sexta-feira, 4 de abril de 2014

O Elinga do Kiluanji Kia Henda


O centro que albergou as várias conspirações culturais está prestes a ser demolido. O Elinga Teatro foi a casa que sempre teve as portas abertas para os artistas de várias áreas, e as suas inquietações. Fui lá parar em 2000/2001, na altura em que o Orlando Sergio abriu as portas da casa para os artistas considerados marginais e mal comportados. E lá tive a oportunidade de conhecer e o privilégio trabalhar com indivíduos tais como: Marcos Opcional Kabenda, Lino Damiao, Sunny Dilage, Muamby Wassaky Wassaky, Yonamine Miguel, MCK, Keita Mayanda, Edson Chagas, Raul Rosario, Michel Figueiredo, O Toke É Esse, Anabela Aya, Paulo Kapela, Nástio Mosquito...e com outros não mencionados, mas também super especiais para mim.

  Trabalhei como músico, operador de luzes e produção no teatro e no final, por “inveja” e influência do trabalho de alguns artistas plásticos loucos que lá pairavam, decidi fazer da fotografia e o video os meus meios de expressão artística. Num país sem escolas de arte, o Elinga desempenhou este papel de forma espontânea e singular, e claro, muito mais livre. Lembro-me ainda em 1991, ter participado num workshop de teatro para crianças. Acredito que o mais importante que têm as escolas, é poder conhecer pessoas que acreditam e buscam o mesmo que nós. E as que no Elinga conheci, tiveram uma influência imprescindível no inicio da minha curta carreira de artista.

  O pior no meio disto tudo, nem é o facto de demolirem. É demolir para a seguir fazer um parque de estacionamento. Num lugar vital da baixa, onde vários artistas, grupos e agentes culturais, têm como um oásis para escapar o caos da cidade, e por fim poderem cultivar e produzir algum alimento para alma. Está visto que o tal de “plano urbano directivo” dos vampiros tem a orquestra bem afinada. Já há mais de dez anos que anunciaram a demolição. Já se organizaram vários óbitos, e muitas vozes se levantaram contra, e que em nada resultou. Ainda foi pior, pois a seguir o edifício foi desclassificado como património. Mesmo assim, peço encarecidamente ao Meirinho Mendes, filho querido e actor destemido da casa, que se ponha por debaixo das bulldozers afim de adiar a demolição.

  Com a "importância" que se dá a cultura, acredito que só nos restará dar as boas vindas as novas torres e parques de estacionamento, fatos e gravatas, sapatos finos e carros de luxo. E que desfrutem com os seus sorrisos amarelos e notas verdes a sua baixa importada, envidraçada e sem alma. E não se esqueçam, quando olharem do alto dos vossos apartamentos, escritórios e quartos de hotéis a baixa estéril e moribunda que criaram, ela é somente o reflexo da vossa ganância e espírito poluto que tudo corrói.

  Imagens do Elinga em 2006. Quando acenderam os holofotes para começar as primeiras prospecções, para o inicio da construção do hotel em frente.





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