Vivências press -Adolfo Maria

Procurando saídas

Estamos perante enormes problemas de ordem económica e social e também política. Já não servem mais a ninguém as atitudes e práticas de arrogância, intolerância e exclusão por parte do poder político (vigente até há pouco) para com os cidadãos e o seu autismo que o colocou tão distante da realidade. Precisamos de compreender como esse poder foi criado e desenvolvido para saber encontrar saídas.
Em Angola, foram tormentosos o acesso à independência e o pós-independência: uma luta de libertação com rivalidades fratricidas; chefias autoritárias dos movimentos de libertação; guerra civil para a tomada do poder pelas armas (em vez das eleições previstas pelos acordos de Alvor para a independência); implantação de uma feroz ditadura, sob a chefia de Agostinho Neto, no País tornado independente; uma persistente ameaça externa; uma prolongada guerra civil; um período pós-fim da guerra civil que se caracterizou por tiques autoritários do partido detentor do poder e do executivo chefiado por José Eduardo dos Santos. Tudo isto se passou em várias décadas.
O modo como decorreu a luta de libertação e o autoritarismo e intolerância reinantes em cada um dos então movimentos nacionalistas transferiu-se para a Angola tornada independente, sob o comando do MPLA. Desde logo foram marginalizados, ostracizados, aprisionados ou mesmo abatidos os que divergiam da direcção do partido no poder (mesmo sendo seus membros). Por outro lado, foram banidos os outros partidos e eram sumariamente liquidados os seus membros. De salientar que os partidos que combatiam o partido no poder, a FNLA e a UNITA, faziam o mesmo. Portanto, a sociedade angolana foi formatada, desde a independência, por uma cultura de intolerância e exclusão que teve consequências terríveis na evolução do país.
Agora (quase quarenta e dois anos depois da independência), chegámos a um ponto em que se verifica ser urgente uma nova atitude, quer por parte do poder, quer por parte da sociedade civil: as posturas de exclusão devem ser suplantadas pelas de inclusão. Começa-se a ter consciência de que é preciso um diálogo aberto entre o poder político e a sociedade civil para a discussão dos problemas, das suas possíveis soluções e uma disponibilidade da sociedade civil para a sua participação nas tarefas de urgente interesse nacional.
Por isso, em vários sectores da vida do país (jovens, intelectuais, políticos, empresários, associações, militantes e quadros partidários) se estão procurando saídas já há algum tempo. Por isso, vemos convergir em mesmas ideias e posturas indivíduos que anteriormente pensavam ou agiam de modos opostos. E estamos num momento em que é visível um arejamento da vida política, social e intelectual angolana que resultou das recentes eleições, apesar de seus aspectos controversos. São vários os sinais: desde os escritos e posturas de personalidades de variados sectores da sociedade civil a proclamações do próprio poder político que, abertamente, fala em inclusão, promete liberdade plena aos cidadãos, discussão e parceria com a sociedade civil (uma atitude que saudamos e é totalmente oposta à do anterior presidente). Compete aos cidadãos não deixar que o poder se fique por palavras e também compete a eles contribuírem para a desejada e necessária mudança.
Essa mudança terá de ser bem mais profunda que a prometida até agora e implica uma participação concreta e confiante dos cidadãos. Para isso, é fundamental saber-se “fazer o recurso à Nação”, um profundo conceito estratégico do meu companheiro de geração e de lutas e amigo, o falecido Gentil Viana, esse grande pensador e nacionalista, que tanto deu à nossa luta de libertação nacional e tanto sofreu no seu combate pela liberdade em Angola.


Pensar e Falar Angola
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