A Efeméride Nacional

11 DE NOVEMBRO DE 1975

domingo, 11 de novembro de 2012

245 - Ágora - TEMPO PRESENTE


TEMPO PRESENTE/ ÁGORA/ NOVO JORNAL nº 251/ LUANDA 9-11-2012



«As pessoas não vendem a terra onde vivem» - frase Sioux
Conta uma velha anedota que o reitor de uma universidade americana, de visita a Inglaterra, via com sorriso superior e condescendente as instalações de uma famosa universidade britânica: na América tudo era maior, tudo era melhor, o equipamento superior; só uma coisa invejava, e essa coisa era a maravilhosa e impecável frescura dos relvados que se estendiam entre os edifícios vetustos da universidade. Como obtinham os ingleses relva tão magnífica? Nos Estados Unidos não se conseguia coisa que se comparasse. Qual era o segredo?
O reitor britânico que acompanhava na sua visita o ilustre colega yankee, até aí visivelmente agastado, não pôde esconder um sorriso de malícia e esclareceu com falsa candura: “O segredo? Muito simples. Basta regar e cortar a relva, voltar a regar e a cortar periodicamente; ao fim de trezentos anos fica assim…”
Gosto desta anedota: não é aquilo a que costuma chamar-se cultura qualquer coisa como o relvado britânico? Apenas a persistência do esforço, a rega e a poda regulares, a continuidade do empreendimento, a paciência e a perseverança do exercício, alcançam, no âmbito do saber e da criação, produzir esses frutos de polpa rica, densa, nutritiva, saborosa que são o tesouro das nações. E não basta que uns quantos se apliquem à tarefa por desfastio; é preciso que as gerações se sucedam, acumulando a experiência, suscitando a tradição do trabalho bem feito, renovando o viço.
"O Povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos falta as qualidades.". Esta frase de Almada Negreiros, um poeta português do grupo Orpheu, cúmplice e contemporâneo de Pessoa, nascido em S. Tomé e Príncipe no fim do século XIX, também se adequa a nós angolanos, que nunca temos tempo para nada, fazemos tudo a correr, e enleamo-nos em projetos múltiplos para no fim nos habituarmos a atamancar qualquer coisa, preocupando-nos mais com os “exteriores” do que propriamente com a solidez e eficácia dos “interiores”.
Não acho mal, a priori, que se rasguem novas avenidas; aceito que se sacrifiquem certas áreas verdes para fins necessários, em obediência a um plano de urbanismo bem estudado; compreendo, igualmente, que errare hunanum est e que não há planos perfeitos; mas que haja um plano! Quando os espaços escasseiam, e é o nosso caso, pobres de nós! Parece-me estultice destruir o pouco que há em nome de um futuro duvidoso, provavelmente nulo. Os trezentos anos da anedota serão por certo excessivos, mas quantos serão precisos para que a relva volte a crescer?
Há trinta e sete anos todos nós queríamos fazer rápido sem pensar que poderíamos fazer mal, porque nos sobrava em voluntarismo o que nos faltava em talento. Nesses tempos, olhávamos à volta e pensávamos que, com a nossa perseverança no trabalho criador, conseguíamos que o “slogan” abundantemente repetido de “Ao inimigo nem um palmo da nossa terra” era o suficiente para sentirmos que este País era rico demais para nos preocuparmos. Pepetela, numa resposta a um jornalista sobre o facto de Angola ser um País rico, metaforizou essa riqueza de uma forma que permanece com singular atualidade nos dias de hoje: “ Angola um país potencialmente rico, é mais ou menos a imagem de um cão esfomeado, preso, com um prato cheio de suculenta carne à sua frente, com o cheiro do pitéu a entrar pelas narinas, mas que tem uma corrente demasiado curta que o impede de lá chegar e comer!”.
Porque estamos a comemorar o aniversário do 11 de Novembro de 1975, e apesar de muito se ter resolvido, muito se ter feito, algo se ter conquistado, parece-me que ainda não estamos em condições de fazer desfiles de jaguares para dignificar um órgão de um País, em que o presidente Agostinho Neto chegou há trinta e sete anos, para ler a declaração de independência num “estafado” Citroen boca de sapo, com uma das portas visivelmente amolgadas. 
Fernando Pereira
5/11/2012



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