A Efeméride Nacional

11 DE NOVEMBRO DE 1975

sábado, 19 de maio de 2012

CRÓNICAS DA RODA GIGANTE ERNESTO LARA FILHO


CRÓNICAS DA RODA GIGANTE
ERNESTO LARA FILHO


CRÓNICAS & REPORTAGENS – 22


O repórter Ernesto Lara (Filho) pede aos leitores de Angola que o desculpem por este retorno aos assuntos desportivos. O repórter Ernesto Lara (Filho) pede atenção para o que se vai seguir. O repórter Ernesto Lara (Filho), devidamente informado dos acontecimentos do Congo e com a visita do cidadão "Jóta Kápa" do Brasil, aplica as fintas magistrais que os factos referidos requerem, dribla Lumumba, penetra na área da extrema defensiva brasileira e...

... prefere falar-vos de futebol. Do Mário Wilson, de Moçambique, do Chipenda, de Benguela, e do Araújo idem aspas.

Futebol, amigos, eis a grande realidade nacional.

Permitam os leitores que ajeite os meus óculos - o repórter Lara Filho informa os seus clientes, os seus estimados fregueses, que passou a usar duas meias diopterias! - e lhes fale de futebol.

Em primeiro lugar chamo para me coadjuvarem o professor de bola Raul Valle, casapiano e Petrónio da praça luandense. Telmo Vaz Pereira e as suas tácticas de malandro do futebol. Aníbal Melo ou a seriedade. Ou a sobriedade. Ladeado por este comité de selecção, aplicadas todas as fintas do meu arsenal futebolístico e basquetebolístico, eu, que já joguei no Angola Trotters, apito para o começo do jogo.
Tem a palavra o Carlos Pereira. Liga. Está no ar o programa desportivo!
Golo! Gooooooooolo!

Futebol é sempre assunto.

Acabam de entrar na Universidade - efectuaram o sétimo ano! - os jogadores Wilson, Araújo e Chipenda da Associação Académica de Coimbra. Um moçambicano e dois angolares. Quase meia-cinco.

Temos gente nova na Universidade!

"Calaurus habemus!"

Temos caloiros! Viva a Académica, a mais mentalizada equipa do futebol português. Viva a Académica, o terror dos Sete Mares. Em rodagem para a Taça. A Académica do Bentes e do Dr. Alberto Gomes. A Académica que só este ano já jogou nos Açores, em Cabo Verde, Senegal, Cacilhas, Entroncamento e Guiné. A Académica, menina bonita do meu coração.

Viva a Académica, a equipa mais parecida com o meu São Paulo da Missão de futebol em ritmo de "chá-chá-chá" e que está a perder jogos de mais no "tour" de Luanda. Que é isso "Catumbela"? Então, Trouet? Mangueira?


Viva a Académica de Coimbra, este ano repleta de caloiros, que é a minha saudade, o meu São Paulo mascarado do futebol-carnaval-português.

Que saudades eu tenho do futebol do São Paulo da Missão!


- "Mas você percebe alguma coisa de futebol?" - perguntaram-me.
E eu respondi:

- "Não!"

- "Então que é que veio fazer a esta feijoada?"

- "Vim comer. Nisso eu alinho sempre...".


Amigos, meus clientes de Luanda, meus fregueses de Angola, permitam agora que eu lhes sirva "gato por lebre". O repórter Lara Filho insiste no pormenor de não perceber nada de futebol. Futebol eu só entendo jogado com "maduros" à Gambôa, "cápas" à Catumbela e "coleios de cobra" à Raul de Campos - o Palermo do futebol dos bons tempos da Vila Nova. Futebol eu só o entendo jogado na areia dos Coqueiros ou sob os coqueiros da praia - passe lá o trocadilho! - ou então nos meus tempos de menino do Sporting de Benguela que jogava no quintal do Ferreira Pires - eia, grande quintal!
Pois fiquem sabendo que era um quintal que tinha dentro um campo de futebol. Até tinha muro alto. Coisas de Angola, coisas de Benguela, onde os quintais são tão grandes que até podem ter lá dentro um campo de futebol. É verdade. To juro. Antes de começar a contar coisas de cá, permitam três perguntas de coisas de lá:


- "André, como foi isso de perder por 1-0 com o Belenenses? Esse Ferroviário está cada vez mais na mesma...".

- "Cardoso (Catumbela), que se passa com o São Paulo da Missão?".

- "Os pastéis de Belém causaram por aí alguma indigestão?".
Quá! Quá! Quá!

Gargalhadas da geral. Gargalhadas de muceque. Das barreiras dos Coqueiros, os negrinhos gritam:

- "Vien! Léco!"

- Aí Moreira, Matateu do Bungo, aí rapage!".

Dois golos do Mascarenhas do São Paulo da Missão colocaram o Barreirense na Primeira Divisão. Rima e "es verdad".

Os golos do Águas deram o campeonato ao Benfica.

E as corridas do Coluna.

E os passes melífluos do Santana.

Angolanos, moçambicanos, indianos, caboverdeanos, guineenses, timorenses e açoreanos do futebol português, estão na brecha.

Amigos, a Selecção Nacional Portuguesa de Futebol é constituída por 25 ultramarinos!
Está proclamada a independência do futebol africano!


Há feijoadas que são poemas. Há poemas que são feijoadas. Há "funje" que é uma delícia. Há picantes. Há "quimbombo". Há galinha. Há caloiros que fizeram o sétimo ano e há jogadores da Académica que já iniciaram a sua preparação com vistas ao Campeonato de 61. Há de tudo como na vida.

Até há um repórter bisonho que não percebe nada de futebol e que assiste como convidado especial à feijoada realizada em casa de Mário Wilson - chez Wilson - com os seguintes jogadores titulares "del equipo":

Miranda de Nova Lisboa, prestes a entrar na escola agrícola. Mário Wilson que fez o sétimo ano de Ciências e se matricula este ano no primeiro ano da Faculdade - Geológicas. Chipenda - idem de Benguela. Araújo, aspas, aspas. Etc., etc., etc.. Era assim que um velho padre que foi meu professor terminava as lições. O etecétera por vezes é muito recomendável...

E vivó Benfica Campeão de Portugal! Que também tem muitos ultramarinos e ultramalandros nas suas fileiras... "Mário, explica-me o futebol da Académica!" -perguntei ao capitão da Académica. Respondeu:

- "Ernesto, há coisas que não se explicam!".

- "Mário Torres, qual a tua melhor recordação desportiva?".

- "A Guiné!" - respondeu-me.


Atrás de um prato tridimensional de feijão surge a carantonha do Chipenda. Três quilos de feijão e dois de arroz juncam o estômago do sub-alimentado "crack" da Académica. O ponta direito dos braços abertos como passarinho, batendo as asas.
- "Chipenda, tens saudades de Angola?".

- "Muitas! Principalmente do "Lanterna Vermelha", o dancing do Quióche!".
Mário Torres formou-se em Medicina e é hoje o angolano de ontem, o angolano da Académica, o angolano de sempre. Mais caladão - só anima quando conta recordações alegres do futebol - está a tornar-se progressivamente no Doutor Mário Torres, lentamente, progressivamente. Vai abandonando aquela displicência que tão sincera lhe conheci. Mas modifica-se quando encontra o "Corina", o Mário Wilson, seu companheiro de tantas batalhas na defensiva escolar. Juntos defenderam a Académica. Juntos jogaram suor, sangue e lágrimas. Juntos permitiram que Angola e Moçambique se abracem numa turma de futebol.

Conta o Chipenda que quando alinhou pela primeira vez pelo Benfica contra a Académica, levou um pinhão do Wilson. E que este, depois de o desarmar e concluir a jogada, se virou para ele, caído no chão, cheio de dores, abalado pelo choque e lhe disse:
- "Levanta-te, menino, que o chão está sujo!".

São assim os professores de futebol da Académica de Coimbra...
Uma evocação. Era uma vez um jogador de futebol chamado Angolar, de Sá da Bandeira, do nosso Lubango. Chamava-se assim, angolar mesmo, porque tinha nascido no dia em que saíram as notas de um angolar. E ficou sendo toda a vida o "Angolar". Marcava muito bem "penalties" e tinha pé esquerdo. Era sinistro, que é como quem diz: canhoto.
E o "Beira"? Cadé o Beira da Huíla? Morreu?

Era a Huíla, o meu Lubango do saudoso Juventude e a equipa mais amadora das equipas nacionais de futebol. Nesse clube até as botas de futebol eram amadoras. A Juventude dos Vitórias Pereiras. E do Baldaia. E do Valente.

A Huíla do Luís Fontoura.

Do Dr. Negrão.

Do frio.

Da Nossa Senhora do Monte.

Da defesa do Benfica que era assim: Cuanhama, guarda-redes. Defesas: Carapanta I e Carapanta II. Gibita, Zé das Flores. Chouriço. Etc., etc., etc.. - "Mário Wilson, a Académica vai ficar ainda muito tempo na I Divisão?" - pergunto.
- "Enquanto eu cá estiver, não há novidade!" - responde calmo, o fleumático, o científico Mário Wilson, quanto a mim o melhor defesa central do "futibau portugueis".

Apontamentos da feijoada, digo, da entrevista:

a) Mário Wilson é casado com uma senhora natural de Angola.

b) Tem dois filhos homens - o Mário de seis anos e o "Chumbaca", alcunha que relembra Cândido de Oliveira. E uma menina. Que não chego a ver porque está de cama com anginas.

c) Fez o sétimo ano e vai entrar para a Universidade, em Outubro.

d) É quanto a mim o jogador de futebol mais cerebral do "soccer" "portugueis". A sua entrega é de "primeira", modelar, e instituiu, iniciou uma época na Académica. Nele se baseia todo o sistema escolar de toma-lá-dá-cá, e que faz gravitar à volta desta estrela os satélites africanos Araújo, Torres, Chipenda, Miranda, etc.. Wilson é o Sol que ilumina o futebol académico.


- "Mário, se tu ou o Torres, ou ainda o Rocha, jogadores que eu considero básicos no 4-2-4 académico, se lesionarem, a Briosa não tem quem os substitua? Não tem, pois não?".

- "Não há jogadores insubstituíveis numa equipa de futebol!".

Tableau.

Vocemecês desculpem, leitores, eu queria fazer uma entrevista, reportagem, e saiu feijoada. Vocemecês desculpem, prezados fregueses, mas "óje não á mais passarinhos". O repórter Lara Filho considera-se penhorado e agradecido a todos os clientes que chegaram até aqui. Agradece e retira-se. Baixa o pano. E esperem pela próxima época de futebol.

Feijão não liga com entrevista. Feijoada é notícia. Futebol é outro assunto. Boa tarde.


Ernesto Lara Filho


Pensar e Falar Angola
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