700 km2 dilacerado por várias frentes de guerra. Repito: O povo, sempre o povo foi o grande apoiante do MPLA, houve sempre uma empatia MPLA-Povo.

Peço imensa desculpa, voltei aqui só para explicar um pouco melhor o que fez sair do DIP do MPLA em Agosto de 1975. Como disse, Nito Alves pôs o seu amigo King a controlar-nos a todos, sem fazer nada, só sentado a controlar-nos como se fosse um polícia. No DIP havia bons militantes, raparigas e rapazes inteiramente devotados á causa da independência e do MPLA. Já bastava o Juca Valentim andar sempre de um lado para o outro a controlar tudo para ir informar Nito Alves, eu dizia: se nem o camarada presidente me anda a controlar vêm agora estes... Mas o que fez extravasar tudo foi Nito Alves querer obrigar-me a publicar no nosso Vitória certa um texto ilegível, que tinha as seguintes expressões: «Temos de combater o foco ideológico», «Os resquícios de si já bastante estreitos pela coesão molecular das células ideológicas que compõem o cérebro - espantosamente genial - dos nossos teóricos», «Em termos de uma substância dialéticamente inalterável no moinho de classe». Eu disse: O povo não entende isso, não publico. Ele queria obrigar-me, eu saí! Então ele publicou, sem mim. Foi no nº 15 do Vitória Certa de 26 de Julho de 1975, na sede do partido deve existir uma cópia. Então escrevi uma crítica na revista Angola, com o título «Um artigo que não serve os interesses do povo». O que eu fui fazer, camaradas... Nito Alves fez-me ameaças, vinha alguém dizer-me: o camarada Nito diz que o camarada Rui Ramos se pode esconder nas caves, ele vai apanhá-lo. E eu, que era um jovem muito chato, mesmo muito chato, respondia: estou á vista, aqui, na Liga Nacional Africana, não frequento caves... Sempre com ameaças, aquele Nito Alves. Não me vou julgar por ter saído do DIP, na altura fiz o que achava bem, Nito era intolerante, fora do espírito do MPLA, eu estava habituado a trabalhar com os cdas Lopo do Nascimento, Agostinho Neto, Lúcio Lara, Iko Carreira, Carlos Rocha Dilolwa, Rui de Carvalho, camaradas muito experientes e sensatos, com os quais muito aprendi. Fiz bem, fiz mal, hoje não tenho a certeza, podia ter continuado o meu combate político contra ele no DIP. Mas não, camaradas, com o Nito não, não e não!!!



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