segunda-feira, 17 de agosto de 2009

“As relações Angola-Brasil: referências e contatos” (V)

por Marcelo Bittencourt

REVISTA SUL

Uma das vias de diálogo seria através do que por longo tempo se convencionou chamar “amigos do António Jacinto”. Durante alguns anos, o segredo se manteve sem que, aparentemente, assim desejassem os intervenientes. No entanto, num raro momento de coincidência, enquanto escrevo essas linhas recebo o mais recente trabalho da professora Tania Macêdo, Angola e Brasil – Estudos Comparados, que em seu segundo capítulo desfaz o mistério.

O contato foi estabelecido com o Grupo Sul, criado por jovens de Florianópolis em 1947, que num primeiro momento receberia o nome de Círculo de Arte Moderna. Entre artes plásticas, música e teatro, o grupo navegaria por diferentes áreas até que em 1948 lança a revista Sul. Com o passar do tempo, a publicação receberia a colaboração de jovens portugueses e africanos que tinham os seus caminhos fechados pela ditadura salazarista. É dessa forma que as relações se estreitam e um espaço de troca de idéias, textos e debates se estabelece. Como afirma Tania Macêdo, o extraordinário é que a revista cumpriu ao mesmo tempo o papel de resistência e resgate. Pois, por um lado, manteve um canal aberto de expressão para os angolanos e, por outro, constitui hoje um repositório de textos até então pouco ou nada conhecidos.[4]

Os contatos entre angolanos e brasileiros, nos anos 50, se desdobrariam por diferentes caminhos, assim como as conseqüências. Até mesmo os estatutos do Partido Comunista de Angola seriam muito semelhantes aos do Partido Comunista Brasileiro. A versão quanto à adaptação dos estatutos do PCB está presente, por exemplo, no interrogatório de Mário António Fernandes de Oliveira feito pela polícia política portuguesa (Pide) em 1959. Não seria de surpreender que o canal de cooperação literária comportasse também aspirações e propostas políticas.

O BOTAFOGO

As referências brasileiras em Angola se fariam sentir ainda através de uma outra ligação às redes clandestinas de contestação ao poder colonial. Nos anos 50 do século passado, um dos locais dessa agitação seria o Botafogo. O clube era um local de encontro que permitia fazer algum trabalho clandestino de conscientização política. O nome era devido ao clube carioca e se dedicava, na sua área desportiva, quase integralmente ao futebol.

O Botafogo era um clube de musseque que chegou a disputar jogos com os clubes da cidade de asfalto, os clubes dos colonos. Comportava nomes ligados ao nacionalismo angolano e facilitava a circulação dos livros brasileiros, citados anteriormente, que ajudariam a expandir a conscientização para a luta anticolonial. O clube possuía também um serviço de assistência gratuita para consultas médicas. Em 1961, o Botafogo seria fechado pelas forças coloniais.



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