A Efeméride Nacional

11 DE NOVEMBRO DE 1975

segunda-feira, 14 de julho de 2008

A palavra na literatura angolana

de Isabelita Crosariol in Jornal de Angola
Aquilo que eu seia
lguém mo legou.
Pai Palavra
Mãe Palavra
Palavra anterior
vem e transforma já o meu futuro.
Ruy Duarte de Carvalho
A palavra correspondeu a uma grande conquista da humanidade que possibilitou ao homem interagir com a natureza, individualizar cada novo objecto fabricado, transmitir novos saberes, integrar-se socialmente. Assim, ao mesmo tempo em que o homem se tornou capaz de organizar seu discurso, o mundo e a si mesmo, ao transformar desejos e frustrações em palavra, percebeu o poder e a magia existentes no emprego desse signo. Por todos esses motivos, é possível afirmar que também em Angola a palavra desempenha um papel importante como meio revelador do colectivo e do individual, pois já em todo o continente africano a palavra é responsável por preencher os vazios trazidos com o preconceito, a pobreza e a dominação, uma vez que empregando a palavra o homem se sente capaz de lidar com a ausência do ser, do ter, e com a ausência dos que partiram. Padilha (1997, p. 144) comenta que “as artimanhas da palavra africana criam, no imaginário negro, uma espécie de festa de recomposição cosmogónica onde se encontram e se retroalimentam o tangível e o intangível, o presente e o passado, o visível e o invisível, a vida e a morte”. Logo, a palavra torna-se um signo capaz, não só de condensar as dicotomias oriundas do conflito entre colonizador e colonizado, mas também de resolvê-las. Partindo do conceito de Complexo de Édipo desenvolvido por Freud, pode-se mencionar que em Angola a palavra foi a arma necessária no processo de matar o pai (Portugal) para que o povo angolano pudesse desposar a mãe Angola. No entanto, ao mesmo tempo em que actuou como arma, a palavra funcionou como uma aliança, como símbolo da união indissolúvel entre o povo e o país. Da mesma forma que os colonizadores europeus empregaram as suas palavras e a sua língua para transmitir as suas verdades, foi justamente por meio da palavra que a realidade angolana começou a ser redesenhada. A língua portuguesa que, ao ser empregada pelos colonizadores, foi instrumento de dominação, transformou-se em instrumento de luta e de libertação ao ser empregada pelos colonizados. Logo, é possível perceber em Angola não apenas a capacidade mágica e criadora da palavra, mas também a sua função como arma empregada na luta contra a dominação portuguesa e em favor da igualdade de direitos e deveres entre todos os membros da futura nação:
Trazida com os tiros, a escrita corresponderá a uma espécie de ruptura que será convertida em nova forma de sentir e dizer. Transformando-se em forma de presentificar experiências e organizar o real, a palavra vai sendo trabalhada no sentido de preencher o vazio entre o homem e o mundo, agora redimensionado, nessa nova etapa do processo chamado civilizatório. (CHAVES, 1999, p. 20)
Coelho (2004) menciona que os grandes acontecimentos que mudaram o rumo da história dos homens ou de um povo se eternizam no tempo ao serem transformados em Palavra (ou em Arte), ou seja, em Memória ou Mito. Assim sendo, por meio do emprego da palavra literária, foi trazida à tona a possibilidade de se eternizar na arte como beleza ou emoção do horrível todos os fenómenos contraditórios ocorridos em Angola no processo de luta pela independência. A produção literária de Angola muitas vezes traz com grande realismo a imagem do preconceito, da dor causada pelos castigos corporais, do sofrimento pela morte dos entes queridos, da exclusão social. Entretanto, essas imagens, por mais tristes ou horríveis que possam parecer, são revestidas pela beleza que frequentemente permeia as grandes obras artísticas. A exposição via literatura dos fatos, segundo a perspectiva do colonizado, ao trazer essa emoção do horrível para o leitor, correspondeu a uma forma de se responder, de uma forma civilizada, a todas as ofensas, privações e castigos sofridos pelo povo de Angola. Era uma forma de os angolanos mostrarem que estavam adaptados aos valores da cultura e da civilização, sendo capazes de agir, até mesmo, de uma forma mais civilizada e coerente com os valores sociais que os próprios colonizadores, pois: Se escreviam e publicavam não poderiam, com efeito, receber o tratamento desumanizador que a voz colonial preconizava. E, apesar da alusão ao “diminutíssimo grau de educação literária”, destaca-se na redação dos textos coligidos, um aplicado respeito às normas gramaticais da língua portuguesa. Com tal apuro, certamente, os redatores defendiam-se, por antecipação, de outras acusações que a violência colonial lhe poderia imputar. (CHAVES, 1999, p. 41)
Dessa forma, foi empregando a palavra literária que os escritores, inicialmente nos jornais, folhetins e revistas, viram impressos, juntamente com as notícias do país, seus poemas, suas crónicas e outros textos em prosa. Alimentados pelo desassossego e pela inquietação frente a uma realidade que precisa ser mudada, os escritores recorreram à literatura no processo de redescobrir o país para redesenhá-lo, uma vez que “inserido entre os cantos de uma sociedade tão dividida, o escritor acaba por se transformar num ser cortado por contradições das quais a sua obra será a maior expressão” (CHAVES, 1999, p. 49). Matando o pai (Portugal) para eleger o pai ideal (o Brasil – visto pelos angolanos como o exemplo de país vitorioso, que se libertou do jugo da pátria lusitana), a literatura angolana, a partir do século XX, contribuiu para consolidar as rupturas que vinham sendo formuladas desde o século anterior. Se anteriormente a leitura de obras de escritores portugueses (Camões, Camilo) era incentivada em Angola para funcionar como instrumento ideológico do estado colonial que, ao expor a paixão da portugalidade espalhada pelo mundo, também acentuava a legitimidade da visão dominadora e civilizadora dos colonizadores, a partir dos textos literários escritos de acordo com uma mentalidade angolana –e inspirados em determinados momentos na literatura brasileira –, tornou-se possível fortalecer e disseminar uma ideologia que priorizava os aspectos de uma nação prestes a surgir. Articulada com outras forças, a palavra literária desempenhou em Angola um importante papel na superação do estatuto de colónia. Presente nas campanhas libertadoras foi responsável por ecoar o grito de liberdade de uma nação por muito tempo silenciado, mas nunca esquecido.
Conceito de LiteraturaA palavra Literatura vem do latim "litterae" que signifca "letras", e possivelmente uma tradução do grego "grammatikee". Em latim, literatura significa uma instrução ou um conjunto de saberes ou habilidades de escrever e ler bem, e se relaciona com as artes da gramática, da retórica e da poética. Por extensão, se refere especificamente à arte ou ofício de escrever de forma artística. O termo Literatura também é usado como referência a um corpo ou um conjunto escolhido de textos como, por exemplo, a literatura médica, a literatura inglesa, literatura portuguesa.
Mais produtivo do que tentar definir Literatura, talvez seja encontrar um caminho para decidir o que torna um texto, em sentido lato, literário. A definição de literatura está comumente associada à idéia de estética, ou melhor, da ocorrência de algum procedimento estético. Um texto é literário, portanto, quando consegue produzir um efeito estético e quando proporciona uma sensação de prazer e emoção no receptor. A própria natureza do carácter estético, contudo, reconduz à dificuldade de elaborar alguma definição verdadeiramente estável para o texto literário. Para simplificar, pode-se exemplificar através de uma comparação por oposição. Vamos opor o texto científico ao texto artístico: o texto científico emprega as palavras sem preocupação com a beleza, o efeito emocional. No texto artístico, ao contrário, essa será a preocupação maior do artista. É óbvio que também o escritor busca instruir, e perpassar ao leitor uma determinada ideia; mas, diferentemente do texto científico, o texto literário une essa instrução à necessidade estética que toda obra de arte exige. O texto científico emprega as palavras no seu sentido dicionarizado, denotativamente, enquanto o texto artístico busca empregar as palavras com liberdade, preferindo o seu sentido conotativo, figurado. O texto literário é, portanto, aquele que pretende emocionar e que, para isso, emprega a língua com liberdade e beleza, utilizando-se, muitas vezes, do sentido metafórico das palavras.
A compreensão do fenómeno literário tende a ser marcada por alguns sentidos, alguns marcados de forma mais enfática na história da cultura ocidental, outros diluídos entre os diversos usos que o termo assume nos circuitos de cada sistema literário particular.Assim encontramos uma concepção "clássica", surgida durante o Iluminismo (que podemos chamar de "definição moderna clássica", que organiza e estabelece as bases de periodização usadas na estruturação do cânone ocidental); uma definição "romântica" (na qual a presença de uma intenção estética do próprio autor torna-se decisiva para essa caracterização); e, finalmente, uma "concepção crítica" (na qual as definições estáveis tornam-se passíveis de confronto, e a partir da qual se buscam modelos teóricos capazes de localizar o fenómeno literário e, apenas nesse movimento, "defini-lo"). Deixar a cargo do leitor individual a definição implica uma boa dose de subjetivismo, (postura identificada com a matriz romântica do conceito de "Literatura"); a menos que se queira ir às raias do solipsismo, encontrar-se-á alguma necessidade para um diálogo quanto a esta questão. Isto pode, entretanto, levar ao extremo oposto, de considerar como literatura apenas aquilo que é entendido como tal por toda a sociedade ou por parte dela, tida como autorizada à definição. Esta posição não só sufocaria a renovação na arte literária, como também limitaria excessivamente o corpus já reconhecido.
De qualquer forma, destas três fontes (a "clássica", a "romântica" e a "crítica") surgem conceitos de literatura, cuja pluralidade não impede de prosseguir a classificações de género e exposição de autores e obras.


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