sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Faleceu o jornalista e poeta Manuel Dionísio

Osvaldo Gonçalves Jornal de Angola

Deveria ter aqui um copo alto, com dois dedos de uísque, um balde de gelo e uma Coca-Cola, para me poder dar ao luxo de escrever sobre Manuel Dionísio (Emedê). Mas, o álcool é proibido na Redacção, o gelo é de impossível criação nessa luz que vai e vem e a Coca-Cola faz-me mal.
Fica assim o Man-Dió sem os ingredientes para uma tertúlia diversificada, entre o jornalismo e a literatura, as artes plásticas e a música, porque de dança ele não gostava de falar: “Sou um bailarino de terceira”, dizia, enquanto se justificava das pisadas nos pés das moças, ali no “Animatógrafo”.
Emedê apagou-se ontem, em Lisboa, no preciso dia em que completava 53 anos. Não terá programado a morte, da mesma forma que nunca nos pareceu ter programado a vida, perdida entre o jornalismo e a poesia, porque não sabia fazer mais nada senão escrever.
Ele proclamava-se um “perfeito inútil”, numa linguagem terra-a-terra, que costumava usar amiúde, entre o vernáculo sem espinha que exibia em seus textos. Essa atitude fazia parte da sua irreverência, quiçá rabulice revolucionária que lhe ia no sangue, um jindungo d’alma a apimentar uma posta de peixe frito às seis da manhã, na Ilha. Disse-nos ontem um suposto amigo comum que ele “abusou da vida”. Concordo plenamente. Mas pergunto: o que seria dos poetas se não abusassem da vida?
Emedê “abusou” e nalguns momentos, muitos menos dos que gostaríamos, abusámos também da vida com ele, quando o ouvíamos nas tertúlias apenas barradas pelo tempo, sempre esse tempo, que para muitos é dinheiro, quando não passa de um controlador de vontades.
Nascido em Portugal, Emedê adoptou Angola, onde fez a sua infância e escola e começou a trabalhar, na Angop; a vida levou-lhe a Macau, onde trabalhou no “Tribuna” local, a Lisboa, onde esteve na revista “Nova Gente” e colaborou em diversas outras publicações, até voltar à “sua” cidade, Luanda, em 1989, para ingressar no Jornal de Angola.
A sua biografia é longa, como de resto compete a pessoas de espírito irreverente, mas preferimos limitá-la ao palavrão que a maioria dos jornalistas lhe confere: “Mestre”. Antes, só o David (Mestre) havia conseguido tal epíteto, logo, o “Manel” passa para a galeria dos “inúteis”, sem que tenha reclamado tal estatuto. Esses “inúteis” deram calor ao jornalismo angolano pela sua ousadia de criticar sem ofender, de analisar sem opinar, de falar de amor as misturando-o com as coisas más da vida, como frisou no seu último livro de poesia, a que deu o título - “futurista”, digamos: “Do Amor e Outras Merdas”. Emedê não deixou herança aos seus filhos. Não a deixou superior à que nos deixou a todos nós jornalistas do Jornal de Angola: aquela imagem de bigodaça e cabelo à beatle, andar esquivo, uma agenda debaixo do braço e uma caneta a pedir emprestada. Para além da voz de trombone e um “hasse!” a seguir a qualquer parágrafo conseguido nesta “inútil” vida de escrevedor. Os restos mortais de Manuel Dionísio regressarão a Angola. Ele pediu para ser cremado e que as suas cinzas sejam deitadas ao mar. Aqui.









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