domingo, 24 de fevereiro de 2013

258 - Ágora - A Barrica do Americano




Nos primeiros dias de Outubro de 1856 aporta a Luanda o brigue americano “Charlotte” que trazia uma carga no mínimo bizarra: o comandante do barco que falecera durante a viagem.
A tripulação, no intuito de levar o seu corpo para a América, resolveu colocar o cadáver numa barrica cheia de aguardente para retardar a inevitável decomposição.
Como entretanto o processo não resultou, e os despojos deixavam no barco fétidas exalações, houve a necessidade de procurar um porto onde o marinheiro pudesse ser enterrado com todas as honras inerentes.
Chegados, e desconhecendo os hábitos locais dos enterros em Luanda, limitaram-se os tripulantes a transportar, com cuidado, a barrica para o local que lhes indicaram como sendo cemitério público, e dispuseram-se a fazer baixar à terra o seu defunto capitão.
Sem que o esperassem, os marinheiros confrontaram-se com uma série de problemas, o primeiro dos quais o facto de o cadáver não trazer consigo o bilhete de sepultura, comprovativo de que a taxa municipal fora paga. Para que conste, era administrador do cemitério João José da Costa Fêo, um burocrata de mérito.
A barrica ficou a exalar um cheiro nauseabundo no cemitério do Alto das Cruzes aguardando o resultado dos desenvolvimentos burocráticos.
Passados dois dias, um calor abrasador e a avidez de episódios picantes numa Luanda pacata, levou a que o assunto da barrica com o capitão assumisse foros de escândalo e motivo de conversa em todos os locais da cidade onde se multiplicavam tertúlias e reuniões próprias para desfastio das longas horas de monotonia e canícula.
Naturalmente, o caso chegou aos ouvidos do Governador – Geral, José Rodrigues Coelho do Amaral, que exigiu ao então presidente da Câmara, Francisco d’Assis Rocha Caldeira, que “passasse sem demora o bilhete de sepultura a fim de ser enterrado o capitão americano, na parte do cemitério reservado aos não católicos”.
Despoletou-se aqui uma guerra entre o Governador, que detestava ser contrariado, e o Presidente da Câmara quanto ao local do cemitério onde se deveria enterrar o que provavelmente já só restava do capitão em “barrica de aguardente sem alhos”. O Governador insistia no enterro no campo dos protestantes. O Presidente da Câmara dizia ser este administrado pelos ingleses, e que o enterro no campo de pagãos e não católicos iria abrir um precedente de consequências imprevisíveis no futuro sobre quem deveria ser enterrado nesse local, que fora inaugurado em 1837. A criação deste cemitério levou à proibição de enterrar os mortos nas igrejas, a partir de 1841, apesar de, em 1853, ter sido excecionalmente enterrado o Chantre da Sé, José Manuel Gonçalves da Cunha, na Igreja de Santo António, o que motivou enormes manifestações de desagrado por parte da sociedade luandense de então.
Voltando à pipa, ou melhor, à barrica, aconteceu a abertura de uma cova por ordem de mister Edmond Gabriel (representante de S. Majestade Britânica na comissão mista que observava o cumprimento do fim da escravatura, e simultaneamente administrador do cemitério dos ingleses) que, por qualquer motivo, recuou e impediu que o corpo fosse enterrado naquele campo no cemitério, talvez porque o defunto fosse americano e não um súbdito de Sua Majestade.
Novos desenvolvimentos se dão quando o governador, do alto da sua autoridade, acaba com a situação de impasse que se tinha gerado, agravada pelo facto de, simultaneamente, ir aumentando a fétida mistura de decomposição do corpo com a aguardente. obrigando a que a 5 de Outubro de 1856, pelas duas da tarde, o adjunto das obras públicas e o grupo de sapadores enterrassem a barrica com o corpo do infausto marinheiro, “trabalho concluído a preceito às 4 da tarde.”
Apesar do calor tórrido e do cheiro nauseabundo que se fazia sentir, o enterro foi acompanhado por muita gente curiosa de ver o resultado final do funeral de alguém que ajudara a manter um braço de ferro entre várias estruturas do poder colonial na cidade de Luanda.
O nome “Alto das Cruzes” deriva do cemitério dos Ingleses, pois eram os únicos que colocavam cruzes altas nos seus túmulos, e visíveis de quase todo o perímetro urbano de então. 
Desde 1837 até 18 de Setembro de 1861, o cemitério não tinha muros nem gradeamento, ficando os defuntos à mercê de ataques de animais e roubos por parte de alguns feiticeiros que os usavam nas suas práticas. A data de 1859, que se vê à entrada tem a ver com a colocação do portão e não com o fecho total do muro circundante.
Todos os documentos podem pode ser consultados no Arquivo Municipal de Luanda, e no brilhante trabalho de José de Almeida Santos, no seu conjunto de livros “ na Luanda de há cem anos” , dedicados à cidade, numa edição da Câmara Municipal de Luanda, no dealbar dos anos setenta.


Fernando Pereira
19/2/2013



Pensar e Falar Angola
Enviar um comentário

Dia do Herói Nacional

Pensar e Falar Angola