domingo, 10 de fevereiro de 2013

256 - Ágora - Re(flexões)






Há mais de vinte anos que sou visitante da FITUR, Feira Internacional do Turismo, no parque de feiras de Madrid.
É uma das maiores feiras de turismo do mundo e serve sobretudo para aquilatar o que vai ser o ano do turismo numa economia mundial em recessão económica, em que os mais importantes fluxos de turistas são precisamente de países onde há mais problemas no quotidiano das suas economias.
A FITUR foi, este ano, uma deceção que não me surpreendeu pois via-se muito pouca agitação nos stands onde em anos anteriores fervilhava o movimento de compra e venda de produtos turísticos.
A INFOTUR lá colocou o seu habitual stand, com alguns cuidados supletivos em relação a outras mostras, principalmente com maior ênfase no grafismo das suas propostas e na simpatia do seu pessoal. Este facto acaba por representar uma aposta afirmativa dum País que quer ombrear com outros, numa indústria onde temos potencialidades, mas ainda muito longe de proporcionar ao visitante uma estadia com qualidade, agravada por preços bem diferentes do que se pratica noutros países limítrofes. 
Para além da excelência das propostas da maioria dos Países, através dos seus organismos reitores de turismo ao nível central e regional, redes de hotéis, companhias de aviação e agentes de viagens, há nestes eventos um crescente interesse em áreas que passaram a assumir uma importância não despicienda. Refiro-me ao crescendo na tentativa de mobilizar os turistas na defesa de alguns valores que foram esquecidos anos a fio pela indústria do turismo.
A aposta no turismo em ambiente saudável é já hoje uma obrigação trivial na oferta dos agentes de todo o mundo. Acrescente-se que, em muitos stands, a preocupação atual é demonstrar que, nos países onde se quer cativar o turista, tem que haver respeito pelos trabalhadores, esforço pela erradicação da miséria, respeito pelos direitos e garantias dos cidadãos e uma reprovação bem firme à exploração sexual de crianças e menores.
Mais que dispor de praias de areias finas e águas azuis transparentes, cada vez mais as pessoas olham para o ambiente que as rodeia no lugar onde passam férias ou momentos de lazer porque se tornaram sensíveis aos problemas sociais e não querem pactuar com situações que possam violentar as suas convicções ideológicas, religiosas, culturais ou outras. 
Angola tem que se preocupar em arrumar a casa primeiro, pois esta é a tarefa mais difícil para construir a sua indústria de turismo sustentável e com uma contribuição razoável para o PIB do País. 
Construir hotéis, resorts, marinas ou outras estruturas físicas para albergar visitantes acaba por ser o mais fácil, já que há capacidade de investimento por parte de empresários locais ou estrangeiros. A formação profissional terá que ser acelerada, e os profissionais deverão começar a ser pagos de forma digna, no contexto duma a atividade económica exigente.
Desburocratizar as entradas no País, acabar com o mercado paralelo nos aeroportos, desde o tipo que se oferece para nos carregar a mala, até ao que nos facilita a entrada a troco de uns cobres, depois de um desagradável leilão, e outras realidades que são evidentes a quem nos visita pela primeira vez. 
Acabar de vez com a discricionária e idiota proibição de tirar fotos a certos edifícios, por razões de segurança, é uma medida urgente porque na realidade com “googles earth” e sucedâneos só conseguimos envergonhar-nos quando alguém é detido porque “se presumiu que se tirou uma foto a qualquer lugar”.
Como se pode ver por alguns poucos detalhes, há um esforço tremendo para que o País venha a ter um turismo diferente do que vamos tendo, que se resume ao de “negócios” e ao de “saudade” de todos os que saíram na leva de 1975, agora romanceada de uma forma discutível no recente “Depois do Adeus”, série portuguesa da RTP sobre a ponte aérea que precedeu a independência da então República Popular de Angola e a reinserção em Portugal dos então chamados “retornados”.
Hei-de voltar ao tema que julgo merecer um conjunto de propostas que possam contribuir para que o País passe a ter uma montra que espelhe uma realidade acolhedora e de acordo com valores que queremos implantados no quadro político e cívico de Angola.

Fernando Pereira
4-2-2013 




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