segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Baixa do Kassange


Sebastião Kupessa Muana Damba
ANTÓNIO MARIANO, o ilustre nacionalista desconhecido, liderou a REVOLTA DE BAIXA DE KASSANJE sob influência de ABAKO e da UPA.
Por Anabela Silveira.
Numa biografia de Holden Roberto, da autoria do angolano João Paulo N’Ganga, atribui-se a Rosário Neto, dirigente da UPA, a organização da revolta na região de onde era natural e que conhecia bem. Contudo, o mesmo Rosário Neto, num artigo publicado em 1966, no jornal A Voz da Revolução,(21) imputava a liderança da revolta a um António Mariano, também natural da região de Cassange, que, emigrado no Congo, contactara não só com a UPA, com a ABAKO de Kasavubu e com o Partido de Solidariedade Africano, mas também com cultos messiânicos, como o Kimbanguismo, que anunciavam a libertação dos negros. António Mariano seria até um fervoroso seguidor de Simão Kimbangu. Por seu lado, António Lopes Pires Nunes, na Resenha Histórico Militar das Campanhas de África, refere-se à entrada em território angolano, a partir do Congo e através de um afluente do rio Cuango, de dois agitadores que, desde dezembro de 1960, se tinham instalado na Baixa de Cassange. Misturando, fervor nacionalista com doses maciças de misticismo dizem-se mandatados por Maria, nome derivado do seu inspirador António Mariano, próximo da União das Populações de Angola (22) […] As populações são submetidas a rituais de iniciação e levadas a respeitar quinze mandamentos. As armas não abundam e as que existem são obsoletas, mas os sacerdotes dizem ao seu rebanho para não temerem a retaliação dos colonos porque as armas dos brancos apenas deitam água(23) . Ora, acontecia que um desses mandamentos, logo o primeiro, mandava “não trabalhar para brancos” o que, segundo Pélissier, ameaçava a ordem colonial e social. A escolha do início do mês de janeiro não foi ao acaso. Segundo Rosário Neto “a greve planeada em Léopoldville pelos promotores da Revolução estava fixada para 15 de março de 1961, mas a safra anual do algodão é em Janeiro que tem início, com a limpeza dos campos e sementeira”(24). Para Aida Freudenthal, o tempo da revolta tinha de coincidir com a época das chuvas, o momento próprio para a sementeira do algodão [quando] as deslocações se tornam mais difíceis para estranhos à região devido aos rios caudalosos, ao corte de picadas e à altura do capim. Deste modo, os camponeses comprometiam a colheita seguinte ao mesmo tempo que esperavam diminuir o impacto das represálias das forças coloniais em regiões mais inacessíveis(25) .
Na biografia de Holden Roberto, já aqui citada, vai-se mais além. A escolha do dia 4 de janeiro para início da rebelião recobria-se de uma carga politico-simbólica, funcionando como um exercício em memória dos angolanos que, a 4 de janeiro de 1959, tinha sido mortos na sequência dos distúrbios ocorridos em Léopoldville. Durante os motins na capital do Congo, elementos ligados à UPA saquearam lojas, nomeadamente as de comerciantes portugueses, sendo por isso expulsos para território angolano onde a administração colonial, dando pouco ou nenhum relevo à doutrinação política que tinham sofrido, nem reflectindo sobre as informações que já possuía, os distribuiu pelas fazendas cafezeiras e pelas plantações de algodão no norte, contaminando-as com as ideias independentistas.
Partindo da hipótese de que por detrás da revolta de Cassange estiveram dirigentes e militantes da UPA, faz todo o sentido concluir que estes pretenderiam importar para a colónia portuguesa um cenário idêntico ao ocorrido dois anos antes na capital do Congo, cenário esse que acelerou a independência da antiga colónia belga. Mas nem a Baixa de Cassange era Léopoldville, nem Salazar se comportava como o rei dos belgas.
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