A Efeméride Nacional

11 DE NOVEMBRO DE 1975

domingo, 16 de setembro de 2012

237 - Ágora - Era uma vez um cambista


Marcelo Caetano foi o ministro das colónias do governo português que inaugurou em 29 de Junho de 1945 o novo Porto da cidade capital de Angola. Era uma velha aspiração das gentes de Luanda a existência de um cais acostável que acabasse definitivamente com a necessidade dos barcos ficarem ancorados no centro da baía, com o transbordo de pessoas e mercadorias a ser feito por pequenos barcos que acostavam em cais de madeira situados entre o espaço que foi o porto pesqueiro, até ao fim da década de sessenta, em frente ao largo Saidy Mingas e as pomposamente designadas “portas do mar”, paredes meias com o renovado edifício dos Correios. Marcelo Caetano, de fraque e chapéu
alto, desce do “Mousinho”, um velho paquete português das carreiras coloniais, e descerra uma lápide alusiva ao ato. Marcou o fim de quase quinze anos de estudos, financiamentos, projetos, que tinham emergido concomitantemente com o “Acto Colonial” de 8 de Julho de 1930, decreto 18570, que foi o mais aviltante instrumento constitucional para todos os cidadãos das então colónias portuguesas.
O projeto do Porto de Luanda foi tecnicamente dirigido pelo professor do Instituto Superior Técnico
Afonso Cid Perestrelo. O projeto  de arquitetura do edifício que alberga as “Novas Instalações Portuárias  de Luanda, com Alfândega e Serviços Aduaneiros” e o largo fronteiro, é um trabalho tipo “português suave” desenvolvido pelo arquiteto Paulo Cunha, num estilo tão ao gosto oficial do Estado-Novo.
A torre sineira, ou do relógio, é da autoria de Galhardo Zilhão. Antes desta remodelação profunda que se operou na Marginal ainda se podiam ver alguns poucos ferros carcomidos pela ferrugem que eram sinais de lugar de acostagem de barcos antes da edificação do Porto de Luanda. Ao tempo circulava um comboio e eram visíveis o que sobrou de carris, nos anos sessenta, entre o Hotel Presidente e a Ermida da Nazaré.
Ao tempo, o governador-geral de Angola era o comandante Vasco Lopes Alves. Nada teria de  extraordinário se não fosse a descrição feita por Marcelo Caetano que se dizia seu amigo: “Homem notavelmente inteligente, era indolente, porém. Ia despachando os papéis que os serviços lhe submetiam.
Mas dificilmente tomava uma iniciativa e não era homem para inovações. Diziam que o seu lema era
navegar na vida sem fazer ondas…
À parte isso, foi excelente companheiro e dedicado colaborador. A maior parte da sua carreira tinha decorrido em Angola onde tanto ele como sua mulher - a boa e extravagante Ângela-eram   conhecidíssimos de todo o mundo e contavam amigos por toda a parte.”
(Marcello Caetano, As Minhas Memórias de Salazar, Verbo, Julho de 1977). Apetece-me dizer que com
amigos destes…
Na segunda metade dos anos setenta circulava despreocupado em Lisboa na rua do Ouro, antiga via privilegiada de negócios, câmbios, mercado de ações e outras movimentações financeiras, que ontem como hoje sei existirem por ouvir falar disso a outros. Era bem visível o efeito da nacionalização da banca, seguros e casas de câmbio em Março de 1975 e as marcas ideológicas “disputavam-se” nas paredes através de palavras de ordem que o tempo foi apagando da memória coletiva das pessoas.
A determinada altura olho para o que foi a loja de câmbios que julgo que se chamava Pancada Moraes e
vejo a montra do que em tempos era um “quase relicário” de notas, moedas e medalhas, substituídas
por artesanato diverso. Até aí nada de extraordinário, mas de facto nunca mais me esqueci do nome
mais feliz que um estabelecimento comercial poderia ter: “Era uma vez um cambista”. Um registo   comercial de grande dignidade e de uma argúcia notável. A casa teve uma duração efémera, mas nunca
mais me esqueci do nome e do que foi a sua história. Por acaso acho que hoje, sem esse nome, o lugar
vende pins de frigorífico com várias alusões a Lisboa e santas diversas ou talvez panos da louça
com o galo de Barcelos e garrafas de vinho do Porto marado.
As malhas que o Império teceu!


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