A Efeméride Nacional

11 DE NOVEMBRO DE 1975

sábado, 3 de março de 2012

Loanda, Luuuanda, Luandauééé


por João Melo na apresentação do livro·

Roderick Nehone, autor do celebrado “O ano do cão”, lança hoje o seu mais recente título: “O catador de bufunfa”. Trata-se de uma pequena novela, de pouco mais de cem páginas, que tenho o prazer de apresentar. Serei breve, para não retirar aos presentes a curiosidade da leitura.
Começo por dizer que, do ponto de vista diacrónico, este “O catador de bufunfa” se insere num dos mais antigos e ricos filões da literatura angolana moderna: a utilização de Luanda como espaço geográfico privilegiado, para não dizer único, da estória narrada. Nehone insere-se, assim, conscientemente, numa linha que vem, pelo menos, de Óscar Ribas, passou por Luandino – o grande mestre - e Arnaldo Santos e é agora representada por Jacinto Lemos, Ondjaki, Isaquiel Cori e outros. Eu próprio tenho feito da Luanda contemporânea o cenário da maioria das minhas estórias.
Obviamente, a cidade mudou, desde a primeira metade do século XX até aos nossos dias, assim como a maneira de olhar para ela. Novas realidades físicas, novas gentes, novos actores, novos problemas e situações foram emergindo no espaço cada vez mais expandido de Luanda, acompanhando as vicissitudes e as transformações históricas que afectaram e continuam a afectar a urbe, umas correspondendo às suas próprias dinâmicas internas e outras, a dinâmicas externas (nacionais ou cosmopolitas).
De Loanda a Luandaué, surgiu uma nova realidade antropológica. A cidade transformou-se de um espaço de construção de uma crioulidade de raíz luso-quimbunda, com as suas cumplicidades e tensões próprias, no espaço de edificação de uma outra crioulidade, genericamente afro-cosmopolita.
A tradicional pequena burguesia caluanda, que na verdade é uma espécie em vias de extinção, queixa-se que a cidade se ruralizou, mas eu discordo: em termos urbanísticos e sociológicos, Luanda é hoje uma metrópole terceiro-mundista semelhante a outras cidades africanas, sul-americanas ou asiáticas.
Em “O catador de bufunfa”, Roderick Nehone mostra-nos essa cidade em rápidas descrições, afirmações e comentários. Estão lá todos os novos habitantes de Luandaué: angolanos de todas as origens (de tal maneira que já não sabe de onde vieram) e estrangeiros de todas as proveniências (portugueses, brasileiros, americanos, chineses, malianos, congoleses, senegaleses, etc.), pobres, ricos, miseráveis, trabalhadores, oportunistas, bandidos, polícias, polícias-bandidos…
Como lembra o autor, os habitantes de Luandaué, todos eles, sem excepção, lutam apenas pela sua afirmação ou simples sobrevivência, engendrando todo o tipo de actividades, inventando criativamente novas “profissões”, procurando realizar toda a sorte de negócios, entre sonhos, desejos, projectos, queixas, raivas, frustrações e desistências. Nehone não se esquece da proliferação das igrejas e do papel da religião como uma das estratégias de afirmação ou de sobrevivência dos habitantes da Luanda dos nossos dias.  
De igual modo, do ponto de vista físico, o autor mostra-nos Luanda como ela é hoje: uma cidade em profunda, mais ou menos caótica e inevitável transformação, com todo o frenesi da construção civil, os arranha-céus, os novos bairros, as estradas, os problemas com as infraestruturas, a maka do trânsito, etc.
É nesse cenário instigante que se desenrola a história de Nazaré dos Relâmpagos de Abril, um estafeta e autodidacta que deixa o emprego público onde trabalhava para tentar a sorte como trabalhador informal. Por sugestão de um amigo, que reencontra numa igreja talvez evangélica, depois de dez anos sem vê-lo, ele adopta uma nova e inverosímil profissão: “transitário polivalente”, ou seja, um intermediário de todos os negócios possíveis e imaginários. Não vou contar o livro, mas peço licença ao autor para antecipar um desses “negócios”: Nazaré, não hesitando em ser informante (bufo), passou a revelar aos polícias de trânsito em serviço na cidade quais os carros mal estacionados na via pública, recebendo dez por cento de comissão por cada carro “bufado”.
Essa referência é uma das muitas presentes em “O catador de bufunfa” que confirma que, se Luanda mudou, permanece entretanto uma das estratégias mais criativas usadas pelos escritores angolanos para olhar e retratar a cidade: o humor e a ironia. Aliás, o humor de matriz caluanda é hoje um dos traços identificadores não apenas da literatura, mas dos próprios angolanos. Roderick Nehone utiliza esse recurso estilístico na sua obra mais recente com parcimónia e bonomia, sem sarcasmos nem intuitos provocatórios, mas com bastante competência. Isso, aliado ao rigor e à leveza da escrita em primeira pessoa, torna o livro de leitura fácil e amena.
Outro recurso que Nehone utiliza livremente, fiel à mais radical tradição literária angolana, é o uso da linguagem coloquial, do calão e da gíria, assim como o aportuguesamento de palavras de origem africana, em especial o quimbundo. No entanto, ele não só se mantém dentro da norma gramatical portuguesa, como não se coíbe, aqui ou ali, a demonstrar a sua sólida cultura geral, sem cair no pretensiosismo.
A finalizar, atrevo-me a dizer que a pretensão do autor, ao escrever este livro, foi exaltar a capacidade de adaptação e criação dos luandenses (e dos angolanos), transmitindo, assim, uma mensagem positiva. Esse constitui, digamos assim, o “projecto ideológico” de “O catador de bufunfa”, o que, acrescento, está, em geral, em consonância com o tempo histórico actualmente vivido pela nossa sociedade. Dez anos depois da paz que se seguiu a 27 anos de guerras que destroçaram o país desde a independência, em 1975, Angola vive hoje, apesar da persistência de muitas dificuldades e problemas, um momento de grandes transformações e sobretudo de esperança, sendo natural que a literatura procure reflectir e expressar esse momento.
Não por acaso, na parte final do livro, a personagem principal de “O catador de bufunfa” como que se regenera, fazendo uma escolha que compensa os negócios esdrúxulos ou mesmo pouco limpos em que esteve metido no passado. Aliás, o livro encerra com uma alegoria que mistura pão e sexo, talvez as duas necessidades básicas fundamentais de todos os seres humanos. Para conhecê-la, os presentes terão de ler o livro até ao fim.



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