quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Homenagem de Chivukuvuku a A. Mendes de Carvalho

MENSAGEM DE ABEL CHIVUKUVUKU EM HOMENAGEM AO PASSAMENTO FISICO DO MALOGRADO DEPUTADO AGOSTINHO MENDES DE CARVALHO “WANHENGA XITO”.

A Família Mendes de Carvalho

A todos aqui presentes

Minhas senhoras, meus senhores

Não é fácil falar de Agostinho Mendes de carvalho cuja história de vida se confunde com a História de Angola.
Ainda jovem, Mendes de Carvalho assumiu com fervor uma postura nacionalista e de angolanidade que o levou muito cedo às masmorras das autoridades coloniais.
Na angola independente, Mendes de Carvalho desempenhou vários cargos com brio e sempre em defesa dos angolanos mais pobres. Soube sempre defender a pessoa angolana mesmo remando contra o contexto do tempo. Foi grande promotor da diferença e da diversidade, ao ponto de admitir a democracia dentro de sua própria casa. Militante do seu próprio partido, compreendeu-nos, sempre que tivemos de divergir, sem que isso afectasse a nossa relação de amizade.
Por vocação, Mendes de Carvalho foi grande mediador voluntário das nossas makas angolanas.
Agostinho André Mendes de Carvalho foi simplesmente um patriota e humanista que a história terá de eternizar.
Não vou continuar a falar da história e percurso politico do nacionalista patriota e veterano Agostinho Mendes de Carvalho, porque muitos já o fizeram. Ele era filho de Calomboloca, aqui onde estamos, mas para nós, ele foi simplesmente um filho de Angola.
Decidi também não falar de Wanhenga Xito, o exímio escritor e contador de estórias da nossa Angola. Sobre Wanhenga Xito devem falar com propriedade os escritores, podem também fazê-lo os seus fiéis leitores.
Permitam-me que eu fale apenas do meu tio, Agostinho Mendes de Carvalho. Não foi meu tio biológico. Ele foi meu tio em função da nossa cultura africana. No planalto central onde ele ajudou a cuidar do povo na sua qualidade de enfermeiro; no Mungo, no Bailundo, no Bimbe e no Lunge, os contemporâneos dos nossos pais, também são nossos pais ou tios.
Quero falar deste meu tio Agostinho André Mendes de Carvalho que em pouco tempo, isto é desde 1991 quando o conheci, vindo eu de Nova York para Luanda não teve reservas em estabelecer amizade.
Vou falar do meu tio Agostinho Mendes de Carvalho que cristalizou no meu quadro mental a dupla e simultânea atitude de valorização, mas sobretudo desprendimento a tudo o que é material na vida. Não foi o dinheiro que levou o tio Mendes ao Tarrafal.
De tão amigo meu que ele era, também ficou amigo do meu pai, Pedro Sanjango Chivukuvuku aqui presente e é apenas um ano mais novo do tio Mendes. Este meu tio Mendes foi também um dos meus protectores em 1992, entre muitos outros que abstenho-me de citar, mas que eles sabem que eu sei o que por mim fizeram.
O meu tio Mendes foi para mim um mais velho com quem se podia conversar a vontade, desabafar e confidenciar. Não houve muitos assim, nas épocas difíceis da história de Angola. Este meu tio Mendes foi sobretudo um conselheiro e mentor, dentro e fora da Assembleia Nacional, até aos últimos momentos que a energia física lhe permitiu.
Para Angola e para os angolanos, Agostinho Mendes de Carvalho será sempre lembrado como o Patriota e o Nacionalista, mesmo para aqueles que algumas vezes o maltrataram e hoje cinicamente o veneram. Para nós, o Mais Velho Mendes foi simplesmente um Patriota e Nacionalista que soube mesmo em tempos difíceis ultrapassar o sectarismo partidário e assumir-se verdadeiramente como Angolano.
Meu tio, Agostinho André Mendes de Carvalho, custa-me e dói não termos podido esgotar as nossas conversas e ouvir dos teus conselhos nos últimos momentos que partilhamos depois do teu regresso da Africa do Sul em que quase não me reconheceste.
Não sei por que razão, ou talvez porque te sentíamos um fenómeno eterno, convenci-me que teria outras oportunidades de consigo conversar. Não me fez bem ver-te no hospital militar de Luanda. Não me passou pela cabeça que de tão forte e destemido que foste na vida, precisarias de máquinas para manter a tua sobrevivência.
Foi deprimente ver-te no Hospital Girasol, mas mantive a minha postura. Como o mano Miau estava por perto, eu não podia demonstrar fraqueza, mesmo na dor. Mantive a minha fé de que irias recuperar, fé alimentada pelos médicos que davam a ideia de que ainda estarias connosco por mais alguns anos para continuares a nos aconselhar.
Foi pena não poder ver-te ultimamente em Joanesburgo. Não conseguimos acertar os calendários e as agendas, nem com o mais novo Adriano, nem com o mano Miau.
Meu tio Mendes, o que eu gostaria transmitir-te nos últimos momentos da tua vida, se a vontade divina assim tivesse permitido, era o meu profundo agradecimento, por me teres espiritualmente adoptado, simultaneamente como filho e amigo.
Não consegui, mas gostaria de ter tido a oportunidade de te deixar partir tranquilo e convicto de que as sementes por ti, e por outros semeadas estão a germinar e brevemente darão frutos.
Meu tio, Agostinho André Mendes de Carvalho. Aqui na terra cumpriste a tua missão. Nós todos e as futuras gerações procuraremos honrar o teu nome, tentando seguir o teu exemplo.
Descanse em paz e esteja certo de que o teu sonho de uma Angola em paz, de irmandade, de fraternidade, de igualdade, de progresso, mas sobretudo de justiça social realizar-se-á, ainda no nosso tempo.
Em meu nome pessoal, da minha família e em nome de todos os dirigentes e membros da Convergência Ampla de Salvação de Angola, CASA-CE, exprimo a família enlutada, da qual me sinto espiritualmente parte, os mais profundos sentimentos de pesar.

Pai, Wanhenga Xito

Que Deus te acolha e te dê eterna vida.

Luanda aos 18 de Fevereiro de 2014


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