A Efeméride Nacional

11 DE NOVEMBRO DE 1975

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Uma achega para a História - Rui Ramos e a origem do «nitismo»


NITISMO: AS ORIGENS
Quase nunca se fala da origem do nitismo, ele aparece como que caido do céu, não se percebe, o que pensava Nito Alves em 1974? Em 1975? O MPLA bloqueou-o? Ele foi reprimido?
Na 1ª Região Político Militar do MPLA, Nito Alves falou para mim em Dezembro 1974.
E o que me disse Nito Alves?
(CITAÇÃO)«O papel da 1ª Região nunca foi interpretado, nunca foi compreendido por muitos camaradas e não se sabe bem porquê. Nãos e sabe porquê porque se todos os militantes do Movimento tivessem a ideia fundamental, a ideia precisa da importância, da dimensão estratégica da 1ª Região, pois bem, as estruturas hoje até seriam outras porque, como dissemos, esta Região, do ponto de vista político, do ponto de vista militar, tem raízes bem vincadas, tem uma posição bastante relevante a desempenhar em todo o processo».
(CITAÇÃO) «As massas da 1ª Região estão ansiosas em verem as coisas mudarem, estão determinadas a intervirem em todo o processo, por forma a obrigar que os dirigentes do Movimento tenham realmente de se conformar coma s leis históricas de todo este processo revolucionário».

Se se lerem bem estas declarações, vislumbra-se uma crítica velada á Direcção do MPLA, já em Dezembro de 1974.
Recorde-se que as ligações da 1ª Região ao Comité Director durante a luta de libertação eram difíceis, como também as nossas de Luanda para o Comité Director, que nunca nos abandonou!
Nós tínhamos de recorrer a Hospedeiras da TAP para levar cartas-mensagens para o Comité Director, tal era o bloqueio que o colonialismo nos fazia.
Nito Alves Subiu ao poder na 1ª Região em 1968 depois de eliminar o camarada Comandante Casimiro (Miro).
Foi a altura em que o MPLA enviou o Esquadrão Kami comandado por INGO, para contactar e reforçar a 1ª Região.
Já antes, o MPLA tinha enviado, em 1966, o Esquadrão Cienfuegos comandado por MONSTRO IMORTAL para reforçar a Região.
Isto apesar dos ataques terríveis do exército colonial e da FNLA que estava apostada em aniquilar o MPLA, com a aliança do Congo-Kinshasa.
Faço um parêntesis: incrível, a FNLA no norte queria destruir o MPLA; no sul a UNITA queria destruir o MPLA.
Como é que o MPLA conseguiu sobreviver e vencer?
Então em 1967 começa a grande ofensiva do exército colonial á 1ª Região.
E a partir de 1968 a região conhece graves problemas.
É Nito Alves quem diz:
(CITAÇÃO)«Por volta de 1969 nós estávamos com 1 arma para cada 60 guerrilheiros, 20 munições para cada 30 armas, e a população é obrigada a fazer economia recolectora, semelhante aos homens que nos precederam na História».
(citação)«A partir de 1968 nós perdemos o controlo e então as populações passaram a cobrir-se de peles de animais e cascas de árvore, o que era conhecido pelo nome de NDUBA».
(CITAÇÃO) «Dois anos depois, dos cerca de 4.500 guerrilheiros e 200 armas distribuídas, passamos a ter só 200 guerrilheiros, os outros desertaram para o exército colonial e foram treinados para os Flechas que atacaram violentamente a Região».
Então, em apenas 2 anos, a 1ª Região, comandada por Nito, entra em colapso e à beira do 25 de Abril estava na iminência de se render ao exército português.
Apesar das dificuldades extremas do MPLA (fustigado no norte e no leste de Angola pela FNA/UNITA e pelo exército colonial e também pelos Katangueses de Tchombé), o Movimento tentou ajudar a 1ª Região, mas Nito não entendeu assim, fez birra e as declarações críticas que incluo em cima mostram já o seu descontentamento latente, mas ele ainda apoiava Agostinho Neto, não tinha outro caminho, ou apoiava Neto ou apoiava Chipenda ou Gentil Viana.
Em 1975 Nito Alves vai para Luanda, instala-se com uma vida urbana.
Agostinho Neto é avisado muito cedo de que Nito Alves pretende formar outro partido, fazer uma cisão no MPLA.
Isto foi comunicado a Agostinho Neto em Janeiro de 1975.
Mas Agostinho Neto reconhecia alguma capacidade retórica a Nito Alves e este tinha-o apoiado em Lusaka e tinha soldados no Bairro Operário a enfrentar a FNLA.
E as críticas algumas veladas de Nito para com dirigentes do MPLA foram subalternizadas por Agostinho Neto em nome da unidade do MPLA, pois os inimigos já eram muitos, até Daniel Chipenda se instalara em Luanda com armas para combater o MPLA.
Então Agostinho Neto puxou por Nito Alves, em meados de 1975 Nito é promovido a altos cargos no MPLA e começa a dominar tudo.
Juca Valentim seu apoiante, era o inspector do MPLA, visitava todos os departamentos para fiscalizar, quando ele aparecia no DIP eu dizia-lhe: «bem-vindo inspector!» E ele sorria sardonicamente.
E andei com Bernardo Lopes Teixeira (Nado) controlando todas as delegações do MPLA nos bairros, Nado era nitista já em 74-75, Nito queria ter o controlo de todas as delegações.
Portanto, Nito Alves nunca poderia justificar a sua rebelião por bloqueios ou repressões, não, ao contrário, quem reprimiu foi ele, a partir de Julho de 1975, eu próprio fui atingido, Nito mandou proibir que eu entrasse nas instalações da Comissão Popular de Bairro que eu ajudara a criar.
Na Cimeira de Nakuru, Nito Alves e José Vandunem à noite reuniam separadamente nos seus quartos, queixavam-se de que não queriam aturar os velhos do MPLA (Lara, Iko, Lopo, entre outros).
Mas Agostinho Neto continua a confiar em Nito Alves, não quer acreditar que dali virá um golpe.
Nas reuniões em que participei no Futungo, Nito Alves estava sempre ao lado de Neto e era eloquente, Neto falava calmamente, Nito falava espumando…
Nito espalhou todos os seus apoiantes em todas as estruturas do MPLA, expulsando outros militantes, não sei se Filomeno Vieira Lopes chegou a ser expulso do DOM, mas penso que sim.
E o plano passava por controlar as Comissões de Bairro de Luanda, onde ele tinha apoiantes. Eu fui expulso do Órgão Coordenador.
E Nito Alves controlava parte da DISA, a DISA OPERACIONAL.
Agostinho Neto foi de novo informado, mas Nito Alves já tinha muita força, infiltrara tudo…
Agostinho Neto tentou tudo, tudo para fazer unidade com Nito Alves, Nito Alves moveu-se à vontade, apoiou-se em Neto para melhor se movimentar nas estruturas civis e militares.
Nito criou um «MPLA 2» a partir do segundo semestre de 1975.
E cerca de uma semana antes do 27 de Maio, encontrando-me com o meu amigo Licas, perto do Baleizão, ele disse-me, eufórico: «Rui Ramos, prepara-te… vais ver o que vai acontecer daqui a uma semana…»
E aconteceu…
Agostinho Neto sentiu-se traído duplamente traído, porque estava a receber um golpe de um dirigente que ele tinha apoiado e tinha ajudado a guindar-se aos mais altos escalões do MPLA.



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