A Efeméride Nacional

11 DE NOVEMBRO DE 1975

domingo, 12 de fevereiro de 2012

207 - Ágora - Bom dia da Família






Cem mil mortos depois as ultimas tropas americanas abandonam o Iraque. 
Deixam um simulacro de País onde as instituições não funcionam, as tensões sociais, religiosas e políticas se mantém num quadro de perigosidade permanente para o quotidiano dos cidadãos iraquianos, que eram governados por um tirano acolitado por um bando de tiranetes, mas que apesar de tudo conseguia ser mais tolerante que a maioria das oligarquias dependentes das receitas do petróleo que enxameiam a região, mas “bons” já que indispensáveis para a “economia de mercado”.
As “primaveras árabes” da Tunísia, Egipto, Líbia e as que se avizinham, Síria e Irão, vão “legitimar” um novo conceito de democracia, e eis-nos perante um difuso quadro de relações internacionais em que o despudor passa a ser quotidiano.
O mundo não se consegue livrar da sórdida aliança entre os mercados e “West Point” onde se começa a perceber que cada vez se constrói relações cada vez mais obscuras e imperfeitas. 
A TV mostra em directo a “inevitabilidade” das acções para que a” liberdade” prevaleça no mundo. Como dizia o insigne e mal amado poeta português Jorge de Sena (1919-1978) – “De cada vez que há um governo”: “De cada vez que um governo necessita de segredos, /por segurança do Estado, ou para melhor êxito das negociações internacionais, / é o mesmo que negar, como negaram sempre desde que o mundo é mundo, /a liberdade. /
Sempre que um povo aceita que o seu governo, /ainda que eleito com quantas tricas já se sabe, /invoque a lei e a ordem para calar alguém, /como fizeram sempre desde que o mundo é mundo, nega-se/a liberdade. /
Porque, se há algum segredo na vida pública, /que todos não podem saber, é porque alguém, /sem saber, é o preço do negócio feito./E, se há uma ordem e uma lei que não inclua/mesmo que seja o último dos asnos e dos pulhas /e o seu direito a ser como nasceu ou fizeram, / a liberdade.”.
Esta semana fez cinquenta anos em que o som do “Angola é Nossa”, onde cronicava de Luanda, Ferreira da Costa para a Emissora Nacional de Portugal, foi substituído pelo enfático: “os sinos da Velha Goa e as bombardas de Diu serão sempre portugueses”, uma resposta retórica à invasão dos territórios incrustados na União Indiana de Goa Damão e Diu. A um exército de opereta mal equipado e sem estímulo para o que quer que fosse, Salazar, que apenas saiu de Portugal duas vezes (uma a Paris enquanto estudante, e duas a cidades fronteiriças com Espanha para falar com o ditador Franco), que nunca fez serviço militar, exigia que em nome das “pedras das fortalezas de Damão e Diu e das Igrejas de Goa” que os soldados resistissem até ao limite saindo “vitoriosos ou mortos”. Nem uma coisa nem outra porque prevaleceram o bom senso do governador da então província que num gesto de grande dignidade aceitou uma rendição honrosa, que lhe valeu o opróbrio aos olhos do regime. O que não deixa de assumir contornos de alguma bizarrice é que Luanda, tão ciosa nas suas mudanças de toponímia e alterações administrativas, ainda prevalece uma Rua da Índia, e em baixo uma referência ao Estado Português da Índia, próximo do Largo do Cruzeiro, paredes meias com o cemitério do Alto das Cruzes!
Morreu o filho do outro, que vai deixar o filho como sucessor. Isto vem a propósito da morte do Kim Jong-Il, filho e herdeiro da ideia Juche do grande líder Kim-Il-Sung. As relações visíveis com Angola estão no quotidiano urbano da cidade de Luanda onde as estátuas horríveis acabam por menorizar a imagem das figuras referentes da nossa história recente.
Há trinta anos a embaixada da RDP da Coreia resolveu promover um concurso literário alusivo ao trabalho do “Grande líder Kim-Il-Sung” na liderança do País. Em Angola ganhou o concurso o falecido Ricardo Manuel com um livro de poemas que julgo que se chamava “Coreia, meu amor”. O Ricardo ganhou o prémio e lá foi até à Coreia onde andou e recebeu todos os encómios pela obra publicada, “um enorme êxito em Angola” e outros elogios do tipo. O Ricardo Manuel era gerente da Lelo e em Luanda durante uns meses a montra central foi ornada com todo um conjunto de livros do “Grande Líder”, fotos das homenagens ao poeta e entre dois naperons de renda uma enorme fotografia do pai deste que morreu e portanto avô do que aí vem, numa perfeita estultice de um socialismo que talvez nunca o tenha sido.
Como não sou muito de Natais, e gosto mesmo é do Dia da Família, quero mesmo é que o passem bem!
Fernando Pereira
19/12/2012



Pensar e Falar Angola
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